ARTIGOS

BRUNO STAGNO

Ao adotar as tradições locais, tanto as da arquitetura colonial como as das edificações agrícolas construídas nos bananais da United Fruit, Bruno Stagno elaborou uma expressão estética como alternativa formal àquela obtida em outras áreas da América Latina - o que chamou a atenção de críticos e profissionais do continente.

É a partir daí que se explicam sua participação no grupo gestor dos Seminários de Arquitetura Latino- Americana (SAL) e sua associação teórica com os professores da Universidade de Delft (Holanda) Alexander Tzonis e Liane Lefaivre, responsáveis pela categoria conceitual do regionalismo crítico, difundido posteriormente pelo inglês Kenneth Frampton.

Essa colaboração amadureceu a tese do sincretismo ambiental caribenho, identificado pela mistura de influências de diferentes países e raças, pelas superposições entre tradição e modernidade e pela interação entre os saberes cultos e populares da América Central e das Antilhas.

Nos anos 1990, Stagno dedicou-se ao desenvolvimento de estudos científicos sobre a influência do clima e das condições ecológicas na arquitetura dos trópicos.

Seu objetivo era superar as limitações de uma aproximação superficial e intuitiva baseada principalmente nos atributos formais e na reinterpretação da herança histórica. Com a criação do Instituto de Arquitetura Tropical, em San José, capital da Costa Rica, estabeleceu uma rede de contatos internacionais a partir da organização de seminários que contaram com a participação de críticos e especialistas de diferentes regiões: Hugo Segawa, Roberto Segre e Severiano Porto, do Brasil; Gerardo Mosquera, de Cuba; Ken Yeang, da Malásia; Rahul Mehrotra, da Índia; Geoffrey Bawa, de Sri Lanka; Tang Hok Beng, de Cingapura.

O sucesso da iniciativa culminou com a publicação de dois livros: Bruno Stagno. An architect in the tropics, de Alexander Tzonis, Liane Lefaivre e Ken Yeang, 1999; e Tropical architecture. Global regionalism in the age of globalization, de Stagno, Tzonis e Lefaivre, 2001.

Trouxe também o reconhecimento, por parte de instituições importantes, das pesquisas desenvolvidas pelo instituto, com a concessão do Prêmio Príncipe Claus, da Holanda, e a bolsa da Fundação John Simon Guggenheim, dos Estados Unidos.

Nas obras do início dos anos 1990, percebe-se significativa mudança na linguagem arquitetônica de Stagno. Na primeira etapa, ele se ancorou nas metáforas formais da arquitetura popular da Costa Rica e numa transcrição moderna das estruturas de ferro e vidro utilizadas nas plantações da United Fruit no começo do século.

Essa postura foi assumida não só como resposta à adequação climática, mas como rejeição ao modismo invasor do pós-modernismo e aos excessos formais do brutalismo local.

O tijolo, a madeira e as estruturas metálicas caracterizam as obras daquele período, seguindo a herança corbusieriana presente na utilização dos materiais naturais nas casas Jaoul - lembre-se que Stagno trabalhou no escritório da rue de Sévres com o herdeiro do Mestre, José Oubrerie, no projeto da igreja de Firminy-Vert, que está prestes a ser concluída.

A superação da antítese artificial entre regionalismo e cosmopolitismo, além da crítica ao nacionalismo restrito que alguns teóricos e arquitetos da América Latina defenderam, levou Stagno a acatar o discurso do novo sistema formal e conceitual criado pelo minimalismo e pelo high tech, adaptado às condições econômicas e técnicas locais, sem abandonar o imaginário estético e cultural da América Central.

Essa abertura criativa permitiu-lhe participar de eventos internacionais com soluções imaginativas, expressando a universalidade de seus princípios. Em 1995, foi um dos dez selecionados - de um total de 225 - em um “anticoncurso” para elaborar alternativas à proposta esquemática de reconstrução, em Berlim, do prédio da Bauakademie, de Friedrich Schinkel.

Stagno apresentaria um monumental e transparente volume de tijolos inserido em um manguezal com árvores latinas, introduzindo o trópico na cidade. Em 2004, na 9ª Mostra Internacional de Arquitetura de Veneza, cujo tema era Metamorfose, dividiu com Frank Gehry o espaço Identidade Tropical, explícita na sua obra e no Museu da Biodiversidade, projeto de Gehry para a entrada do Pacífico, no canal do Panamá. As três obras aqui apresentadas demonstram com clareza as mudanças nas concepções estéticas de Stagno.

