Engenheiro, Professor e Autor de livros
sobre Gestão de Carreira e Administração de Escritórios
na Arquitetura e Engenharia
GARAPUVU - MATA ATLÂNTICA - BALNEÁRIO CAMBORIÚ - SC
(Foto: Ênio Padilha)

Notas de "Autor Convidado"

20/10/2014

AUTORES CONVIDADOS (Temporada 2014-2)

Durante 10 semanas nosso site teve a honra de contar com a luxuosa participação especial de cinco cabeças privilegiadas do nosso universo profissional.
Wilson Xavier Dias (engenheiro eletricista), Fernando Rebelo (acadêmico de Arquitetura e Urbanismo) Dorys Daher (arquiteta e urbanista), Alberto Ruy (fotografo profissional) e Edemar de Souza Amorim (engenheiro civil) iluminaram nosso site com seus artigos e ilustrações inteligentes.

Infelizmente, toda coisa boa um dia acaba. Resta-nos esperar pela próxima oportunidade e torcer que eles estejam novamente conosco.

Veja aqui a lista completa dos posts produzidos pelos nossos autores convidados nesta temporada 2014-2 (Temporada Primavera):




WILSON DIAS
wxdias@gmail.com





WILSON XAVIER DIAS é engenheiro eletricista formado pela Universidade Federal de Itajubá, em 1981. Foi presidente da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Sumaré, SP, assessor do Confea e, atualmente é assessor da presidencia do Crea-DF.



O LEGADO DA COPA
(01/10) 11/08/2014



A ENGENHARIA E O SACI-PERERÊ
(02/10) 18/08/2014



FALTA DE PLANEJAMENTO MUITO BEM PLANEJADA
(03/10) 25/08/2014



SOLIDARIEDADE COMPULSÓRIA
(04/10) 01/09/2014



SUASSUNA, RUBEM ALVES, JOÃO UBALDO E A ECOLOGIA
(05/10) 08/09/2014



EDUCAÇÃO E CULTURA - PARTE I
(06/10) 15/09/2014



EDUCAÇÃO E CULTURA - PARTE II
(07/10) 22/09/2014



OS ÓRFÃOS DA UTOPIA
(08/10) 29/09/2014



SOBRE VÍRUS, BACTÉRIAS E OUTROS SERES INCÔMODOS
(09/10) 06/10/2014



PROJETO DE LEI
(10/10) 13/10/2014





FERNANDO REBELO
rebelofa@gmail.com





FERNANDO REBELO é acadêmico de Arquitetura e Urbanismo na Universidade do Estado de Santa Catarina. Atualmente se dedica ao meio acadêmico, mas nos tempos livres sai perambulando pela cidade e por vezes registrando no papel o que a cidade tem de oferecer de mais belo




OURO PRETO
(01/10) 12/08/2014



PRAÇA REPÚBLICA JULIANA EM LAGUNA-SC
(02/10) 19/08/2014



FONTE DA CARIOCA EM LAGUNA-SC
(03/10) 26/08/2014



ORLA DA LAGOA SANTO ANTÔNIO EM LAGUNA-SC
(04/10) 02/09/2014



IGREJA MATRIZ SANTO ANTÔNIO DOS ANJOS LAGUNA-SC
(05/10) 09/09/2014



CASA DE ANITA LAGUNA-SC
(06/10) 16/09/2014



UMA SORVETERIA NO MEIO DA HISTÓRIA, LAGUNA-SC
(07/10) 23/09/2014



IGREJA NOSSA SRA. AUXILIADORA, LAGUNA-SC
(08/10) 30/09/2014



MONUMENTO A HEROÍNA DOS DOIS MUNDOS, LAGUNA-SC
(09/10) 07/10/2014



RUÍNA - MORRO DA GLÓRIA LAGUNA-SC
(10/10) 14/10/2014





DORYS DAHER
dorysdaher@hotmail.com






DORYS DAHER é arquiteta e urbanista. Dirige o escritório DG Arquitetura, no Rio de Janeiro e é autora do livro Cimento Batom e Pérolas - Quem tem medo de Arquiteto?





FUNÇÃO E ESTÉTICA
(01/10) 13/08/2014



PINGÜINS DE GELADEIRA: O MEDO DE ERRAR
02/10) 20/08/2014



VIDA LONGA AOS MATERIAIS
(03/10) 27/08/2014



REFORMAS: SONHO OU PESADELO
(04/10) 03/09/2014



COMO CONQUISTAR A CONFIANÇA DE UM CLIENTE EM UM PRIMEIRO ENCONTRO?
(05/10) 10/09/2014



ESPAÇOS HOSPITALARES
(06/10) 17/09/2014



EXIGÊNCIAS DA RAINHA DO LAR
(07/10) 24/09/2014



QUANDO DINHEIRO É O PROBLEMA
(08/10) 01/10/2014



CLIENTE E ARQUITETO: OS DOIS LADOS DA MOEDA
(09/10) 08/10/2014



RECLAMAÇÕES & LAMENTOS
(10/10) 15/10/2014





ALBERTO RUY
albertofoco@gmail.com





ALBERTO RUY é fotografo profissional desde 1999. Trabalhou e trabalha com orgãos públicos, autarquias, agencias de noticias e de publicidade. Faz fotos institucionais, sociais, fotojornalismo e da natureza.

Além de excepcional profissional da fotografia, Alberto Ruy é ex-jogador profissional de futebol (foi goleiro do São Paulo Futebol Clube) e hoje é um Tri-Atleta, preparando-se para o Ironman 2015, em Florianópolis.



