O QUE É QUE A ENGENHARIA E A
ARQUITETURA TÊM A VER COM ISSO?


VALE A PENA LER DE NOVO
(Publicado em 26/03/2009)



O governo federal lançou nesta semana um plano para construir um milhão de residências para famílias com renda entre um e dez salários mínimos.
É um plano ambicioso. O ministro falou em 60 bilhões de reais injetados na economia. Parece um projeto animador para a economia.

Mas ontem eu ouvi um engenheiro dizer que \"isso aí não vai mudar nada para a engenharia\", pois as obras são pequenas e acabarão sendo feitas por mestres de obra, com a consultoria de balconistas das lojas de material de construção.
Projetos, se houver, serão daquele tipo: feitos por ghost designers e assinados por caneteiros de plantão. Muitos engenheiros e arquitetos olham pra isso tudo com desdém, como a dizer \"isso daí não é engenharia!\", \"não se aplica à arquitetura\"

Como não? Que pensamento pequeno! Que visão curta!
É por conta desse tipo de ponto-de-vista que os serviços de Engenharia e de Arquitetura são tão mal recebidos em certos mercados.

Infelizmente muitos engenheiros e arquitetos acreditam que obras menores não se beneficiam da Engenharia e da Arquitetura. Trata-se de um erro conceitual. Um problema de visão reduzida.

Tomemos uma pessoa (um potencial cliente) que disponha de R$ 100.000,00 para construir uma residência. Ela tem dois caminhos a seguir: o caminho “A” e o caminho “B”.

[IMG2;casapopular1.jpg;D]Comecemos pelo caminho “B” que, por ser o mais torto e o mais incorreto, é também o mais popular.
Essa pessoa faz, ela mesma, um desenho da planta da casa. Ou, então, pede para alguém fazer pra ela. É aí que entra o tal do ghost designer: geralmente um desenhista que fez um cursinho no básico, ou nem isso. Com o tal desenho, procura-se um acobertador – nome dado ao profissional de engenharia ou arquitetura que empresta seu nome e seu título profissional para tornar legal um trabalho feito por terceiros, também chamado de “assinador de planta” ou simplesmente “caneteiro”. Com esse caminho tem-se um “investimento” de, digamos, R$ 1.000,00 em “engenharia” e “arquitetura”.
A planta, devidamente assinada por esse profissional ordinário, é aprovada pela prefeitura. Inicia-se a obra, que vai ser feita exatamente de acordo com a vontade do proprietário e os conhecimentos do pedreiro, com a consultoria dos vizinhos e dos balconistas das lojas de material de construção.
Essa maneira de gastar o dinheiro resulta em uma obra com, digamos 90 ou 100 m2, três quartos, sala, cozinha, banheiro, área de serviço, garagem, que custa R$ 100.000,00.
Se o terreno vale uns 30 mil, o patrimônio resultante valerá, se posto à venda, R$ 130.000,00.

[IMG2;casapopular2.jpg;E]Vamos ver, então, o caminho “A”, que começa pela contratação de um arquiteto, que irá fazer um projeto ajustado à realidade do cliente, otimizando espaços, garantindo uma boa ventilação, observan-do a posição do sol, explorando recursos estéticos como janelas, telhados e varandas. Depois, deve seguir-se a contratação de um engenheiro, que fará os projetos complementares (estrutural, hidro-sanitário, elétrico). Fará o dimensionamento correto dos materiais a serem utilizados, além de organizar a obra, promovendo racionalização e economia. Muita economia.
O custo de um arquiteto + um engenheiro é, digamos, R$ 5.000,00. Com os R$ 95.000,00 restantes, por este caminho “A”, teremos, como resultado, uma obra que custará os mesmos R$ 100.000,00. Porém, essa casa, com os recursos da arquitetura e da engenharia, terá os 90 ou 100 m2 muito melhor aproveitados, do que os da casa do “plano B”. Talvez até uns 110 m2.
E, além dos três quartos, sala, cozinha, banheiro, área de serviço e garagem, poderá ter, por exemplo, uma vaga a mais na garagem, uma churrasqueira, uma varanda, um telhado mais bonito... Se for construída no mesmo terreno de 30 mil, esse patrimônio resultante valerá – aí é que vem a surpresa –, pelo menos, uns R$ 150.000,00.

