Piet Mondrian/Pintura nº4/Composição 3 (1913)
(Fonte: Gemeentemuseum Den Haag, Holanda)

Notas de "Autor Convidado"

04/07/2016

PARA QUE SERVE UMA PALESTRA?
(Lígia Fascioni)


LÍGIA FASCIONI
www.ligiafascioni.com.br





Dia desses, ao saber que viajo frequentemente ao Brasil para ministrar cursos e palestras para empresas, uma pessoa me perguntou: ok, cursos eu entendo que as empresas contratem, elas precisam dar treinamento para seus colaboradores desenvolverem novas habilidades. Mas por que alguém pagaria por uma palestra?

Boa pergunta, viu? E muita gente tem a mesma dúvida; então vou tentar responder o melhor que puder.

Bem, em linhas gerais, existem três tipos de palestras corporativas: as motivacionais, as biográficas e as informativas*.

As motivacionais são aquelas onde o palestrante transforma o senso comum em show. Elas servem para inspirar os colaboradores, fazer com que eles repensem seu dia-a-dia, mas não trazem informações novas; a base é o entretenimento. Nesse caso, vale tudo: teatro, música, performances, dinâmicas, piadas, desafios, cenários, etc.

As biográficas são histórias de vida contadas por alguém que teve uma experiência especialmente interessante. Geralmente são apresentadas por pessoas famosas, empresários bem-sucedidos, sobreviventes de catástrofes, aventureiros, pessoas com talentos especiais, atletas, jornalistas, artistas, escritores, enfim, expoentes em alguma área.

As informativas (onde me encaixo, pois não tenho talentos especiais nem sou famosa…rs) são palestras que compartilham algum tipo de conteúdo técnico, mas apresentado de maneira acessível e atraente aos leigos. São específicas para determinadas áreas e geralmente ministradas por professores ou profissionais reconhecidos. A ideia é contextualizar o assunto e provocar na audiência curiosidade para saber mais e buscar aprofundamento. Por isso, nesse tipo de palestra, quase sempre são fornecidas referências adicionais (livros, vídeos, textos) que as pessoas podem procurar depois.

Essa classificação não é estanque e pode se misturar, mas penso que em linhas gerais, é isso. As palestras motivacionais e biográficas são as mais valorizadas em termos financeiros; talvez as pessoas gostem mais de shows e de saber detalhes da vida alheia… brincadeira! Penso que o verdadeiro motivo é porque o primeiro tipo exige um enorme talento artístico para transformar eventos banais do dia-a-dia em grandes espetáculos transformadores; tem que ser muito bom mesmo. E gente famosa ou com vida extraordinária, além de rara, sempre é fonte de curiosidade.

Mas vamos falar um pouco mais sobre o valor das palestras informativas. A pergunta era: para que elas servem mesmo?

Minha resposta taxativa: para economizar o tempo e o dinheiro das empresas e dos participantes.

Vamos pensar: para apresentar o assunto tratado, o palestrante terá que ter feito muitos cursos sobre o assunto, comprado/lido/estudado dezenas de livros e trabalhado bastante sobre as ideias de vários autores até concluir alguns pontos que tornem esse conhecimento útil para ser aplicado na vida real. O próximo passo é arquitetar uma maneira de apresentar os fundamentos e as conclusões de maneira clara, didática, rápida e, principalmente, atraente; tudo isso em algumas dezenas de minutos (palestras costumam ter, no máximo, 90 minutos). Quanto mais curta a palestra, mais difícil é estruturá-la, mais trabalho dá.

Imagina se cada participante tivesse que fazer todos os cursos, ler todos os livros e conhecer todos os autores só para ter uma ideia geral sobre determinado tema que ele ainda nem sabe se se é ou não relevante para a empresa, se a ferramenta ou método apresentados são ou não adequados aos problemas da gestão atual, se a abordagem é ou não interessante, pertinente ou oportuna para a realidade de seu mercado. Complicado, demorado e caro, né?

Então, para saber se valeu a pena a empresa pagar por uma palestra, ela deve pensar quanto dinheiro foi economizado e quanto valor foi produzido no evento.

Para evitar desperdícios e insatisfações generalizadas, é necessário que os organizadores cuidem de alguns aspectos; a negligência de um deles pode colocar tudo a perder.

— Certificar-se que o assunto interessa à plateia, que deve conseguir ver utilidade ou valor no tema.

— Verificar o nível de conhecimento dos participantes sobre o assunto para evitar que saiam sem nenhuma informação ou referência nova além das que já tinham; que pelo menos consigam ver a questão sob um ângulo que amplie sua visão.

— Informar-se sobre o palestrante; se domina o tema e se costuma apresentá-lo de maneira organizada e atraente, respeitando o tempo disponível.

— Cuidar para que a apresentação ajuste-se ao perfil e à linguagem do público.

— Preparar o ambiente para que ele favoreça a comunicação.

— Observar se o momento é adequado.

Por motivos óbvios, acredito fortemente que palestras são fontes de valor e podem trazer muitos benefícios para as empresas de uma maneira rápida e relativamente barata. Basta que a contratação seja adequada e observe os fatores acima.

De minha parte, adoro assistir palestras tanto quanto compartilhar as coisas que aprendo.

Para mim, um excelente investimento, especialmente em tempos de crise. E para você?





LÍGIA FASCIONI nasceu em Florianópolis. É Engenheira Eletricista (UFSC, 1989), Mestre em Engenharia Elétrica na área de Automação e Controle Industrial (UFSC, 1996), Especialista em Marketing (UDESC/ESAG, 2000) e Doutora em Engenharia de Produção e Sistemas, na área de Gestão Integrada do Design (UFSC, 2003). Atualmente mora em Berlin, na Alemanha.

