NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS

CANTOR DE RÁDIO



(Publicado em 11/04/2020)



Quando eu era menino, no bairro Canta Galo, em Rio do Sul, sempre fui um bom aluno, mas eu era, sem dúvida, muito exibido. Gostava de ser protagonista na Homenagem à Bandeira, que acontecia todos os sábados pela manhã.

Cada sábado ficava por conta de uma série. Então, uma vez por mês era responsabilidade da nossa sala. A professora* escolhia os poemas e a gente ensaiava todos os dias da semana. Eu tinha bastante facilidade para decorar e então sempre era escolhido.

Aí, no sábado, com todos os alunos e as professoras enfileirados no patio da Escola Anibal de Barba (escrevi sobre ela AQUI) lá estava eu, declamando, empolgadíssimo, o poema da vez, para depois receber os aplausos demorados da galera.




"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores..."


e seguia fazendo gestos e com os braços prum lado e pro outro, até o fim do poema (que era muito longo, veja AQUI. Mas eu dava conta.)

No dia das mães era a mesma coisa:

"Mamãe você é bonita
mesmo vestida de chita
ou vestida de algodão,
pois a sua beleza
não precisa de riqueza,
está no seu coração."


(só descobri, muitos anos mais tarde, que o poema era da Cecilia Bueno dos Reis Amoroso, uma professora muito lida nos anos 1960, que escreveu a famosa cartilha Onde está o Patinho?. Vale a pena conhecer.)

Em 1969 eu tinha 10 anos e já estava na 4ª série e, pela primeira vez, a nossa escola iria participar do Desfile da Independência (o Desfile de 7 de Setembro).

Aquilo era um acontecimento que fez meio mundo perder o sono. Ensaiamos por três meses. Era um momento histórico, segundo a Dona Irene, que, além de nossa professora era também a Diretora da Escola

Então, naquela manhã do dia 7 de setembro de 1969, lá estava o exibido, levando uma bandeira. Não me lembro se era a do Brasil, de Santa Catarina ou de Rio do Sul. Só sei que eu estava todo lindo, num uniforme tinindo de lavado, passado e engomado. O cabelo cortado igual ao do Pelé e aquele olhar de quem se achava a última bolacha do pacote. Me sentia como se fosse um aluno do Dom Bosco ou do Ruy Barbosa** (uma pena eu não ter nenhuma foto daquele desfile).

NO ANO SEGUINTE eu já estava no Colégio Estadual Henrique da Silva Fontes, que, naquele tempo, funcionava no prédio do famoso Colégio Paulo Zimmermann, no centro da cidade, bem na frente da Catedral (o prédio onde hoje funciona o Henrique Fontes estava sendo construído, não por coincidência, lá no Bairro Canta Galo). Eu estava na 5ª série e nós tínhamos uma professora de Artes que era muito dinâmica e cheia de ideias. E foi dela a decisão de criar um festival interno de música.

Cada turma poderia ter um cantor ou dupla ou grupo que se apresentaria no festival. Os melhores iriam representar a escola no programa que a Rádio Difusora tinha no domingo de manhã em que crianças de várias idades se apresentavam no auditório da emissora que funcionava no mesmo edifício do Salão Paroquial da Catedral de São João Batista.

O festival foi uma alegria só! O pátio interno do colégio estava lotado de estudantes e professores. Eu, meu irmão e mais dois colegas fizemos um cover dos Golden Boys***, um grupo musical muito famoso da época, integrante da Jovem Guarda. Nós escolhemos um top sucesso do grupo: Fumacê que tinha uma letra muito maliciosa mas que, na nossa cabeça de guri de 10, 11 anos, não tinha nada de mais:

"Hê! Hê! Hê! fumacê!
Ah! Ah! Ah! fumaçá!

Êh fumaceira
Tá saindo do lado de lá
Tem alguém queimando coisa
Tá botando prá quebrar..."


Aqui tem um link para a música, no SPOTIFY.

Foi um sucesso! Ganhamos o público e o júri. Ficamos classificados para cantar "na rádia". E, no domingo seguinte, lá estávamos nós, cantando na Rádio Difusora.

Acho que a nossa participação no programa da Rádio Difusora não foi grande coisa, porque nem meu irmão nem os outros dois companheiros curtiram. Desistiram. Tinham coisa melhor pra fazer das manhãs dos seus domingos.
Futebol, por exemplo.

