A sociedade, em qualquer forma, é uma benção, mas o governo, mesmo em sua melhor forma, não é nada mais que um mal necessário; na sua pior forma, é intolerável.

THOMAS PAINE

(1737-1809)
Filósofo e político britânico, na série de panfletos Common Sense: The political and miscellaneous works of Thomas Paine, página 5

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR

(Publicado em 26/03/2020)



Meus programas favoritos na TV são, sem dúvida, os programas de entrevistas. Especialmente programas em que o entrevistado precisa interagir com dois ou mais entrevistadores, como o Roda Viva, da TV Cultura ou o Segunda Chamada do canal MyNews.

Esses programas têm sido, nessas últimas semanas, demonstrações de que algumas atividades perdem muita qualidade se não forem realizadas presencialmente.

No momento, por razões óbvias, entrevistados (e, eventualmente, entrevistadores) fazem as suas participações a partir de suas casas (ou estúdios remotos). Aí, a falta do contato visual e dos pequenos gestos da comunicação não-verbal entre os envolvidos resulta em problemas na fluidez da conversa, comprometendo, em grande medida, a qualidade do produto final.





Imagem: OitoNoveTrês



O rádio, o cinema e os livros impressos são exemplos de produtos que já tiveram a morte anunciada nas últimas décadas. Agora a educação presencial parece ter entrado para o clube. Mas não é tão simples (e nem tão rápido).

Eu publiquei aqui, na semana passada, o artigo O EAD SERÁ FORTALECIDO NESTA CRISE, no qual eu destaquei as razões pelas quais o EAD será uma modalidade de ensino cada vez mais considerada, em todos os níveis (do ensino fundamental à pós graduação e a formação continuada de profissionais). Mas é justo que se dê a César o que é de César: a modalidade presencial tem qualidades insubstituíveis e insuperáveis.

Encontros, Fóruns, Congressos, simpósios, aulas, palestras e cursos presenciais não serão extintos pela onda devastadora do EAD (ou TAD, Tudo a Distância).

No nosso Protocolo 89, por exemplo, temos 27 reuniões programadas: 26 realizadas pela internet (Skype, Zoom, Meet Google, FaceTime...) e uma reunião presencial de um dia inteiro, na sede do contratante. É nesta reunião presencial que eu posso entender melhor o escritório, conhecer as instalações da empresa, a vizinhança, o clima de trabalho, a iluminação, a temperatura, os ruídos de fundo, as áreas de apoio, o cafezinho, a água fresca.

Todo o meu trabalho, as minhas análises e recomendações para o contratado nos meses seguintes seriam prejudicados sem essas informações cruciais colhidas nessa reunião presencial.

Nos cursos de graduação, por exemplo, a interação humana que o estudante consegue ter na modalidade presencial não tem paralelo possível na modalidade EAD. Especialmente se o curso presencial for numa Universidade, onde o estudante estabelecerá relacionamentos e vínculos com os colegas de classe, com colegas de outros cursos professores, empregados da instituição e interagir com todo o ambiente artístico, intelectual e lúdico da universidade. Isso é essencial na construção da personalidade de jovens de 17 a 23 anos. Nesse campo, os cursos presenciais são imbatíveis em termos de resultados.

Essa era a principal razão pela qual eu fui, durante muitos anos, absolutamente contrário à disseminação do EAD nos cursos de graduação. E ainda acho que, tanto quanto possível, deve-se evitar o EAD na graduação, especialmente para não privar os jovens dessa interação social e desse universo de possibilidades que a passagem por uma universidade presencial oferece.

Eu participo, todos os anos, de alguns congressos online. Muitos oferecem conteúdo de qualidade, sem dúvida. Excelentes palestrantes, com ótimos temas, muito bem explorados. Porém, do ponto de vista emocional, esses congressos não atingem nenhum objetivo. Não restam lembranças. Não existe o salão do cafezinho, as conversas de corredor, o convite de um amigo para um almoço e a oportunidade de colocar os assuntos em dia. Definitivamente, não participo desses congressos com o mesmo prazer com que desfruto os congressos presenciais.

