OS CONGRESSOS VIRTUAIS

(Publicado em 29/03/2020)



Nesses dias de Lives diárias sobre tudo quanto é tema os congressos virtuais começam a acontecer em todo lugar e eu voltei a receber convites para participar deles, como palestrante.

Cada vez que recebo um convite, dou uma olhada nos termos da proposta. Se for o modelo de negócio padrão desse tipo de congresso, simplesmente mando como resposta o link para este artigo, escrito em 2015.

Se, depois de ler o texto (abaixo), o coordenador do congresso quiser continuar a conversa, podemos seguir adiante.





(Publicado em 15/04/2015)



Em 1996 eu dirigia o meu escritório de Engenharia Elétrica em Jaraguá do Sul-SC e estava envolvido numa negociação de um projeto elétrico para um edifício grande a ser construído na cidade. O cliente, uma importante construtora da região, tinha um negociador duro cujo objetivo, evidentemente, era baixar o meu preço de qualquer maneira.

Esgotada a "série básica" de argumentos ele começou a tentar me convencer de que fazer aquele projeto (importante) seria muito bom para o marketing da minha empresa e que a divulgação obtida deveria ser entendida como parte do meu pagamento.

Respondi: "entendo perfeitamente seu ponto de vista. Mas, infelizmente, essa sua proposta chega com dez anos de atraso.

"Como assim? Por que dez anos?", perguntou ele.

"Porque há dez anos eu estava abrindo meu escritório. Eu era um desconhecido e meu escritório não tinha nenhum cliente. Em 1986 uma proposta como essa seria muito bem vinda e eu, certamente teria de considerar".

"Sim, entendo, retrucou ele, mas publicidade nunca é demais. Ou você acha que pode dispensar a visibilidade positiva que uma obra deste porte pode lhe dar?"

"Sr. Osmar, de fato, publicidade nunca é demais. Porém, haveria alguma coisa muito errada comigo e com a minha empresa se, depois de 10 anos de atividade, eu ainda estivesse aceitando trabalhar em troca de publicidade para o meu trabalho, o senhor não acha? Essa fase já passou. Foram os primeiros dois ou três anos da empresa. Agora já construímos uma certa reputação e podemos trabalhar por dinheiro. Que tal?"

Corta para 2015. Fui convidado para participar de um CONGRESSO VIRTUAL DE ENGENHARIA, tipo de evento que está virando uma febre na internet. Já participei de um desses congressos no ano passado. Acho a ideia muito bacana.

Nesse tipo de evento o palestrante prepara o conteúdo da palestra, grava um vídeo exclusivo, no qual recomenda-se não fazer divulgação de nenhum produto do autor. O vídeo é então entregue ao coordenador do evento que o inclui na programação do congresso e a transmissão é feita, na data estabelecida para a audiência de interessados (inscritos no congresso).

No caso desse congresso virtual (e de outros que eu sei) não existe pagamento de honorários para o palestrante.

Até aí, tudo bem. Eu estava considerando aceitável despender meu tempo para produzir o vídeo e disponibilizar o conteúdo para o público do congresso tendo como contrapartida o fortalecimento da minha marca no mercado.

O problema apareceu quando chegou no meu e-mail o TERMO DE CESSÃO DE DIREITOS que eu teria de assinar para participar DE GRAÇA no tal Congresso: pelos termos do documento o autor teria de ceder, de forma gratuita (além da palestra),



"o direito de uso do nome, imagem e voz, conjunta ou separadamente, bem como os direitos sobre o conteúdo, que poderá ser reproduzido em texto ou quaisquer outras formas, captadas durante encontros, entrevistas ou similares concedidas ao evento ou seus substabelecidos representantes, para criação de aulas e cursos educativos ou similares, com ou sem fins lucrativos, com divulgação por internet e quaisquer outros meios, a exemplo de DVD, Blu-Ray, bem assim quaisquer outros formatos de mídias e veículos de comunicação, impressas ou eletrônicas, que existam ou que venham a existir, incluindo-se marketing e publicidade, e por números indeterminados de vezes”



Minha primeira reação foi, “o quê!? Que brincadeira é essa?”
Pensei comigo, “o cara recebeu isso do Departamento Jurídico e nem leu direito, simplesmente repassou sem se dar conta do absurdo que está propondo”.

