O NOME DA GENTE

(Publicado em 13/09/2009)





Joyce trabalha com produção de eventos em Balneário Camboriú. Uma figura fantástica. Joyce tem um bom humor permanente, uma alegria interminável. Ele sempre tem uma piada para qualquer situação.

Sim, eu disse "ele". Joyce Mário Silveira é um senhor respeitável. Cinqüenta e poucos anos...
"Joyce" para os amigos, que, por sinal são muitos.

Outro dia estávamos tomando um café (numa das excelentes confeitarias de Balneário Camboriú) e ele me contou que leu meu livro, "Marketing Pessoal & Imagem Pública". Lá tem um capítulo sobre o nome das pessoas e a sua importância para o marketing pessoal. Daí que ele resolveu trocar de nome. Disse que vai ao Juiz. Não quer mais ser Joyce. "Nem fica bem, na minha idade!".

Joyce disse que vai mudar o nome para... Márcia!

(Todo mundo riu muito, claro.)

Brincadeiras à parte, todo mundo gosta do próprio nome. Ainda que o fulano se chame Cleopôncio, Conscúcio, Remígio ou coisa que o valha. O sujeito acaba se acostumando e pronto.

Na infância, principalmente nos primeiros anos de escola, os nomes esquisitos incomodam mais. É que as crianças são mais naturais, muito mais criativas. Costumam achar graça de tudo e ainda não desenvolveram a capacidade da hipocrisia e da falsidade (que são habilidades de adultos).

Uma menina, por exemplo, que se chame Ermengarda, não tenham dúvida: todo mundo vai chamar de "Espingarda" ou coisa pior.

Quando eu estudava no Instituto Estadual de Educação (Florianópolis), em 1978, nos primeiros dias de aula, na chamada dos professores, havia uma tal "PASCOÍNA", que não respondia à chamada, porque não estava na sala de aula. O professor chamava "Pascoína" e nada. Ninguém respondia.

Todos nós tínhamos uma grande curiosidade de saber como seria a dona de um nome tão estapafúrdio: PASCOÍNA ! (mais tarde descobrimos que a moça recebeu este nome do pai dela, por haver nascido no Domingo de Páscoa. Se fosse no Natal seria Natalina).

Ao fim de duas semanas de ausência, num belo dia, a professora chamou: Pascoína.
- Presente, respondeu uma voz bonita no fundo da sala.
Todo mundo se virou na carteira, dirigindo o olhar para o lugar de onde havia partido a voz. E, para surpresa geral, a dona da voz bonita e do nome medonho era, na verdade, um moça muito bem desenhada. Lindíssima, para ser mais exato.

Mas eu acho que, no fundo, no fundo, a turma toda ficou meio decepcionada. Esperavam uma pessoa tão feia e esquisita quanto o nome...

E quem pensa que ter nome bonito resolve o problema, engana-se redondamente. Na verdade, mesmo que você se chame Helena, Clara, Ricardo ou Bráulio, isto não livra você de, amanhã ou depois, aparecer um personagem na televisão (ou em uma música popular) com um nome desses e pronto: você não vai ter paz por um bom tempo.

Eu, por exemplo, já fui vítima disto por duas vezes. Na primeira foi na época do Vila Sésamo (lembram aquele programa infantil da televisão, no início da década de 70?). Havia um "Ênio" safado e trapaceiro que vivia fazendo sacanagem com seu amigo Beto.
Naquela época ninguém podia me ver na rua sem me perguntar pelo Beto: "Ei, Ênio, cadê o Beto!"

Na segunda vez foi muito pior: a culpa foi do Jô Soares, que botou no ar um tal "Padilha", personagem de masculinidade duvidosa e que tinha em casa uma mulher super gostosa e muito pouco séria.

Passei anos ouvindo pacientemente o famoso "Vai pra casa, Padilha". E, ainda hoje, passados mais de vinte anos, de vez em quando alguém me vem com essa piada.
Nos tempos agudos foi terrível. Ninguém me poupava. Nem os parentes!

Mas eu não sofro sozinho. O Batista (amigo meu dos tempos do atletismo) teve de aturar por muito tempo o "Cala a boca, Batista" (também por conta do Jô Soares).

E, quando o Evandro Mesquita e sua Banda Blitz colocaram no ar a Rádio Atividade (e, com ela a música "Bete Frígida"), quase morri de pena da minha amiga Elisabete: por qualquer coisinha o pessoal caia de pau: "Calma Bete, calma!"
Todo mundo se divertia. Menos a Bete, coitada.

Em 2002 uma desastrada campanha de televisão causou um frisson danado entre a nação dos "Bráulios", que se viram, repentinamente, alvo das mais hilárias brincadeiras e gozações.
Fazer o que? Coisas da Vida!

