ARTIGOS DE ÊNIO PADILHA

PECADOS COMETIDOS POR ENGENHEIROS E ARQUITETOS
NA ESCOLHA DE SÓCIOS

(Publicado em 13/02/2010)






Atenção: este artigo não traz nenhuma novidade. Apenas organiza o conhecimento dominado que você provavelmente já leu em meia dúzia de artigos na Internet ou em revistas de Economia e de Gestão. A única consideração nova aqui é sobre o tipo de sócio que engenheiros e arquitetos geralmente encontram. Ou seja: engenheiros e arquitetos.

Como é fazer sociedade com esse tipo de indivíduo? Vale a pena? Que tipo de problemas podem surgir?
Por que fazer uma sociedade? O que se deve esperar de um sócio? Sociedades podem dar certo?

É assim mesmo. Antes de fazer uma sociedade somos inundados por uma tempestade de perguntas, dúvidas e angústias. Nem sempre respondemos todas as perguntas ou eliminamos as dúvidas e angústias antes de iniciarmos a sociedade. E, mais importante: nem sempre fazemos as perguntas certas ou esclarecemos as questões importantes.

O resultado é que muitas sociedades dão errado. E muita gente acaba com essa sensação de que toda sociedade está fadada ao fracasso.

Mas não é verdade. E isto responde a uma das nossas perguntas acima (sociedades podem dar certo?)

A regra número um na escolha de um sócio parece ser "conheça muito bem o futuro sócio". Usa-se, inclusive, a metáfora do namoro e do casamento para ilustrar a situação.

O problema é que essa não é uma tarefa fácil. O mais comum é o profissional ser surpreendido com alguma coisa muito inesperada no seu sócio, quando já é "tarde demais".

E não adianta ter um contrato minucioso das tarefas, obrigações, atividades, direitos e benefícios dos sócios se essas questões não passaram por uma discussão sincera e franca entre as partes. É bom lembrar a metáfora do casamento: por mais que as obrigações e direitos das partes esteja estabelecido pelas regras tácitas do casamento... a gente sabe que, infelizmente, muitos não dão certo. Alguns até precedidos por muitos e muitos anos de namoro.

Mas existem dois pecados muito comuns cometidos pelos profissionais no processo de escolha de sócios. Observar essas armadilhas e fugir delas já é meio caminho andado para que a sociedade seja bem-sucedida.

O primeiro pecado cometido por muitos profissionais na escolha do sócio e escolher por afinidade. Por amizade.

É muito comum ver sociedades de iguais (ou semelhantes). Três engenheiros, colegas de faculdade, excelentes projetistas de estruturas (os melhores da turma) se reunem numa sociedade... que vai fazer água em menos de dois anos!

Duas arquitetas, muito amigas, criativas, competentes, que vão juntas às festas e viagens, se unem numa sociedade... que tem tudo para dar errado!

Amigos de muitos anos ou parente bacanas não são necessariamente bons sócios. Compartilhar festas e viagens não é a mesma coisa que dividir trabalho. Sociedade não se faz por amizade! Sociedade não se faz por afinidade ou simpatia. Sociedade se faz por conveniência. E o conveniente nem sempre é evidente.

É claro que você não deve fazer sociedade com pessoas completamente diferentes, especialmente no que diz respeito às CRENÇAS, VALORES e PRINCÍPIOS (veja o artigo CRENÇAS, VALORES E PRINCÍPIOS, publicado em 2009).

Então, que fique claro: quando eu digo que os sócios devem ser diferentes me refiro aos conhecimentos, habilidades e capacidades.

Se, por exemplo, você é um excelente projetista e pretende abrir um escritório de projetos, a última coisa de que você precisa é de outro profissional bom em fazer projetos. O que você deve buscar, como sócio é alguém que seja bom em negociação com clientes ou em questões administrativas ou em comando de equipe...

Outro projetista irá agregar muito pouco ao negócio e será, fatalmente, fonte de discussões e desentendimentos.

O segundo pecado cometido pelos que se lançam numa sociedade é se entusiasmar demais no início do processo e esquecer de alguns detalhes fundamentais. Esquecer, por exemplo, de definir as regras do jogo. Coisas aparentemente simples, mas que não podem ser decididas com o jogo em andamento.

Obrigações e responsabilidades dos sócios; critérios de remuneração; distribuição de lucros; emprego de familiares; utilização dos equipamentos (inclusive veículos e telefones) da empresa; periodicidade das Reuniões; Férias...

Como eu digo sempre, os dois demônios mais ferozes que se opõem ao sucesso de qualquer sociedade são o Demônio do Dinheiro e o Demônio da Vaidade Intelectual.

Há uma tendência natural nas pessoas, numa sociedade, em julgar que o outro sócio está ficando com uma fatia do dinheiro maior do que a merecida. E que também está recebendo o crédito indevido pelos eventuais sucessos da empresa.

