Engenheiro, Professor e Autor de livros
sobre Gestão de Carreira e Administração de Escritórios
na Arquitetura e Engenharia
MONDRIAN - RELEITURA
(Fonte: experimentalphotoarts.blogspot)

Notas de "Autor Convidado"

20/08/2014

PINGÜINS DE GELADEIRA: O MEDO DE ERRAR
(Dorys Daher)


DORYS DAHER
dorysdaher@hotmail.com






Às vezes certos clientes entram em pânico quando mudam de status econômico. Deixam a moradia simples, e pretendem mudar-se para uma casa de 1.200 m² em condomínio de luxo na Barra da Tijuca, zona nobre do Rio de Janeiro. Pela primeira vez, o sucesso econômico irá se materializar no novo “habitat”, encravado no coração de um bairro sofisticado. Vêem-se cercados por uma vizinhança que, na cabeça deles, “com certeza” iria criticá-los por sua origem modesta.

De repente passam a desfrutar de todos os confortos e alegrias da classe média alta, obrigando-se a construir um cotidiano elegante, à altura da posição que o dinheiro agora lhes proporcionam.

O arquiteto será o mediador da transformação, o mágico capaz de conduzi-los pelos desvãos da insegurança, livrando-os do medo que os ameaça: o de serem acusados de “cafonas” pela nova classe a qual pertencem agora. Além de poupá-los de um desgaste entre eles próprios.

Passam a freqüentar ambientes mais bonitos, tendências diferentes e estilos com os quais jamais haviam visto. De repente, querem ter tudo aquilo que lhes parece digno de sua posição atual. Desejam incluir, na nova vida, todos os objetos pelos quais se encantaram em suas viagens pelo mundo. “Que tal colocar aquela mesa da Indonésia sobre o tapete persa? E a cadeira Luiz XV junto das girafas africanas? E a cabeça de touro que compramos na Espanha? Será que combina com o biombo igualzinho ao que vimos em Tóquio”? Bate o horror, a paranóia, o pavor de serem considerados ridículos e de se exporem às risadinhas de vizinhos e conhecidos. Sentem-se inseguros para assumir seus próprios gostos, ou para harmonizar todas as idéias que lhes passam pela cabeça.

Cafona! Essa é uma palavra ameaçadora, espécie de fantasma a assombrar tantas famílias que ascenderam socialmente! Mas, afinal, o que é ser cafona?

A definição do vocábulo, no Dicionário Aurélio XXI é a seguinte: “Cafona: diz-se da pessoa que, com aparência ou pretensão de elegância, foge ao que convencionalmente é de bom gosto; brega, caipira, fajuto, jeca, fuleiro.”

O dicionário Houaiss estica a definição e prolonga ainda mais o sofrimento de quem incorre no pecado do ridículo:“Cafona: que ou o que revela mau gosto, convencionalismo, pouca sofisticação ou pouco trato social; diz-se de ou o que tem ornamentação ou aspecto exageradamente ostensivo, espalhafatoso, sem bom gosto ou harmonia e tendente ao ridículo ou à vulgaridade; que ou o que é simplório, sem refinamento algum. Casca-grossa, provinciano, chinfrim, desatualizado, grosso, matuto, mocorongo, pé-duro”. O que caracteriza o cafona, afinal? É o pingüim de geladeira? As andorinhas na varanda? O anão de jardim? Não sei. Sei que é possível brincar com esses paradigmas de cafonice e resgatar, de forma lúdica, todos esses símbolos, transformando-os em estilo, em decoração, em marca de personalidade e bom humor.

Em arquitetura, o que evitar para não ser "over", vulgar, confuso ou cafona? Em um projeto arquitetônico, na minha opinião, seja lá qual for, reforma, construção ou design de interiores - vale tudo, até mesmo a mistura de estilos. Desde que se perceba, de forma clara e evidente, uma linha de pensamento que costure uma idéia do início ao fim. A presença desse fio condutor vai tecendo os espaços, os blocos harmônicos de massas e vazios, luz e sombra, cor e textura realizando o desejo de cada um. Se a proposta é brincar de misturar estilos, se é divertir-se com o uso de objetos simbólicos, de época, de vanguarda ou não, acredito que serão bem aceitos se forem compreendidos, isto é, desde que fiquem claras as intenções de cada criador. Mesmo que o projeto proposto esteja fora do que está na moda, ou do que é considerado elegante por tanto tempo, a sinceridade da criação é tão determinante, que aquilo que é prejulgado como de mau gosto, ultrapassa esse limite previamente estabelecido e assume uma forte expressão.

É possível tirar partido dessa mistura estética, dessa confusão de estilos, organizando um caleidoscópio de imagens onde estão sugeridas as mais diversas escolas. Desde que, para isso, a idéia esteja a serviço da criação de um espaço eclético, bizarro e engraçado. Pode-se trabalhar o lúdico. Porque é intencional, está previsto, atinge o fim proposto no início do trabalho. Há unidade nas citações.

Mesmo que seus olhos não se sintam atraídos por tal concepção estética, percebe-se que há, ali, uma idéia clara e dirigida. Há, um movimento capaz de revelar um pensamento encadeado, percebido pela leitura dos elementos que concretizaram o projeto. Existiu um conceito.