PALÁCIO DO PLANALTO - BRASÍLIA-DF
(01/10) 14/08/2014



TORRE DE TV - BRASÍLIA-DF
02/10) 21/08/2014



CATEDRAL METROPOLITANA DE BRÁSILIA - BRASÍLIA-DF
(03/10) 28/08/2014



PONTE JK - BRASÍLIA-DF
(04/10) 04/09/2014



TORRE DE TV DIGITAL - BRASÍLIA-DF
(05/10) 11/09/2014



PALÁCIO ITAMARATY - BRASÍLIA-DF
(06/10) 18/09/2014



CANDANGOS - BRASÍLIA-DF
(07/10)25/09/2014



PALÁCIO DO PLANALTO - BRASÍLIA-DF
(08/10) 02/10/2014



PRAÇA DOS CRISTAIS - BRASÍLIA-DF
(09/10) 09/10/2014



ESTÁDIO MANÉ GARRINCHA - BRASÍLIA-DF
(10/10) 16/10/2014







EDEMAR DE SOUZA AMORIM
edemarsamorim@gmail.com





EDEMAR DE SOUZA AMORIM é engenheiro civil formado pela Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e foi presidente do Instituto de Engenharia de abril de 2007 até abril de 2009.

Sua carreira profissional brilhante e sua passagem marcante pela presidência de uma das instituições mais importantes da Engenharia do Brasil fizeram do colega Edemar de Souza Amorim um dos principais pensadores do nosso sistema profissional e um dos interlocutores mais inteligentes e importantes do meio.



EQUAÇÃO MEIO RESOLVIDA
(01/10) 15/08/2014



RISCO À SOCIEDADE
(02/10) 22/08/2014



COMPROMETENDO O FUTURO
(03/10) 29/08/2014



OS ERROS DO PASSADO
(04/10) 05/09/2014



A GUERRA DOS VENCIDOS
(05/10) 12/09/2014



RIO MADEIRA: UMA SOLUÇÃO PRECÁRIA
06/10) 19/09/2014



UM MUNDO MELHOR
(07/10) 26/09/2014



TOLERÂNCIA ZERO PONTO DOIS
(08/10) 03/10/2014



EXCLUSÃO URBANA
(09/10) 10/10/2014



O PAPEL E O PAPELÃO
(10/10) 17/10/2014

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17/10/2014

O PAPEL E O PAPELÃO
(Edemar de Souza Amorim)


EDEMAR DE SOUZA AMORIM
edemarsamorim@gmail.com





A excelência na produção de papel é mais um motivo de orgulho para os brasileiros. Da pesquisa, desenvolvimento e plantio de florestas ao parque industrial, nada se deve ao resto do mundo em termos de quantidade e qualidade.

Porém deve-se reconhecer que o valor do papel na história da humanidade, do fino papel de arroz chinês ou o delicado papiro egípcio, à versátil folha de celulose, não é só fruto de seu processo de fabricação, mas de seu uso pelo homem. No registro e preservação de sua história, na construção, acúmulo e transmissão do conhecimento pelas gerações, ou na elaboração de planos e projetos para construção do futuro.

Mas, infelizmente, o papel não faz juízo de valor de seu conteúdo, aceitando tudo que for impresso em sua superfície, de belas estórias e idéias que atraem bilhões de fiéis a seus templos pelo mundo, das teorias e planos que criaram as mais terríveis armas de guerra, às plantas de obras fadadas ao fracasso como o edifício Palace II.

Já no Brasil, o governo federal, animado com o domínio do processo de produção, parece acreditar nos poderes mágicos das brilhantes folhas coloridas impressas pelas agências de publicidade. Seduzidos pelas belas imagens digitais de prédios, estradas ou pontes, pelas infindáveis listas de obras e orçamentos de bilhões de reais, nossos políticos esquecem que papel e tinta não são suficientes para que tudo aconteça. É preciso muito mais.

Assim, ignorando a deficiência de profissionais capacitados nas prefeituras, nos estados e na união, alardeando recursos que não são liberados, os gestores públicos seguem tentando transformar um apanhado de iniciativas que incluem desde obras não iniciadas e projetos abandonados por governos passados até investimentos de infra-estrutura necessários e urgentes, num plano de governo destinado a resolver os gargalos estruturais que travam o país.

A verdade, muito diferente dos constantes discursos eleitoreiros, cartazes, cartilhas, filmes e anúncios é que o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) só não naufraga por jamais ter saído do porto. Não reúne as condições mínimas para deixar de ser mais do que uma carta de boas intenções, onde a responsabilidade é delegada aos Estados, Municípios e Empresas e os louros para os candidatos da base aliada.

Graças aos esforços de parte dos envolvidos, alguns projetos conseguem vingar e o país avança aos trancos e barrancos. É hora da competência técnica, da responsabilidade, do planejamento sério, deixarem de serem valores endêmicos e pontuais na gestão pública brasileira e tornarem-se práticas sistemáticas amplamente disseminadas em todos os níveis de governo.

É hora de exigirmos uma qualidade única nos planos governamentais antes de sua divulgação. Algo que impeça o estelionato eleitoral que há décadas é responsável pelas oportunidades perdidas: Exeqüibilidade.

Se os planos produzidos em Brasília não forem minimamente exeqüíveis e seus responsáveis cobrados pela sociedade e pela justiça eleitoral, seremos sempre um celeiro de esperanças vazias, cuja impressão, para ser condizente com a qualidade dos projetos, deveria ser feita em pequenos rolos de folha dupla perfumada com trinta metros de comprimento.





EDEMAR DE SOUZA AMORIM é engenheiro civil formado pela Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e foi presidente do Instituto de Engenharia
abril de 2007 até abril de 2009.

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as segundas-feiras.

Faça um contato com o autor: edemarsamorim@gmail.com

Comentário do Ênio Padilha

Tive o privilégio de conhecer o engenheiro Edemar de Souza Amorim no início dos anos 2000, quando realizamos alguns cursos no Instituto de Engenharia de São Paulo. Trata-se de uma das mentes mais lúcidas da Engenharia brasileira.
Seu livro, EM DEFESA DA ENGENHARIA, publicado 2009, é uma das mais vibrantes e inteligentes contribuições para a valorização da Engenharia Brasileira.
Portanto, nós e os leitores do nosso site somos privilegiados pela presença de Edemar Amorim durante essas dez semanas. E eu espero, sinceramente, que ele retorne nos próximos anos.

