UMA METÁFORA FUTEBOLÍSTICA (Parte 1)

(Publicado em 09/03/2011)



[IMG;metafora_futebolistica1.jpg;300;E]Muita gente já tentou.
Algumas vezes fica legal. Noutras, o resultado não passa de uma forçação de barra sem graça.

Mesmo correndo o risco de não ser bem-sucedido, eu também tentei formular uma comparação entre um Clube de Futebol e uma Empresa: uma metáfora futebolística.

Nesta minha metáfora, vamos analisar uma empresa e um Clube de futebol à luz da perspectiva teórica da RBV (Resource-Based View - Visão Baseada em Recursos), segundo a qual a diferença de desempenho entre as empresas é explicada pela diferença entre os recursos organizacionais dessas empresas e pela maneira como elas lidam com seus recursos.

Na RBV parte-se do pressuposto (de Barney, 1991 e Peteraf, 1993) de que a heterogeneidade na distribuição dos recursos é o que gera diferenças no desempenho das empresas. Ou seja: as empresas são diferenciadas no que tange aos seus recursos e esta diferença na posse ou controle de recursos pode explicar a vantagem competitiva.

No meu trabalho realizado para a Dissertação do Mestrado em Administração, analisei a heterogeneidade das pequenas empresas de Engenharia à luz da RBV, realizando um estudo de casos múltiplos em três pequenas empresas de Engenharia de Santa Catarina. (veja AQUI)

Apesar de a literatura da RBV focalizar principalmente os recursos essenciais (aqueles raros, valiosos e de difícil imitação) os resultados da minha pesquisa mostraram que a fonte de heterogeneidade, no caso de empresas de Engenharia, é a combinação de recursos essenciais e não-essenciais, e também de recursos com diferentes graus de pertinência a empresa.

Vamos trocar isto em miúdos:

O que quer uma empresa?
Basicamente uma empresa (qualquer empresa) deseja obter o seguinte (não necessariamente nesta ordem):
• Produzir com qualidade;
• Produzir mais e melhor com os recursos de que dispõe;
• Vender seus produtos no mercado;
• Desenvolver novos produtos;
• Atrair investidores;
• Atrair os melhores talentos do mercado para o seu quadro de empregados;
• Valorizar sua marca
• Ser lucrativa.

E o que quer um Clube de Futebol (objetivamente falando, sem paixões)
• Vender ingressos para os seus jogos;
• Atrair patrocinadores
• Conquistar mais torcedores
• Vender camisas (e outros materiais esportivos com a marca do clube)
• Descobrir novos jogadores
• Atrair os melhores talentos para a sua equipe técnica;

Para que uma empresa (ou um clube de Futebol) atinja os seus objetivos de forma sustentável (ou seja, sem sofrer com o ataque dos competidores rivais) é preciso que ela tenha alguma vantagem competitiva.



O que é VANTAGEM COMPETITIVA ?

Vantagem competitiva é algo que a empresa obtém como resultado de alguma estratégia sustentada pela existência de seus diferenciais competitivos. Não se deve confundir vantagem Competitiva com Diferencial Competitivo, que é outra coisa (e a gente verá isso, adiante).

A Vantagem Competitiva é um resultado real. Não é uma coisa que \"poderia, eventualmente, acontecer\". É algo que está, de fato, acontecendo.

Para uma empresa, a vantagem competitiva aparece sob a forma de:
• Maior fatia do mercado
• Maior produtividade
• Maior faturamento
• Maior lucratividade
• Maior valorização da marca

Para um clube de Futebol, a vantagem competitiva tem uma forma e diversos níveis. A forma é VENCER. Os diversos níveis são os seguintes:
• Jogar bem;
• Manter o ritmo de jogo nos 90 minutos;
• Fazer gol;
• Ganhar o jogo;
• Resistir a jogos sucessivos, sem lesões e baixas;
• Ganhar o campeonato;
• Ganhar campeonatos sucessivos (ser bi, tri, tetracampeão...).

