ENADE, CARREIRA E MARCA PESSOAL

(Publicado em 21/10/2014)



Antes de ler este artigo aqui, é importante que você leia MARCA PESSOAL, texto que apresenta os conceitos fundamentais bem como os elementos que servem de base (os pilares) para uma Marca Pessoal Valiosa: (1) especialização, (2) atributos positivos permanentes; (3) identidade visual e (4) visibilidade.

Dito isto, tentarei aqui discorrer, ainda que superficialmente, sobre um desses pilares (os atributos positivos permanentes) e como ele se aplica a prestadores de serviços de nível superior. O objetivo é entender como é importante, para o estudante universitário, participar do ENADE e, mais do que isso, por que é importante fazer isso da melhor maneira possível.

Vejamos:

Atributo de uma marca é uma garantia intrínseca representada pela marca. Ao comprar um produto de uma determinada marca você tem CERTEZA de estar adquirindo determinados resultados. Por exemplo, se você envia uma encomenda pela Federal Express você tem a CERTEZA de que a encomenda chegará ao destino no tempo previsto. Observe que essa \"certeza\" é subjetiva e psicológica. É claro que a Fedex, em alguns casos, já deve ter extraviado alguma encomenda ou não ter entregue no tempo devido, mas... Mas as pessoas continuam acreditando que isso não acontece. A reputação da empresa é seu ativo mais precioso (e foi construído por anos e anos de excelência dos seus 290 mil empregados no mundo todo, que se esforçam para manter essa reputação viva). Se a empresa cometesse erros frequentemente, com certeza não teria esse atributo reconhecido.

Um advogado formado pela USP é, à priori, um bom advogado. O nome e a reputação da escola precede qualquer análise. \"se o cara foi bom o bastante para passar no vestibular e concluir o curso de Direito na USP é certo que ele é muito bom\". É um pressuposto. Mas será que existe algum advogado formado pela USP que não seja \"top de linha\"? É provável que sim, mas a estatística é tão amplamente favorável aos bons que ninguém leva em conta essa possibilidade.

Da mesma forma, se você é um Administrador formado pela FGV ou um Engenheiro Aeronáutico formado pelo ITA ou um Engenheiro Mecânico formado pela UFSC você já sai na frente em qualquer disputa que leve em conta seu histórico escolar. Sua marca pessoal herda um atributo da escola na qual você estudou.

Embora eu tenha utilizado acima exemplos extremos de excelência em cursos superiores, a verdade é que qualquer profissional formado em cursos com nível 4 ou 5 podem considerar seu \"selo de qualidade\" como garantido. Naturalmente, se o curso realizado tem avaliação 1 ou 2 não há motivo para se orgulhar. Porém, quem faz cursos de nível 3 não precisa ficar desesperado. Geralmente esses cursos são aqueles que estão em fase de melhorias e avanços.

O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior - SINAES é uma instituição do MEC que analisa as instituições, os cursos e o desempenho dos estudantes. As informações obtidas são utilizadas para orientação institucional de estabelecimentos de ensino superior e para embasar políticas públicas. Os dados também são úteis para a sociedade, especialmente aos estudantes, como referência quanto às condições de cursos e instituições.

A avaliação dos cursos superiores no Brasil, feita pelo MEC, leva em conta:
(1) Perfil do corpo docente (professores)
(2) Adequação de professores às disciplinas
(3) Dedicação e regime de trabalho do corpo docente
(4) Estabilidade do corpo docente
(5) Política de aperfeiçoamento/qualificação/atualização docente
(6) Qualificação do responsável pela implantação do curso
(7) Projeto Pedagógico
(8) Infra-Estrutura de Apoio:
(9) Estrutura da Biblioteca
(10) Laboratórios
(11) Estágio Supervisionado
(12) Empresa Júnior
(13) Administração Acadêmica
(14) Infra-estrutura física
(15) Pesquisa e Extensão
(16) Envolvimento com a comunidade
(17) Conhecimentos, habilidades e competências dos Egressos

É aí (no item 17) que entra o ENADE, integrando o conjunto dos mecanismos que contribuem para determinar \"quem é quem\" entre as universidades no Brasil.