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16/10/2014

ESTÁDIO MANÉ GARRINCHA - BRASÍLIA-DF
(Alberto Ruy)


ALBERTO RUY
albertofoco@gmail.com





Inaugurado em 1974 e desenhado pelo arquiteto Ícaro de Castro Mello o Estádio Nacional Mané Garrincha, também conhecido como Estádio Nacional de Brasília, Arena Mané Garrincha ou simplesmente Mané Garrincha, é um estádio de futebol e arena multiuso brasileiro localizado na região administrativa de Brasília, no Distrito Federal. Reconstruído em 2013 pelo arquiteto Eduardo Castro Mello o estádio de Brasília foi uma das propostas submetidas à análise da Fifa que mais alterações teve no aspecto plástico, em relação à arena inicialmente desenhada. 2013



ESTÁDIO MANÉ GARRINCHA - BRASÍLIA-DF




(clique sobre a imagem para vê-la em tamanho real)





ALBERTO RUY é fotografo profissional desde 1999. Trabalhou e trabalha com orgãos públicos, autarquias, agencias de noticias e de publicidade. Faz fotos institucionais, sociais, fotojornalismo e da natureza

Pode ser localizado em Brasília-DF pelo e-mail: albertofoco@gmail.com

Comentário do Ênio Padilha

Conheci Alberto Ruy em 2008, quando estava em Brasília trabalhando na organização da WEC 2008. O fato de ele ser sãopaulino (na verdade, ex-goleiro do SPFC) foi a primeira coisa que nos aproximou. Mas a sua paixão pela fotografia, seu empenho em fazer um trabalho correto e sua excelência na prestação de serviços foi, certamente o que me encantou.
Além disso, ele tem um olhar de artista, para captar o melhor de uma paisagem, de um monumento ou das pessoas em um evento social ou empresarial.
Fico muito honrado com a sua participação nesta nossa Temporada Primavera de Autores Convidados. E os nossos leitores, certamente, sentirão saudades das imagens belíssimas que Alberto Ruy nos trouxe a cada quarta-feira durante dez semanas.

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15/10/2014

RECLAMAÇÕES & LAMENTOS
(Dorys Daher)


DORYS DAHER
dorysdaher@hotmail.com






Queixas e lamúrias fazem parte do negócio. Por trás das reclamações há, quase sempre, uma incompreensão: ou o cliente não compreendeu o arquiteto, ou o arquiteto não compreendeu o cliente. Cada um acha que está certo. De imediato o melhor é deixar o cliente ter razão. O arquiteto não deve fazer questão de obter uma vitória a todo custo, já que o orientador de todo o processo é ele mesmo. Afinal, foi ele o profissional procurado. Aos poucos, ambos vão se entendendo.

Há clientes que reclamam. Uns reclamam do projeto porque não gostaram da sua primeira idéia, outros porque não entenderam o layout. E há, até mesmo, aqueles que reclamam por incrível que pareça, porque gostaram muito do programa proposto. Parece um contra-senso, mas como a tônica da sua vida é reclamar, muitos clientes não suportam elogiar, e isso fica bem claro mais tarde nas suas reações quando decidem executar a obra. A todo momento se mostram satisfeitos mas se recolhem, imediatamente, para não parecerem tão felizes. Não querem dar tanta importância a uma pessoa, no caso o arquiteto, que foi capaz de fazer algo maior do que ele, proprietário, faria.

Reclamam, simplesmente, porque não sabem elogiar. Não conseguem emitir uma única palavra boa sobre a execução daquele projeto do qual gostaram tanto!

Voltam com as suas lamúrias constantes: a construção andando maravilhosamente bem, concretizando seus sonhos e eles ali, firmes e fortes nas suas queixas. Não conseguem enxergar nenhum fato digno de elogio. Só vêem o lado negativo: “O pedreiro chegou muito tarde hoje”, “Ontem ele chegou cedo demais”. “Por que o banheiro ainda não está pronto”? Mas como seria possível terminar o banheiro se o cliente só decidiu o tipo de revestimento na tarde do dia anterior! Há que se encomendar o piso, esperar que chegue até a obra, e só então aplicá-lo. Leva algum tempo. Nesses casos acabo me lembrando de uma conhecida frase: O impossível podemos providenciar agora, milagre demora mais um pouco!

​Muitas vezes o cliente olha o projeto e diz: “Não gostei!”. É bom saber se ele realmente não gostou, ou não entendeu. De um modo geral, quando pergunto “do que ou por que não gostou”, ele vacila. Quase sempre, não sabe informar. É uma sensação meio indefinida, meio vaga, que nasce da incompreensão e do desconhecimento. “Sei lá! Não gostei...!”

Quando não se tem noção de proporção de espaço ou percepção para visualizar o projeto, é difícil fazer o cliente compreender os traços de um desenho. Até mesmo quando se faz uma perspectiva - um desenho em três dimensões - é incerto que ele a compreenda, porque embora essa técnica ilustre muitíssimo bem o plano de trabalho, muitas vezes pode dar um idéia ilusória do espaço real. Aliás, esses truques de desenho que iludem propositalmente, são muito comuns nos prospectos de venda de empreendimentos imobiliários, onde a escala do desenho é uma, e a escala dos móveis é outra, forjando uma realidade fictícia com finalidade de vendas. O apartamento, a casa parecem muito maiores do que realmente são.

​O leigo deve estar bem informado para saber interpretar o que está vendo. É complicado fazer uso de um serviço sem conhecê-lo. Alguns acreditam que é pura bobagem entender de Arquitetura para encomendar uma obra: “Afinal – estou contratando um profissional para fazer isso por mim. Não preciso conhecer os meandros da profissão.” Não precisa ser um arquiteto evidentemente, mas, precisa saber o que é Arquitetura e para que serve. É fundamental ter informação daquela ferramenta que vai ser utilizada para saber o que esperar dela. Sem operar alguns programas de computador, sou obrigada a ter noções de como funcionam e quais resultados poderei obter com eles, caso contrate um profissional para executá-los. É necessário discordar na mesma língua. “Parafraseando Tom Jobim: Para que um projeto de Arquitetura seja “grande” é necessário que o cliente não seja pequeno”.