Enfim, o EAD é, como já foi dito antes, uma modalidade de ensino com muitas utilidades e que consegue substituir plenamente muitas coisas que durante muito tempo só foi realizado de forma presencial. Mas ainda existem territórios nos quais o presencial é imbatível. Convém não perder isso de vista.





PADILHA, Ênio. 2020






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ENGENHARIA = DEGRADAÇÃO AMBIENTAL
ENGENHARIA = CORRUPÇÃO
É nisso o que os jovens acreditam!

(Publicado em 21/01/2011)





Imagem: OitoNoveTrês



Eu confesso que a afirmação me surpreendeu e que, num primeiro momento, achei meio absurda a associação. Mas a fonte não poderia ser mais segura: o próprio Confea.

Durante o primeiro programa "Espaço i" que vai ao ar nas segundas-feiras às 14 horas, ao vivo pela Internet ((o programa foi ao ar durante o primeiro semestre de 2011)) a reporter, apresentadora do programa disse que uma pesquisa do Confea aponta que os jovens associam Engenharia à Degradação Ambiental e à Corrupção.

Antes de comentar a resposta do convidado do dia, o Engenheiro Aluizio de Barros Fagundes, Presidente do Instituto de Engenharia, quero fazer aqui algumas considerações.

Primeiro, por mais absurda que possa parecer, à primeira vista, essa associação entre Engenharia e Degradação Ambiental faz sentido. Afinal, o trabalho do engenheiro implica, via de regra, uma ação sobre a natureza. O colega Engenheiro Marcos Vallim, professor da UFTPR faz uma observação interessante (veja o vídeo aqui). Ele afirma que, apesar de a maioria das pessoas pensar que a Tecnologia nos desumaniza, a verdade é exatamente o oposto: "Nada é mais humano do que a tecnologia. Porque antes da tecnologia nós éramos animais. O que nos distingue dos animais é a capacidade de construir coisas para complementar o que nós não temos. Nós não tínhamos pele e criamos roupas. Nós não tínhamos força, criamos máquinas... é isso... é a tecnologia que nos torna humanos."

Mas essa humanização do bicho homem pela tecnologia, evidentemente, tem um preço, que, algumas vezes, pode implicar a degradação ambiental.
No entanto (e o engenheiro Aluizio destacou isso na sua resposta) muitas vezes a degradação ambiental não está associada à Engenharia e sim à falta da Engenharia ou à falta de uma Engenharia de qualidade.
Quase todos os desastres ambientais que nós temos acompanhado nesses últimos dias têm na sua origem não uma ação da Engenharia e sim ações de indivíduos ou de governos sem a utilização da Engenharia.
A Engenharia, como bem destacou o Engenheiro Aloízio, busca fazer a intervenção NECESSÁRIA com o mínimo possível de impacto. É justamente a boa Engenharia que permite modificar a natureza com o menor impacto possível. Sem tecnologia e sem Engenharia ainda estariamos em árvores ou cavernas, comendo folhas e carne crua!

Quanto à questão da Corrupção a associação também faz sentido, pois, praticamente todos os grandes investimentos (sejam privados ou de governos) tem como base projetos de Engenharia. Não estou aqui tentando demonstrar ou convencer alguém de que NÃO EXISTE ENGENHEIRO CORRUPTO. Claro que deve existir. Seres humanos mal formados podem ser encontrados em todas as profissões.

No entanto, muitas vezes, o que temos são os grandes projetos e as grandes obras de Engenharia sendo utilizados por outro tipo de pessoas (governantes corruptos, empresários gananciosos...) que perpetram ações ilícitas para o desvio dos recursos.

Neste caso, acredito que muitos engenheiros pecam por omissão. Aceitam certas imposições, assinam documentos, e contribuem para legitimar o ilegítimo. A conta está chegando agora com esta bombástica afirmação do próprio Confea.

Eu já havia tocado neste assunto quando escrevi o artigo chamado OS ENGENHEIROS E ARQUITETOS LEVARÃO A CULPA publicado originalmente no Portal 2014, onde eu tento demonstrar o quanto nós devemos ficar atentos aos aspectos extra-técnicos do nosso trabalho.

