O EAD SERÁ FORTALECIDO NESTA CRISE

(Publicado em 22/03/2020)





Nem todas as indústrias* terão prejuízos com esta crise.
Todos terão algum nível de perdas, mas indústria da saúde, por exemplo, não deverá sofrer impactos econômicos significativos, embora casos isolados de prejuízos possam ser identificados. Não imagino o dono de uma clínica médica preocupado com o futuro do seu negócio como o dono de um hotel ou de uma empresa de eventos. A indústria farmacêutica (especialmente a produção de remédios) também não sofrerá danos (exceto, claro, os problemas de produção, derivados da falta eventual de mão de obra).

Outra área que terá um resultado muito positivo com esta crise (especialmente no ponto de vista de valor das marcas ou prestígio do conceito) é a de Educação a Distância — EAD.




Eu já fui contra muitas formas de ensino a distância, especialmente quando se tratava de graduação e pós graduação. Aí, em 2013, tive a oportunidade de ler o livro OS TORTUOSOS CAMINHOS DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA - PONTOS DE VISTA IMPOPULARES do brilhante pensador brasileiro da educação Cláudio de Moura Castro (nunca entendi porque ele nunca foi Ministro da Educação, mas isso é assunto para outro artigo). Escrevi AQUI uma resenha para o livro.

Depois de ler o livro mudei radicalmente de ideia. E fui evoluindo o entendimento do assunto até me tornar um defensor desta forma de ensino em todos os níveis da educação (da pré-escola ao Doutorado, passando pelos cursos de formação profissional continuada).

A transição, afinal, não foi tão complicada, uma vez que, desde 1999, eu já estava envolvido, de alguma forma, com o EAD.

O primeiro curso via internet destinado a engenheiros e arquitetos, no Brasil, foi o meu curso de MARKETING PARA ENGENHARIA E ARQUITETURA que teve duas turmas (mais de 200 alunos) no Crea-MG em 1999 e uma turma (50 alunos) no ano 2000, no Crea-RS.

Tudo isso aconteceu há mais de 20 anos, num tempo em que a discussão do sistema EAD estava longe de ser um assunto "da hora".




Enfim, passei para o outro lado da trincheira e passei a ter de enfrentar os argumentos dos que (como eu era) são contra a aplicação do Ensino a Distância.

O objetivo deste artigo não é argumentar a favor do EAD, nem desfiar o rosário de virtudes que as múltiplos ferramentas de EAD têm. A questão aqui é outra: mostrar que o EAD sairá desta tempestade muito mais forte do que entrou.

O principal argumento contra o EAD é a crença de que a modalidade (**), simplesmente, não funciona. Essa crença será fortemente bombardeada pela intensa necessidade e livre utilização dos recursos de EAD durante o isolamento social (voluntário ou obrigatório). Muitas coisas importantes irão acontecer e contribuir para o fortalecimento do conceito e das marcas ligadas ao EAD.

(1) O conceito de EAD irá se fortalecer, à medida que as pessoas perceberem que tudo pode ser ensinado e apreendido a distância, com algumas (poucas) exceções. 80% de um curso de Engenharia, por exemplo, poderia ser feito a distância;

(2) A maioria das pessoas nem faz ideia de quantas ferramentas existem para o Ensino a Distância, como, por exemplo, os óculos de realidade virtual 3D, que podem simular com muita qualidade, uma sala de aula normal. Essas coisas serão descobertas por milhões de pessoas durante esse período de recolhimento;

(3) Existem muitos professores, na graduação e na pós graduação, que não utilizam as ferramentas de EAD que as instituições disponibilizam. Agora eles terão de utilizar esses recursos (de maneira forçada) e muitos perceberão a utilidade desse modelo de ensino utilidade;

(4) Muitas ferramentas com deficiências operacionais terão de ser corrigidas com muita rapidez, para garantir os resultados esperados. Haverá uma aceleração no desenvolvimento e aprimoramento desses produtos, não só no Brasil, mas no mundo inteiro;

(5) Como em todos os momentos de crise, como as guerras e pandemias, muitas soluções inovadoras serão desenvolvidas para incrementar ainda mais essa indústria;

(6) Quem tiver visão estratégica perceberá que, quando a tempestade passar surgirá a tarefa de reconstrução da economia do país. Certamente faltará mão de obra qualificada e faltarão salas de aulas físicas para formar tanta gente. O EAD de qualidade terá um imenso espaço nesse cenário. Será um desafio e tanto para empreendedores. Quem estiver melhor posicionado colherá os melhores resultados.


Assim como muito do trabalho que está agora em home office voltará a ser realizados nas empresas, depois que a crise passar, também muita coisa que será feita por EAD durante a crise voltará ao modo presencial depois da tempestade. Mas... parafraseando Einstein, quando disse que "uma mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original" o avanço e alcance das ações de EAD que ocorrerem durante esta crise estabelecerão um novo patamar de reconhecimento e utilidade para a modalidade.

A coisa não voltará jamais aos níveis anteriores à chegada do novo CoronaVírus no Brasil.





PADILHA, Ênio. 2020







(*) Indústria, na economia Industrial de Mason e Bain, é definida como o conjunto de empresas que produzem e disponibilizam ao mercado produtos que são substitutos e bastante próximos entre si. Não tem, portanto o sentido normalmente utilizado no Brasil que entende indústria como uma fábrica de bens de consumo ou de produção.



(**) EAD não é um método e sim uma modalidade de entrega dos produtos da indústria da educação (outras duas modalidades reconhecidas são a presencial e a autodidatismo). EAD, portanto, é um conjunto de ferramentas que permitem a educação de forma remota e assíncrona.