​Outra fonte de queixas e lamentações dolorosas é o custo da obra e, em seguida, da decoração. Algumas vezes o cliente, amedrontado com a materialização dos seus desejos, costuma resmungar: “A Dorys está comprando coisas caras demais!”. Que bom seria se o cliente nos desse carta branca para gastarmos e comprássemos coisas caras demais. Há coisa melhor do que gastar? Sobretudo o dinheiro dos outros? Infelizmente, não é verdade. Jamais gastei um centavo sem a permissão do cliente. Mas na hora de concretizar o sonho, quando passam da fantasia à realidade, muitos deles se assustam. É a hora em que as contas do fornecedor, dos materiais de construção, ou das lojas de móveis começam a se acumular na escrivaninha.

Certa vez um cliente me encomendou um projeto que exigia um nível de detalhamento caro. Ele tinha um poder aquisitivo muito alto e precisava construir uma casa que refletisse seu status como homem de negócios importante em todo o país. Queria receber em seu escritório particular e, após realizar grandes transações, recepcionar os convivas para comemorar o êxito das relações comerciais. Pedia, por isso, um projeto que traduzisse segurança, influência e prestígio.

Compreender a casa como representação de seu poder no mundo dos negócios era vital para a elaboração do projeto. Sua privilegiada condição econômica e social deveria marcar a imagem da nova moradia, evocando classe e distinção.

A realização do programa obedeceu às suas expectativas. Além da criação do layout e acompanhamento da obra, desejava que eu concebesse a linha do design de interiores. ​Eu costumava enviar ao seu escritório a relação de móveis, desenhos e objetos escolhidos. Ele devolvia dizendo: “Está caro!” Eu voltava a pesquisar e, novamente, encaminhava uma segunda lista para seleção. Ele recusava de novo: “Está pobre! Prefiro a anterior!” Retornávamos, então, à primeira opção, invariavelmente mais ostentadora. Suas preferências recaíam, sempre, sobre aqueles móveis e objetos que correspondiam às suas necessidades de demonstrar poder, os de preço mais elevado.

​Entre amigos, meu cliente adorava lamuriar-se, com uma ponta de orgulho nas entrelinhas: “A minha arquiteta gasta demais. Naquela mesa de trabalho que ela escolheu gastei uma pequena fortuna!” Emendava uma ladainha atrás da outra. Sofria de dar pena... Mas, com um sorriso de satisfação, confirmava que havia realizado a compra “apesar de ser absurdamente cara! Assim vou à falência!”. Aliás, esta é uma das frases que mais ouço, mas eu nunca tive notícias de ninguém que falisse ou entrasse em concordata devido às especificações de um arquiteto.

​Essa queixa permanente estava a serviço de certo prazer de sofrer. Reclamar do custo elevado da obra tinha, como contrapartida, a satisfação de sentir-se capaz de pagar por ela. O jeito era sorrir e continuar a trabalhar naquela linha de criação. Eu sabia que por trás das lamentações, o cliente estava adorando construir um palacete “nirvânico”, de onde partiria para conquistar o mundo.

​Lidar com frustrações, queixas e decepções faz parte do jogo. Arquitetos e clientes buscam afinar instrumentos para tocar, a quatro mãos, uma melodia única que, vez ou outra, pode semitonar. Mas, com paciência, respeito e compreensão ultrapassam as dificuldades naturais da parceria e executam a obra que, juntos, compuseram.





DORYS DAHER é arquiteta e urbanista. Dirige o escritório DG Arquitetura, no Rio de Janeiro e é autora do livro Cimento Batom e Pérolas - Quem tem medo de Arquiteto?

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as quartas-feiras.

Faça um contato com a autora: dgarquitetura@dgarquitetura.com.br

Comentário do Ênio Padilha

Durante dez semanas nosso site teve o privilégio de contar com a colaboração dessa MENTE BRILHANTE da nossa Arquitetura.
Dorys Daher, pela quantidade de admiradores que conquistou no Brasil inteiro, principalmente por conta do seu livro CIMENTO BATOM E PÉROLAS, é uma autora capaz de atrair a atenção de muita gente.
E foi o que aconteceu. Seus posts nessas dez semanas sempre atraiam grande quantidade de leitores para o site.
A gente só pode agradecer pela participação dela por aqui e torcer para que ela volte no futuro para dividir conosco seu trabalho inteligente.
Obrigado, Dorys Daher. E volte quando quiser. A casa é sua!

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14/10/2014

RUÍNA - MORRO DA GLÓRIA LAGUNA-SC
(Fernando Rebelo)


FERNANDO REBELO
rebelofa@gmail.com





Como de costume, tenho trazido desenhos que representassem monumentos, edifícios, memoriais com datas e etc. Mas, neste ultimo croqui, resolvi trazer o meu aprendizado dessa Temporada Primavera de Autores Convidados.
Desde que comecei a buscar lugares para publicar aqui, tive que reaprender a observar a cidade e a enxergar detalhes que por vezes passam despercebidos, tive que reaprender a ver as pessoas e buscar entender o que significa a cidade para elas a partir do modo como elas usam. Não é a toa que caminhando por Laguna eu ainda me pego em devaneios e esbarrando por lugares e casas que tem muita história pra contar. Ainda estou descobrindo.
Este desenho será a minha porta para continuar caminhando e desbravando essa cidade maravilhosa cheia de histórias e belezas para mostrar. As ruínas que Laguna possui contam suas histórias para quem queira ver. Fica o convite!!
E, também, fica meu agradecimento ao Ênio Padilha, sempre atencioso, e a sua secretária Carol que sempre me lembrava de mandar os desenhos, pela oportunidade de crescimento que foi fazer essas publicações e poder compartilhar um pouco da história da minha cidade natal com todos os leitores do seu site. (e que, pelo visto, são do mundo todo rsrs).
Muitíssimo obrigado!!!!