Visite o website www.ligiafascioni.com.br

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27/06/2016

A PALAVRA É: URBANIDADE
(Jean Tosetto)


Existe uma diferença fundamental entre ser urbano
e ter urbanidade.




JEAN TOSETTO
www.jeantosetto.com





Quando o CAU – Conselho de Arquitetura e Urbanismo – foi criado mediante lei federal, no apagar das luzes do mandato do presidente Lula, todos os arquitetos brasileiros passaram a ser denominados oficialmente como “arquitetos e urbanistas”. Desde então, somente os arquitetos – e urbanistas – poderiam ser responsáveis pelo planejamento das cidades, como se especuladores imobiliários e agentes políticos não tivessem nada com isso.

A realidade é bem diferente, e não pode ser consertada com uma simples canetada. No mundo das leis o Brasil deveria ser um país maravilhoso, e nós sabemos que não é por uma razão muito simples: não falta ao povo brasileiro arquitetos e urbanistas, falta ao povo brasileiro gente com urbanidade.

O que é urbanidade?

Lendo os dicionários vamos saber que urbanidade é sinônimo de afabilidade, cordialidade – condições típicas de pessoas que agem com delicadeza, atenção, polidez.

Temos a tendência de atribuir a falta de urbanidade às pessoas que não moram nas regiões urbanas. Relacionamos preconceituosamente aos sertanejos, caipiras e matutos um jeito bruto de se comportar, com a falta de modos à mesa, por exemplo. Mas hoje em dia é mais fácil encontrar gente com urbanidade na roça do que nas cidades.

Pode apostar sua lapiseira laranja ponta 0.9 mm de que a origem do azedume e da malcriação de muita gente que você conhece pode ser parcialmente debitada ao advento do automóvel. Que máquinas podem ser mais intrinsecamente relacionadas com as grandes cidades do que os carros? As metrópoles estão coalhadas deles.

Não se culpe por gostar de carros, pois eles também são conhecidos como uma expressão de liberdade, que aparentemente conferem aos seus condutores e passageiros, pretensa mobilidade entre cidades e regiões.

Sobre o comportamento ao volante de um carro, o saudoso jornalista Expedito Marazzi já escrevia em 1965, no “Guia Prático do Motorista”, sobre a súbita mudança de humor das pessoas, assim que engatavam a primeira marcha.

Nesta interessante publicação distribuída por uma rede de postos de combustíveis, o autor retratava que verdadeiros cavalheiros – distintos gentlemen – poderiam se tornar bestas humanas dentro de seus possantes, agindo de modo agressivo e desrespeitoso com pedestres e demais veículos, devido à autossuficiência e o sentimento de superioridade transmitido pelos carros.

Cinco décadas depois, podemos afirmar que muita gente continua agindo com deseducação mesmo depois de desligar a chave de contato. Talvez a explicação disso esteja no fato de que as pessoas passem cada vez mais tempo dentro de automóveis, a caminho do trabalho ou do estudo.

Aquele imbecil de quatro costados que trafega pelo acostamento de uma via congestionada, fechando você lá na frente, é o mesmo sujeito que apoia os pés perto da sua nuca, na poltrona do cinema. Já o sujeito que buzina na sua traseira, antes mesmo do sinal de trânsito ficar verde, é o mesmo cara que não presta atenção quando você lhe explica um procedimento burocrático, pelo qual você será cobrado pela morosidade de terceiros lá na frente.

Para a falta de urbanidade não existem projetos de urbanismo milagrosos. A grande ilusão que os arquitetos – agora também urbanistas – podem nutrir, é que das suas pranchetas sairão obras capazes de mudar o comportamento das pessoas. Um arquiteto não deve projetar nada pensando no homem ideal, mas deve projetar tudo que seja ideal para o homem.

Urbanidade é uma questão de educação, não de urbanismo.






JEAN TOSETTO é arquiteto e urbanista formado pela PUC de Campinas. Desde 1999 realiza projetos residenciais, comerciais, industriais e institucionais. Em 2006 foi professor da efêmera Faculdade de Administração Pública de Paulínia. Publicou o livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” em 2012 e o livro ARQUITETO 1.0 em parceria com o Eng. Ênio Padilha em 2015.

Visite o website: www.JeanTosetto.com
Faça um contato com o autor: jean@tosetto.net




a imagem que ilustra este artigo (no topo) foi retirada do famoso desenho animado da Disney (Motor Mania, 1950) que tem tudo a ver com este tema. Veja AQUI

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25/05/2016

COMO CONQUISTAR A CONFIANÇA DE UM CLIENTE
EM UM PRIMEIRO ENCONTRO?
(Dorys Daher)


DORYS DAHER
dorysdaher@hotmail.com






Na realidade nunca podemos ter certeza do sucesso do nosso primeiro encontro com um possível cliente. Se ele foi indicado por alguém que já conhece nosso trabalho, é fato que ele terá vindo com outra receptividade, mesmo assim não temos a certeza do sucesso desse encontro - entendendo-se como sucesso, nesse caso, o prosseguimento de uma negociação visando a contratação de nossos serviços.

Se por um lado a experiência nos ensina a lidar com a diversidade das pessoas, nos surpreenderemos com fatos em que nenhum raciocínio lógico pode explicá-los. São fatos emocionais. E se são emocionais não temos como compreendê-los. Percebemos que às vezes falamos “A” e o outro entende “B” ou vice-versa! Existem ditados populares que dizem que: “o Santo não cruzou” ou que “a química não deu certo” Não podemos deixar de considerar esses aspectos, talvez sobrenaturais e que não me sinto apta a desvendá-los, porém, sei da existência deles. O imponderável... no máximo podemos registrar a sua influência. Muitas vezes seguimos todos os itens de “como manda o figurino” e o resultado é péssimo!E o contrário também é verdadeiro!