DORYS DAHER é arquiteta e urbanista. Dirige o escritório DG Arquitetura, no Rio de Janeiro e é autora do livro Cimento Batom e Pérolas - Quem tem medo de Arquiteto?

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as quartas-feiras.

Faça um contato com a autora: dgarquitetura@dgarquitetura.com.br

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19/08/2014

PRAÇA REPÚBLICA JULIANA EM LAGUNA-SC
(Fernando Rebelo)


FERNANDO REBELO
rebelofa@gmail.com





A nossa guerreira de dois mundos, Anita Garibaldi, com as mãos estendidas em direção a antiga casa de Câmara e Cadeia, onde agora funciona o Museu Histórico Anita Garibaldi. Esta praça possui uma forte relevância histórica para a cidade e para o país, tendo em vista que foi onde foi feita a proclamação da República Catarinense em 24 de julho de 1839. Ótimo local, a propósito, para descansar tranquilamente depois do almoço e ficar em contato com a natureza e com a história do nosso Brasil.




PRAÇA REPÚBLICA JULIANA EM LAGUNA-SC





(clique sobre a imagem para vê-la em tamanho real)





FERNANDO REBELO é acadêmico de Arquitetura e Urbanismo na Universidade do Estado de Santa Catarina. Atualmente se dedica ao meio acadêmico, mas nos tempos livres sai perambulando pela cidade e por vezes registrando no papel o que a cidade tem de oferecer de mais belo

Pode ser localizado em Laguna-SC pelo e-mail: rebelofa@gmail.com

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18/08/2014

A ENGENHARIA E O SACI-PERERÊ
(Wilson Xavier Dias)


WILSON DIAS
wxdias@gmail.com





Mitologia é uma forma que o gênio humano achou de trazer para o nível do popular alguns conceitos e valores observados no comportamento e na alma do homem. É uma maneira didática e prática de tentar explicar como somos em alguns aspectos de nossa natureza. Ninguém sabe como surge uma figura mitológica. Não é fruto de elaborações acadêmicas ou pesquisas sistematizadas. Ela surge no meio do povo, utiliza figuras do cotidiano ou do imaginário coletivo, mas tem o grande poder de resumir na personalidade de um personagem características do ser humano que os acadêmicos e intelectuais gastariam incontáveis páginas para descrever. Eles não existem mas, incomodamente, nos vemos um pouco neles.

Os mitos mais conhecidos são os implacáveis e temperamentais deuses e heróis gregos: Hércules, Aquiles, Zeus, Édipo, etc. Eles representam frações de nossa personalidade, de forma que se juntássemos todos chegaríamos a um retrato aproximado do ser humano, com suas virtudes e defeitos. Menos conhecidos, porém tão emblemáticos quanto aqueles, são os nossos mitos tupiniquins. Quem nunca ouviu falar do Saci Pererê, símbolo do espírito moleque e travesso do brasileiro, ou do Curupira, protetor de nossas florestas e matas? Eles e todos os demais personagens são projeções da personalidade do brasileiro, de seus defeitos, virtudes ou mesmo de seus desejos coletivos.

Com o passar do tempo a idéia foi ampliada e hoje, principalmente no conceito popular, mito passou a significar uma coisa que aparentemente é verdade, mas no fundo é uma idéia falsa.

No nosso dia a dia e nas mais diversas áreas podemos criar, alimentar ou conviver com idéias ou conceitos que se vestem com uma roupagem de verdade, mas no final são mitos, idéias que são sustentadas apenas pelo hábito, folclore ou superstição popular.

Dentro dos nossos limites de atuação convivemos com mitos que tentam explicar ou dar sentido a ações ou posturas que normalmente assumimos. Não criamos figuras lendárias, mas criamos idéias ou argumentos que vão servir de base para muitas decisões que tomamos. E podemos correr o risco de darmos rumos equivocados a nossas decisões, se as basearmos nessas idéias.

Vamos aqui comentar apenas três idéias que ouvimos comumente em pronunciamentos ou lemos em artigos sobre o nosso sistema profissional. É claro que não iremos esgotar as discussões sobre os assuntos, mas eles servirão de base para algumas reflexões sobre nossa situação e para algumas sugestões ao final.

1 – Somos o maior conselho profissional do mundo, com mais de um milhão de profissionais registrados

Essa não é uma informação falsa. Ela é verdadeira. O problema dela não é a verdade que expressa, mas o que queremos dizer com ela quando a expressamos. Normalmente quando a utilizamos estamos querendo afirmar nossa representatividade. Estamos dizendo implicitamente que atrás de nossas decisões temos o respaldo de um milhão de profissionais, que somos seus porta-vozes, ou que, no mínimo, representamos a idéia média de todo esse contingente. Isso é um mito.

Vamos aproveitar a deixa e refletir um pouco sobre nossa representatividade.

