O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo porque, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.

PAUL MICHEL FOUCAULT

(1926-1984)
Filósofo francês no livro A Ordem do Discurso, página 10

O NOME DA GENTE

(Publicado em 13/09/2009)



Joyce trabalha com produção de eventos em Balneário Camboriú. Uma figura fantástica. Joyce tem um bom humor permanente, uma alegria interminável. Ele sempre tem uma piada para qualquer situação.

Sim, eu disse "ele". Joyce Mário Silveira é um senhor respeitável. Cinqüenta e poucos anos...
"Joyce" para os amigos, que, por sinal são muitos.

Outro dia estávamos tomando um café (numa das excelentes confeitarias de Balneário Camboriú) e ele me contou que leu meu livro, "Marketing Pessoal & Imagem Pública". Lá tem um capítulo sobre o nome das pessoas e a sua importância para o marketing pessoal. Daí que ele resolveu trocar de nome. Disse que vai ao Juiz. Não quer mais ser Joyce. "Nem fica bem, na minha idade!".

Joyce disse que vai mudar o nome para... Márcia!

(Todo mundo riu muito, claro.)





Imagem: OitoNoveTrês



Brincadeiras à parte, todo mundo gosta do próprio nome. Ainda que o fulano se chame Cleopôncio, Conscúcio, Remígio ou coisa que o valha. O sujeito acaba se acostumando e pronto.

Na infância, principalmente nos primeiros anos de escola, os nomes esquisitos incomodam mais. É que as crianças são mais naturais, muito mais criativas. Costumam achar graça de tudo e ainda não desenvolveram a capacidade da hipocrisia e da falsidade (que são habilidades de adultos).

Uma menina, por exemplo, que se chame Ermengarda, não tenham dúvida: todo mundo vai chamar de "Espingarda" ou coisa pior.

Quando eu estudava no Instituto Estadual de Educação (Florianópolis), em 1978, nos primeiros dias de aula, na chamada dos professores, havia uma tal "PASCOÍNA", que não respondia à chamada, porque não estava na sala de aula. O professor chamava "Pascoína" e nada. Ninguém respondia.

Todos nós tínhamos uma grande curiosidade de saber como seria a dona de um nome tão estapafúrdio: PASCOÍNA ! (mais tarde descobrimos que a moça recebeu este nome do pai dela, por haver nascido no Domingo de Páscoa. Se fosse no Natal seria Natalina).

Ao fim de duas semanas de ausência, num belo dia, a professora chamou: Pascoína.
- Presente, respondeu uma voz bonita no fundo da sala.
Todo mundo se virou na carteira, dirigindo o olhar para o lugar de onde havia partido a voz. E, para surpresa geral, a dona da voz bonita e do nome medonho era, na verdade, um moça muito bem desenhada. Lindíssima, para ser mais exato.

Mas eu acho que, no fundo, no fundo, a turma toda ficou meio decepcionada. Esperavam uma pessoa tão feia e esquisita quanto o nome...



Não se preocupe com a Pascoína. Ela não existe mais. Formou-se Cirurgiã Dentista e mudou de nome, há um bom tempo.



E quem pensa que ter nome bonito resolve o problema, engana-se redondamente. Na verdade, mesmo que você se chame Helena, Clara, Ricardo ou Bráulio, isto não livra você de, amanhã ou depois, aparecer um personagem na televisão (ou em uma música popular) com um nome desses e pronto: você não vai ter paz por um bom tempo.

Eu, por exemplo, já fui vítima disto por duas vezes. Na primeira foi na época do Vila Sésamo (lembram aquele programa infantil da televisão, no início da década de 70?). Havia um "Ênio" safado e trapaceiro que vivia fazendo sacanagem com seu amigo Beto.
Naquela época ninguém podia me ver na rua sem me perguntar pelo Beto: "Ei, Ênio, cadê o Beto!"

Na segunda vez foi muito pior: a culpa foi do Jô Soares, que botou no ar um tal "Padilha", personagem de masculinidade duvidosa e que tinha em casa uma mulher super gostosa e muito pouco séria.

Passei anos ouvindo pacientemente o famoso "Vai pra casa, Padilha". E, ainda hoje, passados mais de vinte anos, de vez em quando alguém me vem com essa piada.
Nos tempos agudos foi terrível. Ninguém me poupava. Nem os parentes!