Certa vez me dirigi a um possível cliente com um formal “Sr.” na frente do nome dele:“Como está, Sr. Willy”? E ele me respondeu com voz firme que eu havia o ofendido e que não gostou do meu tratamento formal a ele. Achou que foi feita uma brincadeira irônica com a idade dele!
Nem precisa dizer que nosso encontro acabou ali mesmo! Não houve nem primeiro, nem segundo encontro - houve apenas um início de encontro! Estranho, não? Pois é; coisas assim, por vezes, acontecem... paciência ... devemos prosseguir sem sentimento de derrota e sem questionar muito! Quando questionamos muito, talvez não encontremos respostas e a falta de resposta pode nos frustrar.

É evidente que quando vou ao encontro de um novo cliente, imagino como ele será e certamente ele pensa a mesma coisa de mim...Pensando nisso procuro seguir os mandamentos básicos com cuidado. Imaginar coisas não resolve muito, mas pode nos ajudar a fazer um breve exercício com base na PNL (programação neurolinguística).

Ensaiar determinadas situações, nos ajuda a diminuir a ansiedade. Por mais que tenhamos experiência, sempre temos alguma dúvida sobre o nosso comportamento, afinal de contas somos humanos e não podemos esquecer que por mais que nos apresentemos fortes, podemos fraquejar. Somos ora mais confiantes e ora menos confiantes. Estamos sujeitos a algumas variações no nosso dia-a-dia que fazem com que venhamos a agir de forma distinta da que gostaríamos. Querer se mostrar seguro é mais negativo do que mostrar-se realmente inseguro.

Acredito que não exista uma fórmula para o sucesso desse primeiro encontro. Como se portar nesse primeiro encontro? Sou adepta da espontaneidade, da honestidade nas palavras e da boa apresentação! São apenas três pontos, mas que reúnem tudo! Seja para recebê-lo em nosso escritório ou para ir ao encontro dele em outro local.

No primeiro encontro a gente pisa devagar num terreno que pode ser minado ou não, mas, aos poucos, vamos ganhando confiança e podemos nos soltar de forma segura sem perder a responsabilidade de um encontro profissional.

O relacionamento entre cliente e o profissional é uma questão muito delicada e também surpreendente. Às vezes temos absoluta certeza de que fomos perfeitos na nossa entrevista e nunca mais ouvimos falar daquele cliente. Nunca mais! Foi como se a entrevista não tivesse existido! O contrário também é verdadeiro. Saímos da entrevista certos de que o cliente não nos dará um retorno, pensando:“onde foi que errei, será que falei demais, será que falei de menos?” e já convencidos do insucesso, formulamos alguma frase de “auto ajuda”. Mas qual não é a surpresa ao recebermos um telefonema desse mesmo cliente dizendo que adorou o encontro e que quer receber uma proposta imediatamente para iniciar o trabalho. Entrevistas iniciais apresentam resultados imprevisíveis.

Hoje tenho adotado novos hábitos na primeira entrevista. Sei da minha obrigação de ir ao encontro do cliente e ver sua necessidade in loco. Porém, atualmente tenho procurado fazer o primeiro encontro em meu escritório, de forma que algumas questões importantes como credibilidade e empatia possam ser melhor avaliadas. Dessa forma, o cliente pode fazer uma “radiografia” da minha pessoa, do meu escritório, dos meus trabalhos e, da mesma forma, essa observação é feita por mim em relação a ele. Caso primeiro encontro tenha sido bem sucedido, aí então haverá uma reunião no ambiente a ser alvo do nosso trabalho.

Por vezes o cliente não está realmente interessado na contratação de um arquiteto. Quer apenas marcar um encontro para ver como é que é um “ arquiteto”. Como é que é essa “figura” do arquiteto, será que ele não poderá me dar umas dicas e eu, quem sabe, posso aproveitar a vinda dele aqui? Ou seja, é uma consultoria gratuita que o cliente quer. Aproveita a nossa visita para fazer um questionário de dúvidas que ele acumulou e muitas vezes já se basta com aquela “consultoria”, a qual não fui capaz de negar. A nossa paixão, dos arquitetos, por responder e tirar as dúvidas do cliente muitas vezes nos cega e nos faz perder a vez de uma consulta remunerada que em vários casos é mais do que suficiente. Era tudo que o cliente precisava!

Depois da conquista do cliente, não podemos esquecer dos outros encontros que virão e que serão vários. É comum ouvir de um cliente que o arquiteto no começo foi muito simpático, se mostrou bastante eficiente mas que, depois, abandonou o cliente! É uma situação bastante desagradável. Problemas sempre existirão e o que não podemos é fugir deles, mas, para evitar que o cliente venha a fazer esse tipo de comentário, o adequado uso do telefone celular e do e-mail são bons aliados – o que será objeto de outro artigo.

Muitas vezes nos surpreendemos com pessoas muito sorridentes e muitas vezes com pessoas extremamente sérias. Penso sempre que devemos esperar o cliente se manifestar para depois agirmos. Às vezes chegamos sorridentes e informais e somos obrigados a recolher nosso sorriso imediatamente ao percebemos que o cliente está sério e formal. A situação contrária também acontece. O cliente sempre tem razão! Seria da minha parte um pouco de falta de personalidade? Total! Aliás, aprendi que a melhor forma de termos personalidade é não tê-la! O que significa que os nossos próprios valores estão acima de quaisquer circunstancias.

Em geral acho que a situação comedida é sempre melhor, para que, num segundo encontro, tenhamos a chance de nos abrir um pouco mais, afinal de contas, aos poucos vamos ganhando liberdade para sorrir e contar histórias. Histórias tristes jamais devem vir á tona, devemos contar sempre histórias positivas e mostrar o nosso conhecimento para o objeto em questão, arquitetura, afinal estamos fazendo o encontro para discutir esse assunto; o que não impede que , no encerramento da reunião, não possamos descontrair, abordando outros assuntos interessantes, mas não esquecendo de, sempre, dar um toque de humor.






