ALIRUBIT

DIDI

(Publicado em 12/05/2001)



Eu estava todo animado para contar a novidade ao meu irmão mais velho, Calinho, 8 anos (um ano mais velho do que eu).  Corria o ano de 1966. Era hora do recreio, no meu primeiro dia de aula, e a novidade era mesmo fantástica: "Calinho", fui dizendo, "você sabia que o meu verdadeiro nome é Ênio?"

"Que besteira é essa, Didi? Ênio é o nome do nosso pai. O seu nome é Didi. Tá ficando bobo, só porque entrou na escola?"

(...)

É isso mesmo, o meu nome, para todos os efeitos, era Didi.  E eu só estava descobrindo que o nome "oficial" era "Ênio" ali, naquele dia, na escola.   Em casa, desde pequenininho, todos me chamavam de Didi.

Quando eu nasci recebi o nome do meu pai (Ênio Padilha).  Logo meus tios (tio Nilo e tio Nestor, que moravam com meus pais) perceberam que dois "Ênios" dentro de casa causariam uma certa confusão.  Assim, resolveram que eu, que tinha chegado depois, deveria ter um apelido.

"Didi" era o nome "da hora".  Craque da seleção campeã do mundo, mestre de gênios como Garrincha, Vavá e Pelé, ele era um atleta que despertava paixões e conquistava fãs pelo Brasil a fora.  Meu pai e meus tios eram alguns desses fãs.  Por isso herdei o apelido que me acompanhou por muitos anos.  Ninguém me chamava de Ênio.  Ninguém sequer lembrava que meu nome era Ênio.  Naquela época, crianças de famílias pobres, como a minha, não tinham caderneta de vacina, certidão de nascimento ou coisa parecida.  O único documento que eu tinha era o Certificado de Batismo.

Assim o apelido, Didi, virou nome.  E não havia discussão sobre isso. 

Até hoje minha mãe, meus tios e primos, ainda me chamam de Didi.  Meus irmãos, nem sempre, mas algumas vezes também deixam escapar.  Eu gosto muito, pois tenho muito carinho por este apelido, pelo que ele representa e pelo ídolo que foi "homenageado" com essa escolha.

Por isso fiquei tão triste hoje, quando vi a notícia, na internet: o velho Mestre se foi.

Didi marcou o primeiro gol do Maracanã, em 1950.  Participou de três Copas do Mundo. Foi campeão em duas. Em uma delas foi eleito o melhor jogador.

Inventou, em 1956, a "folha seca", uma forma de chutar a bola de tal maneira que ela muda a trajetória, em pleno ar, enganando o goleiro. Defendeu, como jogador ou treinador, mais de vinte equipes pelo mundo inteiro.  Foi, enfim, um grande atleta e um grande homem.

Eu sempre me orgulhei muito de ter recebido do meu pai e dos meus tios esse apelido que me ligava, de alguma forma, a esse grande ídolo.

Por isso, faço agora essa justa e humilde homenagem a esse brasileiro, que morreu aos 71 anos, depois de viver uma vida heróica e digna.

Vai com Deus, Mestre Didi.   E que a sua gloria continue a enfeitar as nossas memórias.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br



---Artigo2001

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