ARTIGOS

PRÉDIO DA BOLSA DO CAFÉ - PATRIMÔNIO NACIONAL (Novo Milênio)


Inaugurada em 1922 para centralizar, organizar e controlar as operações do mercado cafeeiro, na época a principal fonte de riqueza do país, a Bolsa Oficial de Café, em Santos, traduzia-se como arquitetura típica do ecletismo que caracterizou as mais importantes obras do período. Estilo e volumetria empregados ofereceram resposta compatível à monumentalidade almejada pelos idealizadores, que, durante sua construção, não pouparam esforços nem recursos para aquisição de materiais de acabamento de alta qualidade. Cúpulas de cobre, grandes figuras escultóricas, vitrais, mosaicos de mármore, robustas colunatas de granito são expressões de riqueza e prosperidade do ciclo cafeeiro no país e, ao mesmo tempo, representam a materialidade do desejo de converter o edifício da Bolsa no "Palácio do Porto de Santos"

Nos dias atuais, a imponência arquitetônica da edificação ainda repercute admiração no cidadão que transita pelo centro. Apesar do adensamento urbano ocorrido na região nas últimas décadas, a Bolsa se mantém como o edifício mais suntuoso e emblemático da Baixada Santista. A elevada torre do relógio, com mais de 40 metros de altura, se impõe, à frente do porto, como importante referência paisagística e temporal da cidade.



Caráter simbólico e expressão arquitetônica são atributos solicitados a uma edificação dessa natureza, inerentes desde a vocação - local de concentração dos negócios cafeeiros do país - à concepção final da obra. Necessidade e responsabilidade que talvez expliquem as mudanças sucessivas do projeto, três ao todo, que objetivaram aprimoramentos necessários até alcançar o escopo almejado. Preocupações que sensibilizaram a Câmara Municipal de Santos, que suspendeu as limitações legais impostas pelo Código de edificações vigente para permitir obter resultados formais e estéticos satisfatórios.

Criação

criação da Bolsa Oficial de Café teve início em 1914, através de lei aprovada pelo Congresso Legislativo de São Paulo, cujas funções visavam, sobretudo, a um maior controle comércio cafeeiro no Estado. Entre diversas medidas adotadas para evitar prejuízos financeiros aos produtores, estava prevista a eliminação de agentes intermediários nos negócios futuros.
O funcionamento foi autorizado pelo Decreto Estadual nº 2797, de 28 de abril de 1917, instalado inicialmente em salão alugado no centro da cidade de Santos. O expediente envolvia aspectos ligados à organização e centralização de operações comerciais, informações e registros de negociações realizadas pelos corretores de café no mercado e serviço de classificação do produto.

O período de funcionamento ali, na parte térrea do edifício situado na esquina da Rua XV de Novembro com Rua Santo Antônio (atual Rua do Comércio), foi de poucos anos. O suficiente para a conclusão das obras da grande sede própria da Bolsa, inaugurada pelo Governo do Estado de São Paulo em 7 de setembro de 1922.

Solenidade de inauguração das instalações da Bolsa do Café, em 7/9/1922




Torre que se eleva no canto da praça Azevedo Júnior, em frente ao porto





Projeto

aspecto atual do edifício da Bolsa de Café, com cúpulas, colunatas, granitos e mármores, cornijas, conjuntos escultóricos e frontão, presente nas fachadas, e que promove um resultado visual de grande expressão plástica, não foi inicialmente fruto de um projeto único e definitivo. A concepção seria conseqüência mais de ações deliberadas no canteiro de obras que das peças gráficas elaboradas para a execução (Ceva, 1998, pp.12-13). Projetos que foram sendo modificados conforme o andamento da obra.

Ao todo, foram localizadas três versões (Ceva, p. 13), desde a mais rudimentar, sob a forma de ilustração divulgada no jornal A Tribuna, de Santos, de 27 de abril de 1920, até as peças definitivas com desenho elaborado em aquarela.