A agência La Bandera do Banco San José (2004/2005) fecha o ciclo regionalista, baseado nas formas herdadas da arquitetura das instalações agrícolas dos bananais, identificadas na paisagem rural pelo predomínio das grandes coberturas metálicas de chapa corrugada em balanço.

Com aberturas zenitais para a iluminação e a ventilação, a edificação propõe uma solução sustentável e ecológica que permite poupar energia elétrica e reduzir ao mínimo o uso do ar-condicionado.

A persistência desses elementos justificava-se pela constância da imagem corporativa do banco, iniciada em 1994 e mantida nas cinco unidades espalhadas por San José.

A procura da identificação formal baseada em componentes arquitetônicos adotados da memória ambiental regional advém da necessidade de se contrapor às agências bancárias estrangeiras e ao anonimato das construções convencionais voltadas para essa atividade.

No edifício de escritórios Pérgola (2003/2004), o arquiteto se liberta das referências históricas e vernaculares. Ele assume plenamente a importância dos componentes ecológicos como determinantes da imagem formal, cuja qualificação estética se baseia nas proporções e na utilização ascética dos materiais.

Os recursos econômicos limitados da empresa o obrigaram a reduzir a solução a uma simples caixa retangular, com estrutura pré-fabricada de concreto e fachada de vidro.

Aqui, como em outros trabalhos - o escritório da Credomatic (2002/2003) e o Banco Centro-Americano de Integração Econômica (2002) -, Stagno abandona a representatividade simbólica da cobertura e concentra a imagem dominante no tratamento das fachadas, transformadas em sistemas dinâmicos de proteção solar.

A caixa de concreto é envolvida externamente por uma leve estrutura metálica modulada. Esta serve de suporte para o crescimento de plantas trepadeiras, que estabelecem um filtro climático responsável por diminuir significativamente a temperatura interna.

Essa experiência teve como precedentes o prédio Consórcio Vida, de Enrique Browne e Borja Huidobro, em Santiago (leia PROJETO DESIGN 195, abril de 1996); os projetos para o Sul dos Estados Unidos do designer argentino Emilio Ambasz; as fantasias naturalistas de Iñaki Ábalos e Juan Herreros; e, finalmente, as torres ecológicas de Ken Yeang, na Malásia.

O escritório da fábrica de cimento Holcim (2003/2004), em San Rafael, é a obra mais original dentre as projetadas por Stagno desde o início do século 21. A empresa desejava que o prédio distinguisse a significação da função, o que motivou o cinza como cor dominante dos volumes em concreto armado aparente que compõem o conjunto.

Em um contexto paisagístico árido e com temática que tradicionalmente se manifesta em termos formais agressivos e anônimos, o arquiteto soube criar um entorno natural que alternou a suavidade da grama e a dureza das pedras ornamentais - estas colocadas no espaço interior de interligação dos três volumes principais, em uma composição triangular aberta, definida pela continuidade das galerias e pontes de circulação.

Mas a expressão plástica mais intensa se concentra no sistema de proteção solar externo, formado por finas colunas de concreto, suporte de uma malha de cabos de aço tensionados e lonas de plástico contínuas que envolve as fachadas. A sombra protetora evita a entrada do sol no interior dos locais de trabalho.

É genuinamente criativo o contraste formal entre as superfícies rugosas de concreto armado dos volumes principais, as linhas horizontais do sistema de circulação no pátio interno e a forma livre e sinuosa das lonas, cujas sombras se projetam sobre a grama (lembrando as estruturas tensionadas de Frei Otto), e dos painéis verticais perfurados, que acompanham plasticamente o ritmo modulado das colunas.

Finalmente, a transcrição mimética dos elementos identificadores da memória histórica ambiental foi sublimada em formas contemporâneas, que, mantendo os princípios da tradição regional, manifestam uma criatividade renovada, pertinente à cultura e à estética do século 21.



Bruno Stagno estudou arquitetura na Pontifícia Universidade Católica do Chile (1962/68) e na École des Beaux Arts UP6, em Paris (1969/72). De 1969 a 1971, participou do projeto da igreja Firminy-Vert, de Le Corbusier. É autor de projetos de bancos, edifícios de escritórios, escolas e residências, entre outros. Fundou (em 1996) e dirige o Instituto de Arquitetura Tropical, na Costa Rica. É um dos precursores da arquitetura bioclimática na América Latina.

Clique AQUI para ver todas as fotos das belíssimas obras de Bruno Stagno


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