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Ênio Padilha

"Nosso trabalho é traduzir para o mundo executivo de Arquitetos e Engenheiros os mais recentes estudos e pesquisas sobre Administração, Estratégia e Marketing.
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O CHEIRO DA LUZ (Farlley Derze)

Durante milênios, para se produzir luz artificial era necessário contar com alguma forma de combustão. Foi assim com nossos ancestrais paleolíticos das cavernas, há aproximadamente 500 mil anos, quando descobriram o valor do fogo para aquecer o grupo e iluminar o espaço noturno. A chama como fonte de luz artificial foi uma situação que perdurou até o final do século 19. Conclusão: a luz artificial tinha cheiro.

Uáu! Então nossos tataravós e toda aquela gente famosa como Platão, Cleópatra, Nero, Joana D’Arc, Galileu, Mozart e quem mais você puder se lembrar tinha o seu ambiente noturno iluminado por chamas. Podemos então inverter o velho ditado e dizer que “onde há fogo há fumaça”, além de um cheirinho nas roupas, cortinas, cabelos, tapetes, paredes, no ar... Se o ambiente era escuro, sem janelas, ou quando a noite chegava, a luz tinha seu cheiro.

De 2009 a 2011, compilei mais de 600 entrevistas em 14 capitais brasileiras com idosos que foram testemunhas da iluminação artificial produzida por uma chama. Ouvi relatos de que ao se dormir com as lamparinas de querosene acesas, à meia-luz, as narinas amanheciam pretas da fumaça. Os cabelos e os pijamas tinham os vestígios do cheiro do querosene.

Voltemos no tempo: imaginemos nossos ancestrais das cavernas, Aristóteles ou Beethoven e nossos tataravós, que também não conheceram a iluminação elétrica, essa que temos hoje – inodora.

Que tal voltarmos aos tempos de Shakespeare para nos sentarmos dentro de um teatro elisabetano e assistir a uma de suas obras à luz de velas? E a fumaça? Há inúmeros filmes de época que mostram a realidade tecnológica da iluminação artificial. Lembrei-me agora do filme Em Nome de Deus, que se passa no século 12. Lá há uma cena no interior de uma taberna onde se desenrola uma peça teatral. Nela, você verá a quantidade de fumaça que exala das velas situadas na “boca de cena” – as luzes da ribalta daquela época.

A essa altura você já deve ter concluído: uáu – a luz artificial, além de ter cheiro, tinha apenas uma cor, a cor amarelada da chama... Inclusive, a cor da luz se manteve amarelada mesmo com a chegada das primeiras lâmpadas elétricas, no século 19. Basta compararmos a chama acesa da combustão com aquele pedaço de brasa do filamento incandescente que foi engarrafado dentro de uma bolha de vidro.

Concordo com sua conclusão e acrescento um tempero a ela. Foi o químico inglês Humphry Davy quem deu o pontapé inicial para a conquista da luz elétrica ao demonstrar, em 1802, que um filamento de platina incandescia quando oferecia resistência à passagem da corrente elétrica. Em 1808 ele criou a primeira lâmpada elétrica (não era incandescente, e sim a arco-voltaico), que iluminou cidades da Europa nas duas últimas décadas do século 19 e também nossa antiga capital, o Rio de Janeiro, até 1920, além de servir ao cinema para projeções até os anos 1980.

Durante o século 19, um francês, um russo e um inglês inventaram suas lâmpadas elétricas incandescentes, mas nenhum deles teve a perspicácia de Thomas Edison.

Foi Thomas Edison quem... digamos... socializou o artefato a partir da criação de sua primeira fábrica, em 1890, a Edison General Eletric (GE). Pronto: luz elétrica em casa, luz sem cheiro. Edison tentou 2 mil de filamentos: bambu carbonizado, platina e até cabelo de seus funcionários ele arrancava de suas cabeças para fazer passar a corrente elétrica. Enfim, testava tudo o que a imaginação permitisse.

Mas foi uma simples linha de algodão (daquelas de costura) que demonstrou ser o melhor fi lamento para deixar a lâmpada acesa por aproximadamente 45 horas, o que era um recorde. Bastou impregnar a linha com alguns restos carbonizados que fi cavam depositados no fundo dos lampiões a querosene. e a linha enegrecida ficou em brasa com a passagem da corrente elétrica. Luz elétrica e luz sem cheiro.

Hoje a vedete tecnológica é o Led, isto é, os “diodos emissores de luz”. Gosto de pensar neles como uma espécie de vagalumes artificiais.

