ARTIGOS DE ÊNIO PADILHA

O FACEBOOK FAZ MUITO BEM O MAL QUE NOS FAZ

(Publicado em 01/05/2014)



Há algumas semanas li a notícia de que o Banco do Brasil desativou a integração que havia feito entre o seu internet bank com o Facebook. Isso depois que um cliente descobriu os detalhes dessa integração e o risco a que os clientes do banco estavam expostos. (veja AQUI)

Fiquei me perguntando: por que diabos tudo precisa ser integrado ao Facebook? Que bobagem é esta? As pessoas precisam cair na real de que a internet não se limita ao Facebook. O Facebook é apenas um cercadinho que o Zuckerberg criou e no qual parece ter a firme intenção de aprisionar o maior número de pessoas que puder.

Algumas pessoas são mais espertas e, ao entrar mantém consigo a chave da porta da saida. E desfrutam das outras maravilhas da internet quando querem. Mas algumas quando entram no Facebook, devolvem a chave de saída para o mestre Zuck (o grande irmão) e nunca mais saem de lá. Aí, se o Banco do Brasil quer fazer contato com elas é preciso ter agências lá no cercadinho. Que coisa triste!

Eu até gosto do Facebook. Tem alguns benefícios inquestionáveis. O principal deles é a oportunidade de reencontrar velhos amigos. Outro é poder manter contato com os amigos atuais, de forma muito simplificada
Mas não há como negar que muitos levam isso a um nível extremamente exagerado. Não faz o mínimo sentido!

Tenho amigos jornalistas, qualificados, que produzem conteúdo de qualidade, mas que se sentem praticamente obrigados a colocar o seu trabalho à disposição do Zuckerberg. Estão produzindo conteúdo no Facebook. E ali (na fazenda do Zuckerberg) os lucros são dele. De onde você acha que sairam os 22 bilhões utilizados para comprar o Whatsapp? Claro que foi da exploração comercial do conteúdo produzido no Facebook. Ou não?

Os jornais, TVs, emissoras de rádio, portais e blogs estão no Facebook porque foram obrigadas a isso. O facebook é hoje o único lugar na internet que reune uma multidão desse tamanho e com essa poderosa possibilidade de conexão.

Isso tirou publico dos outros veículos. Não há como negar. Se eu não estivesse no Facebook meu site teria sofrido uma redução considerável de visitantes. Hoje, 42% do público do meu site vem do Facebook. Isso é uma coisa absurdamente alta. Imagine você ter uma empresa onde 42% do seu faturamento provém de um único cliente...

Ainda assim, eu me considero da Resistência. Honestamente, torço para que o Facebook perca parte do seu absurdo poder. E que não seja substituído por outra rede social com semelhante força de dominação. Torço que a internet desenvolva um sistema de conexão, integração e compartilhamento entre sites e blogs que substitua o Facebook e mantenha a integridade, a liberdade e a independência que são a essência da internet.

O Facebook não precisa acabar. As redes sociais tem uma função importante: permitir que as pessoas possam se expor e expor as suas idéias sem a necessidade de criar para si uma estrutura própria (um site ou um blog).

O que me incomoda é essa sanha absolutista do Facebook, que quer tomar para si o controle da internet. E, obviamente, me incomoda a ingenuidade dos que não percebem que estão sendo explorados.

Nunca é demais lembrar a frase do Professor da Universidade do Texas, Rosental Calmon Alvez (referindo-se ao conteúdo na internet): "Toda vez que você recebe algum produto grátis é porque o produto é você."

No caso do Facebook, nós somos o produto. E quem comercializa esse produto é que está ficando mais rico (e poderoso) a cada dia.

Os sites, blogs e portais estão cada vez mais À MÍNGUA. Por mais que aumente o número de internautas, vai todo mundo pro mesmo cercadinho (que, à esta altura, já se tornou uma grande propriedade). Não havendo público, não há investimento em publicidade nos blogs e nos sites. Enquanto os cofres do Zuckerberg ficam cada vez mais cheios, porque, onde está o público estão os investimentos em publicidade.

O Facebook tem seus méritos, claro. Descobriu a fórmula para atrair e manter cativos milhões e milhões pelo mundo inteiro. Temos de reconhecer que eles são muito bons nisso. E fizeram isso sem impor nada à força. Ninguém é obrigado a ficar no cercadinho azul. Mas a verdade é que as pessoas ficam. Por competência do Facebook? Sem dúvida. Mas principalmente por incompetência dos concorrentes.

Tenho acompanhado com tristeza o número de sites e blogs desativados (ou abandonados) e depois encontro os mesmos autores publicando conteúdo no facebook. Isso pra mim só tem um nome: RENDIÇÃO.

Eu sou da resistência. Evito publicar conteúdo no Facebook. Faço a minha parte para tirar as pessoas do cercadinho azul, oferecendo links para conteúdos fora da cerca. Faço a minha parte para lembrar as pessoas que ainda existe vida fora do Facebook.

