BLOG DO ÊNIO PADILHA

OS CAMINHOS DE UMA ESTRATÉGIA PARA A ENGENHARIA BRASILEIRA



(Publicado em 07/02/2019)



O Sistema Confea/Crea decidiu que o tema central do 10º Congresso Nacional de Profissionais (CNP) que será realizado neste ano em Palmas, Tocantins será ESTRATÉGIAS DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL. Por isso esse tema será muito discutido aqui no BLOG DO ÊNIO PADILHA.



Leia AQUI os artigos que já foram publicados na série
sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.



Neste artigo o objetivo é mostrar os caminhos e ferramentas necessárias para a concepção de uma estratégia para uma organização, apresentando a moderna abordagem da Visão Baseada em Recurso - RBV (Resource-Based View) e como ela se aplicaria para a Engenharia Brasileira.






Durante muitas décadas a concepção das estratégias nas organizações foi sustentada pelo paradigma SCP — Structure-Conduct-Performance (Estrutura-Conduta-Desempenho) proveniente da Teoria da Organização Industrial, desenvolvida inicialmente pelo economista norte-americano Edward Sagendorph Mason, que realizou trabalhos importantes na década de 1930 e foi sucedido por Joe Staten Bain, também economista e também norte americano, cujos principais trabalhos são das décadas de 1950 e 60.

Se você já participou de algum trabalho de PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO provavelmente já teve contato com a perspectiva SCP e com a obra de outro autor importante: Michael Porter, um pesquisador/professor/autor norte americano que é o principal divulgador do Paradigma SCP, cujo pressuposto central é a tese de que a estrutura da indústria detém as razões das diferenças observáveis no desempenho das firmas



IMPORTANTE: Indústria, na economia Industrial de Mason e Bain, é definida como o conjunto de empresas que produzem e disponibilizam ao mercado produtos que são substitutos e bastante próximos entre si. Não tem, portanto o sentido normalmente utilizado no Brasil que entende indústria como uma fábrica de bens de consumo ou de produção.



Com base no paradigma SCP, a concepção das estratégias eram precedidas da análise da Indústria.

As duas mais importantes e conhecidas ferramentas da análise da indústria (e da organização nela inserida) são a análise das forças competitivas do mercado e a análise SWOT

A análise das forças competitivas do mercado consiste em avaliar
(a) Acompetição entre as empresas
(b) A influência dos entrantes potenciais
(c) A ameaça dos produtos substitutos
(d) O poder de barganha dos compradores
(e) O poder de barganha dos fornecedores

Já a análise SWOT – Strengths, Weaknesses, Opportunities e Threats (Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças) avalia, basicamente
(a) Os pontos fortes da organização
(b) Os pontos fracos da organização
(c) As oportunidades do ambiente industrial para a empresa
(d) As ameaças do ambiente industrial para a empresa

As duas análises acima, quando bem detalhadas, são elementos importantes para a definição das estratégias da organização.






Uma alternativa ao paradigma SCP foi desenvolvido a partir dos trabalhos de Penrose (1959), Nelson e Winter (1982), Wernerfelt (1984), Dierickx e Cool (1989) e Barney (1991). Os trabalhos desses autores começaram a pôr em dúvida a idéia de que a vantagem competitiva é uma coisa externa à empresa. De que dependem mais do ambiente e das circunstâncias.

Para esses autores, a base da vantagem competitiva da empresa residia no acesso e/ou controle de recursos que tivessem por características ser raros, valiosos, imperfeitamente imitáveis e/ou insubstituíveis, cuja mobilidade e/ou negociação fosse imperfeita. Isto significava ter acesso e/ou controle de recursos marcadamente competitivos.

Esta nova perspectiva teórica recebeu o nome de RBV (Resource-Based View) - Visão Baseada em Recursos.

A RBV sustenta que as diferenças de desempenho entre as empresas é explicada pela diferença entre os recursos organizacionais e pela maneira como as empresas combinam e utilizam os próprios recursos. Ou seja: as empresas são heterogêneas no que tange aos seus recursos e esta heterogeneidade na posse ou controle de recursos pode explicar a vantagem competitiva.

Trocando em miúdos: a empresa pode combinar recursos normais de maneira única e eficaz de tal maneira que o resultado dessa combinação é um recurso valioso, que poderá levar a empresa à Vantagem Competitiva.


COMO ISTO SE APLICA À ENGENHARIA BRASILEIRA?

A RBV está inserida no campo da Estratégia das Organizações. É claro que o foco da teoria são as empresas industriais, comerciais ou de serviços (públicas ou privadas). Mas certamente é possível ampliar os significados para algo mais geral, como a Engenharia Brasileira, e depois, para o Brasil, como nação.

