EMPREENDEDORISMO

O CAMINHO DAS PEDRAS PARA A PRODUÇÃO DE UM LIVRO

(Publicado em 11/01/2019)





Todo mundo tem um livro quase pronto (na cabeça). Alguns até já começaram a escrever. E outros já têm o texto pronto, faltando "apenas" alguns ajustes finais.

Escrever um livro fascina muita gente, e não é sem motivo. Escrever um livro é, de fato, um trabalho significativo.
E não é fácil. Não é tão simples como escrever textos para um blog ou para redes sociais.






Live realizada no Instagram @enio.padilha no dia 28/04/2020




Um livro não é um texto para ser publicado no seu perfil do Facebook. Não é uma apostila para uma turma em sala de aula. Escrever um livro é um trabalho com algum nível de aprofundamento.

Trata-se de enfrentar um assunto (ou tema) e tratar dele por 150, 200 ou mais páginas (sem ser abandonado pelo leitor antes da página 10). É um trabalho de muita responsabilidade. O autor não pode ser preguiçoso ou negligente. Tem de se aprofundar no assunto e entregar um conteúdo com algum grau de originalidade e relevância.

Isso não é fácil. E é por isso que escrever um livro é sempre associado a obter uma vitória significativa sobre um desafio.

Melhor do que escrever um livro é vê-lo transformado em realidade impressa e ver uma edição inteira ser vendida.

Isto é, de fato, um prazer muito grande.

Existem diversos tipos de livros e cada tipo tem suas dificuldades próprias.
• Livros didáticos;
• Livros científicos;
• Livros acadêmicos;
• Livros de opinião;
• Livros de literatura tradicional (poesia, conto, crônica, romance, novela, etc);
• Livros jornalísticos (reportagens, documentários, etc);
• Livros biográficos;
• Livros técnicos.

Seja qual for o tipo de livro ou seu destino final, posso dizer, em rápidas palavras, que fazer um livro é um projeto dividido em 6 etapas, que são as seguintes:




ETAPA 1 - Pesquisa e texto
• Pesquisa em fontes primárias (entrevistas originais, pesquisa de campo ou de laboratório)
• Pesquisa bibliográfica (em livros e artigos)
• Pesquisa de mídia (jornais, revistas, vídeos e fotografias)
• Pesquisa em documentos oficiais (boletins, portarias e documentos)
• Ensaios ou artigos escritos pelo próprio autor, anteriormente.
• Redação do texto
• Revisão técnica do texto


As tarefas acima são de responsabilidade do autor. Ele poderá obter ajuda de terceiros, como os assistentes de pesquisa ou de produção de conteúdo.

O produto final desta primeira etapa é o texto original, manuscrito, datilografado, impresso ou disponibilizado em arquivo no formato de texto editável (.docx .pages etc).

Além do texto original o autor deve entregar também as imagens (impressas ou em arquivos eletrônicos) que serão utilizadas como ilustrações do livro.



Para esta etapa é possível dizer que existem dois tipos de livros: o primeiro livro e os outros livros do autor.
O primeiro livro geralmente é resultado de um conhecimento e experiências acumulados ao longo de muitos anos (algumas vezes, décadas). Muitas vezes a dificuldade é a de juntar todo o material, separar o joio do trigo e fazer as conexões dos conteúdos.

Os livros seguintes geralmente são resultado de uma definição do autor. Ele escolhe sobre o que pretende escrever e inicia um processo de pesquisa e leitura com esse objetivo em mente. Ele escolhe os livros que irá ler, os cursos e palestras que irá assistir e as experiências que deverá conduzir.