O ENADE - Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes é uma prova escrita, aplicada anualmente para estudantes universitários brasileiros e tem por objetivo (segundo o INEP) \"aferir o desempenho dos estudantes em relação aos conteúdos programáticos previstos nas diretrizes curriculares do respectivo curso de graduação, e as habilidades e competências em sua formação\". A aplicação da prova é de responsabilidade do INEP, uma entidade federal vinculada ao Ministério da Educação (MEC). Participam desta avaliação os alunos ingressantes e concluintes no ensino superior. O aluno que deixa de participar do Enade é impedido de concluir o curso, não recebendo seu diploma.

Por que é importante medir o desempenho dos estudantes e dos cursos que eles frequentam? Simples: porque, \"O que não pode ser medido não pode ser melhorado\".
Esta frase é frequentemente atribuída a William Thomson, conhecido como Lord Kelvin (aquele mesmo, da escala de temperatura que mede o zero absoluto). Há quem diga também que a frase é de Peter Drucker, Jack Welsch, Benjamin Franklin, Leslie Willcocks... enfim... (se alguém souber o verdadeiro autor, agradecemos).

O importante, aqui, é observar como esse conceito é tão importante na gestão de negócios quanto na gestão de um país. Se você não sabe dizer quem é quem, não tem como separar o joio do trigo. E nunca saberá onde deve ser investido mais tempo, energia e dinheiro para fazer melhorias.

Já voltaremos a isso. Antes, um pouco de história:

O ENADE, que começou a ser aplicado no Brasil em 2004, sucedeu um projeto semelhante lançado em 1996 pelo então Ministro da Educação Paulo Renato de Souza, o Exame Nacional de Cursos - PROVÃO, um exame que tinha a função de avaliar os cursos de graduação da Educação Superior do Brasil. Aconteceram oito edições do Provão realizadas anualmente pelo mesmo INEP, entre os anos de 1996 e 2003.

Na época (1996) havia uma gritaria muito grande nos ambientes universitários. Muita gente era contra qualquer tipo de avaliação. Aquilo me incomodava um pouco e eu, que assinava uma coluna semanal num jornal da minha cidade, escrevi o seguinte texto:



O PROVÃO
Ninguém se atreve a dizer que o nosso XYZ Futebol Clube é um dos melhores times de futebol do Brasil.
Mas, de vez em quando aparece alguém tentando me convencer que a nossa Fundação Educacional Regional - FER, é uma instituição de ensino “no nível” das melhores do país...

O objetivo aqui não é discutir o real posicionamento da nossa FER numa eventual comparação com outras instituições de ensino no Brasil. Na verdade o que se quer é mostrar que não passa pela cabeça de ninguém dizer que o XYZ Futebol Clube é um dos melhores times do Brasil porque os seus resultados nos campeonatos resolvem essa dúvida. O fato de estar na terceira divisão do Campeonato Catarinense dá a exata dimensão do seu tamanho.

Porém, no caso das instituições de ensino não existe nenhum método de classificação (nenhum campeonato) que separe o joio do trigo.

É aí que entra o PROVÃO do MEC, inserido na estratégia geral do governo, através do Ministério da Educação, cujo titular, Paulo Renato, vem promovendo uma Revolução Silenciosa na estrutura básica do país.

Apesar de combatido por muitos segmentos o PROVÃO, longe de ser um elemento perfeito para avaliação das universidades é, com certeza, um avanço. O gol, no futebol, também não é perfeito para avaliar a superioridade de um equipe sobre a outra, mas é um bom indicador. Além do mais, não precisamos de uma fórmula perfeita. Precisamos de alguma coisa que seja melhor do que nada (que é o que tínhamos antes do PROVÃO)

Quem se incomoda tanto assim com uma avaliação? Os Mauricinhos que, depois de tentarem vestibular em várias faculdades de ponta, acabaram se conformando em fazer um curso de quinta categoria e agora não querem que ninguém descubra que o curso que eles estão concluindo é de quinta categoria?

