NA CONTRA-MÃO

[IMG1;CambridgeUniversity.jpg;300;E;http://www.archdaily.com.br/br/761895/relatorio-britanico-diz-que-universidades-estao-falhando-em-preparar-seus-estudantes-de-arquitetura-para-a-vida-profissional]Segundo matéria publicada no archdaily.com.br, um relatório publicado na Inglaterra dá conta de que \"dos 149 empregadores e 580 estudantes e recém formados em arquitetura que participaram da pesquisa, a grande maioria criticou a formação arquitetônica por priorizar o conhecimento teórico em vez da habilidade prática e concorda que a maior parte dos graduandos não são muito bem preparados para trabalhar após saírem da universidade\".
Mesmo sabendo que minha opinião não conta muito, EU DISCORDO!



FACULDADE É PRA APRENDER TEORIA


(Publicado em 06/03/2015)



Minha opinião sobre este assunto contraria meio mundo. Ou melhor, contraria quase todo mundo: eu defendo o ensino de mais teoria e menos prática nas faculdades de Engenharia e Arquitetura.

Não. Não pare de ler, por favor. Nem me atire pedras antes de dar um pouquinho de atenção aos meus argumentos.

Henry Ford, o industrial norte americano, dizia que “pensar é o trabalho mais pesado que há. E talvez essa seja a razão para tão poucos se dedicarem a isso”.

O mundo da construção civil e das fábricas (onde atuamos) é o império do conhecimento prático. Tá cheio de práticos. De gente que aprendeu tudo na escola da vida. De gente cheio de experiência. Justamente porque o conhecimento prático é aquele que se obtém da forma mais fácil: aprender fazendo. Por isso mesmo tanta gente tem esse tipo de conhecimento.

Se um engenheiro ou arquiteto quer ser diferenciado ou especial nesse meio, tem de oferecer algo que essas pessoas não têm. E esse algo é justamente o domínio da teoria. Num canteiro de obra um arquiteto ou engenheiro é justamente a reserva de conhecimento teórico necessário para que a coisa não desande.

Mas existe um discurso dominante de desvalorização do conhecimento teórico. É uma espécie sutil de bullying muito semelhante ao que existe nas escolas de ensino fundamental e médio.
Nos canteiros de obra e no chão da fábrica o domínio da prática é supervalorizado como uma forma de dominação e poder. O poder dos que não sabem (ou não gostam de) pensar.

Um engenheiro ou arquiteto que desista de ser um pensador, que desista de buscar soluções teóricas para os problemas que enfrenta, vira um fazedor. Um pesquisador de tabelas, preenchedor de planilha, aplicador de fórmulas, um mero repetidor de tabelas de fabricantes, de catálogos e soluções pré fabricadas… um sujeito útil. E substituível.

O arquiteto ou engenheiro deve reagir a isso. Deve ser bom em conectar conceitos, identificar princípios, avaliar alternativas que estejam ainda no campo da abstração. Isso é difícil. Só sabe fazer isso quem tem experiência… em pensar.
A experiência em pensar é uma coisa que pouca gente tem. E quem não tem não consegue avaliar a sua importância. E, se não consegue avaliar, nunca saberá valorizar.

Quer dizer, então, que, durante a faculdade, o aluno deve desprezar as oportunidades de obter alguma experiência prática de aplicação dos seus conhecimentos teóricos? Claro que não. Pelo amor de Deus! É claro que o estudante de Engenharia ou de Arquitetura deve, durante a sua formação, ter a oportunidade de exercer, na prática, seus conhecimentos. Entender como a coisa funciona no dia-a-dia, no chão da fábrica ou no canteiro de obra.

Como eu já tive oportunidade de dizer em outros artigos, experiência e prática são importantes para o exercício profissional. Mas os estágios curriculares e algumas atividades extra-curriculares são suficientes para que você saia da faculdade pronto para enfrentar o mercado. Mas a verdadeira experiência e o domínio da prática profissional deve ser uma conquista pós-formatura.

O estágio, aliás, é um dos principais problemas da formação de arquitetos e engenheiros no Brasil: os programas de estágios, principalmente em escritórios de projeto, transformaram-se em programas de exploração de mão de obra qualificada e barata, onde estudante é levado a crer que está tendo alguma vantagem (em colocar a mão na massa) mas, na prática, está envolvido em uma atividade que irá acrescentar muito pouco à sua formação de profissional. (Mas isso já é assunto para outro artigo)

O importante aqui é deixar claro a seguinte posição: a faculdade é apenas uma parte do processo de formação de um arquiteto ou de um engenheiro. Nessa fase, o importante é dar a esse estudante exatamente algo que ele nunca mais terá oportunidade de obter depois que iniciar o exercício profissional. Esse algo é justamente o conhecimento teórico.