O produto final, nos dois casos, será o mesmo. Mas o processo (o caminho) geralmente é muito diferente





ETAPA 2 - Definições primárias e pré-produção
• Definição das ilustrações
• Definição do texto da epígrafe do livro
• Definição do texto da dedicatória
• Definição do texto dos agradecimentos
• Definição do tamanho do livro (exemplo: 160 x 230 mm)
• Definição do tipo de capa (capa dura, papel cartão, 250g/m²)
• Definição do acabamento
• Pré-diagramação do texto final
• Definição da pessoa que fará a apresentação do autor (na orelha da capa).
• Definição da pessoa que fará a apresentação do livro (na quarta capa).
• Definição da pessoa que fará o prefácio do livro.
• Definição, se for o caso, da página de referências (bibliografia, relação de entrevistados ou instituições pesquisadas)
• Definição, se for o caso, do texto dos elementos pós-textuais.


Em princípio, todas as tarefas acima são de responsabilidade do autor. Mas ele poderá ter a ajuda de um editor ou produtor para sistematizar e organizar o trabalho.

O produto final desta primeira etapa é o Livro pronto para ser produzido. É a matéria prima para que o editor ou produtor possa tomar todas as providências necessárias para transformar o trabalho intelectual do autor em um produto para ser distribuído e comercializado.






ETAPA 3 - Produção pré-impressão
• Produção executiva (gestão dos prestadores de serviços envolvidos na pré-impressão)
• Registro de ISBN e obtenção do código de barras do livro
• Criação da Capa
• Providências para obter o texto de apresentação do autor (para a orelha da capa)
• Providências para obter o texto de apresentação do livro (para a quarta capa)
• Providências para obter o texto do prefácio do livro
• Projeto Gráfico do Miolo
• Revisão Gramatical e Ortográfica (do livro e dos textos complementares)
• Tratamento das imagens (ilustrações)
• Diagramação
• Revisão editorial
• Gestão da produção com a gráfica contratada
• Revisão de provas da capa enviadas pela gráfica
• Revisão de provas do miolo enviadas pela gráfica


Essas tarefas são de responsabilidade da editora contratada (ou contratante, conforme o caso). Todas as tarefas exigem tempo e atenção aos detalhes. Não podem ser feitas "na corrida".

O produto final desta segunta etapa são os seguintes arquivos eletrônicos:
✓ Arquivo em .PDF da capa do livro, contendo capa, lombada, quarta capa, e orelhas, com sangria e marcas de cortes e dobras;
✓ Arquivo em .PDF da capa do livro, contendo os elementos para impressão do verniz (se for o caso) com sangria e marcas de cortes;
✓ Arquivo em .PDF do miolo do livro, contendo todas as páginas internas do livro, com sangria e marcas de cortes;



Editar um livro é tarefa para especialistas. Designers, diagramadores, revisores precisam ter em mente que um livro não é uma obra de arte plástica. A componente estética, em um livro, embora seja importante, não pode estar em primeiro plano. Está em segundo, quase terceiro.

Um livro não é feito para ser VISTO. Ele é concebido e produzido para ser LIDO. Existe uma sutil porém dramática diferença entre essas duas coisas. E o fato de você, designer, estar torcendo o nariz para o que está lendo apenas prova que este texto é importante.

SOBRE A ARTE DE ESCREVER
As pessoas que trabalham na produção de um livro (editores, designers, diagramadores, revisores) precisam entender que não estão trabalhando com uma forma comum de manifestação artística ou intelectual. Não se trata de arte plástica nem de arte cênica.

Ler não é uma atividade natural. Observe que uma pessoa nasce, cresce e, mesmo sem ser ensinada, desenvolve a visão, a audição e o tato. Mas a leitura necessita ser ensinada (e aprendida).

O pintor, o fotógrafo e o escultor utilizam as cores e as formas para comunicar suas mensagens. Capturam a atenção do público em um milésimo de segundo. O tempo de um olhar. Muitas vezes não precisam mais do que alguns segundos para transmitir toda a mensagem desejada.

O músico utiliza os sons, elementos com os quais entra nas pessoas, compulsoriamente, inundando-lhes a alma. Em poucos minutos a mensagem foi transmitida. Os resultados podem ser sentidos.

A comunicação por escrito, por outro lado, exige do escritor a capacidade de capturar e manter a atenção (toda a atenção) do leitor por um tempo muito grande para que a mensagem seja completamente transmitida.

