O FEITICEIRO DE MENLO PARK E OS
GANHADORES DO PRÊMIO NOBEL

(Publicado em 07/10/2014)



Comecei a ler o livro "Thomas Edison: o feiticeiro de Menlo Park, do historiador e jornalista Randall Stross, com o objetivo de escrever uma resenha para publicar aqui no site. No meio do caminho já havia desistido da ideia. Não que a história do biografado não seja fascinante. Mas o livro (na minha modesta opinião) é muito mal escrito. A pesquisa de Stross foi bem feita. Mas o texto é confuso e fugidio. Falta ao autor o pulso dos bons contadores de história. Ele não constroi tramas nem dá vida (alma) aos personagens. Com isto o livro fica parecendo um relatório ou um Trabalho de Conclusão de Curso. Além disso, o autor não tem muito cuidado com a cronologia e escreve em espiral, confundindo um pouco o leitor menos atento.

Dito isto, a pergunta é: por que eu mudei de ideia e resolvi escrever?

É que nesta terça-feira, 07/10/2014, três cientístas japoneses foram laureados com o Prêmio Nobel de Física. Isamu Akasaki, Hiroshi Amano e Shuji Nakamura foram escolhidos "pela invenção de (eficientes) diodos emissores de luz azul que permitiu a fonte de luz branca brilhante e econômica".

Alguns cientístas atribuem à descoberta dos japoneses a mesma importância do trabalho de Thomas Edison (considerado o inventor da lâmpada), principalmente quando levamos em conta a relevância do fato em termos de conservação de energia.

Alguns jornalistas disseram que o Prêmio foi por "ter inventado a lâmpada LED". Não foi bem isso. A iluminação LED já existia desde a década de 1960. Porém, como a luz branca é resultado da combinação de três cores (verde, vermelho e azul) havia um problema: os diodos emissores de luz vermelha e verde funcionavam muito bem. Mas o diodo de luz azul não funcionava com eficiência energética. Foi isso o que eles fizeram (na década de 1990): desenvolveram um diodo emissor de luz azul com eficiência energética. Isso facilitou a popularização do uso de iluminação LED.

Isso me devolveu ao livro de Randall Stross e à história de Thomas Alva Edison. De fato, não me parece, lendo o livro, que ele tenha inventado a lâmpada (nem coisa alguma). Edison sempre aperfeiçoava coisas e integrava funcionalidades. E era muito competente na autopromoção (foi a primeira celebridade mundial que não era político ou militar). Era um sujeito muito empreendedor, muito concentrado e muito inteligente, mas parece que a melhor definição dele era a do (grande) amigo Henry Ford, para quem "Thomas Edison é o maior e mais brilhante inventor e o pior homem de negócios do mundo!"

Edison (que tinha um sério problema de audição) parecia ter também uma séria dificuldade de visão para o mundo dos negócios. Quase sempre fazia suas apostas no caminho da derrota: foi assim quando escolheu a tecnologia para utilização de sua lâmpada elétrica (corrente contínua) e foi assim quando insistiu no cilíndro (em vez de discos) para o aperfeiçoamento do seu gramofone. E foi assim sempre, em todas as escolhas e em todas as disputas. Edison estava sempre com a aposta perdedora.
Mas ele era protegido da imprensa, que o idolatrava (ele sabia, como ninguém, fazer autopromoção. E, provavelmente, era um sujeito sedutor, porque tinha grandes e importantes amigos).

O autor do livro, porém, parece fazer um grande esforço para contar a história e ao mesmo tempo livrar a cara do biografado de algumas coisas que ficam meio nebulosas.

Muita gente, por exemplo, especula que Edison teria inventado a Cadeira Elétrica. Isto não ocorreu, como fato concreto, uma vez que a tecnologia que ele utilizava (corrente contínua) não era apropriada para esse fim. Além disso, ele sempre foi contra a pena de morte.

No entanto, quando a ideia da cadeira elétrica surgiu (iniciativa de políticos de Nova Yorque) ele viu nisso uma grande oportunidade de associar a cadeira elétrica (que ele considerava uma coisa muito ruim) à imagem do seu principal opositor comercial, George Westinghouse cujos produtos funcionavam justamente com a tecnologia concorrente (a corrente alternada).
Ele queria que a população associasse os produtos de Westinghouse ao perigo de morte iminente. Chegou a sugerir que "westinghousear" fosse a palavra usada para definir "executar na cadeira elétrica".
Apesar de ser contra a pena de morte, ele entendia que, se a lei assim o determinava, a execução deveria ser pelo uso da Cadeira Elétrica de Corrente Alternada (para arruinar a imagem dos concorrentes). Como se vê, ele parecia colocar os negócios acima de qualquer valor moral.

Voltando à comparação dos cientistas japoneses à Thomas Edison, posso dizer que, pelo que eu entendi, no livro, Edison não inventou nem a lâmpada elétrica propriamente dita (as primeiras lâmpadas elétricas eram de arco voltaico) e nem a lâmpada incandescente (muitos outros inventores desenvolveram esse tipo de lâmpada antes de Edison).

O que ele conseguiu (e que ninguém conseguia antes) foi produzir uma lâmpada que durasse tempo suficiente para ser comercialmente viável. Além disso, como eu já disse antes, ele foi hábil em integrar um conjunto de tecnologias para que a utilização das suas lâmpadas pudesse ser feita nas cidades.

É nesse sentido que o trabalho dele se assemelha ao trabalho dos cientistas japoneses que ganharam o Prêmio Nobel. Porque eles também não inventaram o LED nem inventaram o LED AZUL. Mas conseguiram fazer o LED AZUL de alto rendimento, que tornou possível sua utilização em larga escala.

E eu espero que as comparações possam parar por aí, para o bem da biografia dos mais novos laureados com o Prêmio Nobel.





PADILHA, Ênio. 2014





Comentário #1 — 07/10/2014 23:03

Sebastião Lauro Nau — engenheiro e professor — jaraguá do Sul

Caro amigo Ênio,
É muito bom ler artigos assim, comparando fatos recentes e antigos e revelando o verdadeiro perfil de alguns ícones idolatrados. Fugimos, assim, das frases de efeito ditas ou repetidas por celebridades, normalmente interpretadas fora de contexto.
Li a autobiografia do Nikola Tesla, também mal escrita. Para minha decepção, ele não relata o convívio com o Edison. Fica de positivo para o Edison e o Tesla, a excepcional capacidade de trabalho e a intensidade com que procuravam realizar seus sonhos.
Abs.
Sebastião

RÉPLICA DE ÊNIO PADILHA

Obrigado, Sebastião.
Realmente, parece que Edison tinha lá seus defeitos. Mas, provavelmente tinha muitas qualidades também, porque tinha muitos amigos que o amavam muito. E sua morte foi sentida por todo o país. No dia (noite) do seu funeral, as luzes foram apagadas por um minuto (em todo o país, inclusive na Casa Branca) "para lembrar como seria o mundo se o inventor da lâmpada incandescente nunca tivesse existido".
Eu acho isso muito bacana.

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