Na verdade, esses congressos costumam ter uma série de produtos associados à eles, utilizando os conteúdos apresentados no evento e que são vendidos aos participantes depois que o evento termina. CDs, DVDs, ebooks e outras publicações e até mesmo o Certificado de Participação costuma ser comercializado. Essa é, no fim das contas, a principal fonte de receita desses congressos, uma vez que, em muitos casos, a inscrição é gratuita.

Não há nada de errado nisso, exceto o fato de que, nesse processo, existe uma apropriação, por parte dos donos do evento, do conteúdo produzido pelos palestrantes. No meu entender, isso já é outro negócio. Deve haver outro contrato para comercializar esses produtos.

Então resolvi preparar um Termo de Cessão mais razoável e mandei pra ele, reforçando meu interesse em participar do evento, mas deixando claro que os termos propostos no documento que ele enviou são completamente fora de propósito.

Surpresa: o próprio coordenador do evento entrou em contato comigo (pelo skype) para defender os termos do documento original, sob os argumentos de que (1) este é o modelo de negócio desse tipo de congresso e que não haveria como abrir mão; (2) Eu tinha de considerar a divulgação que o meu trabalho teria e que isso justificaria abrir mão, de forma totalmente gratuita e por tempo indeterminado de um conteúdo produzido por mim.

Lembrei do seu Osmar e da sua proposta de 1996. E repeti a resposta. Eu disse claramente. NÃO EXISTE A MENOR POSSIBILIDADE DE EU ASSINAR UM DOCUMENTO NESSES TERMOS. E tenho certeza de que um autor/palestrante só assinaria este documento se (a) for muito desatento ou descuidado dos seus direitos ou (b) se não tiver a menor noção do valor do seu produto.

Existe, claro, uma terceira alternativa: (c) um palestrante que seja tão novato, inexperiente e desconhecido que avalie como interessante fazer esse tipo de negócio. Eu disse: "eu não tenho dúvidas de que o Sr. haverá de encontrar muitos. Só não sei se isso é sustentável, do ponto de vista do valor do Congresso no médio e longo prazo. Eu, de minha parte. Tô fora".

Mas, sinceramente, eu não sei o que me incomoda mais. Se é (1) existir gente que faz esse tipo de proposta, ou se é (2) ter autor/palestrante que aceita ou ainda (3) o fato de que, para a maioria dos participantes do congresso, tanto faz.





PADILHA, Ênio. 2015



PS.: Dei mais sorte em 1996. Naquele dia fechei o negócio do projeto com a construtora.



Comentário #1 — 15/04/2015 06:45

Compartilhado no Facebook — LÍGIA FASCIONI — Berlim, Alemanha

Lígia Fascioni (compartilhando - 15/04/2015): A febre de congressos virtuais está no auge (já fui convidada para uns 5; só participei do primeiro e confesso que não prestei muita atenção nos pontos que o texto ressalta). O ótimo artigo do Ênio vale para todo mundo ficar atento com relação ao contrato leonino de cessão dos direitos sobre o material produzido (na verdade, foi o principal motivo pelo qual não participei dos outros 4). É útil para palestrantes, profissionais e, por que não, para os organizadores entenderem o outro ponto de vista também



Wesley Caribe: Excelente. Sempre pensei que parte da verba arrecadada com a venda do material pós evento era destinada aos autores. Que fora desse pessoal, hein? E pelo jeito, os cursinhos on-line seguem o mesmo "modelo de negócio". Triste, tanta gente boa... talvez desatenta.



Ligia Fascioni: Na verdade, alguns organizadores oferecem de fato uma participação na venda dos pacotes, Wesley Caribe. Mas seria preciso milhões de participantes num congresso desses e mais um tanto de assinantes para conseguir remunerar de verdade as dezenas de palestrantes, o que, é claro, não acontece. Gostei de participar do primeiro congresso, mas aí vi que o negócio virou moda e todo mundo quer de graça a única coisa que tenho para vender (citando Cacilda Becker).



Wesley Caribe: Ainda que insuficiente, esse humilde retorno me parece bem mais honesto do que a cessão de direitos. Acredito que esse é um problema de desvalorização generalizado em torno do conhecimento/experiência. Vide situação dos professores em alguns países.

Ah, acompanhei a sua palestra "O que a identidade corporativa tem a ver com inovação" - e adorei! Muito bem organizado, mas me limito a observações de quem estava de fora. Se não me engano, você deve estar se referindo a esta participação. Se os demais organizadores encarassem esse tipo de difusão de uma maneira séria, haveria mais Lígia para todos. rs...