DORYS DAHER é arquiteta e urbanista. Dirige o escritório DG Arquitetura, no Rio de Janeiro e é autora do livro Cimento Batom e Pérolas - Quem tem medo de Arquiteto?

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as quartas-feiras.

Faça um contato com a autora: dgarquitetura@dgarquitetura.com.br

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20/05/2016

ARQUITETURA, FELICIDADE e REALIZAÇÃO
(Jean Tosetto)


JEAN TOSETTO
www.jeantosetto.com





Mensagem em itálico recebida em 13 de maio de 2016, e respondida na manhã seguinte:

"Olá Jean, boa noite! Sou estudante do 3°ano do ensino médio, e como muitos estou naquela fase de dúvidas: 'O que vou fazer da minha vida'. Atualmente venho me debatendo com inúmeras perguntas, medos e inseguranças em questão do curso que pretendo escolher, que no caso é, Arquitetura e Urbanismo. Acho que os meus medos são baseados no pensamento de não dar conta do recado, das críticas alheias (nada construtivas) ou até mesmo da falta de incentivo da minha família. Tenho medo de não me adaptar ao curso, confesso que não sou a rainha das exatas e tão pouco sei desenhar muito bem, mas me esforço como posso e ainda assim sou apaixonada pelo curso. Na realidade não sei o verdadeiro sentido desse e-mail, entrei em seu site e vi um pouco do seu trabalho, dos seus conselhos aos estudantes e resolvi lhe escrever, talvez na vontade de receber um conselho ou até mesmo um incentivo."

"O que é ser um arquiteto para você?"

"Em que ou quem se espelhou para ser tornar o profissional que é?"

"Valeu a pena?"

"São tantas perguntas, mas que apenas uma resposta já me deixaria satisfeita: dizer que é feliz com a profissão que escolheu, porque é isso que quero ser, feliz! Independente de qual carreira seguir."

"Enfim, obrigada pela atenção e desculpe pelo tempo que lhe roubei e talvez pela indelicadeza de fazer tantas perguntas e até mesmo um desabafo."


Quer saber as respostas do arquiteto Jean Tosetto? Clique AQUI






JEAN TOSETTO é arquiteto e urbanista formado pela PUC de Campinas. Desde 1999 realiza projetos residenciais, comerciais, industriais e institucionais. Em 2006 foi professor da efêmera Faculdade de Administração Pública de Paulínia. Publicou o livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” em 2012.

Visite o website: www.JeanTosetto.com
Faça um contato com o autor: jean@tosetto.net

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12/05/2016

QUER UM AUMENTO?
(Série Clássicos da Lígia Fascioni)


LÍGIA FASCIONI
www.ligiafascioni.com.br





Vou confessar uma coisa: adoro ouvir pedaços de conversas quando estou em um café ou restaurante. Como escuto só partes da história, fico imaginando como se desenrola o resto.

Pois ontem me sentei numa mesa ao lado de dois rapazes de terno que discutiam sobre a necessidade de um aumento de salário. O pedaço que eu peguei foi esse aqui:

— Faz dois anos que estou nesse emprego e até agora não ganhei nenhum aumento.

— Você tem que pedir, senão eles não dão.

— Mas como vou pedir? Tem clima para isso não… fico nervoso, cara…

— Olha, a sua faculdade não aumentou? Então fala que está precisando de mais dinheiro… ou então explica que o salário não está dando, sei lá.

— Boa ideia. Mesmo assim, sei não se vai dar certo, meu patrão é meio pão duro…

Pois é, pão-duro ou não, se o sujeito tiver pelo menos dois neurônios e noções básicas de administração, o moço vai ficar mesmo sem aumento. E ele deve, inclusive, rever as amizades, pois os conselhos do amigo são péssimos; duvido que já tenha conseguido alguma coisa com esses argumentos brilhantes.



Uma coisa óbvia que nem todo mundo se dá conta é que, quando se contrata alguém, há um acordo. O contratado deve fazer determinadas tarefas e assumir algumas responsabilidades. Por esse valor que agregará à empresa, será remunerado de acordo com o acertado. E ponto. Se mesmo depois de anos as tarefas ou responsabilidades continuam as mesmas, por que o salário deveria mudar?

Não custa lembrar que estamos falando de aumento, não de reajuste, que é uma coisa completamente diferente: o reajuste existe para repor as perdas da inflação e para o salário continuar a valer a mesma coisa que valia na época da contratação. Quem negocia o reajuste é o sindicato da categoria; se não está negociando direito, é com ele que você tem que reclamar (você paga 2 dias de trabalho por ano para o sindicato, sabia?). Com o chefe você só pode negociar aumento, ou seja, mudança no seu contrato de trabalho.

Um porteiro, por exemplo, que seja sempre porteiro, mesmo que trabalhe 20 anos na mesma função, com certeza não merecerá aumento. Fazer bem o seu trabalho é o combinado; ser competente, atencioso, responsável, é o mínimo que se exige de alguém com esse cargo. O salário contratado para um porteiro é para pagar isso mesmo.

Com o rapaz do café, a história é a mesma. Se ele continua executando as mesmas funções de dois anos atrás, por que quer ganhar aumento? Para mudar o valor do contrato, é necessário que tenha havido alguma alteração no escopo. Mais responsabilidades, mais valor, salário maior. Senão, nada feito.

E a coisa pior que uma pessoa pode argumentar ao pedir a revisão do contrato (é exatamente isso que ele faz quando pede aumento) são suas necessidades pessoais. Já pensou, você vai comprar pão e ele está custando mais caro, sendo que o padeiro justifica que está precisando de dinheiro porque o filho foi fazer intercâmbio? O que você faz? Vai comprar pão em outra padaria, né? As contas do padeiro são problema dele, você não tem nada a ver com o intercâmbio do filho dele. Se ele precisa de mais dinheiro, invente pães mais caprichados, agregue mais valor. Choramingos não seduzem ninguém. Nem você, nem o moço do café, garanto.