Ou seriam os professores desses cursos, que não querem que descubram a imensa distância que existe entre a suas formações e conhecimentos em relação aos “colegas” da USP ou das Universidades realmente “de ponta” ?

Afinal, a quem interessa deixar as coisas do jeito que estão?

Quem é que acha que é possível agir sobre um sistema sem conhecer seus reais problemas?

O Provão tem o mérito de dar uma chacoalhada na árvore. Se não consegue identificar todos os problemas, pelo menos acende uma lâmpada sobre os casos mais críticos. Se não garante que as frutas que sobram são perfeitas e deliciosas, pelo menos põe no chão aquelas que estão totalmente podres e só se sustentam em discursos de omissão e hipocrisia.



O texto reproduzido acima serve para mostrar a minha posição a respeito do PROVÃO, nos anos 1990. Mas a minha posição continua a mesma. Não foi alterada quando o Provão foi sucedido pelo ENADE, a partir de 2004. Entendo que o sistema não é perfeito, apesar de estar sendo aperfeiçoado a cada ano. Mas é melhor avaliar os cursos superiores do que deixar de avaliar enquanto esperamos por um sistema 100% justo e perfeito.

O vestibular não é 100% perfeito; as provas, em sala de aula não são 100% justas; os concursos para o ingresso no serviço público não são, talvez o melhor para todos; os processos seletivos para preenchimento de vagas nas grandes empresas não são perfeitos... mas é o que temos.

O ENADE é uma ferramenta de avaliação que produz um indicador de desempenho, que nos permite medir a situação. E, como dizia Lord Kelvin (ou seja lá quem for), Se pode ser medido pode ser melhorado.

Mas ainda existem muitos jovens universitários que se recusam a fazer o ENADE e muitos professores que são contra a sua realização. Estão esperando por um sistema de avaliação perfeito, 100% justo e sem falhas. Ou estão, simplesmente, querendo que as coisas continuem como estão. Ou são pessoas que ainda não se deram conta de que fazer o ENADE (mais do que isto, fazer bem o ENADE) é uma coisa muito importante para a sua própria Marca Pessoal e, consequentemente, para a sua própria carreira.

Eu prefiro acreditar nessa terceira opção. Por isso tenho aqui meia dúzia de razões para você se preparar bem e caprichar no desempenho no ENADE:

Antes, gostaria apenas de lembrar que o ENADE é lei. lei não se discute, se cumpre. É uma componente curricular. Deixar de comparecer à prova sem justificativa amparada na lei, implica NÃO COLAÇÃO DE GRAU. Ainda assim, seguem os argumentos:

1 - Para fazer o ENADE bem feito você certamente terá de estudar mais, reorganizar matérias e fazer revisões de conteúdos. Isto é bom pra você. Vai torná-lo um profissional ainda melhor, com conhecimentos mais consolidados.

Ao fazer o ENADE bem feito, você estará dando sua contribuição para que a avaliação global da sua faculdade seja melhorada. Observe que a sua nota no ENADE não é o único critério de avaliação da sua faculdade, mas a sua nota (na verdade a média das notas da sua turma) tem um peso importante para o cômputo geral.

2 - Os profissionais que, no passado, se formaram na mesma faculdade em que você estuda contam com o seu empenho e desempenho para que o bom nome da sua escola seja mantido ou elevado. Assim como você, daqui a 10 ou 15 anos, certamente irá querer que os estudantes dessa faculdade tirem notas boas no ENADE.
Se você disser que isto não é problema seu, e que cada um que cuide dos seus problemas, além de tolo você não tem ética. E isso é grave.
É um tolo, porque, afinal, a Escola na qual você se gradua é um selo de qualidade que acompanha você pelo resto da sua carreira e pode ser um diferencial competitivo, como vimos no início deste artigo.
E não tem ética profissional porque é egoísta e só pensa no seu umbigo. Não está disposto a dar um pouco de si para o bem coletivo. Isso é muito feio num estudante. E é terrível num profissional.

