FIDALGOS

(este artigo foi publicado em 1997, na semana em que o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos foi queimado vivo, em Brasília, quando dormia num ponto. Os autores do crime Max Rogério Alves, Eron Chaves Oliveira, Antônio Novély Villanova, Tomás Oliveira de Almeida, todos de 19 anos, e o menor G.N.A.J.

Qualquer semelhança com o caso dos cinco estudantes que agrediram a empregada doméstica Sirlei Dias Carvalho Pinto, no Rio de Janeiro...
... não é mera coincidência!)



Os Fidalgos atacaram novamente. Desta vez foi em Brasília, na madrugada de domingo, num ponto de ônibus. Eles encharcaram de combustível e atearam fogo em um índio que estava dormindo.

Mas foi por engano! Era só uma brincadeira. E eles nem sabiam que era um índio. Eles achavam que fosse apenas um mendigo!

Ah, bom! tá certo. Infelizmente era um índio. Se fosse apenas um mendigo não teria problema.

O pior é que eu acredito que eles estejam falando a verdade. De fato, se eles soubessem que era um índio (e não um mendigo) eles provavelmente pensariam duas vezes antes de fazer o que fizeram.

E, pior ainda, eu acredito também que, se fosse mesmo apenas um mendigo, não teria problemas maiores.
Porque um pobre qualquer, sem identidade, nem CPF, não rende manchetes nos jornais, reportagens de televisão, nem indignação nacional.

A imprensa cuidou de amplificar o problema centralizando e reduzindo a questão ao fato de a vítima ser um índio.

Perdeu-se o principal: este incidente é apenas uma das muitas manifestações Apartheid Social que se estabeleceu no Brasil.

Os filhos da classe média, a bordo de seus carrões, tudo podem. São os herdeiros de tudo o que o dinheiro dos pais podem comprar e mais o que a arrogância, a prepotência e a estupidez puderem conquistar. Por conta disso eles invadem praças com seus capôs levantados, cheios de decibéis. Esparramam latas de cervejas, copos de papel e todo lixo que puderem deixar em local público (na madrugada algum pobre do outro lado do abismo social virá fazer a limpeza). Quando estiverem prontos (bêbados e drogados) sairão pelas ruas dirigindo como legítimos donos da cidade, em alta velocidade, colados ao pára-choque traseiro de algum idiota civilizado, fazendo manobras radicais, pondo em risco a vida de pedestres e de outros motoristas.

E se houver algum acidente: azar, o pai paga.
E se alguém for preso: o pai vai lá e tira.
E se alguém morrer: desde que não seja um dos nossos, deixa pra lá.

A nossa sociedade acostumou-se a medir uma pessoa pela sua fortuna, pelos seus bens, pela sua capacidade de pagar pelos prejuízos. Tanto que o conceito de prejuízo, no Brasil, está sempre ligado a dinheiro ou coisas que o dinheiro pode comprar. Até mesmo o prejuízo moral é estimado em função dos prejuízos financeiros decorrentes.

Acho que é hora de retomarmos o espaço perdido. Voltar as discussões para o importante e não para o interessante, reconquistar para toda a sociedade (e não apenas para os ricos e seus filhos) o direito de andar na rua e desfrutar de suas praças.

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PS. Fidalgo, segundo o Dicionário Houaiss tem a seguinte etimologia: contração de filho de algo, à semelhança do espanhol hidalgo (1197), antes fijo d'algo, que equivalia primitivamente a homem de dinheiro, pessoa acomodada na vida

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