A única coisa que justifica o aumento de preço é o aumento de valor do ponto de vista do cliente (sempre). A gente paga mais caro se acha que a coisa vale. Sabemos que essa percepção é bastante subjetiva, por isso é tão importante fazer a gestão da marca.

Profissionais que construíram uma marca bem consolidada podem cobrar mais daqueles clientes que conseguem perceber valor no que ele está entregando. Se o chefe do rapaz não está percebendo aumento de valor no trabalho dele, se ele não conseguir mostrar a diferença que está fazendo na empresa, não adianta mesmo se fazer de coitado.

Em resumo, quem está pagando é que decide se o preço é justo ou não. Se a outra parte discorda e acha que vale mais, convém prospectar outros clientes no mercado. Simples assim.

Mas o que me chamou atenção mesmo foi outro aspecto da conversa. É possível uma pessoa ficar dois anos inteiros fazendo exatamente o mesmo trabalho, sem ter tido nenhuma ideia original para acrescentar ao contrato ou assumido mais responsabilidades?

Pois é, agora só falta mesmo o moço colocar no currículo que é proativo…





LÍGIA FASCIONI nasceu em Florianópolis. É Engenheira Eletricista (UFSC, 1989), Mestre em Engenharia Elétrica na área de Automação e Controle Industrial (UFSC, 1996), Especialista em Marketing (UDESC/ESAG, 2000) e Doutora em Engenharia de Produção e Sistemas, na área de Gestão Integrada do Design (UFSC, 2003).
Atualmente mora em Berlin, na Alemanha.

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04/04/2016

CLIENTE E ARQUITETO: OS DOIS LADOS DA MOEDA
(Dorys Daher)


DORYS DAHER
dorysdaher@hotmail.com






Cada caso é um caso. Nada mais verdadeiro quando se trata de decodificar a alma do cliente, esse desconhecido. Uma das perguntas mais freqüentes que ouvi durante toda a minha vida profissional foi: “Como são os outros? São parecidos comigo?” Todos aqueles com os quais trabalhei ao longo dos anos sempre tiveram a curiosidade aguçada para o comportamento, os desejos, o modo de viver e as possibilidades financeiras do outro. “Você tem muitos clientes ricos? Tem muitos clientes VIPS?” Ou então, de forma bem humorada, querem saber: “Todo cliente é pobre como eu?”, “Todo cliente fica regateando no preço?” “Você me acha muito indecisa?”.

Para essa fantasia sobre o outro, espécie de voyeurismo saudável e natural, não há uma resposta fácil, pronta e acabada, porque há circunstâncias, situações, detalhes, sutilezas que vão fazendo de cada cliente, uma pessoa única e singular.

Há traços gerais que definem os perfis clássicos da clientela. São tipos que podem ser enquadrados em algumas categorias e estilos com os quais o arquiteto precisa aprender a lidar, em suas inúmeras variações.

Júnior tinha uma enorme necessidade de dizer aos amigos que a idéia do projeto era dele. Afirmar uma autoria inexistente é uma forma de valorizar-se como pessoa e, ao mesmo tempo, deixar de reconhecer o trabalho do profissional. Na hora de pagar, sempre ficava certo constrangimento, como se aquele dinheiro fosse gasto desnecessariamente em um projeto que, afinal de contas, tinha sido feito “por ele”, Junior! Nesses casos, não adianta se incomodar. A relação pode deteriorar-se, caso o arquiteto não tenha segurança para compreender que as fantasias de autoria assemelham-se àquelas de um paciente que fica horas na internet pesquisando uma determinada doença, para discutir com seu médico particular. E depois diz triunfante: “Fui eu que descobri o que é que eu tinha!” No fundo, no fundo, o que Junior queria era ser autor e construtor de sua própria história e casa.

Alfredo era o oposto de Junior. Não dizia nada. Não manifestava qualquer desejo. Não indicava qualquer caminho. Deixava claro que cabia ao arquiteto adivinhar quais suas expectativas e necessidades, quais os seus gostos mais ocultos bastando, para isso, meia hora de conversa.

Clientes como Alfredo, testam a competência do profissional e escondem suas próprias idéias por receio, timidez ou malícia. Sabem perfeitamente o que querem. Mas não falam. Acreditam que o profissional está ali para dizer o que deve ser feito, como um pai-de-santo que, em transe, penetra na alma do consulente para desvendar seu passado, presente e futuro. E pobre do arquiteto que não treinar a mediunidade. Será visto, para sempre, como desinteressado, burro ou preguiçoso.

Há clientes como Nélson. Diante de qualquer sugestão, expandem-se em elogios, vibram, curtem, deliram. O profissional apresenta o projeto e eles se debruçam, embevecidos, sobre as folhas plotadas (termo atualizado para as antigas cópias heliográficas ou o enrolado de papel vegetal) elogiando cada detalhe, cada trecho, cada solução. Nélson ouvia encantado a descrição dos acabamentos, dos materiais a serem usados, das aberturas, da fachada. Tudo era perfeito, genial, mirabolante. Ficava dominado pelas idéias. Emocionava-se ao ver sua casa projetada sobre a mesa, pronta e acabada em sua imaginação. E concluía em êxtase “Você é minha Deusa”, o que me deixava dividida entre a felicidade e o constrangimento, porque esse perfil de cliente na realidade, não costuma entender muito bem o projeto apresentado.