Agora você chegou a mais uma conclusão: o mundo se coloriu a partir da luz elétrica. Quem não se lembra da luz colorida da lâmpada de néon, inventada pelo químico francês George Claude em 1902? Hoje as cores luminosas estão em telas de computadores, celulares, tablets, TVs, nas ruas e nos olhos apaixonados. Contudo, justiça seja feita, o teatro deu sua contribuição às cores da luz muito antes da eletricidade, lá nos tempos de Pedro Álvares Cabral. Foi uma ideia do italiano Sebastiano Serlio, em 1551, que deu origem à iluminação colorida na cena, história que vou contar na próxima edição.

Despeço-me com um abraço a todos os iluminadores cênicos, essas criaturas geniais que criam colmeias de luz na caixa cênica.

FARLLEY DERZE
professor de História da Iluminação do Instituto de Pós-Graduação – IPOG, com sede em Goiânia-GO, Especialista em História das Artes Visuais e doutorando em Arquitetura pela UnB.
Sócio da Associação Brasileira de História Oral e Coordenador do Núcleo de História da Associação Brasileira de Iluminação - ABIL, com sede em Brasília-DF.
É diretor de Gestão e Pesquisa da empresa Jamile Tormann Iluminação Cênica e Arquitetural.
Envie suas sugestões e dúvidas para diretoria@jamiletormann.com Seu e-mail poderá ser publicado na revista LUZ & CENA




Este é o primeiro de uma sequência de 5 artigos que falam sobre A LUZ e sua relação com os 5 sentidos. Os artigos seguintes são "A cor da Luz", "O toque da luz", "O som da luz" e "O sabor da luz". A idéia do autor é oferecer uma visão sobre a inserção biológica da luz no seu diálogo com a arte, daí os títulos acerca dos 5 sentidos, de nossas sensações de olfato, visão, tato, audição e paladar.

Os artigos são uma publicação da excelente revista LUZ & CENA.
Vale a pena conhecer. Recomendo.

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Comentários

#1Ênio Padilha, Engenheiro, Balneário camboriú - SC

Quarta-feira, 30 de novembro de 2011 - 11h23min

Atendendo meu pedido o autor descreve aqui o seu projeto completo, fascinante, na minha opinião. Acompanhe:

O CHEIRO DA LUZ é o primeiro de uma série de 25 artigos que serão elaborados. O artigo do mês de dezembro será A COR DA LUZ. Para os próximos já escolhi os nomes e estão em fase de elaboração: O TOQUE DA LUZ, O SOM DA LUZ e O SABOR DA LUZ. Assim, eu fecho uma primeira sequência de 5 artigos que falam sobre A LUZ e sua relação com os 5 sentidos biológicos.

Minha ideia é oferecer uma visão sobre a inserção da luz na realidade biológica do homem e o diálogo da mesma com a arte. Por isso escolhi os títulos associados aos 5 sentidos (olfato, visão, tato, audição e paladar).
Uma vez abordadas essa associação com as sensações, de formas metafóricas em certos momentos, o próximo passo será uma abordagem no campo da percepção. Trata-se da inserção da luz na realidade psicológica (comportamento mental) do homem e sua relação com a arte. Após as abordagens no campo biológico (sensação) e psicológico (percepção), dou o próximo passo para tratar do elemento “imaginação”.

Nesse ponto espero saber defender que a criatividade artística tem como origem o exercício da imaginação, tão útil para muitos profissionais que percebem a luz como uma matéria-prima para o desenvolvimento de projetos que decolam de suas mentes até se tornarem visíveis em formas de linguagem, seja na representação gráfica seja na realidade para a qual a luz foi projetada: teatro, cinema, televisão, shows de música, dança, monumentos, edificações e cidades.

Depois disso será a vez de falar sobre luz e simbologia, onde buscarei demonstrar projetos de luz que carregam símbolos que funcionam como mensagens culturais.
Para concluir essa primeira jornada de textos, vamos tratar de luz e conceitos. Espero poder demonstrar que os profissionais que empregam a luz em seus projetos têm à disposição um berçário de conceitos que foram fecundados por experiências anteriores no campo biológico, psicológico, imaginário e simbólico. Que conceitos estão mais presentes na mente dos profissionais? Como tais conceitos se tornam visíveis em um projeto que foi materializado?

Nesse ponto teremos concluído a produção dos primeiros 25 artigos, 5 dedicados a cada campo: biológico, psicológico, imaginário, simbólico e conceitual. Portanto, terão transcorridos 25 meses Durante esse tempo, qualquer ideia e qualquer sugestão (e qualquer crítica) será muito benvinda. Abraços.

Farlley Derze

Comentário do Ênio Padilha

Tamo junto, amigo!
Espero ter a honra de publicar aqui todos os 25 artigos.


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