Exagero? Não! Os números estão corretos. E as provas estão por aí nos bairros, nos loteamentos e nas planilhas de custos...
É verdade: com Engenharia e Arquitetura a obra custa menos e vale mais!

Por que, então, se é tão simples assim, a maioria das pessoas faz a coisa do jeito errado? Por que as pessoas preferem a equação desenhista + pedreiro = obra + cara e sem valor agregado e não a equação engenharia + arquitetura = obra barata e mais valiosa?

Por três razões: primeira: nem tudo o que é óbvio é ululante! A maneira certa quase sempre é a maneira mais difícil de ser entendida e acolhida.

Segunda, porque essa escolha exige visão de médio e longo prazo e a maioria dos clientes dessa faixa de renda só consegue enxergar até o fim do mês. Cabe ao profissional ajudá-lo a ampliar esse horizonte.

A terceira razão (esta sim, importante) é a seguinte: “Os serviços de engenharia e de arquitetura encabeçam a lista dos produtos mais mal vendidos do Brasil”. As relações de mercado entre arquitetos/engenheiros e os seus clientes constituem uma “torre de babel” em que os profissionais querem vender coisas que os clientes não sabem que precisam, e os clientes precisam de coisas que os profissionais não consideram importantes e, portanto, não disponibilizam.

Nosso discurso de mercado é desorganizado e inútil. Temos de aprender a insistir na tecla de que Engenharia e Arquitetura não tornam a obra mais cara. Tornam a obra mais valiosa.
Porque não custa mais caro colocar a casa num lugar melhor do terreno, melhorando a circulação externa, aumentando a segurança e valorizando o patrimônio resultante; Não custa mais caro fazer a casa mais bonita, com janelas e portas localizadas de forma harmoniosa e elegante; Não custa mais caro posicionar a casa de tal maneira que o sol alcance os quartos pela manhã e que a circulação do vento seja mais agradável
Não custa mais caro (pelo contrário, custa até mais barato) não exagerar nas fundações da casa por falta de cálculos que garanta a segurança da construção e a economia do dinheiro do proprietário.
Em resumo: não custa mais caro aplicar Arquitetura e Engenharia na construção de uma casa, por menor que ela seja.

Este plano do governo federal de construir um milhão de residências é uma grande oportunidade de a Engenharia e a Arquitetura fazer o país mudar seus conceitos

Entidades de classe precisam se mobilizar. Os Creas precisam encontrar os caminhos para se integrar nessa operação (que já está em curso). O Confea deve promover audiências públicas em todo o país, para fomentar essa discussão.
Isso tudo é URGENTE!
Temos mais do que uma oportunidade. Temos um milhão de oportunidades. Um milhão de cavalos encilhados passando no nosso caminho.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | ep@eniopadilha.com.br

Comentário #1 — 26/03/2009 17:33

Ênio Padilha — Engenheiro — Balneário Camboriú

Comentário recebido por e-mail:
"Muito pequena a idéia que a aplicação de recursos se dá somente no ambito da Construção. E os profissionais envolvidos no Projetos de Parcelamento do Solo, Projetos e execução da Infraestrutura de água, energia, esgoto, pavimentação e finalmente o Projeto e Execução da moradia como acessório."

Flávio Alexandre
Paraná

Comentário #2 — 26/03/2009 17:35

Ênio Padilha — Engenheiro — Balneário Camboriú

Está certíssimo o Flávio Alexandre. Todos os segmentos da Engenharia, da Arquitetura e do Urbanismo estarão envolvidos.
O exemplo da construção foi utilizado apenas para chamar a atenção para um trabalho que os próprios profissionais interessados muitas vezes consideram desnecessário.

Comentário #3 — 26/03/2009 17:39

José Luiz Costa — Engenheiro Civil — Lunda-Angola

Caro,Ênio, concordo com o colega, e com mais um atenuante, geração de mão obra local,encargos, serviços, enfim um verdadeiro incremento na economia, com a construção civil sendo norteada com planejamento. É por aí.