Mas eu não sofro sozinho. O Batista (amigo meu dos tempos do atletismo) teve de aturar por muito tempo o "Cala a boca, Batista" (também por conta do Jô Soares).

E, quando o Evandro Mesquita e sua Banda Blitz colocaram no ar a Rádio Atividade (e, com ela a música "Bete Frígida"), quase morri de pena da minha amiga Elisabete: por qualquer coisinha o pessoal caia de pau: "Calma Bete, calma!"
Todo mundo se divertia. Menos a Bete, coitada.

Em 2002 uma desastrada campanha de televisão causou um frisson danado entre a nação dos "Bráulios", que se viram, repentinamente, alvo das mais hilárias brincadeiras e gozações.
Fazer o que? Coisas da Vida!

Na minha turma da faculdade havia o Adão. Um rapaz inteligente, super amigo, calmo, de muita paz. E muito tímido.

A sua timidez (além, é claro, da calma e paciência) me animavam, de vez em quando, a fazer uma brincadeira com ele:

Eu chegava à sala de aula e ia cumprimentando a todos, um por um: Ave, Ricardo! Ave, Sebastião! Ave, Pedro!...

Quando chegava a vez do Adão, todo mundo já estava com aquele risinho sem-vergonha na cara. Mas eu não dizia "Ave". Falava, simplesmente: Bom dia, Adão!

- Ave, Padilha!, respondia ele aliviado.





PADILHA, Ênio. 2009





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SE ESSA MODA PEGA POR AQUI...

(Publicado em 06/03/2009)



Seria bom que a justiça passasse a punir, com rigor, sempre que recebesse uma denúncia infundada e motivada por sentimento pessoal.

No final do ano passado, na véspera da partida entre São Paulo e Goiás (valendo o título do campeonato brasileiro) o presidente da Federação Paulista de Futebol, Marco Polo Del Nero fez uma denúncia à CBF, dizendo que o árbitro Wagner Tardelli, que comandaria a partida, estaria envolvido em um esquema de suborno. A denúncia foi feita com estardalhaço e a imprensa repercutiu o caso. O árbitro da partida chegou a ser substituído, tendo sua carreira prejudicada por essa suspeita. O São Paulo, cuja relação com a Federação Paulista da gestão Del Nero sempre foi muito complicada, via assim sua conquista nacional manchada pela denúncia do dirigente.

Nesta semana, depois de entender que a denúncia de Del Nero foi infundada, e motivada por sentimento pessoal, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva puniu o dirigente com suspensão de 90 dias, e a Federação Paulista de Futebol foi multada em R$ 10 mil. Eles foram denunciados no artigo no artigo 221 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva: "oferecer queixa infundada ou dar causa, por erro grosseiro ou sentimento pessoal, à instauração de inquérito ou processo na Justiça Desportiva".

Se a moda pegasse algumas "lideranças" no Sistema Confea/Crea seriam punidos com mais de dez anos de afastamento.





PADILHA, Ênio. 2009





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OS INOVADORES (livro de Walter Isaacson)

(Publicado em 06/04/2015)



"Muita gente que celebra as artes e humanidades, que aplaude com entusiasmo os tributos à importância dessas áreas em nossas escolas declararia sem pudor (alguns até gracejando) que não entende nada de matemática nem de física. Essas pessoas exaltam as virtudes de saber latim, mas não têm a menor ideia de como escrever um algoritmo ou como distinguir BASIC de C++, Python de Pascal. Consideram Filisteus os que não distinguem Hamlet de Macbeth, mas admitem alegremente não saber a diferença entre um gene e um cromossomo, entre um transistor e um capacitor ou entre uma equação integral e uma diferencial.

Esses conceitos podem parecer dificeis. Sim, mas Hamlet também é. E, como Hamlet, cada um desses conceitos é belo. Como uma elegante equação matemática, eles são expressões das glórias do universo"


WALTER ISAACSON, jornalista e escritor norte-americano, autor de biografias de Albert Einstein, Benjamin Franklin, Henry Kissinger e Steve Jobs. A frase acima foi extraída do capítulo final do livro Os Inovadores - Uma biografia da revolução digital (página 501)




UMA BREVE RESENHA DO LIVRO:



Primeiro, é importante dizer que a minha literatura preferida (nos últimos anos) tem sido história econômica e biografias. Só por isso Walter Isaacson já é candidato a meu autor favorito, uma vez que a maior parte dos livros que ele escreve são biografias (veja lista acima).