O primeiro projeto não se afastou do resultado final. Continha cúpula na entrada da Rua XV de Novembro, torre do relógio sinalizando a faixa portuária e galeria porticada no centro da elevação voltada para a Rua Frei Gaspar.

O edifício da Bolsa de Café segue os ditames do ecletismo, utilizado em grande escala em obras de relevância institucional e pública. A fachada foi concebida com autonomia compositiva, uniformizada pela base maciça de granito vermelho, na parte térrea, que se revela como peça sólida em face da ausência das ordens. Somado aos ares de solidez, o embasamento presta-se à sustentação das ordens, que se elevam, elegantemente, até alcançar a cornija, que do alto tudo enlaça.

A organização compositiva dividida em três segmentos - embasamento, plano nobre e ático - recorda a invenção renascentista de Bramante no Palácio Caprini, obra do século XVI, em Roma, que exportou influências para o mundo todo nos séculos seguintes. A relação entre o embasamento rústico sustentando a ordem clássica articula o discurso do arquiteto pautado pelo desejo de expressar o triunfo da razão sobre a natureza informe, o naturalismo idealizado sobre a natureza ainda informal (Frommel, 1994, p. 240).

No plano nobre, a liberdade compositiva dos acabamentos de argamassa raspada contrapõe-se à sobriedade revelada no embasamento. Guirlandas, volutas, frontões rompidos, bucrânio, elementos escultóricos e a torre borrominesca afirmam a tendência em barroquizar elementos clássicos, segundo as referências deixadas por Charles Garnier no projeto do Ópera de Paris em 1862.

Construção

O local escolhido era bem próximo da primeira sede, em amplo tereno junto ao porto. Com vistas para as ruas Tuiuti, Frei Gaspar e XV de Novembro, o lugar da futura Bolsa possuía atributos visuais e comerciais invejáveis na geografia urbana do centro de Santos. Uma das esquinas do terreno constitui o antigo Quatro Cantos, lugar tradicional da cidade, formado pelo cruzamento da Rua Frei Gaspar com a Rua XV de Novembro. A morfologia curva da via nesse ponto oferecia perspectiva do terreno de resultado visual incomum na região central, elemento que não ficou sensível ao projeto. A outra esquina voltava-se para o porto, a cenografia, por excelência, do embarque de café.

Tais referências exerceram grande influência sobre a concepção arquitetônica da Bolsa de Café, em que se buscou a valorização formal das esquinas, demarcadas por balizas verticais da torre e da cúpula, como sinalização visual dos acessos principais. Trata-se de uma tendência recorrente na arquitetura internacional da virada do século XIX para o XX, influenciada pelas Exposições Universais (Paris, 1889 e 1900; Chicago, 1893; e Saint Louis, 1904), quando se dá preferência à barroquização de elementos clássicos, introduzindo volumes arredondados encimados por cúpulas e colunas de ordem colossal.

A construção de um novo e amplo edifício sobrepunha os interesses de acomodação e funcionalidade que o antigo local já não mais comportava, para assumir o desejo em edificar um monumento ao capital cafeeiro. A mesma riqueza que gerou grandes obras urbanas e arquitetônicas no Estado de São Paulo encontrou no projeto da Bolsa de Café a oportunidade concreta de materializar essa ideologia, Ana Lanna (1999, p. 108) qualifica como uma espécie de propaganda edificada:

"Pretendia difundir a riqueza do café atraindo para São Paulo capitais e trabalhadores. Fica patente nas suas intenções o projeto de cidade e de nação que a elite cafeeira formulara 80 anos antes da edificação desse monumento: a construção de uma nação e seu povo com suporte no capital internacional e nos trabalhadores brancos europeus, que aqui viriam, para com suas noções de progresso e civilidade formar o povo brasileiro, amortecendo os efeitos de 400 anos de escravidão".

A construção da Bolsa de Café entrou na agenda nacional das solenidades da Independência. A inauguração do grande edifício em 1922 encerrava o evento das comemorações do Centenário da Independência no Estado de São Paulo, que contava com o empenho direto do governador Washington Luiz para assegurar êxito.

