NA MINHA FRACA OPINIÃO

HOUVE UM TEMPO EM QUE O MEU SONHO ERA
SER TRATADO COMO BRANCO

(Publicado em 15/06/2014)



Eu nasci negro. E pobre (muito pobre). Até meus sete anos de idade não tinhamos eletricidade em casa. Água encanada só lá pelos 10 anos. Geladeira, fogão a gás, banheiro dentro de casa... tudo isso foram coisas que eu só conheci quando já tinha 11 ou 12 anos.

Meu pai era um negro trabalhador. Minha mãe era uma cabocla guerreira. Eles deram a mim (e aos meus seis irmãos) a educação e o caráter. Não tiveram a oportunidade de nos dar a formação de nível médio nem universitária. Minha família me manteve na escola apenas até a quinta série do primário. Daí pra frente (depois de três anos sem estudar, trabalhando para ajudar na renda da família) fiquei por minha própria conta.

Era um tempo difícil (início dos anos 1970), um tempo em que não era fácil ser negro no Brasil. As oportunidades eram mínimas. Negro que não sabia o seu lugar recebia severas sanções sociais (ouso dizer aqui que só quem é negro e viveu naquela época sabe do que eu estou falando).

Naquela época, meu sonho sempre foi "ser tratado como branco". Porque branco era tratado com respeito e tinha oportunidades e reconhecimento.
Vislumbrei um caminho: estudar e me tornar alguém produtivo e respeitável.

Dediquei toda a minha juventude aos estudos, sem cotas e sem privilégios. Abri mão de inúmeros atalhos e armadilhas. Me formei engenheiro, abri meu escritório, casei, tive filhas, dei a elas boa educação, fiz especialização, fiz mestrado, dediquei esforços pessoais para obter algum nível de excelência no que eu faço. Tenho uma atividade produtiva, gero empregos e pago impostos (muitos impostos).

Posso dizer que alcancei o meu objetivo: hoje sou tratado como um branco. O meu governo me reconhece como um branco. Faço parte da elite branca e reacionária que discorda do PT e dos seus métodos. Sou culpado pelas mazelas do país. Sou o bode expiatório que o Sr. Lula sempre evoca para exorcizar tudo o que há de errado no Brasil.

Em momento algum eu concordei com os xingamentos à presidente no dia da abertura da Copa (disse isso algumas vezes). Mas discordo ainda mais das palavras raivosas do ex-presidente Lula dirigidas à nós, da classe média (brancos e negros, como eu).

Trabalhar, ser produtivo, gerar empregos e pagar os impostos não retornáveis do Brasil não nos dá nenhum privilégio. Lula quer que a gente se sinta envergonhado de ser o que somos. Quer que a gente seja açoitado moralmente. O seu discurso em defesa da presidente foi um comando para a militância: senta o pau nesses caras brancos, com diploma universitário e algum recurso financeiro! Eles são o câncer desse país!

Nosso ex-presidente (e líder de muitos amigos meus) é um desagregador, racista e grosseiro. Deveria se inspirar em Nelson Mandela que, depois de 27 anos sofrendo nas mãos da elite branca sul africana teve a grandeza de jamais pregar a separação, a vingança ou a segregação do povo no seu país.

Mas... quem nasce para Luiz Inácio nunca chegará a Mandela. Infelizmente.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br



---Artigo2014

Comentários

#1Jean Tosetto, Arquiteto, PAULINIA

domingo, 15 de junho de 2014 - 15h31min

Caro Ênio, tanto a família de meu pai como de minha mãeé bem numerosa. Nossas origens são parecidas: poucos recursos e muita vontade de vencer. Posso dizer que todos os meus tios são vencedores, em maior ou menor grau, e nenhum deles cortou caminho para chegar onde chegaram.

Infelizmente querem nos fazer sentir culpa por tudo o que conquistamos com trabalho, dedicação e fé em Deus. Trabalho, dedicação e fé em Deus é tudo o que essa gente despreza. Triste, muito triste.

Comentário do Ênio Padilha

Tá feia a coisa, amigo Jean.

#2Ligia Fascioni, Engenheira Eletricista, Berlim, Alemanha

segunda-feira, 16 de junho de 2014 - 06h14min

Querido Ênio, que história mais linda a sua. Nasci branca e, apesar de nunca ter sido rica, sempre pude estudar. Mas nasci mulher, o que não facilita muito a vida de quem estudou eletrotécnica e depois engenharia. Não passei nem de longe as dificuldades que você passou, mas me dá muita tristeza ver que depois de vencer tantos obstáculos, a pessoa ainda tem que escutar o que esse senhor que foi eleito presidente tem a dizer.
Foi para não sermos mais tratados como criminosos, que é como são tratadas nesse país as pessoas que geram empregos e riqueza, que desistimos de continuar aí. Não nos orgulhamos disso, mas tem horas que cansa.
Abraços e parabéns :)

Comentário do Ênio Padilha

Lígia, querida.
Lamento, pelo Brasil, que duas pessoas indispensáveis como você e o Conrado não sejam tratados aqui com um décimo da atenção e reconhecimento que merecem.
Os pobres e descamisados (para usar o termo de um dos aliados do Lula) merecem respeito e oportunidades. Mas isso não deveria ser feito cortando as asas de quem estudou, se preparou e faz da excelência sua meta (é o caso de vocês dois).
Triste esse Brasil desses nossos dias.

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