Precisamos acordar para isso. Agora! É hora de cuidarmos com carinho da marca comercial mais valiosa com a qual lidamos no dia-a-dia: a marca Engenharia.





PADILHA, Ênio. 2011





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VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL

(Publicado em 19/07/2017)



Pense bem e responda: o que é, afinal, Valorização Profissional?
Quantas vezes você já participou, aí na sua entidade de classe, de alguma palestra, seminário, curso ou um outro evento qualquer em que o tema central era a Valorização Profissional? Você sabia que a Valorização Profissional é a segunda principal motivação para a criação ou revitalização de entidades de classe de Engenharia e Arquitetura no Brasil? (a primeira é, ainda, Tabela de Honorários).

Não lhe parece estranho que, com tanta gente querendo, e com tantas entidades se movimentando... a tal da valorização profissional pareça estar cada vez mais distante? Inacessível? Inatingível?

E sabe onde está o "X" da questão? No termo "Valor", embutido na palavra "Valorização".
Infelizmente, para a maioria das pessoas, valorização significa "ganhar mais". Ter mais "valor" significa "valer mais" (em dinheiro). É o famoso "Ter" e "Parecer" sobrepujando o "Ser" e o "Saber". Isso significa transformar consequência em objetivo. O meio em fim.

Estive envolvido em um trabalho de Consultoria muito interessante, com uma grande entidade nacional, que reúne os melhores profissionais do país em sua área de atuação. Realizamos seminários de discussão deste tema e eu (como orientador dos debates) propus uma abordagem diferente para o assunto: é preciso ver o clássico objetivo de melhorar a remuneração não mais como um objetivo e sim como uma consequência de um processo. Para isso é preciso revisitar o conceito de Valorização Profissional. E entender que, ganhar mais não significa, automaticamente, ser mais valorizado. No entanto, quando se é, realmente, valorizado pelo mercado, ganhar mais é uma consequência natural.

Para isso, vamos estabelecer aqui uma simplificação: você é valorizado pelo mercado se você se sente à vontade neste mercado. Se você gosta do que você faz (do jeito que você faz) e se as coisas acontecem como você entende que as coisas devam acontecer. Em outras palavras: você está no comando (ou, pelo menos, está nos degraus superiores da cadeia de comando). Fora disso, não importa o quanto você ganha. Você e seu trabalho não são, definitivamente, valorizados.

Dignidade, Realização, Reconhecimento, Segurança, Perspectivas promissoras... Essas são as cinco condições fundamentais e os principais indicadores da verdadeira valorização profissional.

A Dignidade é determinada pelo respeito que a sua presença impõe. A certeza interior que você tem de que está fazendo o melhor, da melhor maneira possível e que ninguém, em momento algum poderá desestabilizar a sua atuação.

A Realização Profissional se dá quando você consegue ver materializado as suas idéias sem intervenções, sem mutilações, sem comprometimentos. A sensação maravilhosa de ver que o seu trabalho teve princípio, meio e fim.

Aí vem o Reconhecimento Profissional aquela impagável manifestação do mercado (não apenas do cliente) de que o seu trabalho é diferenciado e valioso.

Nenhum profissional poderá se sentir valorizado se estiver se sentindo inseguro na relação com o mercado. A Segurança, portanto, é uma condição absolutamente indispensável para determinar que você tem Valorização Profissional. Se você não se sentir seguro, nunca irá fazer bons negócios. O problema com a segurança é que esse é um sentimento que você precisa conquistar. Não é dado pelos outros.

A Perspectiva Promissora fecha esse nosso pequeno conjunto de indicadores de valorização profissional. Se o seu trabalho não lhe dá perspectiva, você não tem uma vida ligada a esse trabalho. Ele, definitivamente, não vale a pena.

Não tenho dúvidas de que esse tema e esses indicadores precisam ser dissecados com muita atenção. É o que pretendemos fazer neste artigo. O importante é deixar claro que a conquista dessas condições fundamentais (esses indicadores) nos leva diretamente (como consequência) para a valorização financeira.

