BLOG DO ÊNIO PADILHA

A ENGENHARIA BRASILEIRA NO BANCO DOS RÉUS



(Publicado em 11/02/2019)



No excelente artigo ENGENHARIA, A ESPINHA DORSAL PARA O DESENVOLVIMENTO HUMANO, publicado no website do Confea, o presidente, Engenheiro Joel Krüger faz uma observação muito importante. Diz ele:



"Para reverter todo esse quadro é preciso que a Engenharia Nacional volte a ser pensada sobre os quatro pilares fundamentais: planejamento, projeto, execução e manutenção. Não existe Engenharia sem essas fases, que estão diretamente interligadas. Não se faz Engenharia sem planejamento prévio, sem os diversos projetos, do básico ao executivo, sem uma execução minuciosa e, claro, sem a devida manutenção preventiva."



O "quadro" ao qual o presidente se refere, e que precisa ser revertido, é a situação de descrédito à qual a Engenharia Brasileira está sendo submetida, à cada novo episódio que desgraça a vida nacional nas últimas décadas. Alguns exemplos:
• A queda do Edifício Palace, no Rio de Janeiro (fev/1998);
• As explosões na Plataforma P36 da Petrobras (mar/2001);
• A explosão do VLS-1 em Alcantara-MA (ago/2003);
• A explosão do avião da TAM (voo JJ3054) (jul/2007);
• O desmoronamento das obras do Metrô de São Paulo (jan/2008);
• O desabamento do teto de uma igreja em São Paulo (jan/2009)
• A queda de vigas de 85t de um viaduto em obras em São Paulo (nov/2009)
• A queda do edifício Real Palace, em Belém-PA (jan/2011);
• A queda de três prédios no Rio de Janeiro (jan/2012);
• O incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria-RS (jan/2013);
• A explosão seguida de incêndio num armazém em São Francisco do Sul-SC (set/2013)
• A queda do viaduto em Belo Horizonte-MG (jun/2014);
• A queda de parte da ciclovia Tim Maia, no Rio de Janeiro (abr/2015);
• O Incêndio no Porto de Santos (abr/2015);
• O rompimento da barragem em Mariana, em Minas Gerais (nov/2015);
• O incêndio do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo (dez/2015);
• O incêndio e dasabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, em SP (mai/2018);
• A queda do viaduto da marginal Pinheiros em São Paulo (nov/2018);
• O incêndio do Museu Nacional (set/2018);
• O rompimento da barragem em Brumadinho, em Minas Gerais (jan/2019);
• O incêndio que vitimou 10 jogadores sub15 do Flamengo (fev/2019)

Isso sem citar aqui os desastres naturais cujas consequências poderiam perfeitamente ser evitadas (ou reduzidas) com boa engenharia.

Em cada um dos desastres listados acima a Engenharia, em algum momento ou de alguma forma foi posta no banco dos réus e algumas vezes acabou sendo o destino das únicas punições conhecidas.

Quem me lê a mais tempo já sabe o que eu penso. Já escrevi diversas vezes sobre isso, sempre dizendo a mesma coisa: uma tragédia envolvendo Engenharia nunca ocorre por conta de UM erro de Engenharia, por mais grosseiro que seja. Sempre será uma soma de muitos erros e/ou omissões.

No entanto, por mais que eu me solidarize emocionalmente com o engenheiro, em qualquer uma dessas situações, não podemos tentar enganar ninguém: nesse tipo de ocasião (quando um prédio cai, por exemplo) a culpa é, sim, do engenheiro (de algum engenheiro).

A construção de edifícios com estrutura de Aço, Concreto Armado ou Alvenaria Estrutural é tecnologia dominada. Em muitos lugares se projeta e constrói edifícios de 50, 80, 100 andares em regiões sujeitas a terremotos... e os prédios resistem. Portanto, quando um prédio cai é porque alguma coisa (básica) não foi feita como deveria ter sido.