Em primeiro lugar, não temos a atribuição legal de sermos os representantes da classe profissional que regulamos e fiscalizamos. A lei que criou o Sistema Profissional não nos concedeu poderes para falar em nome dos profissionais, ou representá-los. Nossa obrigação é fiscalizar o trabalho deles, o que normalmente não é uma atividade simpática a quem está sendo fiscalizado. Dificilmente alguém daria uma credencial de representante a quem o está fiscalizando. Poucos são os que têm consciência da importância da fiscalização, tanto para a sociedade quanto para o próprio profissional ( para o bom profissional), a ponto de serem gratos por esse trabalho.

Para amenizar um pouco essa situação procuramos desenvolver outras atividades, dentro do limite legal, que atendam a anseios ou necessidades dos profissionais.

Em segundo lugar, temos a questão da representatividade mesmo, independente da atribuição legal. Será que as opiniões e posições das lideranças do sistema, ou as decisões tomadas, estão alinhadas com a opinião de toda a classe profissional?

É claro que para uns poucos que conhecem o sistema profissional, estão envolvidos com suas questões, talvez possam se ver representados por suas lideranças, mas a verdade é que essa é uma parcela muito pequena do universo dos profissionais. Um indicador bem claro disso é a participação em nossos processos eleitorais. Como o voto em nossas eleições não é obrigatório, somente comparecem para votar aqueles que conhecem, participam, ou têm a consciência da importância do sistema. Pois bem, nas últimas três eleições para o Confea não participaram, em cada uma, 10% dos profissionais aptos a votarem. O presidente do Confea em todos os três casos foi eleito com os votos de menos de 6% dos profissionais. Isso, no mínimo, enfraquece a representatividade do presidente: 90% dos profissionais aptos a votarem se mantiveram indiferentes, recusaram-se a dar sua opinião, favorável ou contrária, aos concorrentes ao cargo. Será que este ano será diferente?

Uma maneira fácil de medir o poder dessa representatividade é pensarmos na possibilidade de se, por qualquer motivo, precisarmos fazer uma mobilização de toda a categoria. Se a convocação for feita pelo sistema profissional, qual será a resposta? Quantos profissionais reconhecerão o sistema como a liderança da categoria e atenderão ao chamado? (Na realidade não conseguimos pensar em nenhuma entidade que tem esse poder, mas nenhuma outra reivindica essa posição)

2 – 70% do PIB do Brasil passa pelas mãos de profissionais regulados pelo sistema Confea/Creas.

Outra afirmação bastante usada e que da mesma forma que a anterior é uma verdade que mascara a intenção com a qual é usada.

Quando usamos esse argumento, longe de querermos enaltecer nossa capacidade técnica e criativa, no fundo queremos afirmar o nosso poder. Se manipulamos 70% da riqueza do país, com certeza temos um grande poder de influência e decisão. Ledo engano. Realmente a geração da riqueza do país passa pela mão dos profissionais da área técnica. Sob essa ótica podemos afirmar até que não somente 70%, mas provavelmente 100% da riqueza produzida no país passa, em algum momento, pelas mãos de um profissional do nosso sistema. Mesmo se pensarmos no exercício da medicina, ou na reflexão do filósofo, ou na ação do professor, vamos ver que talvez para o exercício direto dessas atividades não seja necessária a ação de um técnico de nossa área, mas com certeza ela está presente nas ferramentas ou dispositivos de apoio para essas profissões. Isso tudo por uma razão simples: engenharia, por definição, é a arte da transformação. Assim, a produção de qualquer produto novo, ou qualquer nova técnica de produção desenvolvida, significa uma ação da engenharia.

Mas se a geração da riqueza passa pelas mãos das profissões técnicas, a decisão quanto a sua utilização não. E esse é o grande equívoco sobre a afirmação que estamos comentando. Se a riqueza e o conseqüente poder que ela gera são criados pela tecnologia, a utilização desse poder não é definida pelas mesmas pessoas. E os resultados que esse poder gera, decisões, investimentos, políticas, não atendem, necessariamente, aos anseios daqueles que o geraram. São pouco ouvidos ou chamados a se manifestar.

Resumindo, somos os responsáveis pela geração da maior parte da riqueza do país, mas não temos o poder que essa riqueza gera, portanto quando usamos essa declaração estamos, conscientemente ou não, alimentando um mito.

3 – Somos indispensáveis

Essa declaração nunca é verbalizada, pelos menos não claramente assim. Mas a postura assumida por grande parte dos líderes deixa transparecer a idéia de que somos indispensáveis à vida do nosso país (estou falando do sistema profissional, não das profissões). Somos importantes, não indispensáveis. Em diversos países as profissões são fiscalizadas e controladas por modelos diferentes dos nossos conselhos profissionais. E funcionam. No Brasil o modelo escolhido para fiscalizar o exercício profissional e garantir à sociedade a oferta de serviço adequado foi o de conselho profissional, uma autarquia pública, sujeita às regras e com os deveres de todo órgão público. Assim como fomos criados por lei, facilmente (em termos) podemos ser extintos por outra lei. Nossa sobrevivência é diretamente proporcional à nossa importância perante a sociedade, não do nosso ponto de vista, mas do ponto de vista da sociedade. Se o nosso trabalho for acolhido e reconhecido como um fator de segurança e tranqüilidade pela sociedade, teremos nossa sobrevivência garantida, porém se formos vistos apenas como um peso a mais, como geradores de obrigações desnecessárias (independente se essa visão for verdadeira ou não), estaremos sob ameaça de extinção. Nosso desafio então é criarmos mecanismos que signifiquem canais abertos e desimpedidos de comunicação com a sociedade de forma que vejam e reconheçam nossa utilidade e importância.