Eu tenho de estar no facebook para garantir a sobrevivência do meu site, que é insignificante no universo da internet. Muitos outros autores estão fazendo o mesmo, por pura necessidade.

Mas o Banco do Brasil não precisa disso. As grandes instituições não deveriam alimentar de forma tão escancarada uma ameaça estratégica. Ou você acha que alguém que, numa canetada, gasta 22 bilhões para comprar um concorrente não representa uma ameaça estratégica?



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br




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(O título deste artigo é inspirado numa frase que o meu irmão, Carlos Alberto, sempre falava sobre a Rede Globo - "A Globo faz muito bem o mal que nos faz", dizia ele...)



---Artigo2014

Comentários

#1Lucas Martins Gonzaga, Engenheiro Civil, Sombrio/SC

quinta-feira, 01 de maio de 2014 - 11h52min

Se compararmos o facebook e orkut, é provável que o primeiro também tenha um tempo estimado de vida não muito longo. Entretanto o que assusta é que grandes instituições não faziam parte do orkut e agora aderem a essa rede social.

Comentário do Ênio Padilha

Poisé, Lucas.
Olhando assim (e, mal comparando) o Facebook parece um virus que volta fortalecido contra um sistema imunológico frágil.
E a tendência é que o tempo de duração (em alta) seja bem maior, do que o do Orkut, concorda?

#2Paulo Sergio Marques, Engenheiro Civil, Limeira

quinta-feira, 01 de maio de 2014 - 20h50min

Eu compartilho do mesmo sentimento, na verdade o que tenho percebido é que as pessoas e não somente os jovens tem se transformado em uma espécie de zumbi digital, não tem nada mais importante que expor de maneira escancarada a sua vida em redes sociais e isso é feito a qualquer hora, em banco de faculdade, enquanto atravessa uma rua, durante o trabalho, nossa sociedade está se transformando em uma legião com 100% do tempo conectado enquanto as relações humanas estão se esvaindo e se tornando cada vez mais frágeis. Acredito que em algum período do desenvolvimento paramos de pensar, porque em todo esse tempo que é despendido online nada de útil é produzido apenas um monte de coisas fúteis e vazias são mandadas para nuvem, foi perdido totalmente o sentido da internet que deveria ser utilizada para a disseminação do conhecimento e desenvolvimento da inteligência humana.

#3Lucas Martins Gonzaga, Engenheiro Civil, Sombrio/SC

quinta-feira, 01 de maio de 2014 - 23h17min

Olá Ênio,
O tempo de duração do facebook realmente é bem maior que do Orkut (que era praticamente conteúdos pessoais). O \"face\" envolve muita coisa, desde conteúdos pessoais, profissionais, até grupos de compras e vendas. Também não quero criticar tudo, pois tem muita coisa boa que já foram citadas, E da mesma forma que a Globo tem também ótimos programas o problema é além disso, é na concentração do poder.
Em relação a indignação do nosso colega Paulo Sérgio no comentário anterior eu pergunto: Quem hoje num almoço de família, ou reunião de amigos não encontra sempre um conectado nos \"áifones\" da vida?

#4Rafael Merigue , Engenheiro Eletricista, Londrina | Paraná

sexta-feira, 02 de maio de 2014 - 12h27min

Caros senhores,

O grande lance se refere aos conteúdos e a comunicação ficarem dentro do facebook. Em vez de você postar um link em sua página que remete ao conteúdo, existem corporações que alimentam seus clientes e parceiros pelo face, ou seja, a pessoa nem precisa sair do face e não enxerga a internet fora dali.

Tal como os cassinos fazem: sem janelas e relógios, você fica condicionado a consumir tudo o que ali aparece, sem precisar procurar, sem ao mesmo se lembrar que tem um mundo lá fora.

Acredito, de acordo com o Senhor Ênio, que deveríamos usar o face com mais pudor, como uma plataforma que converge diversos conteúdos e pessoas e não como o único fornecedor de comunicação!

Comentário do Ênio Padilha

Rafael
A sua comparação com os cassinos foi muito feliz. Certíssimo!
E, como sabemos, existe uma lei não escrita dos cassinos: a casa sempre vence.

#5MARGARETE MARIA, agrimensora, Goiania

sexta-feira, 02 de maio de 2014 - 14h46min

Ênio, Paulo, Lucas,
Somos iguais em "sentimentos" em relação ao face. E o Rafael foi muito feliz na comparação com os cassinos. Mas a coisa não termina por aí. Grande parte das pessoas hoje (principalmente os jovens), só sabem se comunicar virtualmente. Vi com tristeza, em um curso que fiz, que os cérebros dos alunos de hoje (e de faculdade...rss) se encontram dentro de um iphone, através do whatsapp. Não sei definir se eu sentia pena ou raiva, vendo os alunos trocarem cola, através do whatsapp e ainda mais, enviando para alguém "la fora" responder e os professores fingindo, por comodismo ou indiferença, não sei decifrar, que não viam.... Lamentável. E como está difícil encontrarmos alguém pra trabalhar que consiga ficar longe do face ou whatsapp pelo menos durante uma hora.... abraço a todos.