O problema pode ter sido na sondagem do solo. O estudo e análise do terreno pode ter sido negligenciado. Erro do Engenheiro ou do Geólogo responsável;

Se a sondagem do terreno foi bem feita e a análise do entorno foi correta, pode ter havido erro no projeto das fundações ou da estrutura do edifício. Erro do Engenheiro responsável!

Se o projeto das fundações foi bem feito e os cálculos estão corretos, pode ter havido erro de execução. As fundações ou as estruturas podem ter sido construídas de forma diferente do que estava no projeto. Erro do Engenheiro responsável pela execução da obra!

A execução da obra pode ter sido feita de acordo com o projeto, porém, utilizando-se materiais diferentes dos que foram especificados. Ou materiais de fornecedores duvidosos, que não estejam certificados por instituições confiáveis. Erro do Engenheiro Responsável!

A obra foi finalizada e tudo foi exetutado corretamente. Mas, obras de Engenharia não são feitas para durar eternamente. É necessário que sejam feitas manutenções, inspeções, avaliações de riscos. Isso é responsabilidade (intransferível) de Engenheiros. Sempre tem um engenheiro responsável pelo funcionamento de um elevador, de uma caldeira, de um edifício, de uma usina, de uma barragem, ponte, viaduto...

Pedreiros, carpinteiros, armadores, encanadores, eletricistas, carregadores, ninguém, absolutamente ninguém, além do engenheiro, tem responsabilidade sobre o que acontece numa obra (antes, durante e depois da sua conclusão). É tudo responsabilidade do Engenheiro. É tudo Culpa do Engenheiro!

Os médicos raramente são responsabilizados pela morte de seus pacientes que não receberam o melhor tratamento possível. Os advogados não vão presos com seus clientes que não receberam uma boa defesa. Um arquiteto não é condenado porque o prédio que ele projetou ficou feio, ou pega sol de mais ou vento de menos... Mas os engenheiros têm de viver com essa responsabilidade pela consequência. Seus erros são avaliados e medidos de forma OBJETIVA.

O prédio ficou de pé, firme, forte? Ótimo! Polegar pra cima!

O Prédio teve rachaduras? inclinou para o lado? A umidade tomou conta? teve vazamento na caixa d'água? Caiu?!? Perdeu!!! Polegar para baixo, como Cesar, no coliseu.

Daí a necessidade de a Engenharia Brasileira (aí representada pelos conselhos profissionais, as entidades de classe, os sindicatos e as universidades) tomar para si a reflexão sobre como ensinar isso aos jovens engenheiros: nossa responsabilidade é total. Não existe terceirização. Não existe justificativa aceitável para Engenharia mal feita.

Os políticos têm seus objetivos, os patrões têm suas motivações e suas metas econômicas... mas o engenheiro não pode perder de vista que a responsabilidade não será deles (dos políticos, dos empresários ou dos proprietários das obras). Será dos engenheiros. Sempre.

Neste ano de 2019, em que o Sistema Confea/Crea decidiu que o tema central do 10º Congresso Nacional de Profissionais (CNP) será ESTRATÉGIAS DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL temos uma janela de oportunidade para colocar essa questão sobre a mesa e discutir qual será a estratégia dos conselhos profissionais, das entidades de classe, dos sindicatos e das universidades para (1) fazer com que os engenheiros não descuidem dessas responsabilidades ao longo de todo o tempo que durar o seu exercício profissional e (2) fazer com que os titulares do poder (políticos, empresários e proprietários de obras) entendam que essa responsabilidade requer autoridade e remuneração adequadas.

A sociedade precisa confiar na Engenharia. Precisa se sentir segura de que a ponte não vai cair, o prédio não vai pegar fogo, a barragem não vai romper... desastre nenhum vai acontecer, porque tem algum engenheiro cuidando de tudo. O progresso do país depende disso.

Basta de desmandos. Basta de puxadinhos. Basta de improvisações. E que se comece pelas grandes obras e grandes interesses.








Leia AQUI os artigos que já foram publicados
nesta série sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.





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PADILHA, Ênio. 2019

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