O projeto e as obras ficaram a cargo da Companhia Construtora de Santos, empresa local fundada por Roberto Cochrane Simonsen dez anos antes. Na ocasião, a Construtora de Santos possuía invejável estrutura administrativa, com filiais implantadas nas principais capitais brasileiras, que congregavam simultaneamente grandes obras.

A Construtora de Santos também se empenhou na obtenção de recursos para a realização das obras, já que com o dinheiro conseguido pela Bolsa serviu apenas para a compra do terreno. De certa forma, descumpria-se o artigo 32 da Lei Estadual nº 1416, de 14 de julho de 1914, de criação da Bolsa Oficial de Café, que se destinava à cobrança de taxa 20 réis por saca de café exportado para cobrir as despesas da instituição e para a construção de um edifício próprio. O empréstimo bancário obtido pela Construtora foi repassado à Bolsa e seria amortizado com a emissão de títulos garantidos pela contribuição sobre a saca de café, com aval do Governo do Estado.

“O contrato entre a Bolsa de Café e a Companhia Construtora de Santos - por administração, à taxa de 10% - previa a conclusão
da obra em 27 meses (julho de 1922). O capital para tocar a
obra - estimado em Rs (sic.) 2.000:000$00 - seria provido pela Construtora, que obteve um empréstimo bancário e o repassaria
a sua cliente. No contrato em que se fazia esse repasse, intervieram as Bolsas de Café e de Fundos Públicos, a construtora e o próprio Governo; a Bolsa de Café se tornou tomadora do dinheiro, a juros anuais de 7% com carência de cinco anos e vinte para amortização; dava garantia a taxa de 20 réis por saca de café comercializada, e ficava autorizada a emitir duas séries de 1.000 títulos de Rs (sic) 1:000$000; a Bolsa de Fundos Públicos arrematou a totalidade dos títulos e o Governo ofereceu recursos orçamentários como garantia acessória se faltassem fundos na ocasião dos resgates.“
(Ceva, p.41).

Entretanto, durante o andamento da obra, o orçamento previsto foi-se mostrando insuficiente, contabilizando, na conclusão dos trabalhos, quase o triplo do custo inicial previsto. Alterações no projeto e incertezas do cenário econômico e social levaram Simonsen a cobrar gastos adicionais, custeados freqüentemente pelo Governo do Estado, que totalizaram três grandes empréstimos e fizeram alcançar 5.336:000$000 réis. Com o passar do tempo, o orçamento inicial ficou defasado. Havia sido calculado de 1920 sobre o anteprojeto, universo pouco seguro para organizar uma planilha detalhada da obra. Adotando:

“(...) câmbio de 18 d. (sic) e com salários ainda não alterados diretamente pelo grande volume de obras comemorativas do Centenário do Brasil e indiretamente pela procura da
mão-de-obra na Europa. O edifício, construído de acordo com o projeto definitivo, apresenta alterações radicais sobre o primeiro anteprojeto, como sejam: acréscimo de um andar, elevação da torre, aumento da área de cantaria da fachada, enriquecimento
da parte decorativa do palácio, cuidado especial no acabamento, etc. Essas alterações, majoradas com influência da alta de
salários e da baixa cambial, especialmente sensíveis numa grande obra de arte, aumentados também da execução de múltiplos e delicados serviços não previstos, acarretaram uma elevação considerável mas justificada do orçamento.“
(Relatório de 1923, pp. 56-57)

Todos esses fatores contribuíram para a contenção de verba pelo Governo do Estado, diante das dificuldades no pagamento de serviços extras. Em face das adversidades no cronograma físico-financeiro, a obra foi inaugurada no dia 7 de setembro de 1922 parcialmente concluída. Evento certamente marcado pela relativa frustração da população da cidade, ao ver que boa parte do edifício ainda estava por terminar. Afinal, tratava-se de uma obra complexa, que envolvia acabamento com requinte diversificado. O próprio Simonsen não escondeu a decepção com o andamento da obra, que de certa forma contrariava seus métodos de administração científica e racionalização do trabalho.

