CORRUPÇÃO NAS EMPRESAS PRIVADAS

(Publicado em 26/08/1995)




SEM MANTEIGA O PÃO NÃO DESCE, disse o corrupto profissional, me passando um sermão e me dando uma aula de como fechar negócios. Isso foi em 1995. Na época eu escrevia uma coluna num importante jornal da cidade. Na semana seguinte publiquei este artigo. Todo mundo leu, mas somente ele, eu e os colegas que participaram da conversa sabiam do que se tratava. Foi divertido...





Numa conversa informal num desses fins de tarde, um executivo de vendas (a quem chamaremos de Fulano) de uma grande empresa, fala para o grupo sobre como negocia com seus clientes e explica, com a maior naturalidade, que, na empresa em que ele trabalha (grande e respeitável), existe uma \"reserva\" para ser paga ao elemento influenciador ou elemento de decisão da empresa compradora. Esse pagamento serve para azeitar a negociação, facilitando as coisas e garantindo a venda.

Diante da minha resistência em concordar com esse tipo de procedimento, Fulano, ancorado no prestígio de ser funcionário de uma empresa muito importante, assume ar professoral. Começa a me passar um \"sermão\". Tenta fazer com que eu seja \"mais razoável\". Me explica como é importante ter \"jogo de cintura\" e conclui, sempre com pose superior: \"Sem manteiga o pão não desce! É necessário óleo nas engrenagens para que uma máquina funcione!\"

Quando eu falei que achava esse tipo de procedimento lamentável, Fulano foi taxativo: \"Lamentável, Ênio, é quando eu não consigo descobrir a pessoa certa na empresa compradora. E o meu concorrente acha. E eu perco a venda. Isto sim é lamentável\".
(...)

Meu caro Fulano, você pode usar o eufemismo que quiser. Pode chamar de \"ajuda de custo\", \"verba para liberação\", \"contribuição para boa vontade\" \"CPF\" (contribuição por fora) ou, se preferir, pode chamar simplesmente de MANTEIGA.

Mas esse pagamento, que é feito para alguém dentro de uma empresa (seja ela pública ou privada) para que esse alguém facilite uma venda, continuará tendo um nome: PROPINA. E um sobrenome: CORRUPÇÃO.
E corrupção, meu amigo Fulano, ninguém faz sozinho. Corrupto não é apenas o cara que recebe a propina. São necessários pelo menos dois desonestos para dançar esse tango.

Corrupção é sempre uma estrada de ida e volta. A mão que dá é a mesma que aceita receber, quando achar conveniente. O patrão que estimula a corrupção como forma de fazer negócios deveria avaliar esse “efeito colateral”. Honestidade é como virgindade. E não existe ninguém que tenha perdido só um pouco da virgindade.

Impressiona a capacidade que os Fulanos têm para minimizar o problema, com a explicação simples de que \"essa é a regra do jogo. Quem quiser participar tem que se submeter a essas práticas. Ou então vai vender livros de porta em porta...\"

É claro que esse tipo de conversa não me surpreende. Já foi objeto de estudos e artigos publicados recentemente em revistas de grande circulação. Além do mais, estamos cansados de ver, em alguns casos, negócios aparentemente garantidos e que, de repente, são perdidos. Fogem, misteriosamente, para a conta corrente de algum concorrente mais \"ajustado ao sistema\".
O que incomoda é a incapacidade que algumas pessoas têm de perceber que essa \"regra\" não é legítima, nem única, nem imutável.

Trata-se, na verdade, da velha e conhecida \"lei da aproximação de semelhantes\". Gente honesta atrai gente honesta. Corruptos procuram corruptos! E quem não quiser participar desse jogo não precisa ir vender livros de porta em porta (embora vender livros de porta em porta seja uma atividade muito nobre e dignificante).

Viver na lama, mentindo e roubando é uma opção de vida, mas existem outras alternativas. Quem quiser ter uma atividade digna, pode, por exemplo procurar por outros clientes, onde os funcionários não tenham o hábito de roubar do patrão.



ÊNIO PADILHA
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---Artigo1995

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