RUÍNA - MORRO DA GLÓRIA LAGUNA-SC





(clique sobre a imagem para vê-la em tamanho real)





FERNANDO REBELO é acadêmico de Arquitetura e Urbanismo na Universidade do Estado de Santa Catarina. Atualmente se dedica ao meio acadêmico, mas nos tempos livres sai perambulando pela cidade e por vezes registrando no papel o que a cidade tem de oferecer de mais belo

Pode ser localizado em Laguna-SC pelo e-mail: rebelofa@gmail.com

Comentário do Ênio Padilha

O estudante de Arquitetura Fernando Rebelo foi uma surpresa feliz nesta Temporada Primavera de Autores Convidados.
Seus desenhos, elogiados por profissionais tarimbados, ilustraram e deram valor ao nosso site. Mas a leitura que ele fez da jornada e seus comentários sobre cada um dos desenhos foi um toque excepcional.
Parabéns, Fernando. E que Deus ilumine seus caminhos para que você construa uma carreira produtiva e brilhante na Arquitetura.

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13/10/2014

PROJETO DE LEI
(Wilson Xavier Dias)


WILSON DIAS
wxdias@gmail.com





A corrupção está se tornando (se já não era e apenas agora passamos a ter mais informações sobre ela) um câncer em nossa sociedade e tem consequências em todas as áreas. Se ela acontece nos órgãos públicos, está tirando dinheiro que poderia ser usado para melhorar a vida de todos, se acontece nas empresas privadas, seu custo vai para os preços finais dos serviços e produtos pagos pelo consumidor, nós, e vai se refletir em aumento da inflação e diversas outras consequências. Ou seja, a corrupção é uma ação feita por poucos em malefício de todos.

Pensando nisso, resolvi dar minha contribuição para resolver o problema (olha a pretensão), e o fiz na forma de uma proposta de projeto de lei, que poderia ser encampada por qualquer um dos nossos parlamentares que, é claro, não estivesse com isso, legislando em causa própria, ou melhor dizendo, contra si próprio.
O projeto apresenta diversas alternativas para penalizar o corrupto. Veja se alguma coincide com a sua.

JUSTIFICATIVA
A corrupção é uma quebra do pacto social, onde cada indivíduo sacrifica parte de seus desejos, instintos e direitos em prol da convivência e o corrupto, ao contrário disso, considera o bem público como sua propriedade particular, portanto a corrupção é uma ameaça à estabilidade e existência de uma comunidade;

O corrupto, por achar que tem o direito de se apossar do dinheiro que pertence a todos, demonstra uma enorme arrogância e prepotência, o que o torna incompatível de viver em sociedade;

O dinheiro desviado pela corrupção normalmente é dinheiro que seria destinado a políticas públicas, ou seja, para ações que atenderiam principalmente as pessoas mais necessitadas;

Como consequência muitas mortes causadas por problemas típicos da pobreza, como fome: desnutrição, doenças tratáveis, falta de saneamento, ocorrem porque o dinheiro desviado não é utilizado para atacar esses problemas, que poderiam ser minimizados ou eliminados;

Se calcularmos o número de mortes causadas pelos problemas gerados ou não evitados pela falta do dinheiro desviado, e compararmos com o número de mortes ocorridas em guerras, num mesmo período, vamos ver que o resultado da corrupção pode ser considerado um cenário de guerra e, portanto, o corrupto pode ser encarado como um criminoso de guerra;

Sob esse ponto de vista, então, o corrupto é um genocida e deveria estar sujeito às leis internacionais referentes a esse assunto.

PROJETO
Estabelece as regras para combate à corrupção e penalização dos corruptos

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1º Assim que for levantada a suspeita, ou qualquer indício de corrupção, por parte de um servidor público, por qualquer órgão de controle, investigação ou denúncia sustentada, deve-se abrir imediatamente um processo sobre o assunto.

Art. 2º. O corrupto deve ser suspenso logo na constatação de indícios de corrupção, até o final das investigações. Se, ao final, for considerado culpado, seja demitido, se considerado inocente, seja readmitido em sua função original.

Art. 3º. Que os julgamentos de corrupção sejam submetidos a rito sumário, com prazos máximos estabelecidos para cada instância julgadora.

Art.4º. Que sejam reduzidos os números de recursos admissíveis.

Art. 5º. Que os condenados por corrupção não tenham direito a nenhum benefício de flexibilização ou progressão de pena.

Sobre as penas:

Art.6º. Que os corruptos sejam degolados em praça pública.

OU

Que sejam esfolados para ficarem com menos até do que aqueles aos quais eles deixaram apenas com pele sobre os ossos.

OU

Que tenham os olhos furados para não cobiçar a propriedade alheia e as mãos cortadas para não afanar o dinheiro dos outros.

OU

Que seus bens e de seus familiares sejam confiscados, suas cassa demolidas e os terrenos salgados para que nem grama cresça nesses lugares.

OU

Que cumpram pena numa colônia agrícola de extração de borracha, no Acre. Que seja estipulado um valor para o seu trabalho diário e que esse valor seja descontado até o ressarcimento total do valor desviado.

Que as penas por corrupção, principalmente para aqueles casos em que o dinheiro desviado seja clara e diretamente vinculado a programas em que a sobrevivência e a dignidade do ser humano estejam envolvidos, sejam incrementadas por agravantes equivalentes a genocídio e aplicadas as leis pertinentes.

Sala de Sessões, xxxx de xxxx de xxxx

Se algumas dessas propostas o chocou ou até escandalizou, é um bom sinal. Você ainda consegue se indignar com exageros e absurdos. Pois a corrupção é isso: um absurdo do ponto de vista social e uma deformação de caráter do ponto de vista humano. Mas se você se choca com a proposta de solução, mas não com a causa, na mesma intensidade, alguma coisa continua errada. Não podemos nos acostumar, entender ou tentar justificar a corrupção. É um crime hediondo, horrível, desumano, e assim deve ser entendido e enfrentado.

Espero que possamos, num futuro próximo, se não vermos a corrupção extirpada de nosso meio, pelo menos termos leis duras, rígidas e eficientes que tratem o assunto como a praga que é e sem nenhuma complacência.





