JOSÉ MARIA NUNES É ASSIM MESMO

(Publicado em 01/01/2022)



Nesse ponto da história, tomo a liberdade de incluir no texto uma pequena nota autobiográfica.

Em fevereiro de 1977, com 18 anos recém-completados, resolvi sair de casa. Sair de Rio do Sul, tentar a vida em uma cidade maior. A empresa na qual eu havia trabalhado nos últimos três anos, estava em processo de falência.

Meu salário estava atrasado fazia quatro meses. Eu estava muito desanimado e queria (precisava de) novos ares.

Escolhi Florianópolis por várias razões, mas a principal é que eu tinha onde morar. Um amigo havia morado na nossa casa durante os dois anos anteriores, enquanto trabalhava em Rio do Sul. Então, não seria complicado eu morar na casa dele por algum tempo, até acertar as coisas na nova cidade.




Trecho extraído do livro JOSÉ MARIA NUNES - A história de um vencedor no esporte e na vida
Páginas 154 a 157




Cheguei no último dia de fevereiro. Fui pra casa do meu amigo, que morava no Morro do Mocotó, logo depois da Cabeça do Santo, perto do Hospital de Caridade. Me instalei como pude. Não tinha, praticamente, nenhuma bagagem (e muito pouco dinheiro). Dormia no sofá da sala. O movimento na casa era grande. Então eu dormia tarde e acordava cedo. Na casa, pequena, morava o meu amigo, a mulher dele, dois filhos pequenos, a mãe dele e um irmão (e, eventualmente, a namorada do irmão). Antes do final da primeira semana eu já tinha notado que a coisa não seria fácil. Não havia privacidade nenhuma. E os dois irmãos nem sempre se entendiam direito. Coisas de família.

Gastei as duas primeiras semanas de março tentando me ajeitar. Procurei emprego, sem sucesso. Estava desorientado. E muito desanimado. Não queria voltar para Rio do Sul. Mas a coisa estava ficando difícil. O clima estava pesado na casa do meu amigo. Ele estava sendo pressionado pela mãe, pela mulher e pelo irmão, por causa da decisão de ter colocado um estranho para morar ali. Fiz contatos com a empresa na qual eu trabalhara em Rio do Sul, na esperança de receber algum dinheiro dos salários atrasados. Recebi (de uma fonte segura) a informação de que não iria receber nada tão cedo. Que eles iriam resolver, primeiro, o caso dos que estavam por perto, esmurrando os portões diariamente. As minhas opções eram voltar pra Rio do Sul e me juntar
aos que pressionavam para receber os atrasados (com pouquíssimas chances de sucesso), ou "seguir a vida e entregar pra Deus" como me disse a minha fonte. Resolvi seguir a vida.

No sábado, dia 19 de março, fui até a Trindade, na casa onde morava um amigo da equipe de atletismo de Rio do Sul, Miguel Raymundi. Estávamos conversando, quando chegou o professor José Maria Nunes.

Eu já o conhecia de algumas competições. Até já tinha corrido com ele. Mas nunca havíamos sido apresentados pessoalmente. Miguel fez as honras. Ele apertou a minha mão, perguntou alguma coisa, foi muito amável. Eu estava encantado. Estava conversando com um grande ídolo. Uma pessoa que eu só via nas fotografias dos jornais. Uma pessoa que era o assunto nas conversas entre os atletas. O cara que a gente ficava olhando, da arquibancada, tentando entender como ele fazia aquilo.

Eu já era atleta. Nos dois anos anteriores era da equipe de Rio do Sul. Tinha tido uma participação inexpressiva nos Jogos Abertos de Tubarão, no ano anterior, mas, em novembro, tinha vencido a seletiva de Santa Catarina para os Jogos Estudantis Brasileiros e batido o recorde dos 1500m para juvenis (com 4min16s). E fiquei em 9º lugar nos JEBs, realizados em Porto Alegre.

De qualquer forma, aquilo não era significativo para entrar na equipe de Florianópolis, que tinha, na época, pelo menos, uns cinco ou seis atletas bem melhores do que eu (o próprio José Maria Nunes, seu irmão, João Francisco, Sebastião Iberes Lopes de Melo, Valdomiro Livramento Neto, Paulo Roberto Vieira Ademir da Rosa, Nereu Pereira Filho, entre outros).

