GESTÃO DE CARREIRA

ATRASO DE VIDA

(Publicado em 25/10/2000)



Quanto dinheiro você já perdeu (ou deixou de ganhar) parado, esperando por alguém que estava atrasado?

Você, talvez não se dê conta disto, mas o volume de perdas (financeiras) decorrentes da “tradicional” impontualidade brasileira chega a valores absurdos.

Tempo é dinheiro. É o que dizem. Na verdade, tempo é um recurso importantíssimo que forma com dinheiro e energia o “tripé” que produz resultados.

Tempo, dinheiro e energia. Sem um pouco (ou muito) de cada uma dessas três coisas não se faz nada importante.

Ninguém joga dinheiro fora. Ninguém desperdiça energia sem ser recriminado. Com o tempo, no entanto, não se tem tanto cuidado.

Eu sou adepto e pregador insistente da pontualidade e do cumprimento dos prazos estabelecidos. Não acredito na reunião marcada para 9 horas para começar (realmente) as 9 e meia. Isso não é coisa de gente séria.

Não consigo aceitar como “natural” nenhum atraso, especialmente em eventos que envolvem muitas pessoas.


Na semana passada* estive em Salvador-BA participando da 57a SOEAA, evento anual reunindo cerca de 2000 profissionais de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de todo o país. Coube-me a honra de ministrar um mini-curso (Marketing para Engenharia, Arquitetura e Agronomia) com 6 horas de duração, distribuídos em 3 aulas de 2 horas, marcadas para começar às 8 horas da manhã dos dias 19, 20 e 21...

8 horas da manhã? Em Salvador? Na Bahia? No dia seguinte a uma festa de abertura que avançou pela madrugada e culminou com um magnífico show com a cantora Margareth Menezes?

Sim, senhor. 8 horas da manhã. Era o que estava dito na programação dos trabalhos.

Eu, como faço sempre, cheguei ao local com uma hora de antecedência. Fiz os ajustes necessários e fiquei aguardando a chegada do público (havia 200 profissionais inscritos).

Quando deu 8 horas havia uma pessoa na platéia.

Uma única pessoa! Um jovem estudante de engenharia de Salvador.

Eu não tive a menor dúvida: comecei o curso para aquele único aluno. Seria engraçado, se não fosse grave.

Durante 8 a 10 minutos o que se viu foi aquela cena de “teatro de absurdos”: um auditório com 400 lugares. Um único aluno (lá no fundo) e um professor (lá na frente) apresentando a matéria, como se estivesse com “casa cheia”.

Acho que o tal aluno ficou um tanto constrangido. Não deveria. Deveria sentir-se honrado. O que eu fiz (e faço sempre) foi respeitar a quem cumpriu o horário. A quem deixou outras coisas de lado e manifestou consideração pelo curso.

Depois de uns dez minutos os outros começaram a chegar (e a aula seguia, sem interrupções). Aos poucos a platéia começou a tomar corpo. Mas as pessoas chegaram ao longo de todo o período da aula (2 horas). O último a chegar, “bateu o ponto” cinco minutos antes do horário previsto para o fim da aula. A aula, por sinal, encerrou-se pontualmente no horário previsto (este é um outro detalhe muito pouco observado...). No fim chegaram uns 170, dos 200 inscritos.

No dia seguinte, 15 minutos antes de começar a aula já havia gente na platéia. Às 8 horas já estavam ali mais de 100 profissionais e os que ainda chegaram atrasados não perderam mais que meia hora da aula. Vieram mais de 200 pessoas.

No terceiro dia, 200 alunos já estavam no auditório às 8 horas da manhã. Os atrasos não passaram de 10 a 20 minutos. A lotação bateu em 300 pessoas!

O mais importante é que eu não ouvi uma única reclamação, de ninguém, por causa do cumprimento rigoroso dos horários. Pelo contrário, tenho o registro de que muita gente gostou muito disso.

Enfim, conseguimos demonstrar uma coisa: o problema da impontualidade tem muito a ver com uma mentalidade coletiva de aceitação desse defeito como se fosse “natural”. Quando o brasileiro vai para a Inglaterra ou para o Japão não se atreve a chegar atrasado para coisa alguma. A imensa maioria dos alunos que chegaram atrasados para o primeiro dia contavam como absolutamente impossível que a aula fosse começar no horário. Ou seja: tudo o que estava escrito na grade de programação não era para ser levado à sério.

Como diria o apresentador Boris Casoy: “Isto é uma vergonha!!!”. Se queremos construir um país importante. Se queremos ser competitivos e dignos de respeito, precisamos, urgentemente, eliminar do nosso ideário essa história de que, no Brasil, chegar atrasado é coisa natural



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br

(*) este artigo foi publicado em outubro de 2000.



---Artigo2000 ---Gestão de Carreira




a imagem que ilustra este artigo é do blog desfavor.com

Faça seu comentário

Favor, evite enviar links, pois seu comentário será recusado.

Seu IP: 54.81.69.220 (Identificação de seu computador na internet)

* campos obrigatórios
Compartilhe: 291