A alegria com que recebem o layout é, para eles, um momento de deslumbramento. São cheios de entusiasmo, de alvoroço e paixão. Quando esses têm muito dinheiro, são esbanjadores, gastam sem culpa e formam uma parceria única e inesquecível com o arquiteto. Para eles, não há limites ao prazer de viver, em todas as suas dimensões. É o sonho de todo arquiteto.

Alguns clientes só chamam o arquiteto no último minuto do segundo tempo. Quando o bandeirinha já está assinalando para o juiz que é a hora de acabar o jogo.
Vilma e Artur tentaram resolver, sozinhos, o problema da reforma. Durante semanas discutiram, brigaram e não conseguiram encontrar a solução ideal para a ampliação da sala e a construção de uma suíte para os hóspedes. Quando todas as suas idéias se esgotaram, decidiram chamar um arquiteto. Na primeira entrevista, informaram logo: “Idéias nós temos. Muitas. E são todas espetaculares. Mas não se encaixam na reforma! Queremos, apenas, que você resolva o problema!”.

Para eles, estava muito claro que chamavam um profissional como último recurso, o salvador. Achavam-se capacitadíssimos para criar projetos “geniais”, conceber layout fantásticos, imaginar detalhes formidáveis. Agora, queriam um mágico para tirar o projeto da cartola, ao som de orquestras. Ninguém poderia ser mais competente que eles. Apenas não lhes tinha ocorrido, ainda, a solução correta. E ponto final.
Há clientes que acreditam que arquitetura é lazer. Portanto, nem ouso agendar, durante o horário comercial, um encontro para mostrar o meu projeto em seu escritório. “Nem pensar. Estou trabalhando, não posso discutir com você, agora!” Ele não imagina que o arquiteto também é um profissional com horário a cumprir, casa, família, obrigações. As entrevistas serão marcadas às dez horas da noite, nos sábados, domingos e feriados. Existem clientes que acham que avaliar o projeto é como ir ao teatro, ver televisão ou curtir um cinema. Assim, acabam estendendo o encontro até à meia-noite.

Há o homem solteiro ou recém-divorciado, empresário que pretende reformar o apartamento e recomeçar a vida. Ele não questiona nada. É rápido, objetivo, determinado. A casa deve cumprir sua função e nada mais. Quer execução, eficiência, impessoalidade. Detesta que o importunem com questões sobre que tipo de acabamento e revestimento usar; preocupa-se com a qualidade das instalações e o resultado final. Não tem tempo para perder com nenhum detalhe. Delega competência para que o arquiteto decida por ele, desde que tudo seja feito de forma rápida e profissional. O mesmo se pode dizer em relação à mulher bem sucedida profissionalmente. Solteira ou não.

No lado oposto, está o detalhista. Cada etapa do projeto e sua execução são debatidas durante horas e, por vezes, dias. Quer saber por que foi escolhido esse material e não aquele e qual diferença existem entre um e outro, quem está usando isso ou aquilo, por que, quando e como e onde determinado tipo de mármore pode ser encontrado - “eu vou passar lá para ver!”. A mulher dele não abre a boca. Não fala nada. Não dá palpite. Apenas nosso minucioso cliente decide, sugere e pede mil explicações.

Há os analisados. Esses sabem o que querem e quanto vão gastar, ou até onde podem chegar. Escutam, questionam, ponderam. São, em geral, muito bem informados, de alto nível intelectual e formam uma idéia clara e exata da profissão e da função do arquiteto na sociedade. Graças a Deus!

Outros, como Suzana, “alugam” o profissional e o elegem como uma espécie de psicanalista particular. Ligam para falar de tudo, menos do projeto. Contam a história da babá, do cachorro, do marido, dos filhos, da cunhada e até do que está faltando na geladeira. Não são objetivos, nem querem ser. Ocupam o arquiteto em tempo integral. “Afinal – pensam - ele está ali para me ouvir”. Precisam de atenção. Precisam de um amigo para escutar as suas angústias, seus medos, suas carências. O resultado é que o trabalho se estende por um tempo muito maior do que deveria, porém não deixa de ser realizado.

Suzana telefonava, em pânico, para dizer: “Não faço nada sem você!” Era dependente assumida. Tinha pavor de ser obrigada a decidir qualquer coisa sem a presença do profissional. Do projeto, estendeu as consultas à sua vida pessoal. Ligava para perguntar como receber os pais do noivo, que vestido usar, que serviço de buffet escolher, qual vinho servir. E qual a cor do saco de lixo que vai compor o visual da área de serviço.

Há os dependentes camuflados. Mostram-se auto-suficientes, mas entram em pânico quando o arquiteto diz que vai viajar. O telefone não para de tocar e os possíveis imprevistos passam a ser determinantes:
“E se... o pedreiro faltar?”
“E se... o marceneiro não entender a planta?”
“E se... o espelho quebrar (sete anos de azar)?”
“E se chover? E se fizer sol?”
“Padecem da síndrome do e se...?”

Tudo será problemático, mesmo sabendo que o trabalho continuará. Existem outros profissionais encarregados pelos projetos e pelas obras, trabalhamos em grupo e o escritório não pára. . E o pior é que se existe um por cento de chance da “coisa” dar errada, isso certamente irá acontecer.

No fundo, ou talvez “bem na superfície”, me sinto feliz por serem tão dependentes assim. Já pensaram como eu me sentiria caso o telefone não tocasse...? Gosto de reclamar! Lidar com pessoas tão diversas exige maleabilidade e prazer em escutar o outro.

É um exercício de empatia. Saber tratá-lo como ele quer e merece vai depender da capacidade de percepção do arquiteto. Nem sempre temos sucesso. Tenho clientes com os quais só posso me aproximar na base do humor, da brincadeira, da informalidade. Quanto mais extravagantes, sonhadores e engraçados formos, mais nos entendemos, mais o trabalho rende.