Nunes estava ali para conversar com Miguel, que era uma estrela do atletismo, e para rever o amigos, com os quais havia morado nas primeiras semanas do seu retorno, no ano anterior.

Eu perguntei se poderia treinar com eles na equipe de Florianópolis. Ele explicou que a prefeitura pagava uma bolsa para alguns atletas, mas que, no meu caso, seria muito dificil (por que eu não tinha nenhum resultado expressivo). Mas eu poderia, sim, treinar com eles, na pista da Marinha. Os treinos aconteciam todos os dias, de manhã e à tarde.

Na segunda-feira, às oito horas da manha, eu estava lá com meu material, pronto pra correr. Nunes chegou, distribuiu tarefas para os atletas e me incluiu num grupo para fazer um trabalho de base. Corridas ao redor da pista.

Depois do treino, veio conversar comigo. Acho que o Miguel deve ter falado pra ele sobre a minha situação. Perguntou se eu já estava estudando. Eu respondi que
não, que não tinha conseguido vaga em nenhuma escola. Perguntou onde eu estava morando. Contei pra ele, rapidamente, a minha situação. Eu estava desesperado, quase chorando. Mas ele estava muito amável. E prometeu que iria conversar com "umas pessoas"

No dia seguinte, no final do treino, ele me chamou, e disse: "Padilha, eu vou fazer um negócio com você. Você pode pegar as suas coisas e pode vir morar lá na minha casa. Eu consegui, com um amigo meu, que é diretor de um colégio (Aderbal Ramos da Silva) aqui no Estreito, uma vaga pra você estudar. Você vai começar a estudar ainda hoje. Tem de se esforçar, porque já perdeu, praticamente, um mês de aula. Mas você é um rapaz inteligente e vai conseguir."

"Infelizmente, não posso conseguir uma bolsa de atleta pra você na Prefeitura de Florianópolis, mas você vai, a partir de amanha, procurar um emprego. Enquanto não encontrar um emprego, pode ficar lá em casa, sem problemas. E vai estudar, que isso é o mais importante."

Era uma coisa difícil de acreditar! Foi a primeira coisa boa que me aconteceu em Florianópolis, em quase um mês. Finalmente, eu teria um lugar pra ficar. E poderia voltar a estudar.

Fiz o que ele disse. Me mudei no mesmo dia. Fui ao colégio à noite, levei meus documentos, fiz a minha matrícula e já fiquei para as aulas daquela noite.

Quando cheguei em casa à noite, Nunes estava me esperando com umas folhas de jornal que ele tinha conseguido. Era a página de empregos. Me mostrou como procurar: "Vai nesses lugares amanhã. Quem sabe aparece uma coisa boa"

No dia seguinte, cedo, saí para procurar emprego. Agora eu estava muito mais animado e seguro. Funcionou: consegui um emprego em dois dias. Antes do final daquela semana, eu estava trabalhando num escritório, no último andar do Edifício Comasa, na rua Felipe Schmidt. Depois do segundo salário, eu pude começar a ajudar; com a minha parte, no aluguel e nas despesas da casa. Estava com a vida muito bem encaminhada. E minha amizade com José Maria Nunes estava apenas começando.

José Maria não tinha nenhuma motivação oportunista ou interesseira para me ajudar. Eu não era um atleta de ponta. Não era, sequer, um atleta promissor. E ele tinha, na sua equipe, vários corredores melhores do que eu. Além disso, não havia entre nós uma amizade antiga ou qualquer tipo de vínculo. Eu não era da família dele. Não havia nada.

Mas, ele olhou nos meus olhos e viu alguma coisa. Viu uma possibilidade. Viu um futuro. E sentiu-se, de alguma forma, responsável por aquilo. Achou que deveria ajudar de alguma maneira. Isso era José Maria Nunes.

E eu viria a descobrir, nos anos seguintes, que ele fazia isso, desse jeito, com muita gente.

Muitos anos depois, Elvira faria, pra mim, a melhor definição dessa característica de José Maria: "Ele tem amor compassivo. Ele se identifica com o problema do outro e quer ajudar. Assume como sua aquela dor. É o jeito dele. Talvez isso seja uma qualidade. Talvez seja um defeito. Nunca saberemos!"





PADILHA, Ênio. 2022

Comentário #1 — 21/01/2022 16:06

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