AUTOR CONVIDADO

EMPREGADO, FUNCIONÁRIO OU COLABORADOR
O nome define a relação



(Publicado em 17/08/2017)




ALBERTO COSTA
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Costumo dizer que "administrar é a arte de dar nomes". Se você chamar pedra de pau, ou vice-versa, sua capacidade de gerir esses objetos será, sem dúvida, prejudicada.

Então, é bom que saibamos exatamente o que estamos dizendo quando usamos as palavras acima.

EMPREGADO é derivado de emprego (uma daquelas situações em que o particípio do verbo se torna um substantivo). E emprego é uma palavra oriunda da ciência econômica, que se refere, de maneira geral, aos fatores de produção. É preciso reconhecer, nesse caso, que, quando usamos a palavra empregado, estamos fazendo uma redução do elemento humano à condição de recurso econômico. Essa é uma maneira de descrever o trabalhador que o equipara, em algum grau (embora não absolutamente), aos demais fatores de produção. É assim, também, quando falamos de capital humano ou recursos humanos - não é difícil perceber certo grau de coisificação da pessoa humana no tipo de relação descrita por essa palavra e em suas correlatas, como mão-de-obra e hora-homem (que se justapõe à hora-máquina, como elemento de cálculo de custo, por ex.).

FUNCIONÁRIO, ao que parece, é palavra usada para distinguir o trabalhador administrativo do operário. Isso parece fácil de deduzir quando se lê Domenico De Masi, por ex., quando ele descreve o trabalho na Era Industrial, em organizações simples, compostas pela fábrica, de um lado, e pela administração, de outro. A distinção, nesse caso, entre o funcionário e o OPERÁRIO, é afirmada pela diferença entre as atividades ou pelo ambiente físico em que o trabalho é exercido. Do operário típico da fábrica na Era Industrial, exigem-se habilidades físicas, principalmente, enquanto o funcionário é alguém qualificado para atividades que requerem alguma habilidade intelectual (redigir, calcular, gerenciar).

Seja como for, o empregado e o funcionário são facilmente descritos como recursos humanos, contabilizáveis, onerando os custos do negócio. Suas atividades, em seus respectivos ambientes, são definidas pelos processos predefinidos nos quais são treinados e pelos quais seu trabalho é condicionado. A relação que a organização mantém com eles é uma relação de consumo - ela compra e consome seu trabalho, medido, normalmente, em unidades de tempo - hora, dia, semana, mês...

O que dizer do COLABORADOR, então? Que tipo de relação essa palavra expressa? Que diferença faz usar essa palavra e não as que a precederam?
A primeira coisa a dizer do colaborador é que, por usar essa palavra, se reconhecem 2 coisas, principalmente:
• que sua participação na organização é traduzida por labor (do latim, labore, trabalho), assim mesmo, genericamente, sem um atrelamento a priori a uma função específica predefinida por um processo, diferentemente do funcionário, e sem a redução a fator de produção, despersonalizado, típica do empregado;
• que essa participação é partilhada (prefixo co-, do latim, que implica concomitância, simultaneidade, convergência).

Ao dizer que há um colaborador, estamos dizendo que há um primeiro laborador. A relação de colaboração é definida, então, não em relação ao uso (empregado) ou ao processo (funcionário), mas em relação à visão compartilhada (muito bem definida por Peter Senge, em seu A quinta disciplina).

Essa palavra faz jus ao trabalhador do conhecimento, que não se define pela oferta de mão-de-obra e nem pela mera adequação a um processo a priori, mas pelo comprometimento voluntário de suas competências - intelectuais, técnicas e éticas - ao propósito da organização. O colaborador, então, é alguém que não vende tempo ou esforço: ele se remunera por seu comprometimento com um resultado.

Sem entender essas distinções, empresas e profissionais correm o risco de utilizar as palavras como propaganda,  jargão ou gíria, aparentando uma cultura organizacional ilusória e dando margem a conflitos. Chamar colaborador ao trabalhador de uma organização, omitindo dele informações sobre resultados, negando-lhe a participação qualificada na tomada de decisão e avaliando-o por esforço ou assiduidade, é uma contradição em termos. Talvez resida aí boa parte da explicação para a baixíssima produtividade de nossa economia.

P.S.: Devo dizer, adicionalmente, que assumir para si o status de colaborador, sem comprometer-se com uma visão compartilhada pela organização, de resultados a serem produzidos no mercado e na sociedade, é igualmente prejudicial. O trabalhador que age dessa forma não age melhor do que o empresário que se recusa a manter com ele uma relação humana, reduzindo-o a recurso econômico ou a componente de um processo.




ALBERTO COSTA tem formação em teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo, em Marketing Estratégico pela UNISUL e em Gestão de Estabelecimentos Assistenciais de Saúde pela UNIVALI. É consultor associado à Flexy Negócios Digitais, empresa que desenvolve plataforma e presta serviços para negócios de venda online, especialmente B2B, e é conselheiro da Associação Brasileira do Comércio Eletrônico-ABComm/SC, além de fazer parte do Grupo Digital de Santa Catarina.

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Referência da imagem no topo deste artigo:
(1) Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017.[consult. 2017-08-15 20:04:56]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/colaboração


Comentários

#1Alberto Costa, Consultor empresarial, Florianópolis

quarta-feira, 16 de agosto de 2017 - 16h14min

Obrigado por publicar, Ênio. É uma honra para mim ser distinguido com espaço em seu blog. Tomara que isso seja útil para seus leitores. Grande abraço.

Comentário do Ênio Padilha

É sempre uma satisfação tê-lo aqui, meu amigo Alberto.
Você, como disse a Lígia Fascioni, é o senhor das palavras e sempre nos ajuda a entender melhor o mundo.

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