DICA DE LEITURA

CANDANGO OLÍMPICO

(Publicado em 15/08/2015)



Se você é fã de atletismo, se acompanhou a trajetória de Joaquim Cruz, nos anos 1980... prepare o seu coração antes de começar a ler MATADOR DE DRAGÕES, biografia do atleta, escrito pelo jornalista Rafael De Marco (Editora Multiesportes, 2015, 395 páginas)

A coisa começa com os dois prefácios, um escrito pela espetacular Dorrit Harazim (creio que foi a primeira grande jornalista a fazer coberturas decentes de competições internacionais de atletismo, ainda nos anos 1970) e pelo não menos brilhante Juca Kfouri. Você já sente que a história prestes a ser contada vai sacudir as suas emoções.

O livro tem alguns problemas (nada que invalide a qualidade geral do produto). Tem um acabamento gráfico ruim (a qualidade do papel e da impressão deixam a desejar) e o autor não tem um texto brilhante (talvez por falta de experiência como escritor). Mas o conteúdo salva o livro. A qualidade da história que está sendo contada e dos detalhes que estão sendo revelados vão garantir a sua atenção. É como assistir um documentário produzido por uma emissora ruim. Vale pelo conteúdo, não pela forma.

Falta, no livro, uma boa seção de fotografias, sempre presente nas boas biografias.

Em muitos capítulos, falta uma descrição mais completa das corridas, como, por exemplo, os nomes dos demais competidores e a classificação final das provas mais importantes em que participou.

As polêmicas com os dirigentes brasileiros (prometidas na capa) não são apresentadas com nível de detalhamento maior do que a especulação que se via na imprensa, na época.

Alguns fatos importantes não são explicados adequadamente. Por exemplo, há um capítulo inteiro sobre a morte do pai de Joaquim, mas o leitor fica sem saber do que ele morreu. Estava doente? Sofreu um acidente? Foi assassinado?

E (pode dizer que é implicância minha) não gostei do título. Creio que a biografia poderia ter um título mais interessante e pertinente. O texto até que tenta amarrar o título do livro, mas, na minha opinião, sem sucesso.


Dito isto, vamos ao que interessa: a história do atleta.

Joaquim Cruz, além de corredor excepcional, ídolo de uma geração de atletas no Brasil e no mundo, é um ser humano diferenciado pela honestidade, generosidade e disposição para contribuir para melhorar o planeta.

Nascido numa família pobre, com uma perna mais curta do que a outra (isto só foi corrigido pelo fabricante de calçados, quando ele já estava treinando nos EUA), o menino foi descoberto pelo obstinado treinador Luis Alberto Oliveira, formando uma parceria digna de conto de fadas.

Nunca recebeu, das instituições brasileiras, apoio minimamente condizente com os resultados que apresentava. Joaquim sempre que dava entrevistas reclamava da falta de apoio que os atletas recebiam. Ele era a voz que representava todos os pobres brasileiros filiados às federações esportivas nacionais.

A mídia não gostava dele, porque era muito sincero e detestava ser bajulado apenas quando vencia as competições. Era frequentemente sabotado pela imprensa, que se apressava em endeusar potenciais adversários. Aliás, a conquista olímpica de Joaquim Cruz, seguido da desistência de participar da semifinal dos 1500m e as sucessivas quebras da marca nos meetings europeus serviram para demonstrar o quanto a imprensa brasileira estava despreparada para lidar com ícones do esporte fora do Futebol.

Joaquim Cruz foi morar nos EUA em 1982. Fez uma tentativa de voltar ao Brasil quando terminou a carreira, mas foi vítima da leviandade dos políticos brasileiros que o enrolaram durante dois anos importantes da sua trajetória profissional. Mais uma vez, foi no governo dos EUA que encontrou o reconhecimento pelo seu trabalho

O ponto alto da sua carreira, a prova dos 800 metros dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, é descrita com detalhes interessantes no livro. Mas eu sugiro que, quando chegar à página 222, o leitor interrompa a leitura e clique AQUI: vai ver um vídeo completo da final olímpica de 1984, narrada por Osmar Santos. Emocionante!
Quando assisti o vídeo lembrei de quando eu vi aquelas imagens pela primeira vez, ao vivo, no dia 6 de agosto de 1984. Estávamos em quase vinte atletas da equipe de Florianópolis reunidos no Calabouço, vendo a corrida na TV. A gente comemorou como se fosse uma vitória de Copa do Mundo. Muita gente chorando de emoção e alegria!

Pra finalizar, quando chegar à página 362, clique AQUI e veja o momento em que Joaquim Cruz faz a sua volta final na pista do estádio Célio de Barros, no Rio de Janeiro, em 1997, encerrando definitivamente sua carreira de atleta.


Não deixe de ler o livro só por conta das reclamações que eu fiz nos primeiros parágrafos deste artigo. Que elas sirvam apenas para que o autor melhore a segunda edição.

Acredite: a história de Joaquim Cruz vale a pena ser lida.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br




REFERÊNCIAS:
1) DE MARCO, Rafael. Matador de dragões. Campinas: Multiesportes, 2015.

Comentários

#1Jean Tosetto, Arquiteto, PAULINIA

domingo, 16 de agosto de 2015 - 19h43min

Em 1984 meu pai estava construindo nossa casa nova e morávamos numa edícula para não pagar aluguel. Não havia sala de TV e esta ficava em cima da geladeira na cozinha. Foi assim que assisti a épica corrida de Joaquim Cruz. Inesquecível, mesmo para um garoto de oito anos.

#2Farlley Derze, Músico, Madri

domingo, 16 de agosto de 2015 - 20h24min

Excelente resenha, estimulante!

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