Essas questões devem ser discutidas abertamente antes de a sociedade ser estabelecida, para evitar que esses demônios se criem.

Antes de dar início a uma sociedade é preciso fazer exercícios mentais (conjuntos) com o desenho desses cenários, para identificar a reação natural de cada uma das partes.

Evidentemente esses não são os únicos pecados cometidos na constituição de sociedades de Engenheiros e de Arquitetos. Outras questões são importantes e certamente serão objetos dos comentários dos leitores. Aí poderemos avaliar uma a uma.

O importante é acreditar, sempre, que a sociedade entre profissionais (no caso de Engenharia e de Arquitetura) é uma das melhores fórmulas para o sucesso nos negócios



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br





Ilustração: syhus.com.br



---Artigo2010 ---Administração ---Sociedade

Comentários

#1Rodrigo, Estudante de engenharia, BH / MG

sábado, 13 de fevereiro de 2010 - 12h13min

Olá, Ênio.

Gostei muito do seu artigo e da forma como você trata o assunto (assim como vários outros, são de leitura obrigatória!).

Deve ser muito bom trabalhar para a empresa que você criou e vê-la crescendo e rendendo frutos.

Irei me formar no fim deste ano em engenharia de produção/civil e, pela primeira vez, me passou pela cabeça a ideia de abrir uma empresa. Esse inclusive passa pela cabeça de muitos colegas meus.

Sair da faculdade e abrir uma empresa de engenharia pode ser um pouco arriscado? No caso de uma sociedade, como "trabalhamos" com nossos colegas da faculdade, podemos ver o perfil de cada um e isso pode ajudar, não concorda?

Aproveitando o espaço, é difício ver na sua agenda algum evento em MG; tem alguma coisa planejada para este ano?

Abraços,
Rodrigo

Comentário do Ênio Padilha
Rodrigo.
Primeiro, parabéns pela sua formatura neste ano. Muito sucesso para a sua carreira!

A opção de abrir uma empresa não é "arriscado". Na verdade, não é mais arriscado do que arrumar um emprego qualquer. Com um pouco de conhecimento técnico de Administração um bom profissional pode obter excelentes resultados abrindo sua própria empresa.
Quanto a encontrar o sócio entre os colegas de faculdade, nada contra, desde que você não cometa os pecados destacados neste nosso artigo.

Boa sorte e conte com a gente nas suas dúvidas e angústias.
Abraço.

#2JULIANO MIOTTO, Arquiteto e Urbanista, Chapecó/SC

quarta-feira, 03 de março de 2010 - 14h53min

Boa tarde Ênio.

Muito boa a abordagem sobre esse tema, realmente quando se busca uma parceria com sócios o melhor é procurar em diferentes áreas, assim consegue-se agregar maiores soluções aos projetos. Mas nada impede de se ter sociedade com pessoas da mesma área, por exemplo eu e minha namorada, ambos arquitetos e urbanistas, trabalhamos juntos, nos damos muito bem tanto na vida profissional e particular, o bom de se ter essa parceria que pegamos juntos, e o trabalho acaba rendendo mais, mas mesmo assim como temos a mesma formação somos distintos em certas áreas, na realidade um complementa o outro, já pensamos várias vezes em agregar outros profissionais, colegas de turma, mas quando começamos a pensar mais a fundo sobre o assunto, acabamos chegando a conclusão que é melhor deixar assim.

E quando volta a palestrar aqui em Chapecó?

Forte Abraço.
Juliano

Comentário do Ênio Padilha
Juliano
Espero ir a Chapecó logo. Só depende da nossa AEAO me chamar.

Quanto aos seus comentários, está tudo certo. Recomendo apenas que você e sua namorada façam o exercício de explorar o máximo que puderem as suas diferenças administrativas. E que cada um desenvolva, se possível, habilidades e conhecimentos diferentes nessa área. Por exemplo. Se um de vocês resolver se aprofundar no conhecimento da administração financeira, o outro deve estudar Administração de Pessoal, e assim por diante.

No mais, boa sorte e muito sucesso!


#3engenheirobastos, engenheiro civil, itapagipe mg

quarta-feira, 10 de março de 2010 - 15h02min

boa estoria esta de socios, quem já não os teve, eu os classificos em 2 tipos os capitalistas espertos geralmente leigos e muito audaciosos, onde atraem os engenheiros sempre meticulosos, o outro é o sócio amigo geralmente colega de profissão e duro e pobre como todos nos engenheiros, mas hoje a realidade é outra não tem mais lugar apenas para os socios, agora temos que ter na equipe sócios administradores, contabilistas, economistas e claro despachantes com tanta burocracia para existirmos, quem duvida tentem homologar um pbqp-h nível d, e ai verão o quanto os engenheiros ficaram obsoletos... e agora aonde conseguir uma nivelaçao a globalização...quem sabe o enio padilha não muda o seu perfil de capacitação de suas palestras de aprimoramento profissional para a almejada homologação de capacitado para a globalização.....solimar - itapagipe mg

#4IVO GILBERTO PADILHA, contador, curtiiba

sábado, 28 de maio de 2011 - 10h52min

Prezado Enio.

