ARTIGOS

WEBER FIGUEIREDO - MUITO ALÉM DE BANANAS

(Publicado em 03/10/2016)



Em fevereiro de 2002 eu publiquei um artigo que até hoje é o meu artigo mais lido e publicado. Trata-se do "POR QUE É QUE A GENTE É ASSIM?" que obteve uma repercussão impressionante gerando uma chuva de comentários e até mesmo outros artigos - de outros autores - sobre o tema.

Um dos comentários mais interessantes que eu recebi foi do professor Weber Fiqueiredo, da UERJ e do CEFET. Este professor ficou muito conhecido no Brasil inteiro por conta de um belíssimo e inteligente discurso em que discorre sobre Engenharia falando de bananas e bananadas (foi publicado no nosso site, há algumas semanas - DISCURSO DO PROFESSOR WEBER FIGUEIREDO SOBRE TECNOLOGIA NO BRASIL). Esse discurso foi proferido em uma cerimônia de formatura da UERJ, mais ou menos na mesma época (2002).

Aqui, seu comentário faz parte de uma resposta à uma de suas alunas, de quem ele recebeu uma cópia do meu artigo.
Leia abaixo o que ele escreveu (os negritos e itálicos são do próprio autor).


WEBER FIGUEIREDO
Professor na UERJ e CEFET
webr@gbl.com.br

Prezada ex-aluna XYZ
Achei muito interessante o artigo que v. me enviou (Por que é que a gente é assim? do Eng. Ênio Padilha) e na qualidade de professor de engenharia da UERJ e do CEFET, gostaria de fazer alguns comentários. Pediria que você retransmitisse para os colegas.

SDS. Weber


Sobre o artigo (final deste e-mail) acredito que um dos motivos para a diferença entre médicos, advogados e engenheiros seja o mercado de trabalho. Assim:
Médicos, dentistas e advogados são formados para trabalharem como médicos, dentistas e advogados e realmente vão trabalhar com tal. O médico medica, o dentista cuida dos dentes e o advogado advoga.

Quanto aos engenheiros, a grande maioria não vai trabalhar como engenheiro de concepção (projeto), que é a função mais nobre da engenharia. Estudar tanto para fazer papel de técnico ou vendedor é lamentável. A eletrônica, elétrica e mecânica estão totalmente desnacionalizadas. Toda a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico já foi feito no exterior (G7). Resta ao engenheiro brasileiro funções que não necessitam de toda aquela base científica e tecnológica dada num curso de engenharia.

Quanto aos engenheiros civis, ainda há algum campo para projetos de porte mas que já está sendo ocupado por firmas multinacionais que trazem os projetos prontos.

Resta, então, obras pequenas que não interessam às grandes empresas. Mas, aí, há a concorrência dos técnicos e mestres-de-obra. E mais, a engenharia civil fica estagnada quando o país entra em recessão. Ela vem a "reboque" das outras atividades econômicas que necessitam de prédios para se instalarem. Se não houver crescimento econômico, a engenharia civil ficará só com a conservação do que já foi construído. Para isso, não precisa de tanta mecânica racional ou fenômeno de transportes.

A engenharia de produção está mais próxima da realidade do mercado, pois o aluno aprende superficialmente um pouco de cada assunto técnico, além de administração e economia, e suas atividades vão se concentrar na administração da produção (muito importante) e não em projetos que necessitam de base científica.

Os países ricos são ricos porque produzem riquezas (elementar meu caro Watson).

A produção de riquezas começa com o conhecimento da natureza através da física, biologia, química etc., junto com a matemática. Após dominar essas ciências básicas, o homem modifica a natureza através de outros conhecimentos chamados de tecnologia.

É daí que surgem as riquezas: prédios, computadores, carros, remédios, roupas, telefones, aviões, geladeiras etc.

O engenheiro é uma das peças chaves no processo de produção de riquezas porque ele é o responsável pelo desenvolvimento da tecnologia. É por isso que ele precisa ter uma boa base científica para exercer essa função.

Como no Brasil o desenvolvimento tecnológico é incipiente, resta ao engenheiro outras funções de engenharia, que embora sejam até importantes, mas não são as essenciais. É, aí, que começam os conflitos do estudante brasileiro: por que tenho que estudar tanto cálculo e tanta física? por que o professor da matéria tal aperta tanto? Provavelmente, um estudante de engenharia americano que pensa em ser projetista na Boeing, e.g., nunca faria tais perguntas.