Há outros que exigem uma postura circunspecta. Para eles, qualquer brincadeira soa como desrespeito e falta de profissionalismo. Acendem o sinal vermelho a qualquer deslize de humor. Desconfiam que possam estar na mão de amadores. Se isso acontecer, aí pode ser o caos. Em um outro encontro - se houver! – uma mudança de abordagem é fundamental.

Apesar do humor, por vezes caricatural, com que me refiro aos personagens presentes na vida de um arquiteto, a verdade é que são eles minha fonte de energia. São eles que me envolvem, me fazem vibrar, me enchem de alegria e me alimentam de afeto. Essa troca de fluidos dinamiza o cotidiano, quebra a rotina, dá brilho ao dia-a-dia.

Sinto-me à vontade para contar muitas histórias ao longo da minha experiência. Sei que o relacionamento entre cliente e arquiteto é bastante interessante.

Essa foi a vida que escolhi. Meus clientes e eu somos os dois lados de uma só moeda.





DORYS DAHER é arquiteta e urbanista. Dirige o escritório DG Arquitetura, no Rio de Janeiro e é autora do livro Cimento Batom e Pérolas - Quem tem medo de Arquiteto?

Nesta série que estamos publicando neste segundo semestre de 2014 teremos 10 artigos que serão publicados todas as quartas-feiras.

Faça um contato com a autora: dgarquitetura@dgarquitetura.com.br

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19/02/2016

EVOLUIR, MESMO COM AS VACAS MAGRAS
(Jean Tosetto 06/12)



Arquitetos, na condição de empresários ou profissionais autônomos, devem saber conviver com eventuais períodos de estiagem em suas fontes de renda, pois eles são tão inevitáveis quanto úteis para a reinvenção da carreira.




JEAN TOSETTO
www.jeantosetto.com





Com a secularização da cultura ocidental, cada vez mais pessoas deixam de considerar a Bíblia como uma fonte de sabedoria prática para o cotidiano, tratando esta publicação como um simples repositório de crenças religiosas, descoladas de nosso tempo e realidade. Mas o fato é que a leitura atenta e crítica da Bíblia sempre será uma confiável maneira de buscar orientação para enfrentar os desafios da vida.

Logo nos primeiros livros do Antigo Testamento lemos a história de José, vendido por seus irmãos como um escravo que foi parar no Egito. Graças à sua capacidade de interpretar sonhos José foi apresentado ao Faraó, que havia tido uma visão de sete vacas gordas que foram devoradas por sete vacas magras. José declarou, então, que o Egito teria sete anos de prosperidade que seriam seguidos por sete anos de miséria e seca, e aconselhou o regente a construir uma série de armazéns para estocar mantimentos.

José ganhou um alto posto de confiança na hierarquia do governo egípcio e, quando o tempo das vacas magras finalmente chegou, várias nações vieram até o Egito pedir socorro, uma vez que este era o único país a ter reservas de alimentos. Com a venda sistemática do excedente de sua produção para outros povos, os egípcios prosperaram ainda mais em meio a uma crise generalizada.

Se esta história não lhe servir de inspiração, então você pode considerar a Bíblia como um livro ultrapassado. Porém, os conservadores mais atentos vão tirar uma boa lição desta narrativa, especialmente aqueles que não possuem renda fixa ou emprego numa grande estatal.

O arquiteto, enquanto empresário de si mesmo, seja como proprietário de escritório ou como profissional autônomo, possui rentabilidade sazonal, sujeita aos bons e maus momentos da economia de um país. Existem épocas nas quais o trabalho parece lhe roubar todo o seu tempo, lhe exigindo dedicação total ao ofício. Em compensação, acontecem períodos de menor movimento na atividade, enquanto que as contas fixas continuam chegando.

Parece óbvio, mas muita gente ignora isso: um arquiteto precisa ter um padrão de vida adequado à sua renda mensal média, de modo que ele consiga poupar dinheiro trabalhando sempre no azul. O súbito sucesso na carreira pode ser prejudicial ao arquiteto mais jovem, que acredita que a boa fase será permanente e assume compromissos que resultam na promoção de seu status social. O carro popular 1.0 é trocado por um sedan com potência dobrada, o dono do restaurante vira seu amigo, tamanha a sua frequência no lugar, e as roupas ficam menos tempo no armário. Sem reservas e com um padrão de vida caro, este arquiteto vai passar maus bocados quando a fonte de projetos secar por uns tempos.

Já o arquiteto precavido usará o tempo das vacas magras para se reinventar. De que maneira? Estudando, lendo, viajando, pesquisando outros mercados e outras cidades, investindo em atividades lucrativas paralelas. Em suma: fazendo tudo aquilo que não tinha tempo para fazer enquanto estava mergulhado na fase das vacas gordas. Nas vacas magras o arquiteto precavido pode cuidar melhor da sua saúde e passar mais tempo com a família, ao invés de aceitar aqueles trabalhos chatos, de pouca rentabilidade e de grande risco, que ele costumava recusar sem pestanejar quando estava ocupado demais.

A propósito, uma grande tentação em tempos de vacas magras para um arquiteto, é aceitar executar um serviço que não seja exatamente de sua alçada, como regularizar uma obra clandestina, por exemplo. Para quem gosta de criar e desenvolver projetos do zero é muito enfadonho se entreter com análises de leis e normas, procurando uma brecha para acertar algo que o dono da obra sabia que estava errado desde o princípio. São justamente esses donos de obras clandestinas que costumam torcer o pano na frente do arquiteto, lhe rebaixando o valor pedido pelo trabalho.

É engraçado notar que, na época das vacas gordas, até os arquitetos menos engajados conseguem serviço. Porém, os arquitetos empenhados sabem que não podem relaxar mesmo assim, pois quando as vacas magras chegam ao pasto, somente os melhores arquitetos conseguem se sobressair. E quando estes conseguem se reinventar nos momentos de crise, eles se fortalecem ainda mais quando as vacas gordas voltarem, pois elas sempre voltam.





