ALIRUBIT

ZÉ LEITE E O RÁDIO

(Publicado em 20/07/2002)



Esta história (real) faz parte de um conjunto que eu chamo "DE SEGUNDA MÃO" pois são crônicas feitas sobre histórias contadas ou escritas por outras pessoas.

Eu não invento nem aumento nada. Apenas reescrevo.

Essa quem me contou foi o Zé Leite, que escreveu um livro interessante sobre história da empresa Ypióca, fabricante de uma das mais tradicionais cachaças do Brasil.  Zé Leite trabalha nessa empresa há mais de 50 anos. Quando ele chegou em Maranguape, no Ceará, em 1949, com 22 anos de idade, já tinha participado da 2a Guerra Mundial, servindo à bordo do encouraçado São Paulo, onde tinha feito o curso de Máquinas, Motores e Caldeiras.

Em Maranguape logo ganhou notoriedade como um "Sabe-Tudo".

Consertava coisas, aplicava injeções, explicava o funcionamento das máquinas mais complicadas...

Um dia a mãe da namorada mandou chamar.  A máquina de bordar tinha parado de funcionar.

Zé Leite teve calafrios.  Nunca tinha consertado uma máquina daquelas.  Mas a futura sogra confiava tanto nele que só entregaria a ele tão importante equipamento.

Ele então pegou a mala de ferramentas e se foi, rezando pelo caminho.  Lá chegando, sem saber direito o que fazer, passou a desmontar a máquina, peça por peça.   Depois fez uma boa limpeza e começou a montar tudo direitinho.
Decretou a si próprio que, se não conseguisse montar a máquina e fazê-la funcionar, perderia a própria namorada, porque jamais voltaria àquela casa.

Para seu alívio a máquina de bordar, depois de remontada, funcionou maravilhosamente e ficou então provado que Zé Leite era mesmo um Sabe-Tudo.

Ele transpirava felicidade e autoconfiança.  A namorada sorria orgulhosa.   Tudo corria às mil maravilhas quando dona Angelita (a sogra) entusiasmada com as habilidades e conhecimentos do futuro genro, acabou com a alegria do rapaz.

"Esse meu rádio", disse ela "não anda bom.   Pode pifar de uma hora pra outra.   E vai precisar dos seus cuidados."

Zé leite ficou internamente apavorado.  Aquele rádio era um dos primeiros a serem fabricados no Brasil.  Um monstrengo.  Mais parecia um guarda-roupas.  Funcionava com duas baterias de automóvel (que, naquela época eram muito maiores do que as de hoje em dia).  Daquele "bicho" o Sabe-Tudo só sabia era "Ligar" e "Desligar"...

Por isso, após a "advertência" da sogra, Zé Leite passou a reduzir as visitas à casa da namorada, com medo de que, a qualquer momento, aquele maldito rádio lhe fizesse uma surpresa desagradável.

Nas poucas vezes que ia aquela casa, sentava-se de costas para o rádio, que passou a ser um martírio constante nos seus pensamentos.  Chegava a ter pesadelos, o coitado.  Rezava, pedindo a Deus uma solução para o caso.

Um belo dia chegou um emissário de dona Angelita, dizendo que ela precisava falar com ele e que era urgente.  Zé Leite quis saber do que se tratava e a pessoa respondeu, "não sei bem, mas é algo relacionado a um rádio..."

Pronto.   Tinha chegado o dia.   O dia do fim de tudo.   O juízo final!

Zé leite pegou a mala de ferramentas e seguiu em direção ao sacrifício.  No caminho não disse uma única palavra.  Estava mudo e pensativo.

Pensava na decepção de dona Angelita.  Na vergonha que ele passaria.  No desgosto da namorada...

Quando chegaram a sogra veio recebê-los no terreiro, com a triste notícia: "Levaram o rádio, Zé Leite.  O rádio foi roubado?"

Zé leite teve de se controlar para não abrir um grande sorriso de felicidade.  Mal prestou atenção no apelo da sogra para que ele ajudasse a procurar o ladrão (ou os ladrões).

Mas esse era o trabalho que Zé Leite faria com o maior prazer (e com nenhuma intenção de sucesso, é claro!)

Nunca encontraram o tal rádio.  Mas Zé Leite rezou muito para Deus, agradecendo pela graça alcançada.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br




---Artigo2002

Comentários

#1Ricardo Wagner Sandri, Eng. Eletricista, São José - SC

quarta-feira, 10 de maio de 2017 - 21h33min

Caro amigo. É sempre uma grata surpresa! Uma lembrança desde sempre! De seu inconfundível, claro e prazeiroso texto! Grande abraço

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