Você pode até ganhar muito dinheiro. Porém, sem Dignidade, Realização, Reconhecimento, Segurança, Perspectivas Promissoras... você terá tudo, menos valorização profissional


DIGNIDADE

Poder! Se você não fizer um esforço para entender as relações de poder (e como as pessoas buscam e exercem poder) terá alguma dificuldade para entender a importância da dignidade para o sentimento de valorização que o profissional quer ter.

Vamos ao dicionário: Dignidade é qualidade moral que infunde respeito; consciência do próprio valor; honra, autoridade, nobreza; qualidade do que é grande, nobre, elevado; modo de alguém proceder ou de se apresentar que inspira respeito; solenidade, gravidade, brio, distinção; respeito aos próprios sentimentos; amor-próprio...

Como eu disse antes, a Dignidade é determinada pelo respeito que a sua presença impõe. A certeza interior que você tem de que está fazendo o melhor, da melhor maneira possível e que ninguém, em momento algum poderá desestabilizar a sua atuação.
Muita gente tem dificuldade de entender o que é Dignidade porque não sabe se é uma coisa que a pessoa tem ou se é uma coisa concedida a essa pessoa pelas outras.
Pois bem. Vou tentar ser objetivo, correndo o risco de ser simplista:

Dignidade é uma coisa que sempre começa dentro de nós. Ninguém nos tira a Dignidade, a menos que permitamos isto.
Dignidade é um estado de espírito. Uma "aura". Algo que ninguém consegue identificar objetivamente ou medir com algum critério ou instrumento.

É um direito que o indivíduo dá a si mesmo de olhar os outros de frente, de cabeça erguida, sem medos, sem vergonhas, sem constrangimentos.

Esse DIREITO a pessoa se dá, baseada em sua retidão de caráter, na sua firmeza de princípios, nas suas intenções honestas, na sua consciência de que representa algo útil e importante.

Observe essa última frase desse último parágrafo: "sua consciência de que representa algo útil e importante". Esta é a certeza fundamental, sem a qual o processo de construção da Dignidade fica prejudicado. A certeza de que você é útil e importante.

Estou sendo repetitivo? Não. Estou determinando claramente um ponto.
E por que repetir três vezes a mesma coisa? Porque é aí, neste ponto, que somos atacados. E, muitas vezes, é nesse ponto que nossa Dignidade é ferida de morte.

As relações comerciais são, em certa medida, disputas por territórios emocionais. Na prestação de serviços essa característica fica mais evidente, pois as relações são muito mais pessoais e as fortalezas individuais são elementos decisivos no jogo dos negócios.
Muitos clientes, por ignorância ou má-fé, tentam nos enfraquecer emocionalmente minando nossa auto-confiança, nossa auto-estima... nosso sentimento de utilidade e de importância.

Se percebem alguma fragilidade no nosso caráter, na honestidade, na competência (leia-se qualidade do serviço) colocam isso sobre a mesa, de forma sutil ou escancarada (dependendo da conveniência).

Se, porém, o produto tem a qualidade desejada, lançam mão de práticas de exercício de poder como falta de atenção, ausência de respostas, chá de espera, chá de cadeira, exigências descabidas, comentários depreciativos à categoria profissional...

Aí é que entra em cena a necessária Fortaleza Espiritual que o profissional precisa ter para não se deixar levar por esse "jogo" e acabar acreditando que vale pouco ou nada. Não pode perder a Dignidade e se submeter à certas humilhações. Não pode aceitar um trabalho do qual não possa vir a se orgulhar. Não pode aceitar que o cliente o trate como um mal necessário - ou desnecessário.

Não pode viver com medo! Acredite. Na maioria das vezes, basta um olhar para colocar as coisas no devido lugar. Um olhar que diga "Eu sei o que eu sou. E sei quanto eu valho. Se você não tem a capacidade de perceber isso, talvez você não tenha nenhuma utilidade para mim..."

Mas, atenção: não adianta treinar esse discurso. Se utilizar apenas palavras, não vai surtir o mesmo efeito! Tem de vir da alma. A Dignidade está no olhar.