Como dissemos no início, não temos a pretensão de esgotar o assunto ( mesmo porque se assim fosse, não haveria a necessidade da opinião de mais ninguém), nem mesmo de estarmos certos. Se essas reflexões levarem o prezado leitor a pensar sobre esses assuntos, mesmo que seja para contrariá-los, creio que uma contribuição razoável foi dada.

Em 2013 foi realizado o Congresso Nacional de Profissionais que tinha o objetivo de captar as idéias dos profissionais sobra as mudanças necessárias nos marcos legais do Sistema, em outras palavras, das necessidades de modernização das leis que regulam o nosso sistema profissional, e transformá-las em propostas práticas a serem encaminhadas às instâncias com poder de implantá-las.

Surgiram propostas boas, outras nem tanto. Mas o importante agora é acompanhar o andamento dessas propostas, para que as transformações detectadas como necessárias realmente aconteçam.

Enfim, para que nossas percepções (algumas) do nosso Sistema profissional deixem de ser mitos, expressões técnicas do Saci-Pererê, devemos encarar essas questões com realismo e atuar no sentido de que essas percepções e afirmações sejam expressões dos nossos sonhos, finalmente transformados em realidade.





WILSON XAVIER DIAS é engenheiro eletricista formado pela Universidade Federal de Itajubá, em 1981. Foi presidente da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Sumaré, SP, assessor do Confea e, atualmente é assessor da presidencia do Crea-DF.

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as segundas-feiras.

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15/08/2014

EQUAÇÃO MEIO RESOLVIDA
(Edemar de Souza Amorim)


EDEMAR DE SOUZA AMORIM
edemarsamorim@gmail.com





O efeito mais nefasto das décadas de crises intermitentes e dos esforços para recomposição das contas públicas, foi a transformação do Brasil em uma nação de pensamento tacanho e monocromático, voltada apenas à produção de resultados financeiros e superávits primários para saldar seus compromissos.

O foco (ou melhor, a sanha) na arrecadação de recursos tornou-se a única competência pública brasileira levada a excelência. Nosso país constrói hoje, verdadeiras máquinas de criação, instituição e cobrança de taxas, tarifas, empréstimos compulsórios, contribuições e impostos com eficiência inversamente proporcional à sua capacidade de gestão do dinheiro arrecadado.

O governo brasileiro, preocupado exclusivamente com os impostos não recolhidos pelos produtos que atravessam a Ponte da Amizade em Foz do Iguaçu, legaliza o contrabando, organizando um mecanismo de apuração e cobrança eletrônica de impostos digna de países de primeiro mundo. Por outro lado, ignora o consumidor, atravessa a legislação, abandona suas normas e padrões de produção e segurança, entregando à sociedade a tarefa de se proteger do risco oferecido pelos produtos de qualidade “alternativa”, agora legalizada.

Esta situação absurda repete-se na engenharia, expondo a sociedade a um risco ainda maior. Pois a fiscalização do recolhimento de tributos parece ter se tornado a maior função das autarquias, em detrimento da segurança dos cidadãos, que se vêem à mercê de situações como a não observação de normas técnicas, a prática ilegal da profissão ou a má formação profissional.

Um engenheiro trava hoje uma batalha quase perdida em seu exercício profissional. Com custos crescentes para sua atualização constante, honorários ou salários decrescentes pela concorrência predatória e a falta de representação institucional pela fragmentação das associações e sindicatos. Em resumo, se ganha pouco, se gasta muito e não se recebe sequer a contra partida devida em serviços públicos.

Há pouco foi anunciado o subsídio dado pelo CREA à ABNT, como uma iniciativa para reduzir o custo atual de aquisição do mais fundamental instrumento de trabalho do engenheiro, a Norma Técnica. Mas como é possível um país sequer aventar a possibilidade de desenvolvimento econômico, se a aplicação de normas técnicas depende da capacidade de investimento pessoal do profissional ou da empresa?

O financiamento da ABNT pela venda de Normas Técnicas é mais uma aberração brasileira. Seu subsídio (esmola, na verdade) pelo CREA é uma afronta à sociedade e aos engenheiros e arquitetos, cujo acesso gratuito e permanente às suas Normas Técnicas deveria ser custeado integralmente pelo governo e não objeto de pirataria e comércio ilegal na internet.

É preciso voltar a enxergar a engenharia brasileira com a seriedade que merece, como ferramenta para o desenvolvimento econômico, como ciência produtora de conhecimento, como motor da inovação tecnológica.
Não apenas como uma vaca leiteira sustentando um estado gordo, pesado e ineficiente.





EDEMAR DE SOUZA AMORIM é engenheiro civil formado pela Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e foi presidente do Instituto de Engenharia
abril de 2007 até abril de 2009.

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as segundas-feiras.

