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OS INOVADORES (livro de Walter Isaacson)

(Publicado em 06/04/2015)



"Muita gente que celebra as artes e humanidades, que aplaude com entusiasmo os tributos à importância dessas áreas em nossas escolas declararia sem pudor (alguns até gracejando) que não entende nada de matemática nem de física. Essas pessoas exaltam as virtudes de saber latim, mas não têm a menor ideia de como escrever um algoritmo ou como distinguir BASIC de C++, Python de Pascal. Consideram Filisteus os que não distinguem Hamlet de Macbeth, mas admitem alegremente não saber a diferença entre um gene e um cromossomo, entre um transistor e um capacitor ou entre uma equação integral e uma diferencial.

Esses conceitos podem parecer dificeis. Sim, mas Hamlet também é. E, como Hamlet, cada um desses conceitos é belo. Como uma elegante equação matemática, eles são expressões das glórias do universo"


WALTER ISAACSON, jornalista e escritor norte-americano, autor de biografias de Albert Einstein, Benjamin Franklin, Henry Kissinger e Steve Jobs. A frase acima foi extraída do capítulo final do livro Os Inovadores - Uma biografia da revolução digital (página 501)




UMA BREVE RESENHA DO LIVRO:



Primeiro, é importante dizer que a minha literatura preferida (nos últimos anos) tem sido história econômica e biografias. Só por isso Walter Isaacson já é candidato a meu autor favorito, uma vez que a maior parte dos livros que ele escreve são biografias (veja lista acima).

Neste livro, em particular, o que encontramos é uma coleção completa de biografias encadeadas e unidas por um fio condutor, uma coincidência de interesses: a inovação nas tecnologias que sustentam a ciência da computação. Um prato cheio. Cheio e saboroso, posso garantir.

A primeira surpresa do leitor é o ponto de partida da história. A maioria das pessoas imagina que a história da ciência da computação começa em algum momento nas primeiras décadas do século XX. Isaacson começa a sua jornada cem anos antes, no início do século XIX, com Lord Byron e sua filha, Ada, condessa de Lovelace, que foi contemporânea e parceira intelectual de Charles Babbage. Mas o autor não fez isso apenas por capricho. Ada Lovelace é figura central da história toda, pelo que ela representa do espírito da coisa: a constante interação entre o mundo da ciência e o mundo das artes. Para Isaacson (e eu concordo completamente) as inovações e os avanços ocorrem, sempre, na esquina entre as avenidas da Ciência e das Humanidades.

A viagem que começa com a Máquina Analítica de Babbage, faz paradas em cada novo avanço, descrevendo as circunstâncias e seus agentes. Assim somos apresentados a dezenas de cientistas, inventores, pensadores e empreendedores, com uma riqueza de detalhes nunca antes reunida numa única história. Grandes nomes como Alan Turing, Vannevar Bush, Grace Hopper, Robert Noyce e Gordon Moore, Bill Gates, Steve Jobs e Wosniak, Tim Berners-Lee, Justin Hall, Larry Page e Sergey Brin têm suas histórias pessoais apresentadas ao mesmo tempo em que conceitos, ideias e produtos são apresentados com a mesma profundidade.

Vemos, assim, o surgimento e desenvolvimento dos primeiros computadores mecânicos, dos primeiros computadores analógicos eletromecânicos, das válvulas termiônicas, do transístor, dos circuitos integrados, dos softwares, dos sistemas operacionais, dos computadores pessoais, da internet, dos blogs, dos sistemas colaborativos e dos sistemas de busca.

E Walter Isaacson faz isso com a preocupação de manter em primeiro plano o ser humano que existe em cada um dos protagonistas. Embora consiga descrever e dimensionar com clareza a genialidade e a inteligência diferenciada de alguns dos inovadores, os aspectos pessoais, as disputas e as idiossincrasias que servem de pano de fundo para as relações que iam se estabelecendo nunca ficam em segundo plano. Por isto o livro mantém aceso o interesse do leitor e permite entender melhor os desdobramentos descritos.

Duas coisas importantes a serem destacadas no livro: a primeira é que os inovadores são sempre pessoas com um pé no mundo das artes e humanidades. Seja por terem habilidades ou talentos artísticos ou pelo convívio intenso com artistas ou cientistas sociais. São pessoas que buscam "vida inteligente" em todas as partes e não apenas em volta dos seus interesses centrais; a segunda é que eles são sempre pessoas com um elevado senso de colaboração. As inovações ocorrem quando pessoas de diferentes talentos unem forças em equipes de trabalho supereficientes. Como disse o autor, em uma de suas entrevistas de divulgação do livro, "Um grande time é aquele que tem muitos jogadores que sabem jogar em diferentes posições. Se você não tem uma equipe à sua volta acaba ficando pra trás na história".

Na minha modesta opinião, este livro deveria ser leitura obrigatória no primeiro ano de todos os cursos de Engenharia. Serviria para dar ao jovem estudante uma noção real do seu tamanho no universo da tecnologia e também para entender o tamanho da história que existe antes da sua entrada em cena. São quase 250 anos de fatos relevantes e pessoas geniais e dedicadas, que foram construindo, algumas vezes com sacrifícios pessoais, as condições para que o jovem estudante de engenharia possa, hoje, desenvolver sua própria contribuição para esta história que, certamente, ainda está longe do seu ponto final.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br




1) ISAACSON, Walter. Os Inovadores - Uma biografia da revolução digital. São Paulo: Cia das Letras, 2014.



---Artigo2015 ---História ---Biografia ---Livro


Comentário do Ênio Padilha

Com relação à frase de Walter Isaacson, destacada no início do post, em 2011 escrevi o seguinte (num artigo publicado aqui no site): "Nosso jovem, na faixa de 15, 17 anos, pode até se sentir um pouco constrangido se não conhece os artistas da hora; pode até não se sentir confortável por não entender ou falar Inglês... mas, quando o assunto é Física, Matemática, Química... parece que sente até um certo orgulho de dizer que não entende nada!
Nossa sociedade vê com a maior naturalidade (e indulgência) a ignorância científica e tecnológica. Isso é um absurdo!"


Veja o artigo completo: ARQUITETURA, ENGENHARIA E A EDUCAÇÃO DE BASE NO BRASIL

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Comentários

#1Ligia Fascioni, Engenheira eletricista, Berlim, Alemanha

sábado, 07 de abril de 2018 - 07h48min

Nossa, molhei toda a blusa de tanto babar. Já foi para a minha lista de desejos! Obrigadíssima <3

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