FISCALIZAÇÃO ESTRATÉGICA

O presidente do Crea é, naturalmente, um líder. Provou isso, ao vencer a eleição. Para isso ele teve de conquistar seguidores, compartilhar uma visão de mundo e um modelo de gestão.

É comum que o presidente do Crea defina a si mesmo como um Gestor. Mas não foi para isso que ele foi eleito. Ele foi escolhido para liderar. Existe uma diferença entre essas duas coisas.

O Crea precisará, sempre, de um líder, mais do que um gestor. E o exercício da liderança precisa estar ancorada em uma estratégia.

É aqui que entra a fiscalização, pois ela é uma instância estratégica do Crea, embora nem sempre seja reconhecida e tratada desta forma





Imagem: OitoNoveTrês



(Ano 01 – Número 04 – Publicado em 27/10/2020)



Nove em cada dez engenheiros, quando fazem a lista de quais devem ser as prioridades do Crea, incluem uma melhoria na eficiência da fiscalização.

Mas é importante observar que ao fazer essa escolha o profissional não esta querendo ser mais fiscalizado. Quando ele pede por mais fiscalização ele tem um olhar para outro alvo: acobertadores (caneteiros), obras sem projeto, obras públicas sem engenharia, etc.

Por que os profissionais se sentem desatendidos ou insatisfeitos exatamente naquela que é a função primordial e, praticamente, a razão de existir do Crea?

A resposta parece estar NÃO na quantidade da fiscalização e NEM mesmo na sua qualidade, mas nas prioridades escolhidas pelas fiscalizações dos Crea (em geral). Não estamos fiscalizando pouco nem estamos fiscalizando mal. Estamos fiscalizando errado.

Para o profissional que está no campo a fiscalização do Crea representa uma espécie de marketing institucional ou uma força madrinheira.(*)

A fiscalização do Crea é, de certa maneira, uma motivação legal para que parte dos clientes procurem por serviços de Engenharia.

Quando o Crea adota uma fiscalização baseada em documentos, verificação de códigos, placa na obra, e outras coisas desse tipo o que se está fazendo é fiscalizar os profissionais que já estão, integrados ao sistema. Em outras palavras, está punindo (ou atrapalhando) o profissional que está regular e fechando os olhos para a imensa quantidade de obra irregulares, obras sem engenharia, grupos de clientes que desprezam ou não se sentem suficientemente motivados para a contratação dos serviços de Engenharia.

A relação, digamos, conturbada, dos profissionais com o Crea, decorre do fato de que o Crea ao agir, de acordo com a lei, cumprindo, portanto, a sua função legal, acaba justamente desagradando os profissionais que compõem o Crea, pois ao concentrar os seus esforços na fiscalização do perfeito exercício profissional acaba se esquecendo das obras onde o exercício da profissão não é sequer cogitado (quem dirá perfeito).

Não vai aqui uma defesa de uma fiscalização frouxa ao exercício profissional regular, que precisa ser feita, claro.

Porém, é preciso entender que, como o sistema se sustenta da contribuição involuntária dos profissionais que atuam no campo, a escolha desses profissionais como alvo prioritário de fiscalização está equivocada. Não ajuda o profissional regular além de causar uma péssima impressão. O profissional no campo acaba vendo o Crea não apenas como um órgão meramente arrecadador mas também como um inimigo. Uma instituição burocrática que existe para encontrar defeitos no seu trabalho.

Ainda que esses profissionais estejam efetivamente cometendo erros ou pequenas transgressões é importante observar que, do ponto de vista da Valorização Profissional isso não se compara às obras construídas sem Engenharia ou com ação vergonhosa dos acobertadores e a imensa quantidade de espaços no mercado que acabam não sendo alcançados pelos engenheiros exatamente pela falta desse instrumento legal de estímulo que a fiscalização do Crea poderia representar.

A fiscalização do Crea, portanto, precisa ser incorporada à estratégia geral da gestão do Crea.

O objetivo estratégico do Crea dever ser cumprir a sua função legal atendendo interesses dos bons profissionais. Punir aquele profissional que está fazendo um bom trabalho mas que esqueceu uma placa na obra ou colocou um código errado na ART ou cometeu algum erro na burocracia do registro do seu trabalho só vai fazer com que esse profissional se volte contra o sistema e se torne mais um dos seus detratores.

A fiscalização não pode ser entendida, dentro do Crea, como uma atividade isolada que pode se auto gerir. A fiscalização é uma atividade estratégica que deve estar ligada aos objetivos estratégicos da instituição.

A função do Crea é fiscalizar o exercício da profissão. Mas o objetivo do Crea não pode ser este. É preciso entender quais são, efetivamente, os objetivos do Crea e ajustar as atividades de fiscalização aos objetivos do Crea.

Em muitos Creas a fiscalização é um departamento isolado na estrutura burocrática da instituição. Existe por si só, como um fim em si mesmo. Não está integrado aos objetivos do Crea que, como entidade, sofre as consequências da sua produtividade.
Isto é, claro, uma inversão extremamente nociva aos interesses estratégicos da instituição.

No Crea, a pessoa responsável pelas ações de fiscalização, não pode ser um burocrata que conta pontos por multa emitida ou profissional punido. É preciso que seja alguém com visão estratégica alinhada à presidência. Alinhada aos interesses estratégicos da gestão.





PADILHA, Ênio. 2020




(*) No tempo dos tropeiros, força madrinheira era um grupo que viajava na frente, geralmente para organizar e garantir pouso, água e comida para a tropa que vinha algumas horas atrás.




Leia também: CARTA AOS PRESIDENTES ELEITOS DOS CREAS
Uma eleição cria, em torno do candidato, uma bolha de otimismo e de apoio. Nesta bolha ninguém (a não ser que seja muito amigo) irá apontar o dedo e dizer que você está errado. Isso é um perigo. Você não pode levar essa bolha para dentro do Crea. Lembre-se da frase de Santo Agostinho: "Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem."

O QUE O CREA PODE FAZER PELA ENGENHARIA
A falta de conhecimento científico da nossa população afeta profundamente o desenvolvimento da Engenharia nacional. O despreparo científico das pessoas que vão trabalhar na construção civil ou mesmo ser nossos clientes compromete a qualidade dos nossos trabalhos. Muito das nossas soluções de projeto, obtidas como resultado de anos e anos de estudos e pesquisa se perdem nas obras porque o executor não sabe ler direito.

TRANSPARENTE. NÃO APENAS TRANSLÚCIDO
Desde 2006 tanto o Confea quanto alguns Creas já transmitem suas reuniões plenárias ao vivo pela internet. Aplaudimos a iniciativa que certamente torna as atividades dos conselhos mais transparentes.





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