Faça um contato com o autor: edemarsamorim@gmail.com

Comentário do Ênio Padilha

Meu colega e amigo, Engenheiro Edemar Amorim, fecha com chave de ouro esta semana de estreia.
Os dez artigos que serão publicados aqui, nesta Temporada Primavera são todos deste nível. Você, amigo leitor, será brindado com manifestações de lucidez e inteligência de uma das mentes brilhantes da Engenharia Brasileira.
Prepare-se.

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14/08/2014

PALÁCIO DO PLANALTO - BRASÍLIA
(Alberto Ruy)


ALBERTO RUY
albertofoco@gmail.com





Palácio do Planalto é o nome oficial do Palácio dos Despachos da Presidência da República Federativa do Brasil. É o local onde está localizado o Gabinete Presidencial do Brasil




PALÁCIO DO PLANALTO - BRASÍLIA-DF





(clique sobre a imagem para vê-la em tamanho real)





ALBERTO RUY é fotografo profissional desde 1999. Trabalhou e trabalha com orgãos públicos, autarquias, agencias de noticias e de publicidade. Faz fotos institucionais, sociais, fotojornalismo e da natureza

Pode ser localizado em Brasília-DF pelo e-mail: albertofoco@gmail.com

13/08/2014

FUNÇÃO E ESTÉTICA
(Dorys Daher)


DORYS DAHER
dorysdaher@hotmail.com






Para a Arquitetura, beleza é, mesmo, fundamental? Beleza é fundamental. É equilíbrio, proporcionalidade e prazer para os sentidos. Mas muitas vezes o conceito de “beleza” vem associado a uma carga negativa de valores, como se fosse algo desvinculado do conceito de “função”. Oscar Niemeyer, já na década de 1950, reconhecia que a busca da Beleza artística era a força impulsionadora de sua obra, e dizia em seu livro “Pequeno diálogo socrático”: Quando uma forma cria beleza ela tem uma função, e das mais importantes na Arquitetura.

O escritor Oscar Wilde, em O Retrato de Dorian Gray, afirmava: “Dizem às vezes que a beleza é completamente superficial. Talvez menos superficial, em todo caso, do que o Pensamento. Para mim, a Beleza é a maravilha das maravilhas. Só os espíritos levianos não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, e não o invisível...”.

É, portanto, curioso notar que o cliente não se sente autorizado a escolher um projeto baseado no conceito de Beleza. Parece pecaminoso preferir uma idéia que contenha uma expressão estética mais apurada, mais “artística” que outra. “Mas vou gastar mais, só porque é mais bonito?” Vai! Ele não compreende que a beleza não é um recurso em si, mas sim, uma função. Quando consigo transmitir essa ideia para meu cliente, sinto que o trabalho está começando bem e podemos ter um bom percurso. Sinto que fui eleita para traduzir, em formas, a funcionalidade desejada. O arquiteto não é o dono do bom gosto, nem o meu gosto é dono do Belo Absoluto. O arquiteto é chamado para dar forma ao desejo do cliente. Não foi convidado a impor preferências, nem sua visão estética ou modismos. Não pode, portanto, ser rígido e incapaz de moldar-se às necessidades e expectativas de cada um.

Muitas vezes pretendi “conduzir” o programa solicitado, pelo cliente,da maneira que julgava ideal e como havia aprendido na escola onde meu gosto havia sido moldado. Com o amadurecimento e a experiência, percebi que essa era uma atitude narcisista e arrogante. Afinal, não seria eu a morar naquela casa. Mais uma vez compreendi que era preciso encontrar o caminho do equilíbrio a fim de realizar o desejo do cliente, oferecendo o meu conhecimento técnico para materializar seu objetivo.

Muitos arquitetos levantam bandeiras, propõem idéias arrojadas, defendem teorias revolucionárias quando se trata de projetos comerciais. A cada geração surgem novas idéias para a construção de prédios populares, complexos industriais e turísticos, e centros financeiros. Mas quando se trata da casa – habitat do Homem – quem constrói o projeto através da mão firme do arquiteto, é o cliente. Meu gosto pessoal me levaria a optar por outros caminhos estéticos. Mas vou procurar as melhores soluções técnicas para dar um corpo bem proporcionado à moradia onde meu cliente irá vivenciar experiências únicas que pertencerão, para sempre, a ele, e a mais ninguém.





DORYS DAHER é arquiteta e urbanista. Dirige o escritório DG Arquitetura, no Rio de Janeiro e é autora do livro Cimento Batom e Pérolas - Quem tem medo de Arquiteto?

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as quartas-feiras.

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12/08/2014

OURO PRETO
(Fernando Rebelo)


FERNANDO REBELO
rebelofa@gmail.com





Croqui feito sentado em uma das várias ladeiras da bela cidade de Ouro Preto com uma maravilhosa vista da Igreja N. Sra. do Carmo. Sua construção se deu entre os anos de 1766 e 1772, com projeto de Manoel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho. Era frequentada pela aristocracia de Vila Rica




OURO PRETO





(clique sobre a imagem para vê-la em tamanho real)





FERNANDO REBELO é acadêmico de Arquitetura e Urbanismo na Universidade do Estado de Santa Catarina. Atualmente se dedica ao meio acadêmico, mas nos tempos livres sai perambulando pela cidade e por vezes registrando no papel o que a cidade tem de oferecer de mais belo

Pode ser localizado em Laguna-SC pelo e-mail: rebelofa@gmail.com

Comentário do Ênio Padilha

Este é o post de estreia do colega estudante de Arquitetura Fernando Rebelo. Ele nos presenteará, nas próximas dez semanas, com desenhos e croquis que ilustram, de certa maneira, a vida de um estudante de arquitetura (e quem vai dizer que este primeiro desenho não tá na memória afetiva de 9 em cada dez estudantes de arquitetura no Brasil?)

