NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS

VACAS VERDES E CACHORROS AZUIS



(Publicado em 27/03/2020)



Alguns dos meus amigos queridos estão em quarentena com filhos pequenos em casa. Nem sei o que dizer!

Quando as meninas eram pequenas (3 e 6 anos) a Áurea (que é professora de Educação Física e, na época, trabalhava com educação infantil) cuidava do desenvolvimento social e psicomotor delas com mil e uma atividades lúdicas, uma mais divertida do que a outra.
Mas cabia a mim, todas as noites, contar uma historinha pra elas, antes de dormir.

Era uma tarefa duríssima, porque o meu repertório de historinhas era muito limitado. Então, sabem o que eu fazia... inventava histórias surreais interativas... e elas adoravam:




Era mais ou menos assim: as duas sentadinhas na cama, com os olhinhos brilhando esperando a história começar. Eu, disfarçando meu medo de que, naquela noite, minha farsa seria finalmente descoberta, sentava na cama e começava...

"Era uma vez, numa floresta cheia de árvores amarelas, caminhava saltitando, um cachorrinho azul. Ele passou por uma estradinha de grama bem vermelha e encontrou com uma vaquinha verde. Estão acompanhando? "Sim, sim..." "Que cor era o cachorrinho?" "Azul! Azul!" "Muito bom. Isso mesmo: o cachorrinho era Azul".

"Então... aí a vaquinha verde falou para o cachorrinho azul: 'tenha cuidado com o Leão que mora atrás daquelas árvores brancas!' e o Cachorrinho azul respondeu: "Leão?! Eu nem sabia que tinha leões nesta floresta. Como ele é?' E a vaquinha respondeu: 'Ele é todo roxo, com bolinhas pretas e tem as patinhas marrons'. E o cachorrinho disse: 'Nossa, que medo! Ele come cachorros?' E a vaquinha disse: 'Claro que come. Tome cuidado!'.

As duas cheias de preocupação. Então eu perguntava novamente: "Qual é a cor do Cachorro?" "Azul, Azul!" "E a cor da vaquinha?" "É verde!" "E a cor das patinhas do leão?" "Hein?" "As patinhas do leão? De que cor elas são" "Hummmm deixa eu ver..." Geralmente a Ana Clara que era mais velha já estava mais ligada. "marrom, marrom!" "Isso, isso... continuamos..."

"A tarde começou a cair e o cachorrinho azul precisava voltar pra sua casinha. Mas agora ele estava com medo que o leão o encontrasse. Então ele resolveu pedir ajuda para o urso cor de rosa..." "Urso cor de rosa?!" "Isso, um urso cor de rosa que morava na floresta e que era amigo do cachorrinho azul e da vaquinha. Vocês ainda lembram qual era a cor da vaquinha?" "Verde. A vaquinha era verde" "E a cor da grama na estrada?" "Hein?" "Que cor era a grama?" "..." "???" "Verde?" "Claro que não! Se a grama da estrada fosse verde ninguém poderia enxergar a vaquinha, pois ela era verde também!" "hmmmm" "Ah, lembrei: era vermelha!" "Isso!!! Muito bom"

E assim a história ia se esticando, esticando... e novos personagens iam sendo incluídos, todos com cores estapafúrdias e montando um jogo de memória muito divertido (Pelo menos pra mim. Não sei o que elas pensavam disso) até que eu percebia que tinha vencido o jogo pelo cansaço e elas já estavam ficando com os olhinhos pequenos de sono.

Não. Não estou aqui dando uma dica de como lidar com crianças em casa em tempos de quarentena. Apenas apenas tive essa lembrança feliz e resolvi compartilhar. Deu saudade da minha plateia de ingênuas divertidas.

E, à propósito, meu Kaô nunca foi descoberto. Mantive a farsa por vários anos sem nunca ter sido desmascarado.




www.eniopadilha.com.br




PADILHA, Ênio. 2020

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