3 - Algumas pessoas não gostam de serem avaliadas. Na verdade, a maioria das pessoas não quer trabalhar sob pressão nem ser avaliada por critérios objetivos. Mas eu imagino que você não queira se juntar ao imenso rebanho formado pela \"maioria das pessoas\". Em termos de gestão de carreira e de Marca Pessoal isso é uma roubada! Porque pessoas bem sucedidas não se importam (algumas vezes até gostam) de serem avaliadas. E não perdem produtividade quando estão sob pressão.
Não acredita? Dá uma olhada nos atletas de alto rendimento, nos astronautas, nos cirurgiões, nos advogados criminalistas de ponta... Procure por alguém nesse grupo que perde desempenho quando está sob pressão ou que se importe em ser avaliado.

4 - Não fazer o ENADE não é o tipo de \"protesto\" que vai fazer o governo mudar o sistema de avaliação. Preste atenção. Essa batalha já foi perdida. A imensa maioria dos estudantes universitários brasileiros já aderiu ao ENADE e ao sistema de avaliação proposto. Não fazer o ENADE apenas prejudica você, a sua escola e os seus colegas.
Se você acha que alguma coisa precisa mudar primeiro precisa (1) ter certeza de que sabe alguma coisa sobre avaliação e rankings de cursos superiores em outros países do mundo (para saber no que o sistema brasileiro é realmente deficiente). E (2) usar os canais disponíveis para manifestação e pressão sobre o governo.

5 - Assim como outros produtos no mercado, os prestadores de serviço também têm seu Atestado de Origem. Um carro alemão, um charuto cubano, um chocolate belga, um terno italiano, uma xícara de café colombiano, uma cerveja alemã, um whisky escocês, uma vodka russa são exemplos de produtos que são bons à priori. Você confia, simplesmente por conhecer a sua origem.

Da mesma forma, o mercado terá uma predisposição para avaliar de forma mais positiva a sua competência se a faculdade onde você estudou tiver um bom conceito na avaliação do MEC. Isso é bom para instituição. Mas, acredite: é muito melhor para você.

6 - Por fim, uma consideração motivada pela conjuntura.
Durante muitas décadas, no Brasil, era razoavelmente fácil saber quais eram as escolas que formavam bons profissionais. Principalmente devido ao fato de que havia poucas universidades em cada região.
Hoje os tempos são outros. Existem escolas com cursos superiores em todo lugar. É a chamada proliferação de cursos superiores

É importante dizer que, no meu ponto de vista, isto não é uma coisa ruim. O Brasil sempre teve (e ainda tem) um deficit enorme de escolas superiores, especialmente na área tecnológica. Ou seja. Quanto mais cursos surgirem, melhor para o país.

No entanto, isto causa uma natural confusão e desinformação no mercado contratante (sejam empresas ou pessoas físicas). Como saber quem é quem? Como estabelecer um critério para não perder tempo com processos seletivos e treinamento básico com profissionais que não têm futuro dentro da empresa?

Uma das alternativas que sempre foi utilizada por grandes empresas é justamente eliminar na disputa aqueles que não são formados nas escolas de alto nível. O problema é que, com tantas escolas disponíveis, como saber quais são as \"descartáveis\". A resposta me parece óbvia: a avaliação feita pelo MEC (o SENAES). Nessa avaliação, como vimos acima, muitas coisas são consideradas. Mas as notas dos alunos no ENADE tem um peso relevante.

Outra coisa importante a observar é que, apesar da lei proibir a divulgação individual do resultado. O estudante pode divulgar a sua nota pessoal e fazer desta uma vantagem competitiva, um fator distintivo. Hoje, universidades e grandes empresas no Brasil recebem muitos e-mails de estudantes indianos, chineses e de outras nacionalidades querendo fazer estágio no Brasil. Um dos dados que esses estudantes colocam no Currículo é a nota obtida em exame semelhante ao ENEM ou ENADE.

Portanto, fazer o ENADE (e, mais do que isso, fazer bem feito) é uma forma de garantir o seu ingresso no jogo do mercado de trabalho.



ÊNIO PADILHA
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