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11/08/2014

O LEGADO DA COPA
(Wilson Xavier Dias)


WILSON DIAS
wxdias@gmail.com





Uma das grandes discussões sobre a copa no Brasil é sobre o seu legado: o que ficará depois que tudo acabou.

Essa discussão, é claro, só acontece porque a copa foi realizada aqui. Se tivesse acontecido em outro país nossa preocupação seria apenas com a escalação, a preparação dos jogadores e outros detalhes que apenas nós, os 200 milhões de técnicos brasileiros, conseguimos ver e resolver. Mas como a copa aconteceu aqui, diversas outras preocupações nos envolveram: acompanhamos seu planejamento, a execução das obras, sentimos aquele frio na barriga ao percebermos que a data se aproximava e muito do que precisaria ser feito talvez não ficasse pronto a tempo, expondo nossa incompetência. Não tínhamos certeza se teríamos estádios, se nossos visitantes teriam aeroportos para chegar, se haveria transporte para todos, etc. Muitas denúncias e desconfianças de superfaturamento e corrupção nas obras, críticas sobre a construção de estádios suntuosos em cidades que sequer possuem times de futebol ou que se existem, conseguiriam abrigar seus torcedores em algumas barracas.

Felizmente a copa aconteceu e as desgraças anunciadas, não. No final parece que tudo deu certo. Problemas dentro do normal para um evento dessa proporção.

Mas a questão que ainda permanece é: e agora? O que vai acontecer? O que vai ficar? O que vamos aproveitar? Resumindo, nos termos em voga, qual será o legado que ficará da copa?

Penso que de tudo o que aconteceu o único legado genuíno que vai ficar dessa copa é a goleada que levamos de 7 a 1 da Alemanha. Vamos discutir por um certo tempo ainda sobre as obras superfaturadas ou inacabadas, sobre os hospitais e escolas que foram preteridos pelas obras da copa, sobre os aeroportos que vão continuar a atender, ou não, a demanda rotineira dos passageiros brasileiros, etc, mas em pouco tempo, talvez poucos anos, ninguém se lembrará que aquele estádio jogado às moscas foi construído por causa da copa, se aquele outro, muito bom e bem utilizado, foi um dos benefícios que ficou, mas, com certeza, NUNCA nos esqueceremos daquela goleada. Mesmo que esperemos 64 anos para nos vingarmos, nunca a esqueceremos. Mesmo que em algum dia batamos a Alemanha por um placar igual ou maior, o que soará como uma vingança, assim mesmo a referência será 2014. Esse será a única lembrança que se perpetuará, o verdadeiro legado que a copa de 2014 deixará.

Mas por quê?

Simples. Porque as obras falam para nossa racionalidade, ou no máximo para uma emoção rasa de constrangimento ou indignação, mas aquela goleada fala para nossa emoção pura, e profunda. Nossa alma de brasileiro é muito mais machucada por uma goleada vexatória do que por um hospital que deixa de ser construído.

E pergunto novamente: por quê?

O que faz a diferença é a paixão. O futebol está entranhado em nosso consciente coletivo como parte de nossa identidade. Ganhar no futebol é uma confirmação da nossa personalidade, do nosso jeito de ser. Por isso, perder e perder feio é como se negassem nossa identidade, rasgassem nosso RG, questionassem nossa filiação. Ficamos arrasados e isso se perpetua em nossa consciência, em forma de dor, ou vergonha. Pura paixão.

Já a situação política e social de nosso país nos incomoda, nos envergonha, mas não do mesmo modo. Não é motivo suficiente para marcar indelevelmente.

E aí está um possível caminho para solucionarmos os problemas de nosso país: nos apaixonarmos.

Se conseguirmos colocar nossos ideais de sociedade nesse nível de paixão, com certeza conseguiremos transformá-la.

Quando, ao pensarmos em um país em que todos terão acesso a um médico ou hospital quando for preciso, conseguirmos suspirar como um adolescente frente à possibilidade de sua primeira conquista; quando revirarmos os olhos quando imaginarmos que todas as crianças estarão sentadas em um banco de escola da melhor qualidade; quando praticamente tivermos um orgasmo ao imaginarmos que não veremos um irmão sequer dormindo pelos cantos das praças e ruas ou mendigando para poder comer, ou que uma situação de injustiça nos tire o sono como na primeira desilusão amorosa, então teremos toda a condição de mudar nosso país, quiçá o mundo.