Como foi dito antes, uma empresa obtém uma vantagem competitiva como resultado de uma estratégia, sustentada pela existência dos seus diferenciais competitivos.

Então, a próxima pergunta é: o que são DIFERENCIAIS COMPETITIVOS?

A resposta pode parecer complexa, à princípio, mas tentaremos desenrolar isso depois: Diferencial Competitivo é um recurso raro ou idiossincrático que uma empresa possui (ou controla) e que é percebido pelo mercado como positivamente destacado.

Para entender isso, a primeira coisa que precisamos saber é: o que são RECURSOS?
Recurso é tudo o que a empresa possui, controla ou tem à sua disposição. Pode ser constituído de conhecimentos, habilidades, capacidades, instalações, equipamentos e outros ativos tangíveis ou intangíveis.

Alguns exemplos de recursos de uma Empresa:
• Terrenos;
• Prédios;
• Máquinas, equipamentos;
• Reservas financeiras;
• Sistemas operacionais;
• Conhecimentos (Know How);
• Capacidades organizacionais;
• Licenças e Concessões

Alguns exemplos de recursos de um Clube de Futebol
• Jogadores
• Torcedores
• Direitos de participação em competições
• Diretores;
• Sede Social;
• Centro de treinamento
• Estádio;
• Comissão Técnica

Alguns recursos são apenas O MÍNIMO necessário para entrar ou permanecer no jogo (ou no mercado). Outros são considerados Valiosos ou idiossincráticos (veja a explicação logo abaixo). Um recurso valioso ou idiossincrático pode resultar num DIFERENCIAL COMPETITIVO.

O que é um recurso raro?
Um recurso é raro quando a sua empresa o possui (ou controla) e a empresa concorrente não possui nem controla nenhum recurso similar. Mais que isso: é importante ter certeza de que a empresa concorrente não conseguirá possuir ou controlar um recurso similar em pouco tempo ou sem investir valores expressivos.

Porém, para ser um diferencial competitivo, não basta ao recurso ser raro. É preciso ser percebido pelo mercado como uma coisa boa. Esse recurso (que a sua empresa possui ou controla) deve ser reconhecido pelo mercado como uma coisa importante (pela qual vale a pena pagar um pouco mais).

O que pode ser um recurso raro, em um Clube de Futebol?
• Um treinador \"de ponta\" (mas é PONTA mesmo!)
• Um jogador de nível internacional (tipo, concorrente a melhor do mundo pela FIFA);
• Um excepcional cobrador de faltas;
• Uma equipe técnica em que todos os membros (do treinador ao roupeiro) tenham uma grande experiência e muito conhecimento técnico;
• Um Centro de Treinamento com diversos itens que outros clubes não tenham (isto, por exemplo, não existe no brasil, pois, pelo menos meia dúzia de grandes clubes têm CTs com as mesmas condições)
• Uma torcida indiscutivelmente maior do que a dos concorrentes

O que pode ser um recurso raro, numa empresa (digamos, um escritório de Arquitetura ou de Engenharia)?
• Um profissional com reputação excepcionalmente destacada no mercado (exemplo: Oscar Niemeyer, na arquitetura; Mário Franco, na engenharia)
• Um engenheiro excepcionalmente bom, ainda que não seja conhecido. Aquele tipo de profissional que tem hoje 25 anos mas que receberá, aos 50, o prêmio de \"Eminente Engenheiro do Ano\", do Instituto de Engenharia de São Paulo;
• Uma parceria exclusiva com um profissional ou uma empresa importante para o mercado;
• Uma carteira de clientes indiscutivelmente superior em quantidade ou qualidade em relação aos concorrentes;
• Um sistema operacional rico, elaborado e detalhado, muito eficiente e muito difícil de ser copiado, em função de ter sido desenvolvido com muito trabalho, envolvendo pessoas inteligentes, e por muito tempo;

O que é um recurso idiossincrático?
Vimos acima que um recurso pode constituir um Diferencial Competitivo quando é raro (os outros concorrentes não possuem nem controlam) e é importante para os clientes (eles estão dispostos a pagar mais pelo fornecedor que possui este recurso). Porém, é possível que um recurso possa ser considerado um Diferencial Competitivo mesmo sem ser raro. Porém, nesse caso, ele precisa ser idiossincrático, ou seja precisa funcionar, dentro da empresa, de forma única. Precisa se combinar com os outros recursos da empresa de uma maneira que não pode ser imitada nas empresas concorrentes.