Antes de qualquer coisa, parabéns pelo trabalho social disponibilizado.

Gostaria de saber se possui um modelo de contrato social para o modelo que sugeriu de Socidade de Profissionais.

Serei muito grato, caso possa me ajudar.

Abraço

#5Nelson Rezende , Contador , Presidente Prudente-SP

terça-feira, 15 de maio de 2012 - 17h55min

Boa tarde

Enio ,

é muito bom encontrar pessoas diferenciadas no mundo em que vivemos, suas idéias e explicações servem para qualquer tipo de negocios e também para nossa vida do dia a dia. Trabalho com escritório de Contabilidade e apareceu o primeiro cliente nessa area de Arquitetura, tenho todas as dúvidas, sobre a forma de constituição e até mesmo quanto a atividade que vamos constitui-la e ja ouvi varias idéias sobre o assunto, a sem acreditar muito, busquei aqui na net e encontrei você e se possivel gostaria de suas orientações a pessoa é um ARQUITETO recem formado e quer constituir essa empresa com a esposa como sócia e ter como atividade um ESCRITÓRIO DE ARQUITETURA, e até onde essa atividade atinge.
Sem mais desde ja agradeço sua possivel ajuda.

Nelson Rezende

#6MARCO ANTONIO CARDOSO, arquiteto, Brasilia

quinta-feira, 13 de março de 2014 - 17h11min

Boa tarde, queria muito tirar uma dúvida mas em relação aos tributos que um arquiteto paga, ou mesmo, um escritório de arquitetura pagará para poder abrir, tentei pelo microempreendedor individual mas não dá, agora tenho que partir para outros meios, então queria saber é claro se você sabe, para manter uma empresa aberta qual segmento o escritório teria que seguir o de empresa individual, micro empresa, sociedade ou existe alguma forma de fugir dos impostos muito altos, porque eu sei que os impostos para prestador de serviços são os mais altos.





obrigado e sua matéria é muito interessante.

Comentário do Ênio Padilha

Marco Antônio
Você tem razão. Os impostos para os prestadores de serviços são muito altos. E, na maioria dos municípios brasileiros, os impostos municipais para escritórios de Arquitetura são os mais altos também. Ainda assim, até onde eu sei, abrir uma empresa (com CNPJ) é a maneira legal mais eficiente para reduzir a carga tributária.
Recomendo (sempre) que você consulte um bom contador. Esses profissionais estão atualizados em relação à legislação empresarial e sabem indicar o melhor caminho.
Não existe resposta correta "pela internet" porque, acredite, cada caso é um caso e só um contador atualizado saberá apontar o melhor caminho.

Quanto ao custo de manter um escritório funcionando, recomendo a leitura dos meus artigos
ADMINISTRAÇÃO FINANCEIRA (1) Quanto custa abrir um escritório de Arquitetura/Engenharia?
e
ADMINISTRAÇÃO FINANCEIRA (2) - Quanto custa manter aberto um escritório de Arquitetura/Engenharia?

#7Jehnnye da Silva Damasceno, Engenheira Civil, Tucuruí, Pa

sexta-feira, 25 de abril de 2014 - 16h04min

Muito bom artigo. Estou no ultimo ano do curso de eng. civil e estou trabalhando a ideia de abrir um escritório de consultoria na área, mas tenho muitas dúvidas de como abrir um escritório. Leis, imposto, sócio ou sozinha. As dúvidas são muitas mesmo. Você poderia me ajudar? Pensei em abrir em sociedade com colegas da faculdade, mas que ambos têm habilidades diferentes.

Aguardo resposta. obrigada.

#8Erick de Paiva Savegnago, Desenhista Projetista e Calculista, São Paulo

segunda-feira, 07 de julho de 2014 - 16h46min

Olá Professor Ênio!
Também estou me formando agora, gostei muito da matéria de seu site, e tenho uma dúvida:
Sempre fiz estágios relacionados a projetos e cálculos estruturais, hoje Domino os Softwares CYPECAD e NOVO METALICAS 3D da Multiplus Softwares técnicos.
Tenho um amigo de Faculdade que é empreiteiro e entende hà anos sobre obras e negociação em canteiro.
Minha dúvida:
Ele é meu amigo de turma, e se fizéssemos uma sociedade daria certo?

Um abraço

Erick

Comentário do Ênio Padilha

Erik
Pode dar certo, sim. Sem dúvida.

É importante que os sócios tenham conhecimentos, habilidades e interesses distintos e complementares. E que (isso é mais importante ainda) tenham sintonia de crenças, valores e princípios.

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