Ligia Fascioni: Wesley Caribe, na verdade eu não vejo má-fé por parte dos organizadores, é que o modelo de negócios é complicado mesmo. Já produzi material completo para um curso virtual, cedi os direitos e, depois de 4 anos, o negócio faliu e eu faturei a assombrosa quantia de R$ 175,00. E perdi todo o material, que ficou com eles. Sobre esse congresso ao qual você se referiu, foi muito bem organizado e adorei participar. Mas não dá para ocupar boa parte das horas produtivas gerando material que não traz nenhum retorno financeiro (já faço isso com o blog, penso ser mais que suficiente). Como diz o Ênio no artigo, é uma boa estratégia para quem está começando, mas não para quem já tem bastante tempo de estrada. Faço muitas palestras de graça, mas prefiro priorizar instituições sem fins lucrativos ou então divulgar abertamente para que todo mundo possa acessar sem nenhum tipo de restrição.

Sobre a palestra que você gostou, Wesley Caribe, também achei a experiência bacana, mas não posso postá-la no Youtube porque os direitos não me pertencem mais, entendeu o problema?



Wesley Caribe: O pior é que eu entendi. rs...

RÉPLICA DE ÊNIO PADILHA

Ano passado (2014) participei do Congresso Virtual de Arquitetura que foi Organizado/Promovido pela FAU/UnB.
Gostei muito da experiência. Achei muito positivo participar.
Mas não assinei nenhum documento dessa natureza. Até porque, penso eu, a UnB não faria uma proposta dessa forma.

Comentário #2 — 15/04/2015 10:22

Compartilhado no Facebook — ALBERTO COSTA — Florianópolis-SC

ALBERTO COSTA (compartilhando - 15/04/2015): A escravidão foi um grande progresso civilizatório - em vez de simplesmente exterminar os povos vencidos nas guerras (o que implicava a perda de mão-de-obra preciosa e muita inteligência embarcada em cabeças que eram separadas de seus respectivos corpos por espadas afiadas, ou nem tanto), egípcios, caldeus, gregos e romanos passaram a preservar a vida de seus inimigos derrotados e a escravizá-los. Do ponto de vista econômico, um grande progresso. Do ponto de vista dos derrotados, uma perspectiva bem mais agradável (em geral, melhor ser um escravo vivo que um herói anônimo mortinho da silva).

Em algum momento da história, em vez de prender ou matar um devedor insolvente, optou-se, também, por oferecer-lhe a opção de tornar-se escravo para pagar suas dívidas. Saía muito mais barato que pagar pelos serviços de homens livres ou sustentar um prisioneiro improdutivo. Gerava menos sangue, moscas e urubus (a saúde pública agradecia). E, no fim, reavia-se ao menos parte do capital investido.
O escravo, no mais das vezes, perdia o direito de ir e vir, o direito a usar seu próprio nome, o direito a suas propriedades (aí incluídos imóveis, móveis, semoventes, familiares, seus próprios escravos, títulos honoríficos, etc.).

Coube, principalmente, aos ingleses demonstrar ao mundo 1) a imoralidade da escravidão, de um lado (William Wilberforce), e, 2) de outro, suas enormes limitações para o desenvolvimento dos mercados por meio da produção sustentável e escalável de bens econômicos (Adam Smith, que não era inglês, mas fazia continência à rainha, escocês que era).

Lembrei tudo isso ao ler o post do Prof. Ênio Padilha. É possível que eu esteja sendo muito dramático no estabelecimento dos paralelos, mas é mais evidente ainda o fato de que há gente, no século XXI, que ainda "desenha" modelos de negócios (se é que merecem esse nome) que demonstram sua completa ignorância (ou desprezo) pelos aprendizados de nossa civilização nos últimos 300 anos de progresso sócio-econômico e jurídico (há fortes razões para duvidar de progresso moral, motivo pelo qual o progresso jurídico é tão importante).

Bem, deem-se por avisados, promotores de eventos e seus principais atores, os palestrantes e professores. Caem nessa arapuca apenas os neófitos e os ingênuos profissionais.

RÉPLICA DE ÊNIO PADILHA

O que eu posso dizer?
É agradecer. E aplaudir.

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