AUTOR CONVIDADO

QUANDO DINHEIRO É O PROBLEMA
(Dorys Daher)


DORYS DAHER
dorysdaher@hotmail.com






Joana ligou para marcar a visita. A voz um pouco trêmula e sem jeito, denunciava sua timidez. Tinha encontrado o nome e o telefone do nosso escritório na internet e estava ali, armada de coragem, para realizar o grande sonho da sua vida: ter uma casa “dividida” por um arquiteto.

Ao nos conhecermos, sua história foi-se desdobrando em pequenos detalhes. Era cozinheira de forno e fogão e, durante anos, a custa de sacrifícios, amealhou um pezinho de meia, pequeno, mas suficiente para construir a casa própria. Sabia que não tinha muito dinheiro. Nem pensava que um arquiteto pudesse elaborar um projeto completo, desde a estrutura, passando pelas instalações até a criação de ambientes de interiores. Queria, apenas, ter uma casa onde as circulações, as ventilações e os acessos fossem “bem pensados,” para que assim, obtivesse um espaço adequado ao distribuir os móveis e conseqüentemente abrigar melhor sua família. Quanto ao acabamento, colecionava suas idéias, e realmente não estava muito preocupada com isso.

Joana tinha discernimento para compreender que apenas um profissional especializado seria capaz de dotar sua casa com espaços bem distribuidos, abrindo passagens, colocando portas e janelas nos lugares certos e valorizando cada centímetro daquele universo. O objetivo era amplidão, conforto e boa funcionalidade. O arquiteto conhece os segredos de um projeto da iluminação e sabe aproveitar luz e ventilação naturais, criando espaços mais econômicos e saudáveis, apesar, é claro, de nem sempre ser possível realizar o projeto ideal.

A história de Joana é verdadeira, embora rara. Era uma pessoa de classe sócio-econômica baixa, mas com um nível de consciência e informação que poucos de uma classe mais elevada têm. Esse caso serve muito bem para derrubar o mito que cerca o arquiteto: o de que é um profissional muito caro e inacessível ao assalariado.

Um homem de classe média, desenvolve fantasias sobre o trabalho do arquiteto, imaginando que apenas milionários podem se dar ao prazer de cercar-se de sofisticação e elegância. Ele gostaria muito de ver sua casa projetada por um profissional, mas pensa assustado: “Vai ficar muito caro. Não tenho dinheiro para realizar este sonho. Isso não é para mim”.

Essa idéia do “não mereço”, “isso é privilégio de ricos e famosos”, ou “não tenho dinheiro para tanto” está enraizada na nossa cultura. Embora as revistas especializadas em arquitetura e design de interiores estejam se popularizando, com sugestões para arrumar a casa sem gastar muito, mesmo assim reforçam, ainda hoje, a idéia da valorização do projeto como artigo de luxo, disponível, apenas, à minoria endinheirada. Por mais que apresentem soluções mais econômicas, elas vêm ladeadas de fotografias de espaços espetaculares, no sentido exato da palavra.

Mansões imponentes com jardins paradisíacos, salas com recantos de luxo, banheiros cinematográficos, circuitos automatizados, cozinhas projetadas com eletrodomésticos de última geração e revestidas de materiais importados, móveis e objetos de colecionadores e antiquários, tudo isso contribuiu para que a idéia de projeto de arquitetura passasse para o imaginário popular como objeto de consumo da alta classe média, no mínimo. Esse pensamento é reforçado, ainda mais, pelos cenários exibidos nas novelas e em outros programas de televisão.

Dar personalidade a um canto sem graça, criar um espaço mais aconchegante que torne prazeroso voltar para casa, nem sempre representa um rombo no cofre do cliente. Há diversos níveis de detalhamento de um projeto. Antes de pensar nos acabamentos, deveríamos fazer como Joana, dar importância em primeiro lugar à distribuição do espaço. Do mais exíguo ao mais amplo. Depois pensaremos nos revestimentos com níveis variados de detalhamento. É possível tornar um ambiente extremamente agradável quando se explora pequenos detalhes construtivos na elaboração de um projeto. Materiais mais econômicos com a criatividade do profissional podem trazer resultados bastante surpreendentes.

Grande maioria da população, volto a repetir, acha que não precisa de arquiteto para construir ou reformar sua casa. “Ora, é tão simples! A gente mora debaixo de um teto. Todo mundo sabe que quatro pilares seguram quatro paredes e um teto. Pronto. Pra que arquiteto?” Lamentavelmente é esse o pensamento da sociedade em que vivemos.

Afinal, para que chamar um arquiteto?

Dezenas de publicações estampam fotos, inventam sugestões, divulgam idéias de como construir, projetar e embelezar a casa. A maioria das pessoas busca, nessas páginas, inspiração para resolver seus problemas da construção ou reforma. “Vi um banheiro bacana naquela revista e quero um igualzinho na minha casa.”

Assim, vão acumulando idéias, desejos, projetos. Mas não recorrem a um arquiteto para juntar as peças e realizar o sonho que têm em mente. Pensam: “Vou fazer da minha própria cabeça, e aposto que vai sair mais barato!” Ou então: “O dinheiro que eu gastaria com um arquiteto dá para comprar todos os meus móveis...”. O resultado dessa visão equivocada de economia é, na maioria das vezes, desastroso. Ao minimizar a colaboração intelectual de um profissional preparado, as pessoas acabam frustrando expectativas e orçamentos. A moradia construída com pedaços de conceitos capturados nas revistas da moda acaba por não corresponder, na prática, ao que tinham em mente.

