BLOG DO ÊNIO PADILHA

A ENGENHARIA E O PROGRESSO DOS PAÍSES



(Publicado em 05/02/2019)



O Sistema Confea/Crea decidiu que o tema central do 10º Congresso Nacional de Profissionais (CNP) que será realizado neste ano em Palmas, Tocantins será ESTRATÉGIAS DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL. Por isso esse tema será muito discutido aqui no BLOG DO ÊNIO PADILHA.



Leia os artigos que já foram publicados:



O QUE É ESTRATÉGIA E POR QUE ISSO É IMPORTANTE PARA A ENGENHARIA E AGRONOMIA DO BRASIL?



ESTRATÉGIA (2) — IDENTIDADE



Neste artigo o objetivo é demonstrar que a Engenharia é um valor estratégico para qualquer país e que reconhecer isso é o primeiro e mais importante passo no caminho do desenvolvimento e progresso.






O imperio Mongol, construído sob a liderança de Gengis Khan talvez seja um dos únicos exemplos de desenvolvimento e domínio de uma nação sobre outras e que não esteja diretamente ligado à Engenharia.

A estratégia do Gengis Khan não era baseada em ciência nem em tecnologia. Ele aterrorizava seus inimigos. Sua principal estratégia era vencer as batalhas sem ter de lutá-las. Os inimigos se entregavam quando se convenciam (pelo terror e medo) de que a derrota era certa e iminente. Ele usava o tempo, a escuridão e tropas montadas em animais grandes... Naquele idos de 1200 tudo isso era uma grande novidade. Imagine-se o horror. Ninguém queria estar na pele dos inimigos do povo mongol.

Mas é importante dizer que o progresso do Império Mongol não chegou a durar um século (de 1206 quando Gengis Khan assumiu o poder até 1260, quando os mongóis sofreram a primeira derrota em batalha, iniciando o declínio do império).

No ocidente, foram os romanos que se distinguiram de outros impérios. E fizeram isso porque tinham uma Engenharia poderosa. Construiam estradas, aquedutos, arenas, sistemas de esgotos, além da construção de barcos e navios. Nenhuma outra nação ocidental, antes de Roma estabeleceu um domínio tão intenso e duradouro.

É claro que quando falamos em Engenharia, nesse caso, estamos falando não da Engenharia propriamente dita, como a conhecemos hoje, mas de Ciência e Tecnologia. Somente nos últimos 200 ou 300 anos que a ciência e a tecnologia passaram a ser os objetos da Engenharia, de tal maneira que hoje são praticamente sinônimos.

Roma era um complexo burocrático-militar fortemente ancorado em conhecimento (ciência e tecnologia). Isso resultava em administração, organização militar e produção dos artefatos de guerra.

Depois do declínio do Império Romano e durante praticamente toda a idade média nenhuma nação se estabeleceu de forma definitiva, como potência mundial. Não por acaso, naquele milênio, nenhum país desenvolveu de forma expressiva, nem a ciência nem a tecnologia.

No renascimento, Portugal, Espanha, Inglaterra e França se estabeleceram como potências no final do século XV justamente por dominar a engenharia naval e suas possibilidades.

Esse domínio acabou por ser superado pela Inglaterra, com a revolução industrial que nada mais foi do que o investimento intenso em engenharia industrial.

Nos dias atuais não parece haver dúvidas de que muitos países devem seu desenvolvimento, riqueza e poder à qualidade da sua Engenharia

Todos os países que mais cresceram nos últimos anos (e que não o fizeram graças à exploração de petróleo) realizaram (antes de alcançar o desenvolvimento) investimentos muito expressivos no desenvolvimento da sua engenharia.

Na China, por exemplo, observa-se uma clara relação entre o aumento de engenheiros graduados e o crescimento do PIB. O país tem quase 5 milhões de engenheiros, o que equivale a 36 para cada 10 mil habitantes. O governo participa intensamente do processo, define horizontes por meio dos planos quinquenais e incentiva a interação entre universidade e indústria para gerar soluções, o que aumenta a quantidade de formandos capazes de apoiar as diversas demandas industriais.

A Coreia do Sul, que no início da década de 1960 era um país pobre, agrícola e devastado por duas guerras, é hoje um dos países mais ricos e desenvolvidos do mundo. Não por acaso, sua engenharia foi fortemente incentivada e desenvolvida exatamente neste período.

Na Coreia do Sul, existe ainda uma grande preocupação com a qualidade do ensino da Engenharia e grande número das faculdades de Engenharia coreanas possuem órgãos de monitoramento para assegurar a qualidade da formação dos engenheiros. Atualmente, a Coreia do Sul conta com 140 faculdades de Engenharia e 2.300 programas que formam cerca de 68.000 engenheiros a cada ano, 13.000 com mestrado e 2.200 com doutorado. São essas instituições que estão contribuindo para a vertiginosa industrialização do país, provendo o mercado com engenheiros competentes, de acordo com a demanda e o desenvolvimento industrial do país.