REALIZAÇÃO
A REALIZAÇÃO é parte fundamental do caminho que leva à Valorização Profissional pois quem não realiza não se realiza.
Do que estamos falando? De quem estamos falando?
Dos caneteiros. Dos acobertadores. Assinadores de planta, capachos de desenhistas... Estamos falando dessa raça nefasta de levianos irresponsáveis que desgraça a profissão, jogando lama sobre tantos anos de dedicação e sacrifícios deles próprios e também dos seus colegas.
Esse bando que não realiza nada, nunca. E que, por isso, nunca se realiza profissionalmente. Que não sente orgulho do que faz. Que não tem dignidade profissional.

Me desculpem pelo destempero, mas esse é um tema que me ferve o sangue.
Os acobertadores constituem um pequeno grupo (e têm seus similares em qualquer outra profissão, não há dúvida). Nunca representam mais do que oito ou dez por cento de uma determinada comunidade profissional. Mas o estrago que conseguem fazer é uma coisa descomunal.
São uma praga. Um câncer. Uma desgraça !

É um problema que precisa ser enfrentado com coragem e determinação. Acredito que o sistema profissional (Confea/Crea /Entidades de Classe/Sindicatos...) precisa declarar uma luta sem tréguas a essa causa.
A prática do acobertamento precisa ser considerada falta gravíssima e o castigo precisa ser extremamente severo, pois trata-se de um desvio que leva às mais nocivas consequências para a profissão.

Nenhum estudante de Engenharia, Arquitetura ou Agronomia "sonha" em ser um caneteiro. Nenhum profissional recém-formado quer ser um acobertador... A escolha desse caminho se dá por:
1) Fraqueza de Princípios;
2) Dificuldades Naturais do Mercado;
3) Impunidade Legal;
4) Impunidade Moral.

A Fraqueza de Princípios pode e deve ser combatida durante o processo de formação, com a Inclusão Profissional.
A Inclusão Profissional deve ser promovida pelo sistema (Confea/Crea/Entidades de Classe, Sindicatos...) através de palestras, cursos, seminários, eventos sociais e esportivos cujo objetivo é a transmissão dos preceitos éticos e morais do exercício da profissão.
O Código de Ética profissional precisa ser introduzido nas universidades e sua discussão e prática deve ser permanente. Da festa do calouro ao dia da formatura.
O estudante de Agronomia, de Engenharia, de Arquitetura e das demais profissões do sistema precisa se sentir DENTRO. Precisa sentir-se Engenheiro, Arquiteto e Agrônomo, desde o primeiro dia de aula. Só assim irá desenvolver o necessário sentimento de respeito e ética para com os colegas.
Alguém aí tem coragem de dizer que isso não reduziria consideravelmente o número de caneteiros no mercado ?

As Dificuldades Naturais do Mercado são outra explicação (não justificativa) para o desvio que alguns colegas tomam em direção à prática do acobertamento.
Pode ser combatida com informação, treinamento e preparo empresarial.
Se o profissional não sabe como enfrentar as dificuldades naturais do mercado... dá-lhe cursos de gestão empresarial, marketing, administração de custos, relacionamentos interpessoais... essas coisas que, infelizmente, ainda não temos nas escolas de engenharia, de arquitetura e de agronomia.

É preciso aprender uma coisa simples: ganha-se mais trabalhando direito. E ainda tem a vantagem de que isto nos dá realização profissional e dignidade (leia-se "valorização profissional")

A Impunidade Legal, bem como a Impunidade Moral são responsabilidades do sistema e também nossa. De cada profissional individualmente.

O sistema precisa criar mecanismos para punir com maior RAPIDEZ e RIGOR os casos de acobertamento. Nós, profissionais, precisamos ser menos tolerantes com esse desvio moral.
Não podemos mais fechar os olhos e fazer de conta que não é conosco.

As entidades de classe precisam ter uma comissão permanente de "patrulha" e esclarecimento (o primeiro estágio) para fazer um "policiamento ostensivo" e impedir que um desvio eventual se torne uma prática profissional permanente.