Economizar na realização do sonho pode resultar em pesadelo. Um pesadelo que acaba custando duas vezes mais caro, devorando tempo, tranqüilidade e esperanças. A residência idealizada se fragmenta nas colagens de revista. Perde-se numa bagunça de conceitos. Ao final, o banheiro de cinema é um elefante branco na casa de três quartos, a escada é mal colocada e a mesa de jantar maravilhosa atravanca o espaço, trazendo uma sensação de desconforto.

Mas, afinal, para que chamar um arquiteto?

Quando nasce a consciência de que o espaço desejado precisa ser mais bem resolvido para atender ao desejo, que a fachada pode ser mais bonita, então é hora de chamar um arquiteto.
“Sicrano contratou um arquiteto! Vai gastar uma fortuna!”

Há o preconceito de que o profissional vai complicar o projeto e levar o cliente a gastar mais, desnecessariamente. Muitas pessoas não compreendem que o arquiteto, ao contrário, vai evitar que o cliente perca tempo e dinheiro. Quantas vezes a obra é iniciada sem projeto definido e o resultado é amorfo, sem começo, meio e fim! A construção não anda, puxa-se um rabicho daqui, faz-se um desdobramento ali, e a obra não termina nunca, não se resolve, não funciona, não satisfaz. Desanda. Quem sabe se a gente colocar mais uma parede aqui? Ou puxar um corredor pra lá? Ou abrir uma porta para os fundos da casa? Ou construir uma piscina na lateral?

Ao chamar um arquiteto o cliente saberá, com objetividade, quanto vai gastar e o que será construído. É possível programar etapas no plano de trabalho e elaborar um cronograma de desembolso, para decidir onde e como cortar gastos, e se quer economizar ou não.

Quanto custa um projeto? Não há uma tabela de preços. Depende daquele que o cliente necessite. O custo será determinado em função de seu tamanho e do nível de detalhamento.

Em uma construção nova, parte-se da planta baixa, onde o arquiteto vai pensar no dimensionamento dos espaços, na definição das aberturas e vãos, nas circulações. Chamamos de Estudo Preliminar. Na próxima fase chega-se à terceira dimensão, à volumetria, quando a planta baixa ganha altura e aí definiremos os diferentes volumes, o telhado e as fachadas. É Anteprojeto. Em seguida, passa-se ao Projeto de Execução e Detalhamento Geral. Os pontos de luz, a adequação dos projetos complementares (água, luz, esgoto, telefonia e outros) com o projeto de Arquitetura. Como serão as janelas e portas? E os espaços internos – o revestimento dos banheiros, quartos, sala, cozinha, área de serviço? Que materiais serão utilizados – madeira, cerâmica, mármore? O preço do trabalho vai refletir o nível de detalhamento que se pretende alcançar. Poderá ser mais despojado ou mais elaborado, mais dispendioso ou mais econômico, refletindo no custo final da obra. O limite é dado pelo cliente. Sem o seu consentimento o arquiteto não poderá avançar com suas idéias. O arquiteto imagina, o cliente consente ou não!

Há clientes que desejam mostrar “status”. Trabalharam muito para chegar a obter um bom padrão de rendimentos, e gastam sem culpa dizendo felizes: “Nós merecemos!” Querem o que há de melhor e exigem um projeto de alto custo. Se puderem, vão revestir os banheiros com mármore de Carrara e torneiras de ouro. Outros detestam ostentação. Envergonham-se por terem tanto dinheiro em um país de necessitados. São discretos e evitam gastar exageradamente. Têm medo de mostrar opulência, de provocar inveja alheia, e até mesmo, atraírem assaltos e seqüestros.

Por trás da relação entre cliente e arquiteto quando o dinheiro está em pauta, vislumbra-se um jogo de sedução, de aproximação cautelosa, como dois namorados que vão se conhecendo devagar.

Se um cliente encomenda um projeto no valor “x”, o arquiteto precisa apresentar, sempre, duas opções: no valor “x”, e outro no valor “x+ y”. Se o profissional se limitar a criar um projeto dentro do orçamento combinado, o cliente, por incrível que pareça, poderá se sentir frustrado. É provável que tenha visto um layout feito para um amigo mais abonado, com determinado grau de sofisticação de idéias que o dele não tem. Embora o arquiteto se esforce para atender às disponibilidades financeiras já fixadas com antecedência, o resultado poderá ser insatisfatório e decepcionante. O cliente sente-se desconsiderado, excluído da possibilidade de ter aquele “algo mais” do qual o tal amigo poderá usufruir.

O arquiteto pode apresentar o programa solicitado e, ao mesmo tempo, sugerir outro, mais arrojado e que, com um “pouquinho de esforço, é possível realizar”. Aquela criação extra engrandece a alma, alimenta o ego, dá um gostinho de ascensão na boca. O cliente não vai gastar nem um centavo a mais pela segunda opção. Já acertou o preço, antecipadamente. Ele pensa, então: “O arquiteto não vai me cobrar mais por esta idéia. Considerou que posso usufruir desse algo mais”. E recebe com muito bons olhos a idéia de “ser merecedor” de um layout sofisticado e caro, mesmo que não o execute.

O arquiteto deve conversar, brincar, entrar no jogo e sentir prazer neste processo de sedução. Dois projetos, trabalho dobrado. Paciência. Em compensação, o namoro não termina. E pode acabar em um sólido casamento. O cliente está nas nuvens. Você o compreendeu.





DORYS DAHER é arquiteta e urbanista. Dirige o escritório DG Arquitetura, no Rio de Janeiro e é autora do livro Cimento Batom e Pérolas - Quem tem medo de Arquiteto?

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as quartas-feiras.

Faça um contato com a autora: dgarquitetura@dgarquitetura.com.br

Faça seu comentário

Favor, evite enviar links, pois seu comentário será recusado.

Seu IP: 54.145.117.60 (Identificação de seu computador na internet)

* campos obrigatórios
Compartilhe: 1194