Visão (cores, gestos e posturas), audição (tom de voz, efeitos sonoros), contato (texturas, formas)... nada disso está disponível para o escritor. Sua comunicação com o público é feita através de sinais gráficos que precisam ser lidos e interpretados para então (e só então) serem sentidos.

O escritor utiliza-se das palavras, dos sinais de pontuação e das regras da gramática. E, para dar mais clareza ao espírito da mensagem, lança mão de outros recursos. É uma espécie de comunicação “não verbal” na escrita: aspas, itálicos, negritos, texto em maiúsculas ou em destaque, parêntesis, variação de tipologia... Esses recursos fazem parte da linguagem do escritor e ele os utiliza para compor o seu estilo. Transformar o texto escrito em algo com vida.

Érico Veríssimo, por exemplo, no livro Olhai os Lírios do Campo alterna o texto em tipo normal e itálico. Logo o leitor percebe que ele usa o itálico para separar o tempo presente das memórias do personagem principal. Mas isso não é dito em lugar nenhum do livro. Trata-se de um recurso autoexplicativo.

Se um editor (ou o diagramador) resolver publicar o livro sem se dar conta desse “detalhe” (e suprimir todos os itálicos) a compreensão do texto será muito prejudicada, com certeza.

Os escritores têm extremo cuidado com essas coisinhas que editores ou designers inexperientes, muitas vezes, querem suprimir, sem mais nem menos.

Embora seja desejável que um livro seja bonito, visualmente, ele não pode ser avaliado pela sua beleza estética. Um livro vale pelo seu conteúdo e pela capacidade que o texto tem de transmitir a mensagem tal qual foi concebida pelo autor. Nem mais nem menos.

Alterar “detalhes” gráficos de um texto é o mesmo que suprimir ou acrescentar notas em uma música, alterar o tom de certas cores em uma pintura, mudar o ângulo de tomada de uma fotografia ou substituir o material utilizado em uma escultura. Pode tirar da obra um pouco da sua alma.



(Este texto SOBRE A ARTE DE ESCREVER foi, originalmente escrito, em SET/2000, como um e-mail destinado ao editor de um dos meus livros, que insistia em mexer na pré-diagramação (negritos, itálicos, maiúsculas...) alterando, na minha opinião, a experiência do leitor.)




ETAPA 4 - Impressão e Acabamento
• Fotolitos, impressão e acabamentos (gráfica)
• Embalagem e entrega no endereço do cliente


Essas tarefas são de responsabilidade da gráfica contratada. Trata-se de um processo industrial que exige um fornecedor de serviços de qualidade, com prazos e preços negociados caso a caso.

Definições importantes para obter o orçamento da gráfica
✦ Tamanho do livro (ex: 210 x 285 mm)
✦ Quantidade de páginas do miolo.
✦ Tipo da capa (capa dura, papel cartão 250g/m²...)
   Se for capa dura, não tem orelhas;
   Se for papel cartão, informar as dimensões da orelha (o normal seria 90 mm);
✦ Informar se haverá verniz localizado na capa (eu recomendo)
✦ Tipo de papel do miolo
   Exemplo 1: "Couchê Fosco 80g/m²". Exemplo 2: "Polen Bold 90g/m²"
✦ Cores da capa.
   Geralmente, 4x1 — significa quatro cores num lado e nenhuma impressão no verso;
✦ Cores no miolo:
   1x1 — significa impressão em uma cor nos dois lados de cada folha do miolo;
   4x4 — significa impressão colorida nos dois lados de cada folha do miolo;
   2x2 — significa impressão em duas cores nos dois lados de cada folha do miolo;
   Existe ainda a possibilidade de o miolo ser misto - a maioria das páginas ser preto e branco (1x1) e algumas páginas (por exemplo, o caderno central) ser impresso em cores (4x4);
✦ Acabamento do livro
   (normalmente é costurado, prensado e com corte);
✦ Quantidade de exemplares da primeira edição.

