AUTOR CONVIDADO

RISCO À SOCIEDADE
(Edemar de Souza Amorim)


EDEMAR DE SOUZA AMORIM
edemarsamorim@gmail.com





Estamos assistindo a mais um duro golpe na engenharia nacional, patrocinado pela incompetência do poder público, avalizado pela ignorância da imprensa e aprovado pela inércia da sociedade. Comprometendo ainda mais o crescimento do país e a boa gestão dos recursos do Estado.

A contratação de serviços de engenharia na modalidade de pregão eletrônico, tão alardeada como solução para todos os problemas, vem institucionalizar a mediocridade como critério de contratação, trazendo sérias preocupações sobre a qualidade das novas obras públicas e pela segurança dos cidadãos.

A falácia do preço como critério de contratação transforma serviços personalizados e especiais em commodities. Lançam no mesmo saco, projetos de engenharia de altíssima complexidade e vitais para a infra-estrutura brasileira e o feijão da merenda escolar, como se fossem ambos, passíveis dos mesmos critérios de compra.

É óbvio que, à luz dos escândalos revelados diariamente pela imprensa, medidas de controle dos gastos públicos deveriam ser tomadas imediatamente. O sistema de compras governamentais está podre e corrompido e, para garantir a lisura deste sistema, era necessária instalação e difusão do uso do pregão eletrônico. Único sistema capaz de reduzir o alarmante número de fraudes e de superfaturamento de pedidos.

Mas o sistema de pregão não é um elixir milagroso que cura da unha encravada à queda de cabelo. Existem produtos e serviços que podem ser comprados com sucesso por meio deste sistema. A grande maioria, diga-se de passagem. Porém, é preciso aceitar o fato de haverem exceções a todas as regras e admitir que existam serviços que não podem ser padronizados a ponto de ir a leilão.

Não admitir a existência de exceções é tentar ignorar princípios básicos de economia, a relação custo-benefício e preço-qualidade. A contratação por meio do pregão eletrônico institucionaliza a mentalidade do preço mínimo, da qualidade mínima, do tapa-buraco. Este sistema recompensará o material inferior, o profissional inexperiente, o serviço mal feito, o planejamento mínimo, as empresas em dificuldades

É hora das autoridades brasileiras acabarem com os esqueletos, com obras inacabadas ou mal-acabadas. É hora de projetos e serviços de engenharia no Brasil, serem contratados pelos resultados financeiros futuros. Pelo impacto na economia, na geração de empregos, no escoamento da produção, no crescimento da indústria e do comércio, na vida dos cidadãos ou na administração pública. Nunca pela economia gerada no processo de contratação.

É hora das entidades representantes da engenharia brasileira, em uníssono, levantarem-se contra esta barbárie, alertando a sociedade e as autoridades competentes dos riscos desta legislação equivocada.

Pois projetos de engenharia, diferentemente de um saco de batatas, devem ser escolhidos pela relevância técnica, pela experiência de seus executores, pela segurança da sociedade, pela durabilidade da obra, pelo retorno do investimento e etc.

Batatas só precisam estar aptas para consumo.





EDEMAR DE SOUZA AMORIM é engenheiro civil formado pela Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e foi presidente do Instituto de Engenharia
abril de 2007 até abril de 2009.

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as segundas-feiras.

Faça um contato com o autor: edemarsamorim@gmail.com

Comentários

#1Egydio Hervé Neto, Engenheiro Civil, Porto Alegre

sábado, 23 de agosto de 2014 - 15h08min

Muita propriedade no comentário de nosso grande Presidente do IE. E há muitos equívocos a mais neste momento da governança brasileira. O primeiro que me mobiliza é o completo equívoco sobre o que é um ENGENHEIRO, manifestado toda hora por nossos dirigentes políticos, que nos vêm no limite de sua cultura, como simples pedreiros ou técnicos, esquecendo - ou nem sabendo - qual o âmbito do trabalho de nossos profissionais, responsáveis pela concepção das obras necessárias, dentro de um contexto econômico e técnico necessariamente aplicável para que a obra funcione! Mas entregue a maus profissionais, com formação inadequada, nossas realizações são, mesmo assim, caríssimas, embora sem qualidade, o que proporciona \"outros gastos\" para atender \"outros interesses\".
E a falta de Projeto, é fruto da mesma mentalidade que acha que uma obra só começa quando se poder ver a terraplenagem ou o bate-estacas trabalhando! nada disso. Um bom projeto, contemplando o planejamento, tem um custo maior mas resulta em uma construção mais rápida e mais barata, com a segurança e durabilidade necessárias, mesmo assim respeitando e até encurtando prazos de entrega ao uso. Mais uma vez, desinformado, dirigentes do país chegaram a criticar obras que eles mesmos impediram de ter Projetos, como as reformas dos Aeroportos, atrasadas e sem qualidade, atribuindo os erros à Engenheiros Brasileiros, uma injustiça inaceitável, uma incompetência confessada pelo político, que não soube fechar a boca na hora certa.

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