Para a composição deste artigo tive o privilégio de receber algumas valiosas contribuições de amigos muito queridos:
ALBERTO COSTA, Consultor de Empresas, de Florianópolis;
FARLLEY DERZE, Doutor em Arquitetura, músico, escritor... multitalentoso, de Brasília-DF
JEAN TOSETTO, Arquiteto e Urbanista, autor de livros (entre eles o ARQUITETO 1.0). De Paulínia-SP
JOANA SEGATTO, arquiteta e Urbanista, professora universitária, de Vitória-ES
LÍGIA FASCIONI, Engenheira Eletricista, Dra. Autora de livros, palestrante, de Florianópolis (atualmente em Berlim, na Alemanha)
MARCOS VALLIM, Engenheiro Eletricista, Dr. Professor universitário e pesquisador. De Londrina-PR;
MAURO FACCIONI, Engenheiro Eletricista, Dr. Professor universitário e coordenador de cursos EAD, pesquisador e autor de livros. De Florianópolis, atualmente em Bristol, Inglaterra;
SEBASTIÃO LAURO NAU, Engenheiro Eletricista, Dr. professor universitário, de Jaraguá do Sul-SC)
SÉRGIO DOS SANTOS, Engenheiro Civil, Dr. professor universitário, autor de livros, de Fortaleza (atualmente em Leeuwarden, na Holanda)




Comentário #1 — 22/03/2020 14:03

Alberto Costa — Consultor empresarial — Florianópolis

Ênio, a conjuntura, não raro, torna-se motivo para lamúrias e conflitos de poder. Os empreendedores, entretanto, partindo de visão própria ou atentos a visões publicadas por outros, percebem as oportunidades que se abrem, quando guerras, epidemias e outros eventos catastróficos colocam em xeque as soluções tecnológicas, políticas, jurídicas e sociais que haviam sido padrão até então... Obrigado por chamar nossa atenção para a grande oportunidade para o EAD (como para o teletrabalho e para o e-commerce em geral) que o momento atual provê - que os arquitetos e engenheiros e todos os que o lêem saibam valorizar e usar esse insight, é o meu desejo...

Comentário #2 — 22/03/2020 15:29

Jean Tosetto — Arquiteto / Escritor — Paulínia / SP

Caro Ênio, depois de uma crise superada, ocorre a tarefa de reconstrução da economia de um país. Faltará mão de obra qualificada e faltarão salas de aulas físicas para formar tanta gente. O EAD DE QUALIDADE terá espaço neste cenário. Os cursos deverão ser mais intensivos e focar em atributos essenciais, para abreviar o tempo de duração. Será um desafio e tanto para empreendedores. Oportunidades de crescimento não faltarão. É complicado falar nisso agora, no olho do furacão, mas quem sobreviver terá anos dourados pela frente, depois de alguns anos de pedras.

Comentário #3 — 22/03/2020 18:51

emanuel maia mota — Engenheiro civil — Fortaleza

Artigo super pertinente, após toda essa crise, uma coisa é certa: as relações, quais quer que sejam, no mundo, jamais serão as mesmas. Tudo que está ocorrendo será um divisor de águas nessas relações que vão desde as trabalhistas até as comerciais. A tecnologia sai fortalecida. A china ainda vai dar muita explicação

Comentário #4 — 24/03/2020 15:09

MARCOS BANHETI RABELLO VALLIM — PROFESSOR — CORNELIO PROCÓPIO

Caro Enio,

Muito oportuno teu artigo. A questão do EAD já foi equacionada há mais de duas décadas nos países civilizados. No Brasil ainda temos muito a aprender. Essa crise pode ser um bom laboratório. Temos duas restrições importantes a serem vencidas as quais você menciona de alguma forma no teu artigo: a falta de treinamento dos professores e a limitação da infraestrutura de suporte para as ferramentas em EAD. Essa é uma questão de Tecnologia da Informação que infelizmente não está equacionada para a maioria das instituições, principalmente se estamos falando de uso em larga escala e intenso.
Pessoalmente eu vejo a EAD como sendo mais uma ferramenta à disposição da educação e não uma panaceia como muito a tentam vender. É adequada aos tempos em que vivemos, mas não é em si a Educação, assim como um quadro e giz por si só não faz o estudante aprender.

Comentário #5 — 26/03/2020 00:16

Joana Segatto Scabelo — Arquiteta e Professora — Vitória/ES

Querido Professor Ênio! Quando falar em educação, sempre estaremos juntos. Uma honra para mim.
Em pleno século XXI, infelizmente ainda vemos, com facilidade, a resistência das pessoas em se adequarem à tecnologia. Entretanto, às vezes, é possível notar a dificuldade de acesso ou até mesmo, ao aprendizado. Questões de base educativa e cultural que fazerem diferença na vida, principalmente, profissional de uma pessoa.
Como você disse, não convém a defesa ou não do ensino à distância; mas sim, sobre o fortalecimento desse método, após essa crise que estamos passando. Realmente, o EAD vai se fortalecer. Para não pararmos, precisamos das plataformas digitais para nos conectar e transmitir nossas aulas. Alguns alunos, com as dificuldades já mencionadas, buscam essas aulas virtuais; outros, infelizmente, esperam \"pegar na mãozinha\".
O que estou vivenciando no momento com o uso do EAD, é que é possível transmitir uma aula virtualmente sem perda do conteúdo; também facilita a gravação da aula - o que te respalda e facilita o aluno que faltou, a não perder o conteúdo.
Estou percebendo que, só não estuda, quem não quer. A tecnologia está aí, para te facilitar, mas parece que as pessoas gostam de complicar, né?
Espero que, esse \"estudo virtual forçado\", seja um empurrão para nossa evolução.
Um forte abraço!

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