AUTOR CONVIDADO

BENDITAS E ESQUECIDAS CALÇADAS
(Jean Tosetto - 10/12)



Um grande problema de mobilidade urbana no Brasil poderia ser resolvido com a conscientização de proprietários de lotes que deveriam zelar por um espaço público de manutenção privada:
as calçadas.




JEAN TOSETTO
www.jeantosetto.com





As pessoas jovens e saudáveis possuem a tendência de serem egocêntricas, de não pensarem no próximo e de não prestar atenção em problemas que aparentemente não são lhes dizem respeito. Muitos jovens solteiros gostam de praticar esportes radicais, fazendo trilhas no meio do mato, transpondo galhos, pedras e ladeiras íngremes sem qualquer dificuldade. Alguns começam a namorar e os passeios precisam ficar mais românticos: é quando o indivíduo manifesta algum tipo de interesse em outra pessoa. O casamento traz um pouco de maturidade, mas é a chegada de um filho que realiza a transformação de comportamento no casal.

O que isso tem a ver com mobilidade urbana? Pessoalmente descobri essa relação quando comecei a empurrar um carrinho de bebê: é impressionante como as rodinhas dele transmitem com grande sensibilidade as características de um piso. Você pode caminhar pelo corredor de um Shopping Center, por exemplo, e pensar que o chão é totalmente liso e plano, mas empurrando um carrinho de bebê, você nota ondulações e pequenas irregularidades. Imagine isso transitando pelas calçadas das cidades brasileiras?

Gosto de fazer pequenas viagens nos fins de semana, para cidades com algum apelo turístico na minha região. Citarei como exemplo Pedreira - que fica no circuito das águas de São Paulo, famosa pelo comércio de porcelanas e artesanato para decoração residencial – e Itu, cidade histórica considerada o berço da República, notória pela mania de grandeza e pelo bife a parmegiana do centenário Bar do Alemão.

Pois bem, estas duas simpáticas e acolhedoras cidades são intransitáveis para quem empurra um carrinho de bebê: calçadas estreitas e esburacadas, repletas de degraus e obstáculos diversos como postes, lixeiras e placas. Ou seja: lugares que antes eram atrativos para mim e minha esposa, por causa de nossa filha ficarão sem visitas por um bom tempo - até que a menina aprenda a caminhar. Multiplique isso por várias famílias e calcule as perdas do comércio local.

E o nosso telhado de vidro é bem cristalino: experimentei dar uma volta no quarteirão de casa, em Paulínia, com a filha no carrinho de bebê. Deu certo na minha própria calçada (só faltava não dar...) e na calçada vizinha. A terceira calçada já tinha um degrau e não era pavimentada: estava na terra defronte a um terreno baldio. Tive que transitar pelo leito carroçável por uns metros e, subindo o meio-fio novamente, vi calçadas com diversos tipos de acabamento, sem qualquer padrão de continuidade. Alguns moradores inclusive deixam fiadas de tijolinhos ressaltadas para demarcar os limites de sua faixa frontal de lote.

O problema da minha família, felizmente, é transitório. Mas quem está numa cadeira de rodas, como fica? E os idosos e aqueles que precisam de muletas? Não estou tratando de um ou de outro sujeito: no Brasil são milhões de pessoas com alguma dificuldade motora permanente. O problema é gigantesco e a solução dele não passa apenas pela alçada estatal, uma vez que as calçadas, embora sejam de acesso público, tem a sua manutenção sob a responsabilidade de cada proprietário de lote adjacente.

O que os governantes podem - e devem - fazer, é estabelecer e fiscalizar os padrões de construção e manutenção de calçadas. Os arquitetos e engenheiros precisam incorporar elas em cada projeto, mesmo que isso erroneamente não seja verificado durante a aprovação do mesmo por parte das prefeituras, uma vez que boa parte delas atua em sentido contrário, cobrando apenas os projetos simplificados para conceder o alvará de construção.
De uma boa calçada, espera-se que ela tenha piso antiderrapante e largura razoável, no mínimo. Relembro aqui uma descrição do que entendo ser um bom parâmetro para calçadas eficientes, algo que já preconizava em minhas aulas do curso de Mobilidade Urbana e Transportes, ministrado no segundo semestre de 2006, na extinta Faculdade de Administração Pública de Paulínia:

“Hoje, não há uma lei específica para determinar o projeto de uma calçada, mas está se tornando uma convenção dividi-la em três faixas:

A) A primeira, que acompanha a guia sobre a rua, seria destinada à colocação de equipamentos e mobiliário urbano, como placas de sinalização, rampas de acesso, ponto de ônibus, bancas de jornal, caixas de inspeção das instalações dos serviços públicos como água e esgoto, além de árvores de pequeno porte.

B) A faixa central que, recomenda-se, seja reservada exclusivamente ao passeio do pedestre propriamente dito, deve ter largura para pelo menos dois usuários de cadeira de rodas (1,5 metro), sendo livre totalmente de qualquer obstáculo ou barreira física, como degraus e grades.

C) A terceira faixa, próxima às edificações e limites de lotes, seria destinada, dependendo do caso, para a colocação de jardineiras ou canteiros gramados, mesas e cadeiras de estabelecimentos comerciais, com possibilidade de colocação de toldos que não prejudiquem visualmente a mobilidade das pessoas.”

Há uma longa caminhada para resolvermos o problema da mobilidade urbana no Brasil. O primeiro passo, literalmente, é cuidarmos de nossas calçadas. Elas não são meras extensões de nossas casas e outras edificações, senão um elo com a cidade e com os outros. Portanto, chega de egocentrismo.





JEAN TOSETTO é arquiteto e urbanista formado pela PUC de Campinas. Desde 1999 realiza projetos residenciais, comerciais, industriais e institucionais. Em 2006 foi professor da efêmera Faculdade de Administração Pública de Paulínia. Publicou o livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” em 2012.

Visite o website: www.JeanTosetto.com
Faça um contato com o autor: jean@tosetto.net

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