VOCÊ TEM FOME DE QUÊ?

(Publicado em 19/07/2017)



THE FOUNDER (FOME DE PODER) - Vi o filme ontem, no Netflix. Eu tinha lido tantas críticas negativas que já estava preocupado. Porém, muitas dessas críticas vinham de gente que se enquadra bem no perfil tratado no meu artigo EXCELÊNCIA APEDREJADA, publicado no meu blog em 2014.





Bom, pra começo de conversa, Ray Kroc (interpretado por Michael Keaton) não é nenhum santo. Mas não é pior do que a maioria dos empreendedores capitalistas de sucesso mundial que conhecemos. É só ler as biografias. Nenhum deles tem uma história intocável.

Richard e Maurice McDonald, fundadores do primeiro restaurante da marca (interpretados por Nick Offerman e John Carrol Lynch) desenvolveram com perfeição um processo produtivo excelente, seguindo cada milímetro da Teoria da Administração Científica de Frederick W. Taylor. É bom lembrar que esses conhecimentos estavam amplamente disseminados nos EUA na primeira metade do Século XX e muitas empresas os utilizavam. Eles foram os primeiros a fazerem isso no ramo de restaurantes. Mas eles não tiveram a visão do valor do que haviam criado. Isto é muito comum: as pessoas têm um produto excelente mas não conseguem transformar isso em um bom negócio. Porque o mundo dos negócios não é um conto de fadas. Não é um jardim de infância.

O grande mérito de Ray Kroc foi ter tido essa visão e ter feito todos os sacrifícios para concretizá-la. Richard e Maurice McDonald jamais teriam feito isso. Seu sistema teria sido copiado por outros concorrentes e certamente eles teriam sido engolidos antes dos anos 1970.

Ray Kroc teve exatamente o que faltava aos irmãos McDonald: visão, coragem, persistência, disposição para assumir riscos e capacidade de liderança.

Ray Kroc deu cotoveladas em adversários, como Pelé. Atirou o carro sobre o concorrente, como fez Ayrton Senna. Deu água batizada aos adversários, como Maradona. Sua biografia poderia não conter esses pecados. Mas esses pecados não definem a sua realização. Uma roseira produz folhas, espinhos e flores. Julgar a roseira apenas pelos espinhos que ela tem é fazer um julgamento limitado, pra dizer o mínimo.

Mas, enfim… é possível aprender algumas coisas com o filme (com a história fascinante desses três personagens):

Com os irmãos McDonald aprendemos que é preciso ter foco: quando eles tinham um restaurante convencional perceberam que 87% das vendas vinham de apenas 3 produtos: hamburguer, fritas e refrigerante. O primeiro “segredo” do sucesso do McDonalds era o portfólio restrito a esses três produtos. É preciso se especializar para alcançar a excelência. E isso foi a primeira coisa que eles fizeram.

Eles também provaram que a sistematização dos processos produtivos pode ser levada ao extremo, seja qual for o seu ramo de negócio. Sistematizar processos significa ganhar tempo, qualidade e produtividade. Mas nenhum restaurante do mundo, até 1948, tinha se dado conta disso. E muitos escritórios de Engenharia ou de Arquitetura ainda acha que isso é impossível de se aplicar ao seu ramo de negócio.

Sua empresa não é apenas uma oficina, um local de trabalho. Ela é um negócio. Essa visão, introduzida por Kroc, foi fundamental para transformar uma ótima idéia em um negócio de sucesso. Controle financeiro, gestão dos recursos humanos e administração do mercado (marketing) são as outras três pernas da mesa chamada NEGÓCIO. O que os irmãos McDonald estavam tentando fazer era administrar uma mesa que só tinha uma perna (ainda que essa perna fosse muito forte).

Pra finalizar: o título original do filme é “The Founder” (o fundador). No Brasil recebeu o enviesado título “Fome de Poder”. Isso diz mais sobre os brasileiros do que sobre o filme (ou sobre Ray Kroc ou a própria McDonald’s.)



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br




A imagem que ilustra este artigo é um detalhe do cartaz oficial do filme, nos EUA.
- http://thefounderfilm.com



PADILHA, Ênio. 2017

Comentário #1 — 20/07/2017 08:50

Ligia Fascioni — Engenheira eletricista — Berlim, Alemanha

Excelente resenha! Não julgar uma roseira apenas pelos espinhos é a parte que as pessoas desaprenderam (se é que já souberam um dia). Tem muita gente por aí com muito a ensinar, mas não aprendemos por puro preconceito.

Réplica de Ênio Padilha

Bingo!
Às vezes a gente escreve um artigo inteiro para encaixar uma frase. O bom leitor é aquele que lê essa frase e percebe a sua importância no contexto.

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