NOSSAS ENTIDADES DE CLASSE NÃO SÃO EMPREENDEDORAS

(Publicado em 17/09/2007)





No estatuto das Associações de Engenheiros e Arquitetos (ou seja qual for a denominação da entidade de classe) encontramos, na definição, que se trata de uma "entidade sem fins lucrativos".

Seus dirigentes, cada vez mais, tomam essa definição ao pé da letra e trabalham no sentido de que a entidade não tenha lucro algum, de maneira alguma, em momento algum.

É preciso refletir um pouco sobre a noção de lucro que está sendo utilizada pelas lideranças das nossas entidades de classe. Quando se diz (nos estatutos) que a entidade é "sem fins lucrativos" isto se refere a lucros individuais. Lucros a serem divididos entre os associados ou dirigentes. Este é o lucro que não é (não deve ser) visado pela entidade.

No entanto, é importante que as atividades da entidade sejam, sim, orientadas para o lucro. Lucro financeiro, inclusive. O lucro com o qual a entidade possa adquirir um imóvel para sua sede, construir um patrimônio, comprar equipamentos e móveis, manter uma biblioteca ou mesmo promover eventos de confraternização.

Nossas entidades não têm noção de quais são suas potenciais "fontes de receita". Não se dão conta de que têm acesso privilegiado a um púbico-alvo selecionado e de razoável poder aquisitivo e que isto pode ser capitalizado em forma de negócios lucrativos.

A promoção de eventos, por exemplo, que é, potencialmente, a principal fonte de renda de uma entidade de classe, é geralmente relegada a um segundo plano, gerida por amadores e transformada, em última análise, no oposto diametral de "fonte de renda": vira principal destino de recursos da entidade.

A grande maioria das entidades de classe no Brasil é refém do CREA e do famigerado retorno de 10% sobre a arrecadação de ARTs. Só faz o que o dinheiro do CREA permite (e acaba fazendo só o que o CREA permite). Não tem vida própria, porque não se sustenta. E não se sustenta porque não se garante. Não é empreendedora.

A grande maioria das entidades de classe do país não é capaz de correr riscos mínimos e, com isto condena-se à condição de primo pobre da região, enquanto a OAB dos advogados, a ABO dos dentistas e a AM, dos Médicos roubam a cena.

Quando eu me formei, em 1986, ouvia dizer sempre, que o sistema profissional era formado por um tripé: CREA, Sindicatos e Entidades de classe. Sinceramente, não é isso que eu vejo hoje. Não creio que a divisão de prestígio, poder e lucro esteja distribuído tão equitativamente.

E não creio que a culpa seja dos CREA que esteja impondo seu poder financeiro sobre as outras partes. A culpa é das próprias entidades, que perderam sua capacidade empreendedora e se acomodaram com o dinheirinho fácil que vem do CREA, e se esqueceram que essa fonte de renda deveria ser a menos significativa de todas.

É preciso reagir.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br



---Artigo2007 ---Valorização Profissional

Comentário #1 — 17/09/2007 19:40

Patricia Lins — Arquiteta — Rio de Janeiro

Importante colocar este tema.As entidades de classe acabam ficando encasteladas em redutos quase politicos,sem batalhar por perspectivas positivas para aumentar acesso a mais serviços e espaços de atuação dos profissionais.

Comentário #2 — 23/09/2007 11:49

Caroline Antunes Bucciano — Engenheira Civil — Florianópolis

Existe sim o "problema" político; existe sim a falta de empreendedorismo das Entidades de Classe; existe também a gestão por amadores...são verdades facilmente constatadas na prática...
No entanto, esses entraves deveriam servir de motivação para que os profissionais com vontade de trabalhar em prol da classe participassem das Entidades.
O ciclo vicioso resulta na falta de participação dos profissionais e assim o problema se agrava cada vez mais.
O antídoto para a inércia de uns é a vontade de outros!
E apesar de ser inevitável esbarrar em algumas questões políticas, as barreiras vão caindo quando o grupo (e a força) vai aumentando.
As Entidades são ruins hoje (essa é a minha opinião) mas seria pior se elas não existissem. E já que as entidades dão um espaço (mesmo que pequeno) para "abrirmos a boca" e gritar pela valorização profissional, então, que façamos um "gritaria", e no final vamos ter nossa consciência tranquila de que fizemos a nossa parte...

Comentário #3 — 15/02/2016 09:23

Juarez Kissmann — Engenheiro Eletricista — San Francisco - Argentina

É impressionante como a historia se repete (neste caso parece que se perpetua) quando se trata de organização de Engenheiros, que deveriam ser os mais organizados dada sua formação científico-matemática.
Mas ao que tudo indica, a "pegadinha" se dá na matéria que talvez pareça menos importante e menos atrativa ao Engenheiro, a lingua portuguesa e sua correta interpretação no contexto.
Não basta saber de números, é preciso que saber verbalizá-los!

Réplica de Ênio Padilha

Perfeitamente, amigo Juarez.
Acertou na mosca (como sempre).

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