Sou engenheiro eletrônico e vi muitos colegas projetistas sucumbirem nestas atividades por causa da tal globalização (neo-colonialismo). Os pacotes, as caixas pretas, as máquinas e os equipamentos já vêm prontos do estrangeiro. A fábrica na qual um dia eu desenvolvi projetos, vive situação difícil. O que ela projeta e produz aqui, está sendo importado pelas concessionárias de telecomunicações, criando bons empregos lá fora. Aliás, um dado impressionante: 70% do PIB brasileiro é controlado por não residentes.

Se algum dia, americanos ou europeus viessem a ocupar postos de trabalho dos nossos médicos, dentistas e advogados, acredito que o comportamento deles iria mudar.
Médicos e advogados têm grandes nomes brasileiros como referências profissionais. É comum dizerem: "segundo o jurista tal..., segundo o cirurgião tal..." . Na engenharia, as poucas referências existentes são na área civil ou de arquitetura. O Brasil não tem cientistas nem descobridores de renome, que seriam referências para os engenheiros.

Quanto ao comportamento social do engenheiro acredito que esteja relacionado à sua formação cartesiana. Gostamos das coisas lógicas e retilíneas. Lembro-me que um dia pedi a um advogado uma determinada lei para que pudéssemos cumpri-la à risca. Ele me respondeu: "não seja bobo, devemos descobrir o que a lei não diz para que possamos caminhar pelas suas brechas!" Aliás, advogados são aqueles que no primeiro dia de profissão praticam um gesto muito nobre: "penduram a conta no restaurante e saem correndo". Dificilmente engenheiros teriam coragem de fazer isto.

Acho que realmente os engenheiros são meio frios, talvez até porque tenham sido treinados para serem calculistas. Engenheiros encontram nos seus livros a verdade absoluta. E na vida real não há verdades absolutas. Há coisas insondáveis no comportamento humano que as escolas de engenharia não ensinam aos seus alunos. Elas estão preocupadas em ensinar coisas concretas, que podem ser quantificadas matematicamente, e o comportamento humano não pode.

Acredito que a maior auto-estima que se possa dar ao Engenheiro (E maiúsculo) recém-formado é um emprego no qual ele possa aplicar e desenvolver toda a ciência e tecnologia aprendida na faculdade.

Como isso raramente acontece, muitos engenheiros ao longo da caminhada enveredam por outras áreas: administrativa, comercial, gerencial e até política.
E sabe o que acontece? A maioria se sai muito bem!

Weber Figueiredo



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br



---Artigo2016 ---Administração ---Financeira

Comentários

#1Rafael Látaro, Operador, São josé dos campos

terça-feira, 07 de outubro de 2008 - 20h23min

Olá Ênio, antes de qualquer coisa, fiquei surpreso por não haver nenhum comentário para este artigo. E agora o congratulo pelo seu artigo “Por que é que a gente é assim?” Eu sou um recém formado em um curso de tecnologia em REDES de computadores, e vejo muitos de meus colegas trabalhando e se “dando bem”. Já eu tive, ou escolhi, tomar outro rumo, pois sou concursado na Petrobras, gosto do trabalho, mas o cargo é de nível técnico, que fiz durante o ensino médio (eletrônica e de telecomunicações). Meu cargo atual nem tem haver com nenhum de meus cursos técnicos, e nem com a faculdade que fiz. Estou com planos para fazer uma Engenharia, creio que de produção, qdo era mais novo eu fugia da Engenharia, mas hoje não sei se cabe isto, mas eu sinto falta dela e espero com muita expectativa poder fazer este curso. Gostei de seu artigo e deste também, alias você poderia colocar um link deste no outro. A vou repassar este dois artigos. Obrigado... Rafael Látaro.

#2Vitor Ibiapino Cantanhede Filho, Militar, Brasília

quarta-feira, 23 de março de 2011 - 17h51min

Boa Tarde !
Professor WEBER, apesar da distância entre a data atual e a palestra proferida na formatura da Turma de Engenharia/UERJ em 2002, desejo, por favor, saber do Sr se já existe uma nova "política" (âmbito nacional) a respeito da necessidade de agregarmos valores aos nossos produtos, talentos, bens e serviços ou continuaremos, por um período indefinido, a ser considerado o País do Futuro ???

#3CLAUDNÉIA GUEDES MOREIRA CANTANHEDE, FUNCIONÁRIA PUBLICA, CAMPO BELO-MG

quinta-feira, 07 de abril de 2011 - 23h09min

GOSTARIA DE ME COMUNICAR COM O MILITAR VITOR IBIAPINO CANTANHEDE FILHO, USEI ESSE ESPAÇO,NA ESPERANÇA DE ENCONTRÁ-LO.

Comentário do Ênio Padilha
OK
Boa sorte, Claudinéia.
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