Comentário #4 — 27/03/2009 00:47

Toni Fausto Frainerr — Engenheiro Civil — Bal. Camboriú

Ola!!! tudo bem caro professor...

Sou um ex-aluno do senhor (Adm.em Eng. Civil - 1 sem-07), adorava aqueles debates em sala de aula, ensinando a valorizar essa maravilhosa profissão de "Engenheiro".

Adorei o texto poderiamos até fazer uma campanha... boa sugestão para "CREA-SC" ou "AREA 17" daria um bom slogan
"equação desenhista + pedreiro = obra + cara e sem valor agregado e a equação engenharia + arquitetura = obra barata e mais valiosa?"

Abraços e até mais....

Comentário #5 — 27/03/2009 08:03

Ênio Padilha — Engenheiro — Balneário Camboriú

O amigo José Luiz Costa é brasileiro, de Cruzeiro (SP) e está em Angola trabalhando na reconstrução daquele país. Ele diz, por e-mail, que lá os engenheiros brasileiros são muito respeitados e reconhecidos.

Já o colega Toni Fausto era um dos meus melhores alunos no curso de Engenharia Civil. Tenho certeza de que é também um excelente engenheiro.

Sejam bem-vindos sempre, os dois. Voltem sempre.

Comentário #6 — 27/03/2009 18:05

LILIAN LEITE — DESIGNER DE INTERIORES — FEIRA DE SANTANA

Coincidência! Hoje mesmo respondi isso a alguém q quis me dar uma injeção de ânimo: isso não vai mudar nada para a nós, profissionais da área...
Mudei minha opinião... Concordo com a sua!
Traçar estratégias, acreditar e seguir, vamos atravessar essa "MAROLINHA".

Comentário #7 — 27/03/2009 18:11

Ênio Padilha — Engenheiro — Balneário Camboriú

Oi, Lilian.
Que bom que você mudou de idéia. fico feliz pois esse é o objetivo do autor: provocar reflexão nas pessoas e, se for o caso, alterar comportamentos.
Que bom se cada artigo conseguisse mudar a idéia de dois ou três leitores...

Comentário #8 — 28/03/2009 15:19

José Roberto Scarpetta Alves — Eng Civil — Florianópolis

É difícil gente, receber no seu escritório aqueles "clientes" que vem indicados por seus ex-colegas de Escola Técnica "sugerindo" que você "assine" o "projetinho". Antes de correr com essas pessoas da sala, eu tento explicar da mesma forma que o Ênio. Ou então sou sarcástico dando um preço.Quando o esperto acha caro (lógico-espera pagar R$ 500,00), eu enumero as visitas que vou fazer, os anos de faculdade, os anos de profissão, a garantia depois da obra pronta e comparo com o custo da obra dele, provando que o "inginhero" custa menos que 3% da obra, economiza mais de 15% e valoriza o produto final em pelo menos 20%.

Comentário #9 — 28/03/2009 17:20

JOSÉ ROBERTO CONTE — Engenheiro Civil — Araras - S.P.

Temos que fazer uma campanha perante o CREA,não para que fechem Escolas de Engenharia e Arquitetura e sim fechar as escolas que formam caneteiros, que ficam de 4 a 5 anos na escola para apreender escrever seu nome. Está na hora do CREa aplicar provas como faz a OAB, para tentar melhorar a classe.

Comentário #10 — 29/03/2009 13:04

Cesar Divonsir Detzel — Engenheiro Civil — Curitiba - PR

Ênio,
muito apropriado seu artigo, mas entendo que está no âmbito das obras particulares, em que os profissionais, ensinados que foram a ter bom senso e organização, tem o controle dos custos.
Em se tratando de obras com recursos do governo federal, como se está noticiando, deve-se encontrar uma forma de tirar o custo político dos empreendimentos e entregar sua administração a profissionais de carreira das áreas de engenharia e arquitetura. Caso contrário, veremos mais do mesmo que está acontecendo no Brasil: pequenas e amontoadas unidades residenciais, ocupando espaços nem sempre apropriados em locais destinados à preservação ambiental, com custos elevados em relação aos resultados obtidos.