É preciso eliminar a possibilidade de um profissional acobertador sentir-se confortável ou seguro. É preciso dar a ele apenas uma saída. Apenas um caminho. O retorno à prática profissional digna e correta.
Essa luta é de todos. De toda a classe. Não é uma coisa pontual.
Se eu, um engenheiro eletricista, estiver cometendo acobertamento, o meu colega agrônomo, que pensa que não tem nada a ver com isso, estará, também, pagando uma parte da conta.
Valorização profissional é um conceito muito complexo. Difícil de ser obtido.
A maior dificuldade está justamente no fato de que é uma conquista coletiva. Depende de todos e de cada um.


RECONHECIMENTO
O Reconhecimento é talvez o único dos fundamentos da Valorização Profissional que depende muito menos de nós e muito mais dos outros. É, com certeza, uma das coisas mais difíceis de ser obtida.

O Reconhecimento Profissional é aquela impagável manifestação do mercado (não apenas do cliente) de que o seu trabalho é diferenciado e valioso.

Uma das chaves para o reconhecimento profissional é a paciência. Sim, paciência, pois, como já me disse certa vez o colega engenheiro Petrolinces, em Itumbiara, Goiás, "o sucesso é uma coisa que uma pessoa leva uma vida inteira para conseguir de um dia para outro".

O reconhecimento profissional geralmente aparece muitos anos depois que você mesmo já se deu conta de que o seu trabalho tem muito valor.
Daí a importância da paciência. Você precisa entender que as pessoas levam muito tempo para perceber aquilo que, para você, parece óbvio: a excelente qualidade do seu produto.

Outra coisa importante: o reconhecimento profissional começa pelo reconhecimento dos seus colegas de profissão. Isto é, realmente, muito importante. Um profissional que quer ser valorizado pelo mercado precisa ser valorizado pelos seus colegas.
Eu não conheço nenhum caso de um grande profissional reconhecido pelo mercado que não seja reverenciado pelos seus colegas.

Portanto, não esqueça: as estratégias de marketing profissional que você vai por em prática tem de incluir os seus colegas como público alvo. Pois sem o conhecimento e o reconhecimento deles você nunca obterá o conhecimento e o reconhecimento do mercado (o que inclui os seus potenciais clientes)


SEGURANÇA
A tão sonhada Valorização Profissional nunca chegará para um profissional que não seja absolutamente seguro quanto ao seu trabalho. Que não tenha certezas profissionais. Que não transpire a convicção da competência.
Um profissional seguro é muito mais respeitado. E um profissional respeitado está a mais de meio caminho da Valorização Plena.

O problema é que Segurança não cai do céu. Segurança é privilégio dos competentes. E competência tem um custo direto muito alto. Nem todos os que gritam por Valorização Profissional estão dispostos a pagar esse preço.

A engenheira e professora universitária em Lisboa, Portugal, Maria Teresa de Barros tem uma frase que é muito apropriada, quando o assunto é ética profissional: “A primeira e principal regra de ética profissional para um engenheiro é ser competente.”

Podemos, sem susto algum, estender esta afirmação também à segurança. E, por decorrência natural, à Valorização Profissional. Todo profissional precisa, todos os dias, perguntar a si próprio: “Em que medida eu estou desenvolvendo as minhas competências profissionais?” “Estou suficientemente atualizado quanto aos conhecimentos da minha profissão?”

FUTURO
Uma profissão só pode ser considerada “Valorizada” se os seus praticantes têm futuro. Se as perspectivas são promissoras.

Como eu já disse na introdução deste ensaio, se o seu trabalho não lhe dá perspectiva, você não tem uma vida ligada a esse trabalho. E, definitivamente, não vale a pena.

Mais uma vez preciso chamar a atenção para o ponto de vista que serve de base para este texto: a Valorização Profissional não pode ser expressa em renda financeira.

Se for assim, teremos que admitir que os estelionatários, aliciadores de prostitutas, os assaltantes e os traficantes de drogas têm profissões muito valorizadas. Afinal, todas essas atividades rendem um bom dinheiro.

Mas veja, leitor, quanta coisa falta a essa gente para que sejam (e se sintam) realmente valorizados.





PADILHA, Ênio. 2017





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