AUTOR CONVIDADO

PINGÜINS DE GELADEIRA: O MEDO DE ERRAR
(Dorys Daher)


DORYS DAHER
dorysdaher@hotmail.com






Às vezes certos clientes entram em pânico quando mudam de status econômico. Deixam a moradia simples, e pretendem mudar-se para uma casa de 1.200 m² em condomínio de luxo na Barra da Tijuca, zona nobre do Rio de Janeiro. Pela primeira vez, o sucesso econômico irá se materializar no novo “habitat”, encravado no coração de um bairro sofisticado. Vêem-se cercados por uma vizinhança que, na cabeça deles, “com certeza” iria criticá-los por sua origem modesta.

De repente passam a desfrutar de todos os confortos e alegrias da classe média alta, obrigando-se a construir um cotidiano elegante, à altura da posição que o dinheiro agora lhes proporcionam.

O arquiteto será o mediador da transformação, o mágico capaz de conduzi-los pelos desvãos da insegurança, livrando-os do medo que os ameaça: o de serem acusados de “cafonas” pela nova classe a qual pertencem agora. Além de poupá-los de um desgaste entre eles próprios.

Passam a freqüentar ambientes mais bonitos, tendências diferentes e estilos com os quais jamais haviam visto. De repente, querem ter tudo aquilo que lhes parece digno de sua posição atual. Desejam incluir, na nova vida, todos os objetos pelos quais se encantaram em suas viagens pelo mundo. “Que tal colocar aquela mesa da Indonésia sobre o tapete persa? E a cadeira Luiz XV junto das girafas africanas? E a cabeça de touro que compramos na Espanha? Será que combina com o biombo igualzinho ao que vimos em Tóquio”? Bate o horror, a paranóia, o pavor de serem considerados ridículos e de se exporem às risadinhas de vizinhos e conhecidos. Sentem-se inseguros para assumir seus próprios gostos, ou para harmonizar todas as idéias que lhes passam pela cabeça.

Cafona! Essa é uma palavra ameaçadora, espécie de fantasma a assombrar tantas famílias que ascenderam socialmente! Mas, afinal, o que é ser cafona?

A definição do vocábulo, no Dicionário Aurélio XXI é a seguinte: “Cafona: diz-se da pessoa que, com aparência ou pretensão de elegância, foge ao que convencionalmente é de bom gosto; brega, caipira, fajuto, jeca, fuleiro.”

O dicionário Houaiss estica a definição e prolonga ainda mais o sofrimento de quem incorre no pecado do ridículo:“Cafona: que ou o que revela mau gosto, convencionalismo, pouca sofisticação ou pouco trato social; diz-se de ou o que tem ornamentação ou aspecto exageradamente ostensivo, espalhafatoso, sem bom gosto ou harmonia e tendente ao ridículo ou à vulgaridade; que ou o que é simplório, sem refinamento algum. Casca-grossa, provinciano, chinfrim, desatualizado, grosso, matuto, mocorongo, pé-duro”. O que caracteriza o cafona, afinal? É o pingüim de geladeira? As andorinhas na varanda? O anão de jardim? Não sei. Sei que é possível brincar com esses paradigmas de cafonice e resgatar, de forma lúdica, todos esses símbolos, transformando-os em estilo, em decoração, em marca de personalidade e bom humor.

Em arquitetura, o que evitar para não ser "over", vulgar, confuso ou cafona? Em um projeto arquitetônico, na minha opinião, seja lá qual for, reforma, construção ou design de interiores - vale tudo, até mesmo a mistura de estilos. Desde que se perceba, de forma clara e evidente, uma linha de pensamento que costure uma idéia do início ao fim. A presença desse fio condutor vai tecendo os espaços, os blocos harmônicos de massas e vazios, luz e sombra, cor e textura realizando o desejo de cada um. Se a proposta é brincar de misturar estilos, se é divertir-se com o uso de objetos simbólicos, de época, de vanguarda ou não, acredito que serão bem aceitos se forem compreendidos, isto é, desde que fiquem claras as intenções de cada criador. Mesmo que o projeto proposto esteja fora do que está na moda, ou do que é considerado elegante por tanto tempo, a sinceridade da criação é tão determinante, que aquilo que é prejulgado como de mau gosto, ultrapassa esse limite previamente estabelecido e assume uma forte expressão.

É possível tirar partido dessa mistura estética, dessa confusão de estilos, organizando um caleidoscópio de imagens onde estão sugeridas as mais diversas escolas. Desde que, para isso, a idéia esteja a serviço da criação de um espaço eclético, bizarro e engraçado. Pode-se trabalhar o lúdico. Porque é intencional, está previsto, atinge o fim proposto no início do trabalho. Há unidade nas citações.

Mesmo que seus olhos não se sintam atraídos por tal concepção estética, percebe-se que há, ali, uma idéia clara e dirigida. Há, um movimento capaz de revelar um pensamento encadeado, percebido pela leitura dos elementos que concretizaram o projeto. Existiu um conceito.





DORYS DAHER é arquiteta e urbanista. Dirige o escritório DG Arquitetura, no Rio de Janeiro e é autora do livro Cimento Batom e Pérolas - Quem tem medo de Arquiteto?

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as quartas-feiras.

Faça um contato com a autora: dgarquitetura@dgarquitetura.com.br

Comentários

#1Valderez de Pinho, Psicanalista, Belo-horizonte

quarta-feira, 20 de agosto de 2014 - 21h52min

Gostei muito:

Vale tudo desde que tenha coerência e harmonia.

Respeito às escolhas e aquisições pessoais. Afinal, cada um tem seu estilo!

Descontração e algumas pequenas regras para brincar...

Bem, entendi o que quis entender...

Beijo

#2Clotilde ♥Fascioni, escritora, Florianópolis-SC

quinta-feira, 21 de agosto de 2014 - 09h33min

Adorei, parabéns pelo texto muito claro e objetivo. Aprendi um pouco mais... ;)

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