Porque somente deixaremos de transferir a responsabilidade da mudança para outros, ou acharmos que a obrigação é dos políticos, dos estudantes, dos militares, dos mais engajados, ou de quem quer que seja, quando sonharmos com paixão. Ninguém delega a outrem a responsabilidade pela conquista do objeto de sua paixão.

Mas como conseguiremos gerar ou despertar essa paixão dos corações das pessoas? A mais eficiente delas é pela educação, mas isso é assunto para outra reflexão.

A verdade é que conseguiremos mudar apenas quando a situação atual nos doer como uma goleada de 7x1.





WILSON XAVIER DIAS é engenheiro eletricista formado pela Universidade Federal de Itajubá, em 1981. Foi presidente da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Sumaré, SP, assessor do Confea e, atualmente é assessor da presidencia do Crea-DF.

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as segundas-feiras.

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07/08/2014

DEZ SEMANAS COM CINCO AUTORES ESPECIAIS

Na próxima segunda-feira (11/08/2014) estreia aqui no nosso site a Temporada Primavera de Autores Convidados. Você deve estar lembrado do sucesso que foi a Temporada de Outono, com os amigos Jean Tosetto (arquiteto), Ricardo Meira (arquiteto), Lígia Fascioni (engenheira eletricista), Sérgio dos Santos (engenheiro civil) e Paulo Cesar Bastos (engenheiro civil).

Agora chegou a vez de sermos presenteados com a inteligência, a criatividade, o bom humor e a excelência de outras cinco feras do nosso universo profissional.

Senhoras e senhores, tenho a honra e a alegria de apresentar os nossos cinco convidados:




WILSON DIAS
wxdias@gmail.com





WILSON XAVIER DIAS é engenheiro eletricista formado pela Universidade Federal de Itajubá, em 1981. Foi presidente da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Sumaré, SP, assessor do Confea e, atualmente é assessor da presidencia do Crea-DF.

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as segundas-feiras.

Faça um contato com o autor: wxdias@gmail.com








FERNANDO REBELO
rebelofa@gmail.com





FERNANDO REBELO é acadêmico de Arquitetura e Urbanismo na Universidade do Estado de Santa Catarina. Atualmente se dedica ao meio acadêmico, mas nos tempos livres sai perambulando pela cidade e por vezes registrando no papel o que a cidade tem de oferecer de mais belo

Nesta série ele nos apresentará desenhos e croquis que traçarão um panorama geral da vida de um estudante de arquitetura e sua visão de mundo. Seu trabalho estará aqui todas as terças-feiras.

Até dezembro de 2015 Fernando Rabelo poderá ser localizado em Laguna-SC, nas salas de aula ou no Centro Acadêmico de Arquitetura (ou ainda pelo e-mail: rebelofa@gmail.com)







DORYS DAHER
dorysdaher@hotmail.com






DORYS DAHER é arquiteta e urbanista. Dirige o escritório DG Arquitetura, no Rio de Janeiro e é autora do livro Cimento Batom e Pérolas - Quem tem medo de Arquiteto?

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as quartas-feiras.

Faça um contato com a autora: dgarquitetura@dgarquitetura.com.br







ALBERTO RUY
albertofoco@gmail.com





ALBERTO RUY é fotografo profissional desde 1999. Trabalhou e trabalha com orgãos públicos, autarquias, agencias de noticias e de publicidade. Faz fotos institucionais, sociais, fotojornalismo e da natureza.

Além de excepcional profissional da fotografia, Alberto Ruy é ex-jogador profissional de futebol (foi goleiro do São Paulo Futebol Clube) e hoje é um Tri-Atleta, preparando-se para o Ironman 2015, em Florianópolis.

Durante as próximas semanas, todas as quintas-feiras, teremos aqui uma imagem de Brasília retratada pelas lentes mágicas desse verdadeiro artista.

Alberto Ruy pode ser localizado em Brasília-DF pelo e-mail: albertofoco@gmail.com







EDEMAR DE SOUZA AMORIM
edemarsamorim@gmail.com





EDEMAR DE SOUZA AMORIM é engenheiro civil formado pela Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e foi presidente do Instituto de Engenharia de abril de 2007 até abril de 2009.

Sua carreira profissional brilhante e sua passagem marcante pela presidência de uma das instituições mais importantes da Engenharia do Brasil fizeram do colega Edemar de Souza Amorim um dos principais pensadores do nosso sistema profissional e um dos interlocutores mais inteligentes e importantes do meio.

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as sextas-feiras.

Faça um contato com o autor: edemarsamorim@gmail.com






Aguardem:

Veja o que teremos na Semana de estreia:
Segunda-feira – 11/08/2014 - Wilson Dias (O legado da Copa)
Terça-feira – 12/08/2014 – Fernando Rebelo (Ouro Preto)
Quarta-feira – 13/08/2014 – Dorys Daher (Função e Estética)
Quinta-feira – 14/08/2014 – Alberto Ruy (Palácio do Planalto)
Sexta-feira – 15/08/2014 – Edemar Amorim (Equação Meio Resolvida)

Vai ser um sucesso!