Neste livro, em particular, o que encontramos é uma coleção completa de biografias encadeadas e unidas por um fio condutor, uma coincidência de interesses: a inovação nas tecnologias que sustentam a ciência da computação. Um prato cheio. Cheio e saboroso, posso garantir.

A primeira surpresa do leitor é o ponto de partida da história. A maioria das pessoas imagina que a história da ciência da computação começa em algum momento nas primeiras décadas do século XX. Isaacson começa a sua jornada cem anos antes, no início do século XIX, com Lord Byron e sua filha, Ada, condessa de Lovelace, que foi contemporânea e parceira intelectual de Charles Babbage. Mas o autor não fez isso apenas por capricho. Ada Lovelace é figura central da história toda, pelo que ela representa do espírito da coisa: a constante interação entre o mundo da ciência e o mundo das artes. Para Isaacson (e eu concordo completamente) as inovações e os avanços ocorrem, sempre, na esquina entre as avenidas da Ciência e das Humanidades.

A viagem que começa com a Máquina Analítica de Babbage, faz paradas em cada novo avanço, descrevendo as circunstâncias e seus agentes. Assim somos apresentados a dezenas de cientistas, inventores, pensadores e empreendedores, com uma riqueza de detalhes nunca antes reunida numa única história. Grandes nomes como Alan Turing, Vannevar Bush, Grace Hopper, Robert Noyce e Gordon Moore, Bill Gates, Steve Jobs e Wosniak, Tim Berners-Lee, Justin Hall, Larry Page e Sergey Brin têm suas histórias pessoais apresentadas ao mesmo tempo em que conceitos, ideias e produtos são apresentados com a mesma profundidade.

Vemos, assim, o surgimento e desenvolvimento dos primeiros computadores mecânicos, dos primeiros computadores analógicos eletromecânicos, das válvulas termiônicas, do transístor, dos circuitos integrados, dos softwares, dos sistemas operacionais, dos computadores pessoais, da internet, dos blogs, dos sistemas colaborativos e dos sistemas de busca.

E Walter Isaacson faz isso com a preocupação de manter em primeiro plano o ser humano que existe em cada um dos protagonistas. Embora consiga descrever e dimensionar com clareza a genialidade e a inteligência diferenciada de alguns dos inovadores, os aspectos pessoais, as disputas e as idiossincrasias que servem de pano de fundo para as relações que iam se estabelecendo nunca ficam em segundo plano. Por isto o livro mantém aceso o interesse do leitor e permite entender melhor os desdobramentos descritos.

Duas coisas importantes a serem destacadas no livro: a primeira é que os inovadores são sempre pessoas com um pé no mundo das artes e humanidades. Seja por terem habilidades ou talentos artísticos ou pelo convívio intenso com artistas ou cientistas sociais. São pessoas que buscam "vida inteligente" em todas as partes e não apenas em volta dos seus interesses centrais; a segunda é que eles são sempre pessoas com um elevado senso de colaboração. As inovações ocorrem quando pessoas de diferentes talentos unem forças em equipes de trabalho supereficientes. Como disse o autor, em uma de suas entrevistas de divulgação do livro, "Um grande time é aquele que tem muitos jogadores que sabem jogar em diferentes posições. Se você não tem uma equipe à sua volta acaba ficando pra trás na história".

Na minha modesta opinião, este livro deveria ser leitura obrigatória no primeiro ano de todos os cursos de Engenharia. Serviria para dar ao jovem estudante uma noção real do seu tamanho no universo da tecnologia e também para entender o tamanho da história que existe antes da sua entrada em cena. São quase 250 anos de fatos relevantes e pessoas geniais e dedicadas, que foram construindo, algumas vezes com sacrifícios pessoais, as condições para que o jovem estudante de engenharia possa, hoje, desenvolver sua própria contribuição para esta história que, certamente, ainda está longe do seu ponto final.





PADILHA, Ênio. 2015




1) ISAACSON, Walter. Os Inovadores - Uma biografia da revolução digital. São Paulo: Cia das Letras, 2014.






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