O produto final desta terceira etapa são as caixas com os livros impressos, entregues no endereço determinado pela negociação.





ETAPA 5 - Lançamento do livro
• Promoção do livro na imprensa
• Promoção do livro na internet
• Divulgação do lançamento
• Organização dos eventos de lançamento
• Realização dos eventos de lançamento


Essas tarefas são cruciais para o sucesso do livro e requer uma pessoa ou empresa especializada para a sua execução.

Se o livro não for promovido adequadamente, por mais interessante que seja, pode simplesmente engrossar as estatísticas de livros que não vendem mais do que 25% da primeira edição.

Geralmente o lançamento do livro exige a presença e envolvimento do autor e de seus amigos, para que o produto final obtenha a repercussão desejada na mídia, na internet e, em última análise, no mercado.





ETAPA 6 - Distribuição e venda
• Distribuição dos exemplares (livrarias físicas ou virtuais)
• Promoção dos pontos de venda do livro
• Programa de promoção permanente, enquanto a edição não for esgotada


Os livros, no Brasil são muito mal vendidos. Nossas livrarias não têm a cultura de vender livros e sim o de fazer entregas, ou seja, apenas disponibilizam os livros que estão sendo o livro procurados pelos leitores. Isto significa que a chance de o seu livro ser esquecido num depósito e nunca ser vendido é muito grande.

Livros de autores ou editoras independentes devem ter canais de distribuição independentes, como, por exemplo
➤ Venda em eventos;
➤ Venda através de livreiros especializados
➤ Venda em lojas virtuais próprias (na internet)
➤ Venda em Livrarias virtuais (Amazon, Estante Virtual)





www.eniopadilha.com.br



PADILHA, Ênio. 2019




Clique na imagem ao lado para ler o artigo:
OS BENEFÍCIOS E PERIGOS DA AUTOPUBLICAÇÃO
(As novas possibilidades de autopublicação ainda que possam resultar em livros ruins, não são, em si, um grande problema)

Comentários

#1Ligia Fascioni, Engenheira eletricista , Berlim, Alemanha

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019 - 17h55min

Nossa, se isso não é uma aula sobre como fazer um livro, nada mais é! Só gostaria de chamar atenção para o fato de que muitos ebooks não deveriam ser classificados como livros, uma vez que boa parte não passa de uma apostila bem diagramada (alguns, nem isso).
Adorei a aula de quem fala com conhecimento de causa, pois tem uma editora que consegue esgotar suas obras no mercado brasileiro, o que está longe de ser pouca coisa! Vida longa a você, amigo, tanto como autor como editor!!

Comentário do Ênio Padilha

Obrigado, Lígia.
Você certamente entende o tamanho do problema descrito no artigo, uma vez que não só escreveu vários livros como também teve o privilégio de vê-los transformados em realidade impressa e sendo vendidos até o último exemplar de cada edição.

Quanto à sua opinião sobre os "ebooks" estou de pleno acordo. Eu, pessoalmente, teria vergonha de chamar de ebook essas apostilas e cartilhas que os gurus de instagram vendem por aí ou utilizam como iscas de marketing, para construir mailings.

#2Farlley Derze, Professor-DF, Brasília

quarta-feira, 01 de abril de 2020 - 16h44min

Muito obrigado, caro Ênio por esta aula. Você escreve textos sempre úteis aos interesses mais diversos.
Eu gostaria de conhecer sua opinião a respeito da “autopublicação” (Amazon, Clube de Autores, PerSE). E, ainda, sua opinião sobre os e-Books. Muito obrigado.

Comentário do Ênio Padilha

Querido amigo. Escrevi um artigo para responder a sua pergunta.
Aqui está: OS BENEFÍCIOS E PERIGOS DA AUTOPUBLICAÇÃO.

#3Joana Segatto Scabelo, Arquiteta e Professora, Vitória

sexta-feira, 03 de abril de 2020 - 12h35min

Realmente, que aula! Obrigada por partilhar sua experiência, professor! Muito bom aprender sobre esse campo tão importante.

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