UM ANO DEPOIS. O QUE APRENDEMOS?

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Faz um ano!
Havia um permanente frio na barriga de todos nós. Ninguém na equipe tinha experiência naquilo. Era um evento muito maior do que qualquer coisa que a gente já tivesse feito antes (e os fatos vieram a mostrar que, na verdade, ninguém em Brasília tinha uma idéia do que estava por vir).

No dia 27 de novembro, uma quinta-feira, às 17 horas, chegamos ao Centro de Convenções Ulysses Guimarães para fazermos a vistoria e "tomarmos posse" do local que seria a nossa casa pelos 10 dias seguintes.

A vistoria dos 54 mil metros quadrados do Centro de Convenções levou cerca de cinco horas. fizemos mais de quinhentas fotografias. Todos os 46 banheiros, todas as torneiras, portas, janelas, salas, auditórios e corredores foram vistoriados, produzindo um relatório de dezenas de páginas.

Lá fora os caminhões com equipamentos começavam a chegar (foram 32 carretas com o material de montagem e equipamentos). O telefone não parava de tocar. Várias equipes trabalhavam em muitas frentes (no Confea, no Centro de Convenções, no quartel general da empresa contratada para planejar o evento e nos corredores de Brasília). Algumas licitações ainda estavam em curso. Ainda havia dúvidas se aquilo iria dar certo.

"Aquilo" era a WEC 2008 (o III Congresso Mundial de Engenheiros), o maior evento realizado pela Engenharia Brasileira em todos os tempos, que apresentou números extraordinários: 13 eventos associados (além do evento principal), 5200 participantes, 2316 pessoas trabalhando, 54.000m² ocupados, 7.500m² de área construída (dentro do Centro de Convenções), 8 geradores de energia elétrica, 145 computadores, 48 TVs de plasma, 248 microfones, 21 câmeras para transmissão simultânea, 14.400 kg de alimentos (2.500 kg de pão de queijo), 10 atividades culturais, 369 artistas (incluindo Milton Nascimento e a Orquestra Sinfônica de Brasília)

Os números totais estão em um post que eu publiquei no meu site em dezembro de 2008 (veja AQUI)

Um belíssimo vídeo com o making of do evento (e que dá melhor idéia do tamanho da coisa) está publicado no youTube e pode ser visto AQUI.
Este vídeo foi produzido durante o evento e apresentado durante a cerimônia de encerramento, recebendo entusiasmados aplausos do auditório superlotado.

Essas lembranças dos amigos, dos parceiros e fornecedores, daquele clima de união e comprometimento, são lembranças estimulantes. Foi um acontecimento, definitivamente, marcado pela grandiosidade e pelo sucesso

Hoje, um ano depois, algumas perguntas permanecem e a principal delas é "o que aprendemos com a Wec 2008?". O que é que fica (ou deveria ter ficado) daquele ano que movimentou milhões de reais e milhares de pessoas para realizar um evento inesquecível?

Acho que cada um dos envolvidos poderia entrar aqui e deixar um comentário sobre o que pode ser deixado como legado individual ou coletivo por este evento.

Vou começar: acho que uma das coisas mais importantes que aprendemos com a Wec 2008 é que Licitações não são impedimentos para se realizar eventos com qualidade. Havia um grupo de pessoas na organização do evento que achava que um evento deste porte não poderia se submeter às rígidas regras da Lei de Licitações e que ela apenas dificultava o processo. Eles davam o evento por condenado e trabalhavam com muita força por alternativas (mais caras e sem muitas possibilidades de controle e transparência).

O outro grupo (do qual eu me orgulho de fazer parte) entendia que as Licitações eram necessárias, justamente para garantir a transparência do processo e a lisura dos contratos.

Fizemos mais do que realizar a WEC 2008 com Licitação. Fizemos com Licitações Múltiplas! Ou seja, uma licitação para cada tipo de fornecimento (Montagem, Equipamentos, Tradução, RH, Alimentação, Geradores, Segurança, Transporte, etc).
Foi difícil? Claro que foi (inclusive porque tivemos de enfrentar sabotadores de todos os tipos. O jogo é pesado, amigo). Mas, com isso garantimos contratos com as melhores empresas e, principalmente, os melhores preços. O uso de Licitações Múltiplas produziu uma economia de, pelo menos, uns três milhões de reais aos cofres do Confea. E livrou o seu presidente de muitos processos e investigações do TCU.

Comprar qualquer coisa através de licitação é difícil e complicado. Mas ainda é o melhor caminho para evitar desvios e desmandos. A Lei de Licitações é severa, mas não impede que um evento possa ser realizado. Apenas exige mais competência e planejamento dos seus realizadores.

Outra coisa que eu acho que aprendemos com a Wec 2008 é que Um grande evento acontece nos meses anteriores e também (principalmente) nos meses seguintes. Aliás, essa lição, parece que não foi completamente absorvida. Nosso sistema profissional tem a "tradição" de realizar eventos para "cumprir calendário" e, portanto, encerrado o evento considera-se que a missão foi cumprida.

