A LEI DO BODE* E A NOSSA COPA DO MUNDO

(Este artigo foi publicado em 12/06/2011)



A lei do Bode, você já deve ter ouvido falar dela, é uma fábula cuja origem está perdida no tempo. Uma de suas versões dá conta de que, na União Soviética, logo depois da revolução comunista, muitas famílias eram obrigadas a morar juntas numa mesma casa, em condições pouco agradáveis, com pouco espaço e nenhuma privacidade. Isto, naturalmente, produzia muito descontentamento e severas reclamações. Esse descontentamento e essas reclamações ameaçavam a governabilidade e era preciso resolver esse problema.

Formou-se uma comissão que fez dezenas de reuniões para debater o assunto e elaborar um projeto do que seria a solução do problema.

Quando, depois de muitos meses, chegaram a uma conclusão, apresentaram a proposta ao governo, que a considerou GENIAL e tratou de colocá-la em prática rapidamente.
Tratava-se de uma lei que obrigava que, em cada casa fosse colocado um bode, que passaria a dividir o espaço, os cuidados e os alimentos com todos os moradores.
O bode, como se sabe, é um bicho fedorento, por conta de glândulas que possui na base dos chifres, que exalam um cheiro forte e muito ruim. A vida dos cidadãos, que já era medonha, ficou pior ainda e o descontentamento e as reclamações aumentaram muito.

Depois de algumas semanas tendo que suportar um bode na sala, os cidadãos viram uma luz no fim do túnel quando o governo aceitou, finalmente, conversar a respeito e negociar uma solução para o problema.
Novas comissões foram formadas (em ambos os lados) e as negociações começaram, com o governo jogando pesado na defesa da manutenção do bode na sala.

Quando as coisas pareciam estar chegando ao limite, finalmente, o governo cedeu. E revogou a tal lei, autorizando as pessoas a retirar o bode de dentro de casa.
Foi uma festa! Houve muita comemoração! O povo ficou muito feliz!
Houve até quem ressaltasse, em discurso, a lucidez e a generosidade do governo em permitir a revogação da tal lei.
Ninguém mais falava das condições sub-humanas, da falta de espaço ou de privacidade que havia nas casas ocupadas por várias famílias. Sem o bode a situação ficou muito boa...

Brasil, 2011. Essa papagaiada em torno do sigilo nos preços das obras da Copa do Mundo me parece muito com a Lei do Bode.

O sigilo era algo tão absurdo que não me passa pela cabeça que alguém, no governo, tenha realmente pensado em utilizar-se desse recurso. Na minha fraca opinião, o que se queria era desviar a atenção da população e dos jornalistas para o principal: a flexibilização para as licitações de contratação das obras.

Discutiu-se tanto a questão do sigilo que a questão realmente importante foi esquecida: o absurdo que é flexibilizar o processo de licitações;
O absurdo que é entregar à mesma empresa o planejamento e a execução do mesmo trabalho (contrariando o Primeiro Princípio da Administração Científica, definido por Taylor, há 110 anos);
O absurdo de considerar normal esse atraso inaceitável para as obras que já deveriam estar em fase adiantadas de execução e ainda estão (muitas delas) apenas na fase de projeto.

Quer dizer: agora que o governo cedeu na questão do sigilo, tá tudo bem. Não tem mais problema nenhum.

Êêê, fubá!



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br




DIVULGAÇÃO
[IMG1;Divulga_Livro.png;650;C;http://www.oitonovetres.com.br/loja]




* Não confundir com a Lei de Bode (Johann Elert Bode, astrônomo Alemão, 1747-1826)




Para copiar e reproduzir este artigo, conheça nossas REGRAS PARA PUBLICAÇÕES




---copadomundo

Comentário #1 — 12/07/2011 10:00

Ruth Farias — Arquiteta e Urbanista — Belém-Pa

Concordo com você e admiro sua coragem em expor sua opinião sobre algo tão óbvio mas ao mesmo tempo tão polêmico.

DEIXE AQUI O SEU COMENTÁRIO

(todos os campos abaixo são obrigatórios

Nome:
E-mail:
Profissão:
Cidade-UF:
Comentário:

www.eniopadilha.com.br - website do engenheiro e professor Ênio Padilha - versão 7.00 [2020]

powered by OitoNoveTrês Produções

4444336

4