ARTIGOS DE ÊNIO PADILHA

ENGENHARIA E ADMINISTRAÇÃO: UM CASAMENTO POR CONVENIÊNCIA



Professor Ênio Padilha
Sou engenheiro, recém-formado em uma boa universidade de uma grande capital. Um amigo, também engenheiro e também recém-formado me propôs uma sociedade para criar uma empresa, prestando serviços de Engenharia numa área da qual já temos algum conhecimento em função dos trabalhos e estágios realizados durante a faculdade. O que fazer? Como fazer para que essa empreitada não resulte em uma aventura mal sucedida?

Aramis - Belo Horizonte-MG
(Nesta seção, o nome e a cidade são trocados sempre que solicitado pelo leitor)



Prezado Aramis.

Em primeiro lugar, parabéns! Parabéns pela coragem e pelo senso empreendedor. Qualquer iniciativa neste sentido terá, sempre, o meu aplauso e o meu apoio.

Em segundo lugar, vamos ao trabalho: se querem mesmo a minha sugestão, a primeira coisa que eu diria é "coloquem mais gente nessa sociedade".

Isso mesmo. Vocês precisam de pelo menos dois sócios: um administrador e um contador.

Como engenheiros vocês têm, certamente, uma boa noção do produto que será oferecido ao mercado. Mas tenho dúvidas quando à exata noção que vocês tenham sobre carga tributária, obrigações trabalhistas, linhas de crédito e financiamento, gestão de pessoal, relação com sindicatos, administração financeira, estratégias de mercado, análise de riscos e impactos mercadológicos da entrada da empresa de vocês no mercado. Isto sem falar das questões de sustentabilidade, meio ambiente, etc, etc, etc.

Portanto, sugiro que vocês agreguem ao grupo um contador experiente e um administrador com boas noções de administração financeira e de mercado (marketing).

O contador será o responsável por elaborar um plano financeiro que não esquecerá nenhum detalhe importante (que poderia inviabilizar o projeto no futuro). É a pessoa ideal para negociar com bancos, analisar financiamentos e investimentos; também poderá negociar ou renegociar questões tributárias e administrar os encargos trabalhistas.

O administrador fará o Plano de Negócio de olho em aspectos como a administração da produção e do mercado. E de olho também nos potenciais investidores e clientes.
Além do mais, um grupo com essa formação (dois engenheiros, um contador e um administrador) inspirará mais confiança tanto ao mercado quanto nos financiadores.
Mas, veja bem, amigo Aramis: isto não é uma obrigação legal. Não existe uma lei que obrigue vocês a fazerem isto. Portanto, não adianta pegar um contador meia-bomba e um administrador formado numa dessas Unifácil da vida, que passou pela faculdade sem ler um único livro (e que pensa que Frederick Taylor é famoso por ser o pai da Elisabeth, a atriz).

Também não é o caso de pegar dois caras que estejam trabalhando em outra empresa e torna-los sócios apenas no papel. Sem contato regular com a empresa.

Presta atenção: essa opção é estratégica e, só vale a pena ser aplicada se for bem aplicada. Evidentemente, a sociedade, como todo negócio, terá de ser negociada em bases justas. Talvez não seja necessário dividir as cotas em 25% para cada um dos quatro sócios. Mas, certamente uma sociedade em que os engenheiros fiquem com 95% e os outros dois sócios com 2,5% cada um não tem o apelo para provocar dedicação e empenho suficientes para alavancar o empreendimento.

Isso deverá ser negociado entre vocês, levando em conta o investimento financeiro de cada um para a abertura da empresa.

Outra coisa: não tenham ilusões de que, fundada a empresa, as coisas correrão às mil maravilhas. Não é assim que a banda toca.

Haverão discordâncias, discussões, desentendimentos... Então é importante que haja um pacto entre os sócios, com algumas regras para evitar que a sociedade se desfaça prematuramente. Essas regras serão objetos da segunda parte deste artigo (semana que vem)

Grande abraço e boa sorte (e me convidem para a festa do primeiro milhão!)



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | ep@eniopadilha.com.br




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Comentários

#1PAULO CESAR BASTOS, ENGENHEIRO CIVIL, SALVADOR_BA

domingo, 01 de março de 2009 - 12h08min

Prezado Ênio Padilha
Excelente , pertinente e didático artigo,especialmente para os nossos mais jovens e iniciantes colegas dessa profissão imprescindível, indispensável ao desenvolvimentos dos povos e nações, a Engenharia.
Como você fala na apresentação do artigo,na newsletter,ao citar o pioneirismo de Taylor, houve um inexplicável distanciamento, acredito mais no Brasil, dos príncipios da administração na grade curricular ,formação e e atribuição profissional da Engenharia.
O engenheiro é líder natural e gestor pela própria natureza do trabalho.Um grande projeto multidisciplinar ou uma pequena obra necessitam dos princípios básicos da administração.A visão empresarial e a observação dos custos e benefícios são inerentes ao bom desempenho de qualquer atividade do engenheiro.Assim, a administração e o empreendedorismo são básicos e fundamentais e precisam ser aprimorados, reciclados e integrados ao dia dia profissional.Capacitar é preciso.Valeu.

#2Eduardo Beltrame, Engenheiro Civil, Florianópolis

segunda-feira, 02 de março de 2009 - 00h27min

Muito interessante e útil este artigo. Porém acho que na maioria das vezes, por se tratar de pequenas empresas, não é necessário ter um administrador e um contador como sócios. Estes serviços - principalmente o de contabilidade - podem ser terceirizados. Já as questões de administração, podem ser resolvidas com a contratação de um administrador (funcionário) ou até com a terceirização de serviços especializados, como para o desenvolvimento do plano de negócio, planejamento estratégico e afins. Acho que seria uma ótima opção.
Abraços

Comentário do Ênio Padilha

Eduardo
Você tem razão em boa parte do seu comentário. Concordo que o contador pode mesmo ser contratado. O que muda aí é o tipo de contador a ser contratado e tipo de contrato que deve ser feito. Precisa-se de um contador que faça muito mais do que simplesmente controlar a documentação, os impostos e os números da empresa.
Quanto ao Administrador, desculpe, vou insistir. Precisa mesmo ser sócio. Porque é uma questão estratégica. Ele precisa ter poder de decisão ou, no mínimo, um nível de influência que jamais teria como empregado contratado.

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