WILSON XAVIER DIAS é engenheiro eletricista formado pela Universidade Federal de Itajubá, em 1981. Foi presidente da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Sumaré, SP, assessor do Confea e, atualmente é assessor da presidencia do Crea-DF.

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as segundas-feiras.

Faça um contato com o autor: wxdias@gmail.com

Comentário do Ênio Padilha

Wilson Xavier Dias abre esta última semana da Temporada Primavera de Autores Convidados do nosso site.
Foram dez semanas usufruindo da lucidez e da competência desse engenheiro que é também um dos mais competentes pensadores do nosso Sistema Profissional. Um privilégio.
Tenho certeza de que os milhares de leitores que desfrutaram dos artigos escritos pelo Wilson Dias hão de concordar comigo: seus textos vão deixar saudades por aqui.
Resta-nos agradecer pela passagem e renovar nossos parabéns pela qualidade do seu trabalho. E esperar que esteja de volta no futuro.

10/10/2014

EXCLUSÃO URBANA
(Edemar de Souza Amorim)


EDEMAR DE SOUZA AMORIM
edemarsamorim@gmail.com





Um dos problemas mais urgentes das cidades brasileiras e, consequentemente, maior alvo da falácia eleitoral e da incompetência da gestão pública, é a moradia para cidadãos de baixa renda.

Nossos gestores públicos, sempre convictos de que o Estado deve tomar para si toda a responsabilidade do processo, monopolizando as desapropriações, projeto, construção e distribuição das moradias populares, para aí sim deixar o cidadão desamparado.

Estruturas burocráticas inúteis são criadas com a promessa de solução para, com o passar do tempo, ser convertidas em cabides de empregos para técnicos sem imaginação e “urbanistas” excludentes. Onde maior façanha é produzir os mais medonhos e inóspitos conjuntos habitacionais, exilando a população de baixa renda dos centros urbanos em locais como Parelheiros ou Cidade Tiradentes, condenando seus habitantes a uma vida de desconforto no deslocamento casa-trabalho e privações dos direitos básicos de um cidadão.

A cidade de São Paulo é o maior exemplo da incompetência de todos os governos estaduais e municipais dos últimos 50 anos. Numa inversão absurda de valores, a população carente é jogada na periferia, sem acesso a saneamento, transporte público, postos de saúde, delegacias ou escolas públicas. Enquanto as classes média e alta, apesar do acesso fácil à infra-estrutura pública, deslocam-se em seus automóveis, freqüentam escolas particulares, consultam seus médicos conveniados, protegidos por seguranças particulares.

Para atenuar esta situação é necessária muita coragem, determinação, inovação e uma boa dose de audição seletiva. Coragem para desmantelar órgãos como a COHAB e o CDHU, para reunir a iniciativa privada, capitaneada por associações como o IAB, SECOVI, Instituto de Engenharia entre outras para construir um plano consistente.

Determinação para não aceitar as pressões do mercado e desapropriar grandes áreas ao longo das linhas do Metrô, no centro da cidade e em bairros já dotados de infra-estrutura necessária para a construção dos novos conjuntos.

Inovação para fugir dos modelos já construídos e partir para soluções mais arrojadas, com prédios mais altos, áreas verdes e de lazer. Para definir um processo de leilão onde empresas, imobiliárias, construtores e incorporadores, competissem em igualdade de condições, apresentando propostas de apartamentos de metragem aceitável, onde o vencedor seria o projeto de menor preço à população.

A última qualidade é fundamental para ignorar as manifestações contrárias daqueles que não conseguem propor soluções diferentes do atual modelo. De pessoas tão desconectadas da realidade da cidade que são capazes de propor a construção de uma caixa de concreto para esconder um viaduto, considerar aceitável a regularização de favelas em áreas de manancial, ou sugerir o tombamento de um galpão velho em uma zona nobre da cidade.

Infelizmente, quando o assunto é moradia popular, os preciosos ensinamentos das Faculdades de Arquitetura e Urbanismo que, apesar de sustentados com dinheiro público, não estão disponíveis.





EDEMAR DE SOUZA AMORIM é engenheiro civil formado pela Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e foi presidente do Instituto de Engenharia
abril de 2007 até abril de 2009.

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as segundas-feiras.

Faça um contato com o autor: edemarsamorim@gmail.com

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09/10/2014

PRAÇA DOS CRISTAIS - BRASÍLIA-DF
(Alberto Ruy)


ALBERTO RUY
albertofoco@gmail.com





A Praça dos Cristais, é um jardim de formas geométricas construído sob a forma de um triângulo (como na forma do terreno). As formas geométricas em concreto remetem às formações cristalinas, típicas da região. O conjunto foi projetado pelo paisagista Roberto Burle Marx e pelo arquiteto Haruyoshi Ono em 1970. é conhecida também como Praça Cívica do Quartel General do Exército e se localiza no Setor Militar Urbano, em Brasília



PRAÇA DOS CRISTAIS - BRASÍLIA-DF




(clique sobre a imagem para vê-la em tamanho real)





ALBERTO RUY é fotografo profissional desde 1999. Trabalhou e trabalha com orgãos públicos, autarquias, agencias de noticias e de publicidade. Faz fotos institucionais, sociais, fotojornalismo e da natureza

Pode ser localizado em Brasília-DF pelo e-mail: albertofoco@gmail.com

08/10/2014

CLIENTE E ARQUITETO: OS DOIS LADOS DA MOEDA
(Dorys Daher)


DORYS DAHER
dorysdaher@hotmail.com






Cada caso é um caso. Nada mais verdadeiro quando se trata de decodificar a alma do cliente, esse desconhecido. Uma das perguntas mais freqüentes que ouvi durante toda a minha vida profissional foi: “Como são os outros? São parecidos comigo?” Todos aqueles com os quais trabalhei ao longo dos anos sempre tiveram a curiosidade aguçada para o comportamento, os desejos, o modo de viver e as possibilidades financeiras do outro. “Você tem muitos clientes ricos? Tem muitos clientes VIPS?” Ou então, de forma bem humorada, querem saber: “Todo cliente é pobre como eu?”, “Todo cliente fica regateando no preço?” “Você me acha muito indecisa?”.