Comentário #11 — 29/03/2009 14:08

Ênio Padilha — Engenheiro — Balneário Camboriú

Este comentário foi postado no artigo "FÓRMULA UM: UM ESPORTE DE ENGENHEIROS"

Resolvi reproduzi-lo aqui pois entendo que tem muito a ver com o que foi proposto neste artigo também.
Obrigado, amigo Paulo Cesar

=============================================
PAULO CESAR BASTOS
ENGENHEIRO CIVIL
Salvador-Ba

Prezado Ênio Padilha
Não conheço,também, engenheiro que não goste de Fórmula 1.Pode existir,mas deve ser caso raro.Eu mesmo sou apaixonado por automobilismo desde o tempo do adolescente que sonhava e estudava para ser engenheiro.
A Engenharia é que constrói os caminhos para a competição rumo ao progresso.Cada vez mais é preciso transmitir esta verdade.

Sobre F-1,recordo um filme de extrema beleza cênica e de uma engenharia de ediçao de imagens inovadora e de alta tecnologia para a época,pelo final dos anos 60 ou ínicio dos 70.Jovem estudante assisti ao fime GRAND PRIX.Numa das passagens o protagonista fala que as suas grandes vitórias ocorriam após um grande acidente.Enquanto outros paravam , ele acelerava.
A chamada crise financeira internacional é um acidente de percurso.O Brasil não pode parar, precisamos acelerar.Investir em obras de engenharia,construir a infraestrutura que precisamos, desenvolver tecnologias inovadoras e modernizar o parque industrial é o modo de pisar no acelerador.As obras do PAC serão fundamentais, não podem sofrer solução de continuidade.O plano de habitação recentemente lançado resgatará uma dívida social e criará os empregos e gerará renda em todo o País.
A nossa oportunidade, que sempre vem da chamada crise é agora. O engenho da inovação construirá a usina do progresso que será o nosso país continente, diversificado em climas e costumes, mas sempre unido e amado , o nosso Brasil.Vamos acelerar, o pódium será nosso.

Comentário #12 — 29/03/2009 14:15

www.engenheirobastos.zip.net — engenheiro civil — itapagipe mg

parabéns doutor enio padilha por lembrar de nos pequenos profissionais autonomos do interior do brasil a fazer apenas casinhas de até 100 m2, mas posso colaborar com sua materia com minha experiencia de vida nos ultimos 20 anos em itapagipe mg um pequeno municipio de 3000 imóveis e o unico engenheiro por aqui que tem emprego e comissionado politico sem registro e sem encargos sociais é o canetinha de ouro da prefeitura municipal que atraves do crea mg consiguimos outorgar a mais alta punição da etica profissional com a censura publica ou seja só não foi cassado ainda por que não matou ninguem em suas obras mas com a punição só serve agora para trabalhar vendendo canetadas em branco para manter nos cargos publicos os caciques da cidades atraves do buraco sem fundo que são as obras públicas, veja os escandalos do momentos na tv e de muitos outros que já esquecemos, mas apesar da impunidade dos canetinhas ainda temos a conivencia sa receita federal que permite um cidadão averbar construção de mais de 1000 reais o m2 sem comprovar a origem do dinheiro e o pagamento dos encargos sociais, e se os operarios autonomos e diaristas levar um proprietario de obras a justiça trabalhista o juiz aceita a alegação de ser cidadão carente e sem recursos, aconteceu comigo neste mes apos 5 meses de obras em uma residencia de alto padrão de 182 m2, executada apenas com a autuação do crea mg que visitou a obra e exigiu a contratação de um rt mas a prefeitura isentou por motivos politicos o alvará e ainda colabora na obra com aterros e terraplenagens e remoção de entulhos tudo por conta de uma plantinha de regularização de obra pronta e sai alvará e habite-se, assim enquanto o crea e o confea não punir os engenheiros municipais nunca teremos uma chance de trabalho a corrupção sempre vencerá... engenheiro civil solimar de castro bastos crea mg 5.417/d - itapagipe mg

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