Para a inauguração, foram concentrados esforços na finalização da parte principal do edifício - a fachada da Rua Quinze de Novembro e o salão do pregão, principalmente - , sendo o restante concluído no ano seguinte. (Relatório de 1923, p. 57)

Materiais Utilizados
Ainda hoje a incursão ao interior surpreende qualquer visitante pelo requinte e qualidade dos materiais empregados, sobretudo no grande salão do pregão onde no passado funcionou o pregão - diversidade decorativa presente no extenso painel pintado por Benedicto Calixto, na clarabóia de vitral realizado pela Casa Conrado e nos pisos de mármores constituindo um imenso mosaico em diversas cores e formas. Enfim, serviços artísticos terceirizados pela Construtora de Santos visando estabelecer relativa independência da parte civil.

No térreo e na galeria do pregão concentrou-se grande número de empresas especializadas em acabamento: os elementos decorativos de gesso, parte dos lambris de madeira e os vidros coloridos foram feitos pela Sociedade Artes Decorativas de São Paulo; o mobiliário pelas Móveis Blumenschein; outra parte dos lambris e divisórias pela Marcenaria Costillas; a porta de embuia era de autoria da Oficina A. Grandi. O restaurante e os demais espaços do atico foram realizados pela Companhia Bettenfelf, do Rio de Janeiro, que se encarregou de fazer todo o tipo de acabamento: forro, piso, estuque de gesso, pintura, mobiliário etc.

Para a fachada, a Construtora de Santos adquiriu granito-rosa de Salto de Itu, desenhados pelo arquiteto E. Chaineux e executados pelos canteiros Antônio e José Longobardi. O revestimento de argamassa raspada e a modelagem ficaram sob responsabilidade de José Gerbi, e o estuque foi realizado por Nordino Mônaco, baseado no risco do arquiteto Gross. As cúpulas de cobre foram projetadas e executadas por F. Haucke (Ceva, p. 43).

Guardiões da Entrada
Logo na entrada principal descansando sobre um manto de seda, Ceres, deusa da agricultura, dos cereais e da fertilidade da terra, recepciona a todos que deparam com os imponentes portais do Palácio.

Olhando em direção ao porto, ela observa as sacas de café, que, abençoadas por suas divindades, eram embarcadas às pressas em épicos navios cargueiros para transformar o Brasil no maior império de grãos do mundo.

Ao lado direito de Ceres, com olhar voltado para a cidade de Santos, Mercúrio, deus dos negócios, das mercadorias e principalmente protetor dos comerciantes, admirava atento o crescimento da cidade que enriquecia rapidamente, tornando Santos um pólo mundial no comércio de café. Barões, princesas, reis, comerciantes e outros ilustres visitantes eram abençoados por sua magia. No braço direito, Mercúrio leva o lendário caduceu, para sagrar a fortuna almejada por esses sonhadores negociantes, aos quais, a todo momento, transpunham os portais de entrada do palácio rumo à majestosa roda de negócios do café.

Guardiões da Torre
Direcionados aos pontos cardeais e colocados no topo da torre do palácio, foram construídos quatro grandes símbolos que muitas vezes são confundidos com deuses da mitologia grega. Lá estão representados a agricultura, indústria, navegação e comércio. Mas nenhum registro de fato comprova a relação entre os símbolos do Palácio e tais figuras mitológicas. Exceto na porta de entrada, onde as semelhanças não deixam dúvidas que Mercúrio e Ceres foram nitidamente construídos nos moldes da mitologia romana. Seriam os personagens de uma fábula cafeeira ou, quem sabe, deuses de alguma mitologia desconhecida? Mas o que pode ser afirmado com certeza é que esses seres, santos, ídolos ou divindades durante muito tempo abençoaram nossos grãos, trazendo riqueza, prosperidade e desenvolvimento que transformou não só a cidade de Santos, mas produziu o grande fruto que resultou na quarta maior cidade do planeta, a metrópole paulista.





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