Para essa fantasia sobre o outro, espécie de voyeurismo saudável e natural, não há uma resposta fácil, pronta e acabada, porque há circunstâncias, situações, detalhes, sutilezas que vão fazendo de cada cliente, uma pessoa única e singular.

Há traços gerais que definem os perfis clássicos da clientela. São tipos que podem ser enquadrados em algumas categorias e estilos com os quais o arquiteto precisa aprender a lidar, em suas inúmeras variações.

Júnior tinha uma enorme necessidade de dizer aos amigos que a idéia do projeto era dele. Afirmar uma autoria inexistente é uma forma de valorizar-se como pessoa e, ao mesmo tempo, deixar de reconhecer o trabalho do profissional. Na hora de pagar, sempre ficava certo constrangimento, como se aquele dinheiro fosse gasto desnecessariamente em um projeto que, afinal de contas, tinha sido feito “por ele”, Junior! Nesses casos, não adianta se incomodar. A relação pode deteriorar-se, caso o arquiteto não tenha segurança para compreender que as fantasias de autoria assemelham-se àquelas de um paciente que fica horas na internet pesquisando uma determinada doença, para discutir com seu médico particular. E depois diz triunfante: “Fui eu que descobri o que é que eu tinha!” No fundo, no fundo, o que Junior queria era ser autor e construtor de sua própria história e casa.

Alfredo era o oposto de Junior. Não dizia nada. Não manifestava qualquer desejo. Não indicava qualquer caminho. Deixava claro que cabia ao arquiteto adivinhar quais suas expectativas e necessidades, quais os seus gostos mais ocultos bastando, para isso, meia hora de conversa.

Clientes como Alfredo, testam a competência do profissional e escondem suas próprias idéias por receio, timidez ou malícia. Sabem perfeitamente o que querem. Mas não falam. Acreditam que o profissional está ali para dizer o que deve ser feito, como um pai-de-santo que, em transe, penetra na alma do consulente para desvendar seu passado, presente e futuro. E pobre do arquiteto que não treinar a mediunidade. Será visto, para sempre, como desinteressado, burro ou preguiçoso.

Há clientes como Nélson. Diante de qualquer sugestão, expandem-se em elogios, vibram, curtem, deliram. O profissional apresenta o projeto e eles se debruçam, embevecidos, sobre as folhas plotadas (termo atualizado para as antigas cópias heliográficas ou o enrolado de papel vegetal) elogiando cada detalhe, cada trecho, cada solução. Nélson ouvia encantado a descrição dos acabamentos, dos materiais a serem usados, das aberturas, da fachada. Tudo era perfeito, genial, mirabolante. Ficava dominado pelas idéias. Emocionava-se ao ver sua casa projetada sobre a mesa, pronta e acabada em sua imaginação. E concluía em êxtase “Você é minha Deusa”, o que me deixava dividida entre a felicidade e o constrangimento, porque esse perfil de cliente na realidade, não costuma entender muito bem o projeto apresentado.

A alegria com que recebem o layout é, para eles, um momento de deslumbramento. São cheios de entusiasmo, de alvoroço e paixão. Quando esses têm muito dinheiro, são esbanjadores, gastam sem culpa e formam uma parceria única e inesquecível com o arquiteto. Para eles, não há limites ao prazer de viver, em todas as suas dimensões. É o sonho de todo arquiteto.

Alguns clientes só chamam o arquiteto no último minuto do segundo tempo. Quando o bandeirinha já está assinalando para o juiz que é a hora de acabar o jogo.
Vilma e Artur tentaram resolver, sozinhos, o problema da reforma. Durante semanas discutiram, brigaram e não conseguiram encontrar a solução ideal para a ampliação da sala e a construção de uma suíte para os hóspedes. Quando todas as suas idéias se esgotaram, decidiram chamar um arquiteto. Na primeira entrevista, informaram logo: “Idéias nós temos. Muitas. E são todas espetaculares. Mas não se encaixam na reforma! Queremos, apenas, que você resolva o problema!”.

Para eles, estava muito claro que chamavam um profissional como último recurso, o salvador. Achavam-se capacitadíssimos para criar projetos “geniais”, conceber layout fantásticos, imaginar detalhes formidáveis. Agora, queriam um mágico para tirar o projeto da cartola, ao som de orquestras. Ninguém poderia ser mais competente que eles. Apenas não lhes tinha ocorrido, ainda, a solução correta. E ponto final.
Há clientes que acreditam que arquitetura é lazer. Portanto, nem ouso agendar, durante o horário comercial, um encontro para mostrar o meu projeto em seu escritório. “Nem pensar. Estou trabalhando, não posso discutir com você, agora!” Ele não imagina que o arquiteto também é um profissional com horário a cumprir, casa, família, obrigações. As entrevistas serão marcadas às dez horas da noite, nos sábados, domingos e feriados. Existem clientes que acham que avaliar o projeto é como ir ao teatro, ver televisão ou curtir um cinema. Assim, acabam estendendo o encontro até à meia-noite.

Há o homem solteiro ou recém-divorciado, empresário que pretende reformar o apartamento e recomeçar a vida. Ele não questiona nada. É rápido, objetivo, determinado. A casa deve cumprir sua função e nada mais. Quer execução, eficiência, impessoalidade. Detesta que o importunem com questões sobre que tipo de acabamento e revestimento usar; preocupa-se com a qualidade das instalações e o resultado final. Não tem tempo para perder com nenhum detalhe. Delega competência para que o arquiteto decida por ele, desde que tudo seja feito de forma rápida e profissional. O mesmo se pode dizer em relação à mulher bem sucedida profissionalmente. Solteira ou não.

No lado oposto, está o detalhista. Cada etapa do projeto e sua execução são debatidas durante horas e, por vezes, dias. Quer saber por que foi escolhido esse material e não aquele e qual diferença existem entre um e outro, quem está usando isso ou aquilo, por que, quando e como e onde determinado tipo de mármore pode ser encontrado - “eu vou passar lá para ver!”. A mulher dele não abre a boca. Não fala nada. Não dá palpite. Apenas nosso minucioso cliente decide, sugere e pede mil explicações.

