ADMINISTRAÇÃO - GERAL

O BURACO É MAIS EM CIMA

(Publicado em 08/05/2007)



Há muito tempo que essa constatação me incomoda. Na verdade, quem leu meu primeiro livro (Marketing para Engenharia e Arquitetura) deve ter visto, já na primeira edição, de 1998, no último capítulo, algo a respeito. O assunto foi abordado em todas as edições seguintes e nas últimas quatro (6ª, 7ª, 8ª e 9ª) de forma bastante explícita:




TRÊS MINUTOS - Ano 17 - Número 389 (Ênio Padilha, 29/10/2016)



Tem alguma coisa errada com essa afirmação de que o marketing é uma coisa capaz de solucionar os problemas mercadológicos dos engenheiros e arquitetos. O marketing não tem essa capacidade porque ele não consegue se aplicar a empresas sem que haja uma base na qual ele possa se sustentar. Essa base se chama Administração.

Então o problema (ou a solução) não está no Marketing?
Não. Está um pouco mais acima: na Administração.

As empresas de Engenharia e de Arquitetura são mal administradas. Os profissionais desconhecem aspectos primários das Teorias de Administração e das Teorias Organizacionais. Desconhecem Taylor, Fayol, Max Weber, Elton Mayo e as coisas que decorrem do que esses pensadores estudaram.

Com isso, estamos administrando nossas empresas na base do chute. Com práticas gerenciais tiradas do senso comum, muitas vezes sem nenhum fundamento (o que explica os fracassos empresariais tão comuns).

Não deixa de ser irônico o fato de que Taylor e Fayol (os precursores das Teorias da Administração), eram engenheiros e que a Administração, enquanto ciência aplicada, tenha nascido da engenharia. Os criadores abandonaram a própria criatura. As escolas de engenharia, de uma maneira geral, nunca deram suficiente atenção aos aspectos técnicos da administração empresarial nas atividades profissionais, por mais evidente que se torne a cada dia o fato de que as habilidades de relacionamento social são mais relevantes (determinantes) para o sucesso profissional do que as habilidades e conhecimentos técnicos (que são fatores mínimos obrigatórios e, portanto, commodities).

A maioria dos cursos de Engenharia e de Arquitetura ainda jogam todas as fichas na capacitação técnica dos seus alunos. E eu não sou totalmente contrário a isso. Acho até que faz sentido. Afinal o curso é de Engenharia (ou Arquitetura) e não de Administração.

É razoável que o ensino se concentre em temas que digam respeito à Engenharia propriamente dita, ou seja, às questões técnicas, científicas e tecnológicas. O erro, na minha opinião, está na visão de mundo que é transmitida pelas escolas aos seus alunos. Eles passam cinco anos recebendo, de forma objetiva ou subliminar, a informação de que o conhecimento das técnicas é condição necessária e suficiente para o sucesso profissional.

Aí é que está o erro! O conhecimento da técnica (ser um bom engenheiro ou arquiteto, do ponto de vista técnico) é sim, condição necessária.

Porém, não é condição suficiente. Longe disso. A história da Engenharia no Brasil está cheia de exemplos que demonstram isso. O mais eloqüente talvez seja o do engenheiro Emílio Baumgart, um gênio da Engenharia, considerado o pai do concreto armado no Brasil e que foi, entre 1920 e 1940, um dos maiores nomes do cálculo estrutural no mundo. Mas apesar dessa qualidade técnica inquestionável, a empresa que ele fundou, logo depois de se formar, FALIU em menos de dois anos.

O erro não está em não ensinar Administração aos estudantes de Engenharia. O erro está em não ensinar a eles que saber administrar é um pouco mais do que fundamental: é fator determinante do sucesso. Os estudantes de Engenharia chegam à Universidade com pouca ou nenhuma disposição/paciência para qualquer disciplina que não seja matemática, física, química ou matérias de aplicação tecnológica. Eles precisam ser estimulados para dar atenção a esses assuntos.

É função dos professores (ou antes, dos coordenadores) dos cursos fazê-los ver que conhecer história econômica, português, fundamentos de administração e contabilidade, noções gerais de direito e de economia não são apenas “perfumarias” do curso. São, antes, questões de vida ou morte (empresarialmente falando). Os diretores, coordenadores e professores dos cursos de Engenharia e Arquitetura precisam se dar conta de que não estão formando apenas engenheiros ou arquitetos. Estão formando pessoas que precisam estar aptas para realizar seus sonhos de progresso e felicidade.

E este objetivo está muito além da Matemática, da Física e das disciplinas técnicas.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br




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---Artigo2007 ---Administração

Comentários

#1Luiz Alberto Cogorno Menzes, Eng. Civil, Ponta Porã MS

segunda-feira, 31 de outubro de 2016 - 11h10min

Caro Colega Ênio Padilha,

Suas considerações sobre o artigo "O Buraco é mais em cima", reflete sem dúvida a realidade da grande maioria de pequenas e grandes empresas de Engenharia.
Na Escola de Engenharia onde me formei, tiveram o cuidado de incluir na ementa curricular, a disciplina de Administração. Ajudou, mais não foi suficiente.
Logo que fundei a nossa Empresa de Engenharia, em menos de um ano já tinha claro que deveria me capacitar para administrar e fazer uma boa gestão empresarial.
Percebi, que apenas ser Engenheiro não me habilitava a ser dono e gerir uma Empresa de Engenharia.
Inicie uma busca incessante em busca de conhecimento na área da administração, participando de curso de extensão e uma pós-graduação em Gestão Estratégica Empresária e continua buscando aprimoramento na Gestão Empresarial.
Meu maior erro: a Escola de Engenharia onde me formei, no ano seguinte à formatura, iniciou a oferecer a Graduação em Administração de Empresas para Engenheiros, o que desconsiderei e tive que pagar caro para me sobrepor às dificuldades.
Considero seu alerta de muita importância para os futuros Engenheiros, que seja possível que suas considerações possam permear todas as Faculdades e Escolas de Engenharia do nosso Grande País.

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