O conhecimento prático ele poderá obter com certa facilidade depois de formado. Não é dramático nem grave que um profissional recém-formado não tenha (ou tenha pouco) conhecimento prático.

Pessoas que insistem em exigir de um recém formado um conhecimento prático das coisas estão prejudicando esses jovens. Estão fazendo com que eles pulem etapas e busquem se nivelar aos “doutores da prática” abrindo mão da única coisa que pode fazer deles profissionais realmente indispensáveis: a capacidade de saber pensar.

O problema não é ensinar mais teoria e menos prática na faculdade. O problema é não conversar com os jovens sobre isso. É não dar a eles uma noção do quanto importante é o conhecimento teórico. De como utilizar isso para se diferenciar no mercado de trabalho. O problema é ensinar teoria na faculdade e permitir que o estudante se sinta culpado por não dominar a prática. O problema é, muitas vezes, negligenciar a importância da conexão entre a teoria e a prática.




www.eniopadilha.com.br



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---Artigo2015 ---Administração ---Financeira




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Comentário #1 — 05/03/2015 09:08

Jean Tosetto — Arquiteto — PAULINIA

O grande problema do nosso sistema de ensino, que não se resume à faculdade, é que as escolas ensinam o aluno a decorar. Decorar é mais importante do que o conhecimento prático ou teórico, ao menos quando alguém vai prestar um vestibular ou um concurso público.

Em suma, os vestibulares e concursos são baseados em questões de múltipla escolha e não se avalia quem sabe "pensar" ou "fazer".

Se prestarmos atenção, veremos que as pessoas que sabem pensar não passam por testes. As que sabem fazer passam por alguns testes, mas sabem se sobrepor no mercado, de um modo ou de outro.

Faço uma comparação com o elenco de uma novela de TV, composto por 30 ou 40 atores que sabem decorar, dois ou três diretores que sabem fazer, e um escritor que sabe pensar.

Boa parte dos atores fizeram testes para assumir os papéis. Os diretores foram escolhidos a dedo pelo escritor, e o escritor foi convidado diretamente pelo canal de TV, a peso de ouro.

Os melhores atores, quando recebem um texto para decorar, refletem sobre o conteúdo da obra e ajudam na composição do personagem, na criação do mesmo. Estes atores são os protagonistas, que também são escolhidos pelos escritores e diretores, sem testes. Os menos experientes e competentes, que apenas decoram falas e cenas, são os coadjuvantes.

No mercado de trabalho acontece algo parecido.

Concordo que as faculdades deveriam priorizar o conhecimento teórico, mas é preciso aperfeiçoar também o sistema de vestibulares e concursos.

Réplica de Ênio Padilha

Excelente metáfora, meu amigo
Genial, como sempre!

Comentário #2 — 05/03/2015 17:16

Maristela — Arquiteta — Rio do Sul

Em fase de formação o jovem tem que priorizar o estudo.
Estudar...estudar e estudar. Muita teoria e cultura geral. A prática será acessível ao arquiteto ao longo de sua vida profissional. Os estágios remunerados no começo da vida acadêmica, levam a prestações e compromissos financeiros que mudam o foco da busca de uma vida estudantil plena.

Na condição de coordenadora de um curso de arquitetura e urbanismo vejo ainda um grande fomento dos pais neste sentido. O grande luxo desta fase da vida é a formação, viagens, curso de extensão afins, e não um carro na garagem.
Vejo vários jovens arquitetos, com muita prática mas pouquíssima bagagem teórica para colocar no porta malas.
A vida lhes reservará uma atuação medíocre, lamentavelmente!

Réplica de Ênio Padilha

É isso, professora!
Não fico feliz em concordar com você. Mas, infelizmente, você tem razão.

Comentário #3 — 06/03/2015 15:10

Sebastião L. Nau — Engenheiro e professor — Jaraguá do Sul, SC

Caro amigo Ênio,
A percepção acerca de que tipo de conhecimento é mais importante traz em si muito preconceito, muita defesa de posição porque, geralmente, temos preferência por um ou outro tipo de conhecimento.
De maneira conceitual, os conhecimentos são divididos em implícito (tácito) ou explícito (decodificável). O conhecimento tácito está relacionado às nossas habilidades, à capacidade de fazer. O conhecimento explícito é o que está disponível, posto nos livros, internet etc. É o que é ensinado nas escolas.

Então, na verdade, o conhecimento fácil de ser adquirido é o conhecimento explícito, ou seja, a teoria como você cita em seu artigo. O conhecimento tácito, ou seja, as habilidades é que é difícil de ser aprendido.

Exemplo 1: Você pode ler um manual sobre como nadar corretamente e compreender perfeitamente como fazer os movimentos adequados. No entanto, somente depois de muito esforço e treino é que você conseguirá, de fato, nadar bem. Talvez alguns até nunca consigam.