Senti falta, neste ano de 2009 de eventos que dessem consequência ao que aconteceu na Wec 2008. Acho que a própria SOEAA 2009 (que se realiza em Manaus agora em dezembro) não se apropriou convenientemente do que foi aprendido na Wec. Mas vamos confirmar ou desmentir isso daqui a uns dias.

Faltou dar ao que foi realizado na Wec 2008 um pouco mais de sequência e consequência.

E a vida segue


ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br
(artigo_ep)

Comentário #1 — 28/11/2009 07:39

LUIZ CARLOS GULIAS CABRAL — Engenheiro Civil — Blumenau, SC

Caro Ênio.
Este seu artigo nos traz um excelente exemplo de como a Lei das Licitações é importante.
Eu só imagino se ela não existisse!!
Em relação às atividades pós-eventos, concordo plenamente. Participamos de vários encontros, simpósios, etc. que ao final elaboram documentos enormes, resultados de discussões intermináveis e, quase sempre, acaloradas. E daí? O que se faz? Infelizmente, quase nada! É uma pena. Dá a impressão (?) que esses eventos servem somente para a maioria passear e ter uns dias de mordomias.
Forte abraço.
Cabral.

Comentário de Ênio Padilha
Grande amigo Cabral
É sempre um prazer tê-lo por aqui. Tive notícias suas recentemente, através da colega Regina (que participou do nosso curso em Balneário Camboriú). Fiquei feliz por saber que você está à frente dos trabalhos da ABECE em Santa Catarina. Uma entidade tão importante precisa mesmo ficar em boas mãos.
Quanto ao seu comentário, perfeito, em todas as letras.

Comentário #2 — 30/11/2009 07:05

Ênio Padilha — Engenheiro — Balneário Camboriú

Comentário de Ênio Padilha
Exatamente um ano depois daquela empreitada, morre, no Rio de Janeiro, um dos principais mentores: o professor Jorge Pedro Dalledonne, da PUC-Rio, responsável pela programação do evento (reconhecida por muitos como o ponto alto da WEC 2008).
Ficamos sem o professor Dalledonne, mas herdamos os seus ensinamentos.
Sobre a nossa profissão ele dizia: “A Engenharia moderna precisa transpor fronteiras e se comprometer, sem restrições, com a responsabilidade social. Inovação significa produzir sem degradar. A Engenharia tem que ter a capacidade de visualizar o futuro e antecipar seus próprios limites sistêmicos”.
Obrigado, Professor.

Comentário #3 — 18/12/2009 21:58

Paulo Bubach — Engenheiro — Vitória-ES

Caro Ênio,
Permita-me incluir um comentário, um tanto extemporâneo, mas subordinado à sabedoria popular: “antes tarde do que nunca”.
Hoje pela manhã, na pagela da “Folhinha do Sagrado Coração e Jesus”, que tenho o hábito de ler diariamente, encontrei um verso de Antoine de Saint-Exupéry: “Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.
Imediatamente me veio à mente a figura do saudoso Prof. Dalledonne, que juntamente com o Prof. Scavarda, deram uma contribuição fundamental para o sucesso da WEC2008: a construção do programa técnico do Congresso.
E uma triste constatação: “Os Bons também morrem”. Todos nós tentamos ser bons; mas o Prof. Dalledone era Bom com uma facilidade surpreendente: sua Bondade era um dom natural, capaz de mantê-lo sereno diante de situações muito difíceis, como as que enfrentamos no processo de organização da WEC2008, que você vivenciou muito mais intensamente que eu. O Setor tecnológico brasileiro – e mundial – deve render esse tributo ao Prof. Dalledonne que, com certeza, foi merecidamente acolhido pela Bondade Divina.
À tarde, quando recebi seu último artigo do ano “Olhai os Lírios do Campo” - muito bom, como sempre - novamente lembrei-me, com saudades, do Prof. Dalledone e resolvi externar minha concordância contigo, mais uma vez.
Quanto à WEC, embora tenha minhas críticas à forma como se aplica em determinados casos, a lei de licitações, não tenho dúvidas que no caso presente, ela foi garantidora da incolumidade pública de dos princípios constitucionais da impessoalidade, da moralidade e da eficiência, dando transparência à aplicação dos recursos públicos.
Respondendo à pergunta-título, acredito que aprendemos muito com a WEC, entretanto, acho que esse aprendizado poderia ser melhor aproveitado e mais difundido, se a página da wec2008 na internet tivesse sido mantida “no ar”, atualizada com os resultados das atividades, que foram muito ricas e receberam avaliação muito positiva de todos/as participantes.
Desliguei-me do Confea em dezembro de 2008, e não acompanhei os desdobramentos da WEC no nosso Sistema Profissional, mas fica a sugestão de divulgação do relatório final, a exemplo dos relatórios de Hannover (WEC2000) e Shanghai (WEC2004), que estão disponíveis no site da Federação Mundial de Organizações de Engenharia (www.wfeo.org).

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