Há os analisados. Esses sabem o que querem e quanto vão gastar, ou até onde podem chegar. Escutam, questionam, ponderam. São, em geral, muito bem informados, de alto nível intelectual e formam uma idéia clara e exata da profissão e da função do arquiteto na sociedade. Graças a Deus!

Outros, como Suzana, “alugam” o profissional e o elegem como uma espécie de psicanalista particular. Ligam para falar de tudo, menos do projeto. Contam a história da babá, do cachorro, do marido, dos filhos, da cunhada e até do que está faltando na geladeira. Não são objetivos, nem querem ser. Ocupam o arquiteto em tempo integral. “Afinal – pensam - ele está ali para me ouvir”. Precisam de atenção. Precisam de um amigo para escutar as suas angústias, seus medos, suas carências. O resultado é que o trabalho se estende por um tempo muito maior do que deveria, porém não deixa de ser realizado.

Suzana telefonava, em pânico, para dizer: “Não faço nada sem você!” Era dependente assumida. Tinha pavor de ser obrigada a decidir qualquer coisa sem a presença do profissional. Do projeto, estendeu as consultas à sua vida pessoal. Ligava para perguntar como receber os pais do noivo, que vestido usar, que serviço de buffet escolher, qual vinho servir. E qual a cor do saco de lixo que vai compor o visual da área de serviço.

Há os dependentes camuflados. Mostram-se auto-suficientes, mas entram em pânico quando o arquiteto diz que vai viajar. O telefone não para de tocar e os possíveis imprevistos passam a ser determinantes:
“E se... o pedreiro faltar?”
“E se... o marceneiro não entender a planta?”
“E se... o espelho quebrar (sete anos de azar)?”
“E se chover? E se fizer sol?”
“Padecem da síndrome do e se...?”

Tudo será problemático, mesmo sabendo que o trabalho continuará. Existem outros profissionais encarregados pelos projetos e pelas obras, trabalhamos em grupo e o escritório não pára. . E o pior é que se existe um por cento de chance da “coisa” dar errada, isso certamente irá acontecer.

No fundo, ou talvez “bem na superfície”, me sinto feliz por serem tão dependentes assim. Já pensaram como eu me sentiria caso o telefone não tocasse...? Gosto de reclamar! Lidar com pessoas tão diversas exige maleabilidade e prazer em escutar o outro.

É um exercício de empatia. Saber tratá-lo como ele quer e merece vai depender da capacidade de percepção do arquiteto. Nem sempre temos sucesso. Tenho clientes com os quais só posso me aproximar na base do humor, da brincadeira, da informalidade. Quanto mais extravagantes, sonhadores e engraçados formos, mais nos entendemos, mais o trabalho rende.

Há outros que exigem uma postura circunspecta. Para eles, qualquer brincadeira soa como desrespeito e falta de profissionalismo. Acendem o sinal vermelho a qualquer deslize de humor. Desconfiam que possam estar na mão de amadores. Se isso acontecer, aí pode ser o caos. Em um outro encontro - se houver! – uma mudança de abordagem é fundamental.

Apesar do humor, por vezes caricatural, com que me refiro aos personagens presentes na vida de um arquiteto, a verdade é que são eles minha fonte de energia. São eles que me envolvem, me fazem vibrar, me enchem de alegria e me alimentam de afeto. Essa troca de fluidos dinamiza o cotidiano, quebra a rotina, dá brilho ao dia-a-dia.

Sinto-me à vontade para contar muitas histórias ao longo da minha experiência. Sei que o relacionamento entre cliente e arquiteto é bastante interessante.

Essa foi a vida que escolhi. Meus clientes e eu somos os dois lados de uma só moeda.





DORYS DAHER é arquiteta e urbanista. Dirige o escritório DG Arquitetura, no Rio de Janeiro e é autora do livro Cimento Batom e Pérolas - Quem tem medo de Arquiteto?

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as quartas-feiras.

Faça um contato com a autora: dgarquitetura@dgarquitetura.com.br

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07/10/2014

MONUMENTO A HEROÍNA DOS DOIS MUNDOS, LAGUNA-SC
(Fernando Rebelo)


FERNANDO REBELO
rebelofa@gmail.com





Laguna é, de história, terra de guerreiros. Lugar onde lá em meados do século XIX já fora cenário de lutas. Os vestígios dessas conquistas são vistas até hoje e os seus heróis são aclamados e reconhecidos pelos seus monumentos por toda a cidade. Aqui, mais especificamente, temos a nossa "Heroína dos dois mundos", Anita Garibaldi, que lutou bravamente ao lado do seu marido Giuseppe Garibaldi. As lutas se travaram em terra e em mar. Garibaldi veio por mar em seu navio batizado de "Seival". A história começa com o desenho mostrado no croqui que fiz. Foi um monumento feito para o primeiro centenário da morte de Anita Garibaldi. O desenho mostra, ao centro, a árvore que nasceu na quilha do barco "Seival". Várias interpretações são possíveis. Mas eu sempre adotei a de que esta árvore representa o renascimento da memória dos heróis que morreram em guerra pela democracia, dos heróis que trouxeram da sua pátria e do seu povo as forças para encarar os inimigos sabendo que o que estavam fazendo era um ato de coragem e bravura. Hoje suas memórias são preservadas e continuarão perpetuando por todas as gerações futuras, lembrando sempre de onde viemos. E assim, Laguna continuará sendo a terra de guerreiros.




MONUMENTO A HEROÍNA DOS DOIS MUNDOS, LAGUNA-SC





(clique sobre a imagem para vê-la em tamanho real)





FERNANDO REBELO é acadêmico de Arquitetura e Urbanismo na Universidade do Estado de Santa Catarina. Atualmente se dedica ao meio acadêmico, mas nos tempos livres sai perambulando pela cidade e por vezes registrando no papel o que a cidade tem de oferecer de mais belo

Pode ser localizado em Laguna-SC pelo e-mail: rebelofa@gmail.com

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