NA MINHA FRACA OPINIÃO

SOBRE A ARTE DE ESCREVER
(um recado aos editores, diagramadores, revisores...)

(Publicado em 10/09/2000)



As pessoas que (além do autor) trabalham na produção de um livro (editores, diagramadores, revisores) precisam entender que não estão trabalhando com uma forma comum de manifestação artística ou intelectual. Não se trata de arte plástica nem de arte cênica.

Ler não é uma atividade natural. Uma pessoa nasce, cresce e, mesmo sem ser ensinada, desenvolve a visão, a audição e o tato. Mas a leitura necessita ser ensinada (e aprendida).

O pintor, o fotógrafo e o escultor utilizam as cores e as formas para comunicar suas mensagens. Capturam a atenção do público em um milésimo de segundo. O tempo de um olhar. Muitas vezes não precisam mais do que alguns segundos para transmitir toda a mensagem desejada.

O músico utiliza os sons, elementos com os quais entra nas pessoas, compulsoriamente, inundando-lhes a alma. Em poucos minutos a mensagem foi transmitida. Os resultados podem ser sentidos.

A comunicação por escrito, por outro lado, exige do escritor a capacidade de capturar e manter a atenção (toda a atenção) do leitor por um tempo muito grande para que a mensagem seja completamente transmitida.

Visão (cores, gestos e posturas), audição (tom de voz, efeitos sonoros), contato (texturas, formas)... Nada disso está disponível para o escritor. Sua comunicação com o público é feita através de sinais gráficos que precisam ser lidos e interpretados para então (e só então) serem sentidos.

O escritor utiliza-se das palavras, dos sinais de pontuação e das regras da gramática. E, para dar mais clareza ao espírito da mensagem, lança mão de outros recursos. É uma espécie de comunicação “não verbal” na escrita: aspas, itálicos, negritos, texto em maiúsculas ou em destaque, parêntesis, variação de tipologia... Esses recursos fazem parte da linguagem do escritor e ele os utiliza para compor o seu estilo. Transformar o texto escrito em algo com vida.

Érico Veríssimo, por exemplo, no livro “Olhai os Lírios do Campo” alterna o texto em tipo normal e itálico. Logo o leitor percebe que ele usa o itálico para separar o tempo presente das memórias do personagem principal. Mas isso não é dito em lugar nenhum do livro. Trata-se de um recurso autoexplicativo.

Se um editor resolver publicar o livro sem se dar conta desse “detalhe” (e suprimir todos os itálicos) a compreensão do texto será muito prejudicada, com certeza.

Os escritores têm extremo cuidado com essas coisinhas que os editores inexperientes, muitas vezes, querem suprimir, sem mais nem menos.

Editar um livro é tarefa para especialistas. Muitos designers e diagramadores esquecem que um livro não é uma obra de arte plástica. A componente estética, em um livro, está em segundo, quase terceiro plano. Um livro não é feito para ser VISTO. Ele é concebido e produzido para ser LIDO. Existe uma sutil porém dramática diferença entre essas duas coisas.

Um livro não pode ser avaliado pela sua beleza estética. Um livro vale pelo seu conteúdo e pela capacidade que o texto tem de transmitir a mensagem tal qual foi concebida pelo autor. Nem mais nem menos.

Alterar “detalhes” gráficos de um texto é o mesmo que suprimir ou acrescentar notas em uma música, alterar o tom de certas cores em uma pintura, mudar o ângulo de tomada de uma fotografia ou substituir o material utilizado em uma escultura. Pode tirar da obra um pouco da sua alma.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br





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---Artigo2000



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