Exemplos de recursos idiossincráticos no futebol:
• Existem pessoas que afirmam que Pelé tornou-se o grande jogador que foi graças a Pepe, Coutinho, Zito, Mengálvio... Segundo essas pessoas, o Santos daquela época tinha uma combinação rara de gênios que combinavam tão bem que qualquer um deles haveria de se tornar extraordinário, desde que jogasse no Santos. Qualquer um deles, jogando noutro time, seria apenas um excelente jogador. Nunca um Pelé!

• Imagine um goleiro como o Rogério Ceni (do São Paulo), ou o Marcos (do Palmeiras), jogando num time sem qualidade. De que adianta defender uma bola difícil e repor a bola em jogo rapidamente, se os outros jogadores não dão continuidade à jogada?

Agora dois exemplos de recursos idiossincráticos num escritório de Arquitetura:
1) A mãe é arquiteta, tem muita experiência e grande reputação, embora não tenha espírito empreendedor e noções de gestão. A filha é arquiteta também, é muito criativa e empreendedora e especialista em sistemas de gestão. As duas se entendem muito bem. Cada uma respeita e admira os conhecimentos e habilidades da outra... Ta-dááá! Sucesso! (e quem pensa que esta é uma fórmula fácil de ser reproduzida não tem prestado atenção nos escritórios de pais e mães com seus filhos e filhas por aí)

2) Outro exemplo típico de recurso idiossincrático em escritórios de Engenharia ou de arquitetura é a combinação de um equipamento (ou software) com um profissional que o domine completamente (dando a ele um desempenho MUITO SUPERIOR ao desempenho obtido do mesmo equipamento ou software em outro escritório. O mesmo equipamento (ou software) não traria o mesmo benefício em outro escritório, sem uma pessoa que soubesse tirar dele tudo os que os seus recursos permitem; o mesmo profissional não seria tão útil em um escritório onde esse equipamento (ou software) não estivesse disponível.

De volta à questão da VANTAGEM COMPETITIVA
Agora precisamos saber como é que se transforma um Recurso Valioso (ou seja, um Diferencial Competitivo) em uma Vantagem Competitiva...

É o que veremos na continuação deste artigo, na próxima semana.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br




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Leia UMA METÁFORA FUTEBOLÍSTICA (Parte 2)

Faça o Teste para saber: O SEU ESCRITÓRIO TEM DIFERENCIAIS COMPETITIVOS?




REFERÊNCIAS:
1) BARNEY, J. Firm resources and sustained competitive advantage Journal of Manegement v.7, n.1, p.99-120, 1991
2)PETERAF, Margareth. The cornestone of competitive advantage: a resource based view. Strategic Management Journal. v.14, p.179-191, 1993

Crédito da Imagem no topo do artigo: thumbs.dreamstime.com

Comentário #1 — 09/03/2011 21:37

Arq. Luciana Caixeta Duarte — Arquiteta e Urbanista — Palmas/TO

Nossos escritórios deveriam pensar como um Clube de Futebol ou outra empresa que pense como uma empresa – ou seja... pensar na lista com ordem de prioridades... talvez esta ordem seja o ponto fundamental – agimos como técnicos... não como empresários:

O que quer uma empresa?
• Ser lucrativa.
• Atrair investidores;
• Vender seus produtos no mercado;
• Valorizar sua marca;
• Atrair os melhores talentos do mercado para o seu quadro de funcionários;
• Desenvolver novos produtos;
• Produzir mais e melhor com os recursos de que dispõe;
• Produzir com qualidade;


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