AUTOR CONVIDADO

EVOLUIR, MESMO COM AS VACAS MAGRAS
(Jean Tosetto 06/12)



Arquitetos, na condição de empresários ou profissionais autônomos, devem saber conviver com eventuais períodos de estiagem em suas fontes de renda, pois eles são tão inevitáveis quanto úteis para a reinvenção da carreira.




JEAN TOSETTO
www.jeantosetto.com





Com a secularização da cultura ocidental, cada vez mais pessoas deixam de considerar a Bíblia como uma fonte de sabedoria prática para o cotidiano, tratando esta publicação como um simples repositório de crenças religiosas, descoladas de nosso tempo e realidade. Mas o fato é que a leitura atenta e crítica da Bíblia sempre será uma confiável maneira de buscar orientação para enfrentar os desafios da vida.

Logo nos primeiros livros do Antigo Testamento lemos a história de José, vendido por seus irmãos como um escravo que foi parar no Egito. Graças à sua capacidade de interpretar sonhos José foi apresentado ao Faraó, que havia tido uma visão de sete vacas gordas que foram devoradas por sete vacas magras. José declarou, então, que o Egito teria sete anos de prosperidade que seriam seguidos por sete anos de miséria e seca, e aconselhou o regente a construir uma série de armazéns para estocar mantimentos.

José ganhou um alto posto de confiança na hierarquia do governo egípcio e, quando o tempo das vacas magras finalmente chegou, várias nações vieram até o Egito pedir socorro, uma vez que este era o único país a ter reservas de alimentos. Com a venda sistemática do excedente de sua produção para outros povos, os egípcios prosperaram ainda mais em meio a uma crise generalizada.

Se esta história não lhe servir de inspiração, então você pode considerar a Bíblia como um livro ultrapassado. Porém, os conservadores mais atentos vão tirar uma boa lição desta narrativa, especialmente aqueles que não possuem renda fixa ou emprego numa grande estatal.

O arquiteto, enquanto empresário de si mesmo, seja como proprietário de escritório ou como profissional autônomo, possui rentabilidade sazonal, sujeita aos bons e maus momentos da economia de um país. Existem épocas nas quais o trabalho parece lhe roubar todo o seu tempo, lhe exigindo dedicação total ao ofício. Em compensação, acontecem períodos de menor movimento na atividade, enquanto que as contas fixas continuam chegando.

Parece óbvio, mas muita gente ignora isso: um arquiteto precisa ter um padrão de vida adequado à sua renda mensal média, de modo que ele consiga poupar dinheiro trabalhando sempre no azul. O súbito sucesso na carreira pode ser prejudicial ao arquiteto mais jovem, que acredita que a boa fase será permanente e assume compromissos que resultam na promoção de seu status social. O carro popular 1.0 é trocado por um sedan com potência dobrada, o dono do restaurante vira seu amigo, tamanha a sua frequência no lugar, e as roupas ficam menos tempo no armário. Sem reservas e com um padrão de vida caro, este arquiteto vai passar maus bocados quando a fonte de projetos secar por uns tempos.

Já o arquiteto precavido usará o tempo das vacas magras para se reinventar. De que maneira? Estudando, lendo, viajando, pesquisando outros mercados e outras cidades, investindo em atividades lucrativas paralelas. Em suma: fazendo tudo aquilo que não tinha tempo para fazer enquanto estava mergulhado na fase das vacas gordas. Nas vacas magras o arquiteto precavido pode cuidar melhor da sua saúde e passar mais tempo com a família, ao invés de aceitar aqueles trabalhos chatos, de pouca rentabilidade e de grande risco, que ele costumava recusar sem pestanejar quando estava ocupado demais.

A propósito, uma grande tentação em tempos de vacas magras para um arquiteto, é aceitar executar um serviço que não seja exatamente de sua alçada, como regularizar uma obra clandestina, por exemplo. Para quem gosta de criar e desenvolver projetos do zero é muito enfadonho se entreter com análises de leis e normas, procurando uma brecha para acertar algo que o dono da obra sabia que estava errado desde o princípio. São justamente esses donos de obras clandestinas que costumam torcer o pano na frente do arquiteto, lhe rebaixando o valor pedido pelo trabalho.

É engraçado notar que, na época das vacas gordas, até os arquitetos menos engajados conseguem serviço. Porém, os arquitetos empenhados sabem que não podem relaxar mesmo assim, pois quando as vacas magras chegam ao pasto, somente os melhores arquitetos conseguem se sobressair. E quando estes conseguem se reinventar nos momentos de crise, eles se fortalecem ainda mais quando as vacas gordas voltarem, pois elas sempre voltam.





JEAN TOSETTO é arquiteto e urbanista formado pela PUC de Campinas. Desde 1999 realiza projetos residenciais, comerciais, industriais e institucionais. Em 2006 foi professor da efêmera Faculdade de Administração Pública de Paulínia. Publicou o livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” em 2012.

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Faça um contato com o autor: jean@tosetto.net

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