Mesmo na Escócia, um país que tem uma longa tradição de excelência científica e inovação, a Engenharia teve um papel relevante e proeminente no desenvolvimento e progresso. E essa longa história de contribuição começa com o espetacular desempenho da indústria de construção de navios, logo depois da revolução industrial que elevou Glasgow à condição de capital mundial da construção naval e segunda maior cidade do Império Britânico.

Desde o iluminismo a Escócia tem servido ao mundo com célebres intelectuais como Adam Smith e David Hume, na área econômica, e Thomas Telford, James Watt e William Arrol, na Engenharia. Por seu passado, de acordo com o Scottish Technology Forum, 2007 a Escócia poderia ser considerada uma nação de engenheiros. O progresso da Engenharia reflete a história do país e de seu crescimento econômico até a constituição do governo mais autônomo, em 1999. Desde o século XVIII a Escócia e sua indústria cresceram intimamente relacionadas à formação de engenheiros e ao desenvolvimento de conhecimentos teóricos que amparassem o desenvolvimento técnico.

A Índia, é o segundo país do mundo em população. Tem 18,5% da população, em 2,4% do território. O país têm experimentado um expressivo crescimento do PIB, especialmente depois da década de 1990.

O aumento do número de engenheiros acelerou-se a partir de 2000. Naquele ano, o país formou 74.000 engenheiros, no ano seguinte foram 83.000 e, em 2007, 237.000 (números do Indian Institute of Tecnology de Bombay).

O aumento do número de engenheiros influenciou o PIB per capita indiano (ainda que esse número continue baixo). Os benefícios gerados pelos engenheiros não se refletem no conjunto da população, devido à forte concentração de renda na India, que é uma das maiores do mundo. O salário real de um engenheiro na Índia é cada vez maior que o salário real de muitas outras profissões, a despeito do acelerado crescimento do número de engenheiros.

Finalmente, na Irlanda, segundo estudos da Higher Education Authority, o crescimento do número de engenheiros favorece o crescimento da Economia, pois estimula o desenvolvimento do país no que diz respeito à inovação e à tecnologia.

Tecnologia da Informação (49%), Construção Civil (25%) e Biotecnologia (8%) absorvem grande parte dos engenheiros graduados. O aumento dos investimentos em P&D acompanhou o crescimento do PIB irlandês durante a década de 1990. Isso foi reflexo da estratégia nacional de desenvolvimento, implementada a partir dos anos 1980, e intensificada na década seguinte, focada no investimento em P&D para obtenção de maior nível de crescimento a longo prazo.

O governo irlandês investiu fortemente na Educação fundamental e superior, com suas principais universidades se especializando nas áreas de Tecnologia da Informação, Química e de Saúde, com o objetivo de fortalecer as empresas nesses setores. Paralelamente, uma política ativa de emprego foi implementada com a finalidade de absorver profissionais há mais de um ano fora do mercado. Essa política permitiu investimentos de cerca de 1,7% do PIB em treinamento para desempregados, visando a capacitá-los para competir na Economia moderna. Com a redução do desemprego e o maior número de profissionais atuando, houve um efetivo crescimento do PIB.






A conclusão natural decorrente do que foi visto acima é a de que existe uma clara e incontestável correlação entre o desenvolvimento da Engenharia e o desenvolvimento de um país. Qualquer país. Em qualquer região do mundo.

Não existe razão para se pensar que no Brasil seria diferente. Aliás, é importante dizer que o período de maior crescimento do Brasil que vai dos anos 1920 até o fim da década de 1970 coincide com o período em que a Engenharia foi mais valorizada e encontrou seus melhores números na história.

Assim, me parece fundamental que os representantes da Engenharia Brasileira estabeleçam como essencial (parâmetro do qual não se pode abrir mão) que o governo, as indústrias e as empresas de construção civil estabeleçam ações EFETIVAS de valorização da Engenharia e dos engenheiros. Esse é o primeiro passo que precisa ser dado em direção ao progresso do país com a ajuda da Engenharia.

E, pelo que se viu até aqui... não existe outro caminho.






As informações sobre China, Coreia do Sul, India, Escócia e Irlanda foram retiradas do documento ENGENHADIA PARA O DESENVOLVIMENTO — INOVAÇÃO, SUSTENTABILIDADE E RESPONSABILIEDADE SOCIAL COM NOVOS PARADIGMAS trabalho organizado por Manuel Marcos Maciel Formiga e publicado pelo SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, Departamento Nacional, em 2010.






Leia AQUI os artigos que já foram publicados
nesta série sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.




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PADILHA, Ênio. 2019

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