#6Alvaro Augusto de Almeida, Professor de Engenharia, Curitiba

sábado, 03 de maio de 2014 - 15h55min

Caro Enio,

Concordo com você quanto ao caráter de "Grande Irmão" do facebook, de que a intenção de Zuckerberg é só ganhar dinheiro, sobre os problemas de segurança, etc. Contudo, o facebook está me permitindo uma integração com meus alunos e ex-alunos que simplesmente não era possível na era dos e-mails e até mesmo do Orkut. Não sei ainda para que servirá isso, mas essa é outra história! ;0

Comentário do Ênio Padilha

Precisamente, caro Álvaro
Por isso escolhi aquele título para o artigo. Porque é impossível dizer que o Facebook não tem utilidade, ou que não é divertido, ou que não é melhor do que qualquer coisa que já tenha surgido na internet.
A questão é que essas coisas boas (que o Facebook realmente tem) trazem consigo um preço que está sendo cada vez mais cobrado muito em função da ingenuidade dos que não se dão conta de que existe algum perigo.
A cada blog desativado, a cada site fechado, a cada produtor de conteúdo que abandona sua casa própria e vem trabalhar de graça na segurança do Facebook tem menos um lá fora fazendo resistência ao poder ilimitado do Grande Irmão.
O Facebook não está se impondo sobre nós. Nós é que estamos entregando a ele essa força toda.
Por isso eu disse, no nono parágrafo que "o Facebook não precisa acabar". Só precisamos dar a ele um valor compatível com o bom senso.

#7Sandro Alencar Fernandes, Analista de Sistemas, Rio do Sul

segunda-feira, 05 de maio de 2014 - 11h29min

Muito bom texto e reflexão Ênio e também leitores que compartilharam suas opiniões. Acredito que o ponto maior é justamente o exagero. Sim o Facebook tem sua importância, como tem os sites, blogs, e-mail, Google+, Instagram, WhatsAPP e todos os outros. O ponto crucial é a distinção da importância e o exagero que fazemos ao usar cada uma dessas coisas.

Exemplifico, falando do papel. Muitas vezes nossa necessidade e interesse de sermos digitais e "moderninhos" nos faz querer usar as últimas tecnologias para tarefas que não faz sentido usar.

Quantos de nós já pegou um pedaço de papel para anotar algo e se pôs a pensar, nossa que arcaico, poderia usar um documento no meu notebook e colocá-lo na nuvem! Mas pra que? Precisa mesmo ou é exagero.

Obrigado e parabéns novamente pelo texto.

Comentário do Ênio Padilha

Boa, Sandro.
Pegou o espírito da coisa!

#8PETRÚCIO LIMA, ARQUITETO, MACEIÓ. ALAGOAS

segunda-feira, 05 de maio de 2014 - 23h20min

POIS É ÊNIO. FICO FELIZ EM LER ESTE SEU ARTIGO
AINDA NÃO HAVIA TIDO CONHECIMENTO DE ALGUMA MANIFESTAÇÃO DESSE TEOR SOBRE O \"CERCADINHO\" QUE TAMBÉM CONSIDERO UMA AMEAÇA ESTRATÉGICA.
CONTINUO NÃO SENDO MODERNINHO. ABOMINO ESSE VÍCIO (DROGA) CHAMADO FACEBOOK.
PARABÉNS !

#9Sônia Tomasoni, Professora, SSA

sexta-feira, 09 de maio de 2014 - 23h15min

Caro Ênio

Ao te ler lembrei-me do livro de G. Orwel,em que o \"olho\" intimida os passos de todos. Sobre o poder do Face ( queridinho da vez) tbém terá seu declínio..Restam questões, as quais ñ temos respostas, até temos,né? rs Esse latifúndio cabe na vida do seu dono?
abç.,

#10Eddie dos Santos, estudante, Natal

sexta-feira, 11 de setembro de 2015 - 01h23min

Sr. Ênio, o problema são só dois: um, as próprias pessoas, que são livres para escolher e preferem o Facebook apesar de existirem inúmeras outras redes. Segundo, é que o Facebook é ótimo em oferecer o que oferece: interação entre as pessoas. O Orkut não durou por não saber \"monetizar\" o negócio: se a coisa for gratuita, como irá durar? Nada mais justo ter tantos bilhões em dinheiro, jã que existem bilhões conectados. No dia em que aparecer algo melhor, mais eficiente, as pessoas migrarão naturalmente. Não há nada que demonizar o negócio. Pense que isso tudo ocorre porque nós, no planeta inteiro, somos como nós somos. Os demônios somos nós, que ainda continuamos os mesmos homens primitivos de 400 mil anos atrás, só que dentro de cidades. Simples assim!

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