Exemplo 2: Um professor que possui muito conhecimento sobre determinado assunto (explícito) só dará uma excelente aula se tiver as habilidades para comunicar-se, fazer as conexões entre temas e prender a atenção dos ouvintes (conhecimento tácito).

Mas aí você pode me perguntar: tá louco? E as equações de Maxwell por acaso são fáceis de serem aprendidas por qualquer um? Não, claro que não, mas é um conhecimento que está posto e pode ser aprendido (explícito). Mais difícil é saber o que fazer com elas (tácito), quando aplicá-las, por exemplo.
E é este ponto que pega na vida profissional. A questão é que quando falamos que os estudantes saem da universidade sem conhecimento prático, estamos dizendo da dificuldade deles em produzir algo concreto, ou seja, transformar o conhecimento adquirido em um projeto, um produto ou uma proposta. No meu entender, há duas razões para isto: deficiência na formação (falta de conhecimento explícito suficiente) e dificuldade natural de transformar conhecimento explícito em tácito.

O que defendo então?
A vida de um estudante na universidade não pode ser eterna. Temos que aceitar que muitos conhecimentos terão que ser adquiridos ao longo da vida profissional. Assim, a universidade deve priorizar o conhecimento explícito e deixar que o próprio estudante aperfeiçoe suas habilidades à medida que os desafios de sua vida profissional as exigem.

Usando os termos que você usou no seu artigo: priorizar mesmo a teoria porque, depois, a prática em cada empresa poderá ser única. No entanto, há alguns conhecimentos tácitos que podem e devem ser buscados durante os cursos de engenharia e arquitetura que valorizam o profissional recém-formado: a habilidade em usar ferramentas computacionais para análise, projeto, simulação etc. Nos dias de hoje, é como saber usar uma caneta. Por falar nisso, este é um outro exemplo de conhecimento tácito e explícito: conhecer o alfabeto (explícito), ter habilidade em escrever como você (tácito).

Réplica de Ênio Padilha

Sensacional! Ou melhor: Sebastiânico!
Não é por acaso que tanta gente adora este meu amigo Sebastião. Perfeita a sua análise. Se, no futuro, este artigo for publicado em algum livro meu, com certeza incorporarei essas observações.

Comentário #4 — 07/03/2015 12:42

Alberto Costa — Consultor empresarial - alliances advisor — Florianópolis

Ênio,
se o sujeito não tem interesse ou capacidade para lidar com a teoria, nem deveria tomar assento no ensino de terceiro grau. Quando falamos de uma universidade que gradua analfabetos funcionais, isso decorre exatamente do fato de que há ali, crescentemente, alunos (avalanches deles) e professores (em quantidade cada vez maior) que não podem (e, pior, por preconceito, nem querem) ser intelectuais (o intelectual é quem, principalmente ou, pelo menos, na hora adequada e pelo tempo e com a profundidade que forem necessários, pensa).

Você está certíssimo (e não só quanto a arquitetos e engenheiros).

Réplica de Ênio Padilha

Isso mesmo, Alberto.
E eu lamento muito ter de dizer que você está coberto de razão.

Comentário #5 — 07/03/2015 17:43

José Luiz V. C. Varela — Engenheiro Projetista estrutural — SÃO PAULO

Caro Ênio,
Destaco esta frase do seu texto "a capacidade de saber pensar" , é isto que os professores nas universidades devem buscar incutir na mente dos estudantes seja qual for a formação deste estudante.

Aprender a pensar, saber entender os conceitos do que é ensinado e ter condições de saber aplicar estes conceitos corretamente.

Fazer entender aos alunos que a busca pelo conhecimento não termina quando eles se formam, os bons profissionais para se manterem no mercado terão que continuar a estudar a vida toda, transformando em pratica todo o conhecimento teórico que aprendeu na universidade e principalmente depois de formado.

Hoje depois de 35 anos de atuação projetando estruturas, gosto muito mais de trocar idéias com jovens talentos, que tem ideias inovadoras para serem postas em pratica, do que conversar com muitos colegas que pararam no tempo, adquiriram muita pratica mas que tem muito pouca criatividade.

As boas praticas e novas soluções são resultado de muito estudo, um bom embasamento conceitual, pratica e teoria, uma não evolui sem a outra.

No mercado seja qual for a profissão, existem profissionais com muita pratica, repetindo conceitos e soluções que aprenderam nos bancos da universidades, incapazes de evoluir estudando buscando acompanhar o estado da arte do conhecimento.

Abraços,
Varela

Réplica de Ênio Padilha

Amigo Varela
Obrigado por emprestar a sua inteligência e experiência a esta conversa tão produtiva.
Seu comentário, com certeza, enriqueceu esta página.

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