Nas empresas as estratégias são concebidas e implementadas com o objetivo de obter VANTAGEM COMPETITIVA sobre os concorrentes. A pergunta é: quais são os concorrentes da Engenharia Brasileira?

Iniciamos esta série de artigos com algumas afirmações desagradáveis mas que precisam ser enfrentadas? Dissemos que



a sociedade brasileira não valoriza a sua Engenharia. Não é o governo, não são os políticos, não são os empresários, nem os intelectuais... não. É a sociedade, como um todo, a maioria do povo brasileiro, que não valoriza a sua Engenharia.

Nenhuma pesquisa na sociedade brasileira iria apontar os investimentos em ensino de ciência e tecnologia como uma prioridade do povo, como uma coisa de importância estratégica o bastante para mobilizar pessoas e construir discursos que elegem prefeitos, vereadores, deputados ou senadores.

Nenhum candidato se elegeria Presidente do Brasil se estabelecesse (de verdade) como meta PRINCIPAL do seu governo, o Ensino de Engenharia.



Isto significa que os concorrentes da Engenharia Brasileira são todos os temas que dividem a atenção e interesse da sociedade estabelecendo a escala de valores capaz de definir onde e quanto o Brasil deve investir, em termos de atenção, interesse e recursos.

Hoje a decisão de investir no ensino de ciência e tecnologia (aí incluído a Engenharia) está no final de uma longa fila na qual estão, nas primeiras posições, a decisão de investir (tempo, dinheiro, atenção) em
• Saúde
• Segurança
• Combate à corrupção
• Redução do desemprego
• Educação Fundamental
• Combate a Fome/Miséria
• Redução da Desigualdade Social
• ... se fosse só isto, seria pouco. O problema é que esta lista vai muito longe até que o investimento em ciência e tecnologia, na formação de bons engenheiros e na valorização da Engenharia apareça. Até que alguém comece a dizer que a solução para os problemas do Brasil está na formação de bons engenheiros e na valorização dos seus serviços.

Mas a verdade, como já vimos no artigo A ENGENHARIA E O PROGRESSO DOS PAÍSES é que todos os países que deram um salto perceptível de qualidade e progresso (num curto espaço de tempo) fizeram exatamente isto. Investiram intensamente no ensino de Engenharia.

Portanto, esse é o desafio estratégico que a Engenharia Brasileira precisa enfrentar, primeiro dentro das suas próprias fileiras e depois na relação com a sociedade.

Precisamos alterar a percepção estabelecida de que o investimento em ciência e tecnologia é algo que pode ser deixado para ser resolvido depois que estivermos livres dos problemas com saúde, segurança, corrupção, desemprego, fome e outras misérias.

Precisamos estabelecer a verdade de que a Engenharia é a solução para o Brasil, assim como foi a solução para muitos outros países ao longo da história da humanidade.

Que recursos valiosos temos para isso? O que podemos utilizar como base para a construção da nossa estratégia?

Este será o tema para o último artigo desta série. Aguardemos.








Leia AQUI os artigos que já foram publicados
nesta série sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.





REFERÊNCIAS:
BARNEY, J. Firm resources and sustained competitive advantage Journal of Manegement
v.7, n.1, p.99-120, 1991

DIERICKX, I.; COOL, K. Asset stock accumulation and sustainability of competitive
advantage. Management Science. v.33, n.12, dez.1989

PENROSE, Edith The Theory of the Growth of the Firm. 3 ed. Oxford, UK: Oxford
University Press, 1959.

PETERAF, Margareth. The cornestone of competitive advantage: a resource=based view.
Strategic Management Journal. v.14, p.179-191, 1993

PORTER, Michael. Industrial Organization and the evolution of concepts for strategic
planning. In: Manegerial and Decision Economics. v.4, n.3. ABI/INFORM Global, p.172
PORTER, M Estratégia Competitiva: Técnicas para análise de indústrias e da concorrência.
Rio de Janeiro: Campus, 1986, caps. 1, 2 e 7

PRAHALAD, C.K.; HAMEL, G. A competência Essencial da Corporação. In:
MONTGOMERY, C.A.; PORTER, M. Estratégia: a busca da vantagem competitivo. Rio de
Janeiro: Campus, 1998

NELSON, Richard.: WINTER. S. An evolutionary theory of economic change.
Cambridge: Harvard University Press. 1982, cap. 4

WERNEFELT, B. A. A resource-based view of de firm. Strategic Management Journal.
v.5, p.171-180, 1984

WERNERFELT, Birger The resource-based view ten years after. In: Stratégic Manegement
Journal v.16, 1995, p.171-174




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PADILHA, Ênio. 2019

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