Eu, no entanto, gostei da coisa. Voltei na semana seguinte e nas seguintes.

E assim, acabei fazendo parte meio permanente do programa por alguns meses. Tínhamos ensaios nos sábados à tarde e os que se saíssem melhor nos ensaios eram escalados para cantar no domingo. Nem sempre eu era escalado, mas sempre era divertido participar.

Minha apresentação mais memorável foi da música Balada número 7 do Moacyr Franco...

"Sua ilusão entra em campo no estádio vazio
Uma torcida de sonhos aplaude, talvez
O velho atleta recorda
As jogadas felizes
Mata a saudade no peito driblando a emoção
Hoje outros craques repetem as suas jogadas
Ainda na rede balança seu último gol
Mas pela a vida impedido parou
E para sempre o jogo acabou
Suas pernas cansadas correram pro nada
E o time do tempo ganhou
Cadê você, cadê você, você passou
O que era doce o que não era se acabou..."


Aqui o link para a música, no SPOTIFY. Agora imagine isto cantado por um menino magricelo de 11 anos (mas não importa o que você disser. Minha mãe achava o máximo!)

Mas o tempo dessas alegres manhãs de domingo logo chegaria ao fim e eu teria de enfrentar, nos três anos seguintes, a jornada de trabalho infantil da qual eu trato no artigo SOBREVIVI AO TRABALHO INFANTIL. MAS NÃO FOI LEGAL que talvez você já tenha lido.

Minha carreira de Cantor de Rádio foi então encerrada, sem maiores consequências para a música brasileira.




www.eniopadilha.com.br

PADILHA, Ênio. 2020





* Na primeira série, em 1966 a professora era a Dona Alda; Na segunda série, em 1967, Dona Rose; na terceira, em 1968 Dona Méri e, finalmente, na quarta série, em 1969, a Dona Irene. Uma mais querida do que a outra.

** As duas escolas (particulares) mais importantes da cidade, onde estudavam os alunos mais ricos e inteligentes da região.

*** O grupo era formado pelos irmãos Roberto, Ronaldo e Renato Corrêa, além de um primo, Valdir Anunciação





Clique na imagem ao lado para ler o artigo:
ANIBAL DE BARBA



Escolas Reunidas Aníbal de Barba, no bairro Canta-Galo em Rio do Sul, Santa Catarina, idos de 1966 era uma construção de madeira, enorme, pintada em um laranja escuro, janelas grandes, portas imensas...(É claro que os superlativos são por conta do que eu achava naquela época. Já adulto, em 1991, fui um dia rever a escola, à época já um prédio abandonado. Nossa, que pequenininha! Parecia tão grande!)





Clique na imagem ao lado para ler o artigo:
SOBREVIVI AO TRABALHO INFANTIL. MAS NÃO FOI LEGAL.



COMECEI A TRABALHAR COM 11 ANOS. Não recomendo. Não acho que isso tenha ajudado, de nenhuma maneira na minha formação. Tenho certeza de que aquilo não fez de mim uma pessoa melhor, nem mais honesta ou menos complicada.





Clique na imagem ao lado para ler o artigo:
DIDI



Ninguém me chamava de Ênio. Ninguém sequer lembrava que meu nome era Ênio. Naquela época, crianças de famílias pobres, como a minha, não tinham caderneta de vacina, certidão de nascimento ou coisa parecida. O único documento que eu tinha era o Certificado de Batismo.
Assim o apelido, Didi, virou nome. E não havia discussão sobre isso.





A imagem que ilustra o cabeçalho deste artigo foi tirada da capa do Compacto Duplo (disco de vinil) dos Golden Boys lançado em 1970, com as músicas Fumacê, Se você quiser mas sem bronquear, Avenida Atlântica e Comunicação



Comentários

#1COMENTARIOS NO FACEBOOK

sábado, 11 de abril de 2020 - 08h33min

Na sexta-feira, dia 10/04/2020 este post foi publicado no grupo facebook.com/groups/Antigamenteemriodosul.
Esses são os comentários registrados:







Faça seu comentário

Favor, evite enviar links, pois seu comentário será recusado.

Seu IP: 3.233.229.90 (Identificação de seu computador na internet)

* campos obrigatórios
Compartilhe: 304