UMA PONTE NÃO CAI POR UMA ÚNICA CAUSA

(Publicado em 15/08/2018)



Todos sabem. Eu já disse isso dezenas de vezes: eu adoro pontes. Considero a ponte um símbolo perfeito do trabalho do engenheiro (qualquer engenheiro, de qualquer área).
Eu sempre digo que Engenharia é a arte de construir pontes. Ou seja: encurtar uma distância ou reduzir um esforço.
Por isto uma tragédia como esta que ocorreu ontem (14/08/2018) em Gênova, na Itália, me deixa muito triste. Porque representa, em alguma medida, uma tragédia da Engenharia.





Ontem passei o dia procurando por notícias do acidente, nos portais de notícias do Brasil e de outros países.

O que temos de FATOS:

• Um trecho de cerca de 100 metros da ponte Morandi, em Gênova, no noroeste da Itália, desabou na manhã de terça-feira, dia 14/08/2018.
• A ponte foi construída na década de 1960.
• A ponte foi projetada pelo engenheiro italiano Riccardo Morandi. Outras pontes semelhantes foram projetadas pelo mesmo engenheiro na Líbia e na Venezuela
• A ponte da Venezuela também teve um pedaço que caiu, matando algumas pessoas. Esse desastre aconteceu em 1964 (logo depois que a ponte foi inaugurada) e foi deflagrado pela colisão de um navio contra uma das pilastras.
• A estrutura da ponte de Gênova desabou de uma altura de aproximadamente 100 metros.
• A ponte passava por obras de reforço de sua estrutura. Esse trabalho havia sido iniciado em 2016.
• Até a manhã do dia seguinte 39 pessoas foram dadas como mortas na tragédia (entre elas, três crianças). 16 pessoas ficaram feridas, sendo 12 em estado grave.
• Mais de 400 pessoas de 11 prédios vizinhos tiveram de ficar fora de casa após o desastre, até que a defesa civil avaliasse os riscos.
• A empresa concessionária da ponte, Autostrade per I’Italia, faz parte do mesmo grupo que também detém a concessão de algumas estradas no Brasil.


Pelo que eu li e ouvi de engenheiros especialistas, uma ponte (assim como um avião) não cai por um único motivo. Existem sistemas redundantes de segurança. É preciso uma cadeia de erros ou negligências para que um desastre como esse aconteça.

Pode haver
(1) Erro de estudo de solo (realizado por engenheiros)
(2) Erro de projeto (feito por engenheiros)
(3) Erro de execução (comandada por engenheiros)
(4) Uso de material inadequado (especificados e fiscalizados por engenheiros)
(5) Patologias (podem ser detectadas por engenheiros especialistas)
(6) Eventos naturais excepcionais (terremotos, furacões, descargas atmosféricas, etc) (são previstos nos projetos pelos engenheiros projetistas)
(7) Sobrecarga excepcional (são evitadas por engenheiros responsáveis pela manutenção das obras)

Um desastre como este não ocorre de uma hora para outra. Ele manda avisos: fissuras, rachaduras, barulhos estranhos… que podem ser detectados e interpretados por especialistas em patologias. No caso específico da ponte de Gênova, havia relatos dos moradores próximos sobre barulhos estranhos vindo da estrutura da ponte.

Por isto, antes de qualquer análise, podemos afirmar sem medo de errar: o que aconteceu em Gênova foi, sim, resultado de algum erro de Engenharia. Infelizmente.

Isto é uma coisa que é da natureza do exercício da Engenharia. A responsabilidade pela consequência.
Um engenheiro não é pago para fazer o melhor que pode. Ele não é pago para tentar fazer o prédio ficar de pé. Fazer o que for possível para que o avião voe ou que o navio flutue. O engenheiro tem responsabilidade pelo resultado. O trabalho dele tem consequência objetiva.

Ser engenheiro não é nada fácil. Definitivamente, não é para os fracos.



ÊNIO PADILHA
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---Padilha, Ênio. 2018

Comentário #1 — 15/08/2018 11:59

Renata M Silveira — Arquiteta — Cabo Frio

Excelente análise da situação... pensei dessa forma, mas em alguns instantes de real protecionismo e corporativismo profissional me eximi de julgar por medo de ser leviana...
Depois de suas colocações... concordo e realmente admito a responsabilidade.
Ser arquiteto e engenheiro não é para fracos!!
Valeu Ênio!! Brilhante mais uma vez!!

Réplica de Ênio Padilha

Obrigado, Renata.
Também escrevi este texto com dor no coração. Mas é preciso dizê-lo

Comentário #2 — 15/08/2018 17:39

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