Na minha turma da faculdade havia o Adão. Um rapaz inteligente, super amigo, calmo, de muita paz. E muito tímido.

A sua timidez (além, é claro, da calma e paciência) me animavam, de vez em quando, a fazer uma brincadeira com ele:

Eu chegava à sala de aula e ia cumprimentando a todos, um por um: Ave, Ricardo! Ave, Sebastião! Ave, Pedro!...

Quando chegava a vez do Adão, todo mundo já estava com aquele risinho sem-vergonha na cara. Mas eu não dizia "Ave". Falava, simplesmente: Bom dia, Adão!

- Ave, Padilha!, respondia ele aliviado.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br

Comentário #1 — 13/09/2009 14:08

Ricardo Boucinha — Arquiteto e Urbanista — São Paulo

Olá Ênio!

Após ler seu artigo, confesso não ter resistido à tentação de escrever neste espaço. Dentre diversos outros excelentes artigos aqui publicados, por uma triste/alegre (dependendo do ponto de vista, como sempre digo) peça do destino, esta é a primeira vez que lhe escrevo.

Como já pode ter percebido, o motivo de minha animação é justamente o meu nome! Ou melhor, sobrenome: Boucinha. Não importa ter como primeiro o nome de um rei com coração de leão, como pensaram meus pais, seguros na escolha, nem o real significado do termo “boucinha”, que seria algo similar a “pequeno vilarejo” em Portugal, se não me falha a memória (corrija-me se estiver errado). Não. O que pega mesmo é o “maldito” (no muito bom sentido) Boucinha. Não adianta. No momento em que descobrem este meu “segredo”, nada mais volta a ser como o era.

Apelidos? Nunca tive. Salvo as variantes sobre o tema: bolsa, pochete, sacola, little bag... ou até, abreviando, simplesmente “little” para os íntimos. Ressalto aqui a interpretação para duplos sentidos, bastante perigosa. Como você mesmo mencionou, quanto à naturalidade e criatividade das crianças, às quais costumo me referir como sendo a “inocência cruel das criancinhas, com seus comentários desconcertantes. Advinham tudo e sabem que a vida é bela” (Cazuza), não imagina o quanto ouvi... se não fosse pelo temperamento, paciência e (muito) bom humor, não sei o que seria de mim. Alistamento militar: dá para imaginar? O único que digo que daí já é demais é mala! Quando estiver velhinho quem sabe, impaciente com o mundo. Quando me perguntam quanto ao nome, costumo dizer que essa é uma looonga estória.

Poderia até ter herdado o sobrenome “de Ávila” de meu avô, mesma pessoa portadora do famigerado “Boucinha”. Imagina: Ricardo de Ávila, nome de arquiteto, claro. Contudo, o primeiro era o nome do meio dele. Boucinha, o último, o que ”passou pra galera”.

Bom, o fato é que, querendo ou não, é minha marca registrada. E fui me tocar disso no dia em que, enquanto estagiário em um escritório de arquitetura, estava pensando no meu “nome artístico”. Ricardo de Oliveira. Será? Tão comum... foi quando uma amiga, colega de trabalho, Bebel Andrade (nunca esquecerei) me disse: “Boucinha! Se algum dia eu ouvir falar de um arquiteto chamado Ricardo Oliveira, seria apenas mais um para mim, talvez. Mas, se ouvir Ricardo Boucinha, na hora saberei quem é”. Para o bem ou para o mal (espero que sempre para o bem!), essa é a verdade. Não adianta fugir. Abrace-o enquanto ainda há tempo, pensei.

Pois bem Ênio, sei apenas que devo interromper este relato aqui agora pois de um “comentário” passei a um “artigo” em complemento ao seu. Queria apenas partilhar esta experiência de uma vida (incompleta).

Por fim, continue com o ótimo trabalho que desempenha com maestria. Se inspira a mim, inspira a muitos.

Grande abraço!

Ricardo Boucinha

Réplica de Ênio Padilha

Muito bom o comentário. Você tem mesmo muito bom humor.
E a sua amiga, Bebel Andrade, tem toda razão. Seu nome é apenas "pitoresco". Não é ridicularizante nem constrangedor. Portanto, mantê-lo para uso profissional foi uma escolha certa.
Grande abraço e volte sempre!

Comentário #2 — 30/08/2017 18:33

Jean Tosetto — Arquiteto — Paulínia

Quando minha esposa engravidou, as pessoas me perguntavam que nome eu daria para o bebê, sem fosse homem.

- Assurbanípal - eu respondia. Em homenagem ao Rei Assírio que criou a biblioteca de Nínive.

E se fosse mulher? Neste caso o nome seria escolhido pela mãe.

Sorte da Carol.

Réplica de Ênio Padilha

A Carol já teve muita sorte por ter nascido na sua família. Um nome bonito foi só um plus


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