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br



---Artigo2014 ---Convidados


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05/08/2014

A ÉTICA DO ALUNO
(Claude Pasteur Faria)

Vivemos, no Brasil e em grande parte do mundo, tempos sombrios em termos de respeito a valores éticos e morais. O que mais impressiona nessa situação, lembrando uma frase atribuída a Martin Luther King, não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons. Quando estes se calam perante as injustiças e ignomínias praticadas por aqueles, abre-se a possibilidade de uma escalada sem fim de violência, corrupção e iniquidades.

O conceito de ética é – pelo menos para fins acadêmicos e de pesquisa – um pouco diferente e, poder-se-ia dizer, mais abrangente que o de moral, sendo esta entendida como o conjunto de práticas, usos e costumes vigentes em determinada sociedade. A ética é uma disciplina de índole científica, pertencente ao ramo das humanidades, que tem por fim pesquisar, investigar e explicar o porquê da existência de determinados comportamentos morais vigentes nos grupamentos que formam as comunidades humanas, das mais simples às mais complexas.

Penso que outra diferença entre ética e moral situa-se nos campos da objetividade e da subjetividade. Enquanto os costumes morais podem ser analisados de forma objetiva por quem quer que sobre eles se debruce, o comportamento ético é eminentemente subjetivo e individual – impossível falar em ética “coletiva”. Os coletivos não são dotados de racionalidade; diz-se que as massas são amorfas e ignorantes. Por outro lado, o comportamento ético exige reflexão e introspecção, próprias de um ser racional, que, no seu íntimo, analisa as situações e define os comportamentos mais adequados a cada uma delas.

O exercício de atividades profissionais, de modo geral, e, em especial, de profissões para as quais a lei exige habilitação e formação técnicas, está sujeito a constrições éticas. No Brasil, a fiscalização dessas profissões ditas regulamentadas é feita por entidades especiais denominadas Ordens ou Conselhos. Tais entes possuem natureza pública, apesar de não estarem sujeitos à supervisão ou controle do Estado; são geridos de forma autônoma pelos próprios profissionais que os constituem.

No caso das profissões de Engenharia, Agronomia, Geografia, Geologia e Meteorologia, bem como as das áreas de tecnologia e de nível médio que lhes são afins, a fiscalização da ética profissional é procedida pelos Creas – Conselhos Regionais de Engenharia e Agronomia, com base em Resolução publicada pelo Confea – Conselho Federal de Engenharia e Agronomia.

Contudo, o disciplinamento ético dessas profissões deve começar na base, ou seja, nas faculdades e universidades que formam os futuros profissionais. Muitas escolas se preocupam com essa formação e incluem nos seus currículos disciplinas ligadas à apresentação de conceitos éticos e morais relacionados com o exercício profissional.

Algumas universidades possuem seus próprios códigos de ética, com preceitos que devem ser seguidos por professores, alunos e servidores. Quanto aos alunos, a par de respeitarem esses códigos de conduta, é necessário que compreendam as implicações negativas que podem advir da prática de comportamentos antiéticos durante sua passagem pelos bancos escolares.

O ato de “colar”, infelizmente tão arraigado na nossa cultura, além de ser antiético, prejudicando os demais colegas, traz prejuízos ao próprio aluno e, principalmente, à escola, que não terá parâmetros efetivos para avaliar de forma eficiente a qualidade do ensino que fornece. Essa prática é duplamente enganosa: ilude os mestres, que acreditam estar fazendo um bom trabalho; e o próprio aluno, que pensa obter vantagem inexistente – é uma forma de autoengano.

Sendo a escola uma representação em escala menor da própria sociedade, os comportamentos éticos e morais vigentes nesta devem ser reproduzidos naquela, o que inclui o justo tratamento que se deve dispensar a todos os seres humanos, evitando provocar-lhes dor e sofrimento. Com isso, a verdadeira ética repudia os trotes violentos e as humilhações que são impostas aos calouros pelos veteranos.

Poderíamos discorrer sobre inúmeros outros comportamentos antiéticos condenáveis que são praticados no ambiente escolar, mas falta-nos espaço para tanto. A mensagem final que gostaríamos de transmitir é que a ética é um constructo, uma práxis, uma vivência, que não se aprende apenas nos livros, mas com a própria existência e condição humanas.

Viver eticamente é fazer o bem e evitar o mal. Alunos éticos provavelmente serão profissionais éticos. O inverso, infelizmente, também é verdadeiro.



CLAUDE PASTEUR DE ANDRADE FARIA
Engenheiro Eletricista e Advogado - Procurador Chefe do Crea-SC
claude@crea-sc.org.br

Comentário do Ênio Padilha

O colega Engenheiro (e advogado) Claude Pasteur apresenta A MELHOR PALESTRA SOBRE ÉTICA PROFISSIONAL QUE EU JÁ ASSISTI. Ele consegue com maestria conduzir a plateia pelo emaranhado de conceitos que muitas vezes nos deixam confusos, até nos levar à clareira do entendimento.
Quando você tiver oportunidade de assistir a essa palestra, não perca a oportunidade.

Na segunda-feira pedi a ele que escrevesse um artigo (para o site) sobre Ética direcionado a estudantes universitários de Engenharia e Arquitetura. Ele prontamente nos atendeu.
Espero que os nossos leitores universitários tenham desfrutado essa oportunidade.

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