AUTOR CONVIDADO

EQUAÇÃO MEIO RESOLVIDA
(Edemar de Souza Amorim)


EDEMAR DE SOUZA AMORIM
edemarsamorim@gmail.com





O efeito mais nefasto das décadas de crises intermitentes e dos esforços para recomposição das contas públicas, foi a transformação do Brasil em uma nação de pensamento tacanho e monocromático, voltada apenas à produção de resultados financeiros e superávits primários para saldar seus compromissos.

O foco (ou melhor, a sanha) na arrecadação de recursos tornou-se a única competência pública brasileira levada a excelência. Nosso país constrói hoje, verdadeiras máquinas de criação, instituição e cobrança de taxas, tarifas, empréstimos compulsórios, contribuições e impostos com eficiência inversamente proporcional à sua capacidade de gestão do dinheiro arrecadado.

O governo brasileiro, preocupado exclusivamente com os impostos não recolhidos pelos produtos que atravessam a Ponte da Amizade em Foz do Iguaçu, legaliza o contrabando, organizando um mecanismo de apuração e cobrança eletrônica de impostos digna de países de primeiro mundo. Por outro lado, ignora o consumidor, atravessa a legislação, abandona suas normas e padrões de produção e segurança, entregando à sociedade a tarefa de se proteger do risco oferecido pelos produtos de qualidade “alternativa”, agora legalizada.

Esta situação absurda repete-se na engenharia, expondo a sociedade a um risco ainda maior. Pois a fiscalização do recolhimento de tributos parece ter se tornado a maior função das autarquias, em detrimento da segurança dos cidadãos, que se vêem à mercê de situações como a não observação de normas técnicas, a prática ilegal da profissão ou a má formação profissional.

Um engenheiro trava hoje uma batalha quase perdida em seu exercício profissional. Com custos crescentes para sua atualização constante, honorários ou salários decrescentes pela concorrência predatória e a falta de representação institucional pela fragmentação das associações e sindicatos. Em resumo, se ganha pouco, se gasta muito e não se recebe sequer a contra partida devida em serviços públicos.

Há pouco foi anunciado o subsídio dado pelo CREA à ABNT, como uma iniciativa para reduzir o custo atual de aquisição do mais fundamental instrumento de trabalho do engenheiro, a Norma Técnica. Mas como é possível um país sequer aventar a possibilidade de desenvolvimento econômico, se a aplicação de normas técnicas depende da capacidade de investimento pessoal do profissional ou da empresa?

O financiamento da ABNT pela venda de Normas Técnicas é mais uma aberração brasileira. Seu subsídio (esmola, na verdade) pelo CREA é uma afronta à sociedade e aos engenheiros e arquitetos, cujo acesso gratuito e permanente às suas Normas Técnicas deveria ser custeado integralmente pelo governo e não objeto de pirataria e comércio ilegal na internet.

É preciso voltar a enxergar a engenharia brasileira com a seriedade que merece, como ferramenta para o desenvolvimento econômico, como ciência produtora de conhecimento, como motor da inovação tecnológica.
Não apenas como uma vaca leiteira sustentando um estado gordo, pesado e ineficiente.





EDEMAR DE SOUZA AMORIM é engenheiro civil formado pela Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e foi presidente do Instituto de Engenharia
abril de 2007 até abril de 2009.

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as segundas-feiras.

Faça um contato com o autor: edemarsamorim@gmail.com

Comentário do Ênio Padilha

Meu colega e amigo, Engenheiro Edemar Amorim, fecha com chave de ouro esta semana de estreia.
Os dez artigos que serão publicados aqui, nesta Temporada Primavera são todos deste nível. Você, amigo leitor, será brindado com manifestações de lucidez e inteligência de uma das mentes brilhantes da Engenharia Brasileira.
Prepare-se.

Comentários

#1Moacir de Souza, Eng Civil e Segurança no Trabalho, Petrolina

sexta-feira, 15 de agosto de 2014 - 22h40min

Participei de algumas obras para prefeituras aqui no interior de PE através de uma empresa cujo proprietário era um laranja sendo que seu procurador que gerenciava comprava e recebia os valores superfaturados, sendo que esta empresa nunca registrou nenhum trabalhador, nunca recolheu as leis sociais dos trabalhadores, denuncie esta empresa as referidas prefeituras, e nada aconteceu, denunciei a procuradoria do trabalho e até agora nada aconteceu, Vou denunciar a policia federal mas estou com medo pois posso receber ou ate ser punido com morte por isso , mas vou em frente porque a corrupção tem que acabar neste pais.

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