JEAN TOSETTO é arquiteto e urbanista formado pela PUC de Campinas. Desde 1999 realiza projetos residenciais, comerciais, industriais e institucionais. Em 2006 foi professor da efêmera Faculdade de Administração Pública de Paulínia. Publicou o livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” em 2012.

Visite o website: www.JeanTosetto.com
Faça um contato com o autor: jean@tosetto.net

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15/01/2016

O COMPROMISSO HISTÓRICO DA NAÇÃO BRASILEIRA É SER POBRE
(Alberto Costa)


ALBERTO COSTA
facebook.com/alberto.costa21





(Este texto foi escrito à propósito da nova regulamentação do ICMS que já está impactando seriamente as lojas virtuais, principalmente os pequenos negócios, como pode ser visto AQUI

O compromisso histórico da nação brasileira é ser pobre. Tem sido assim nos últimos 1000 anos e, se depender dos objetivos e meios consolidados pela Constituição "Cidadã" de 1988, continuará a ser indefinidamente. A menos que uma hecatombe ocorra, natural ou intencionalmente.

Por conta desse compromisso, todas as vezes em que um empresário, movido pelo impulso natural da geração de riquezas, descobrir um modo de fazê-lo de modo viável e sustentável, é compromisso desta nação criar obstáculos cada vez maiores a isso:

• Começamos por hostilizar a qualquer um que se tenha tornado rico, chamando-o de ladrão, opressor, explorador dos pobres, etc.; quanto mais dinheiro um empresário produza, tanto mais marginalizado se torna em nossa sociedade historicamente movida por inveja e despeito (disfarçados de "moral cristã", o que beira a blasfêmia);

• Criamos um sistema tributário sob medida para tornar impossível ou, no mínimo, extremamente caro, o cumprimento daquele objetivo básico de qualquer negócio legítimo: a retribuição, à sociedade, pelo pagamento de impostos, da "licença para empreender" (um negócio sem licença para empreender não é uma empresa, mas uma quadrilha, como as que traficam drogas ou as que traficam influência e poder, trazidas ao primeiro plano por operações da Polícia Federal nos últimos anos - são negócios que geram muita riqueza individual a um custo social altíssimo);

• Quando esse sistema não é suficiente para inviabilizar o surgimento de novos negócios e os investimentos feitos -- em tempo, dinheiro, inteligência e esforço físico e mental -- por parte dos empreendedores e seus colaboradores, então nós delegamos ao governo, em todas as instâncias, a responsabilidade de tornar o sistema ainda mais complicado e crescentemente inviável de ser mantido por parte das organizações empresariais.

Em passado distante algumas gerações, uma revolução foi tentada neste país, motivada por questões relativas ao abuso tributário. Infelizmente, ela foi liderada, à época, por um militar de baixa patente e profissional liberal e um bando de poetas. Deu-se a ela o sugestivo nome de Inconfidência Mineira - não podia dar certo uma revolução em que mineiros, contra sua natureza, cometessem inconfidências, falando demais e traindo a causa. Mas, também, revoluções feitas por poetas têm como destino criar mártires e histórias bonitinhas e trágicas para serem repetidas ad infinitum em escolas de ensino fundamental, mas não resultados econômicos duradouros.

Talvez devamos aprender com a História - ou os empresários deste país colocam "a faca nos dentes" ou vamos continuar fazendo revoluções de poetas com coração de estudante, o que fatalmente nos levará a cumprir nosso destino: sermos a maior nação pobre do planeta em algumas poucas décadas.





ALBERTO COSTA tem formação em teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo, em Marketing Estratégico pela UNISUL e em Gestão de Estabelecimentos Assistenciais de Saúde pela UNIVALI. É consultor associado à Flexy Negócios Digitais, empresa que desenvolve plataforma e presta serviços para negócios de venda online, especialmente B2B, e é conselheiro da Associação Brasileira do Comércio Eletrônico-ABComm/SC, além de fazer parte do Grupo Digital de Santa Catarina.

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Comentário do Ênio Padilha

Existem muitas maneiras de manifestar indignação com a carga tributária e com as ações do governo para atrapalhar o empresário. Mas poucas são manifestadas com beleza e sagacidade.
Este meu amigo, AC é um desses competidores da primeira divisão. Sinto orgulho de ser seu amigo e poder desfrutar da sua companhia e da sua inteligência.

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17/12/2015

SOBRE LIVROS E VAQUINHAS


Um livro custa muito mais do que o preço indicado em seu código de barras.
Não se trata de dinheiro, mas de sonhos que consomem incontáveis horas de trabalho para se realizarem.




JEAN TOSETTO
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Um dos presidentes mais vitoriosos da história do Santos Futebol Clube atende pela alcunha de LAOR, de Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro. Ele está percorrendo programas de TV e redações de jornais para divulgar sua biografia. Detalhe: ela não está concluída. O dirigente (que negociou a venda do craque Neymar por milhões de dólares) está divulgando o site que atua no sistema de crowdfunding para arrecadar o valor necessário para lançar seu livro.

Trata-se da famosa vaquinha feita pela Internet. Se vocês visitarem o link do projeto do LAOR (https://bookstart.com.br/laor) notarão o quão caro pode ser produzir um livro. No caso dele, mais de 35 mil reais.

Em verdade, o ex-presidente do Santos não quis bancar o risco de seu livro ser um fiasco de vendas. É compreensível. Tal risco fiz questão de correr sozinho, quando escrevi meu primeiro livro.

Quando estava trabalhando em "MP Lafer: a recriação de um ícone" recebi conselhos de alguns profissionais da área editorial para pedir um patrocínio. Resolvi seguir por conta própria, abrindo mão de comprar um carro mais novo, de viajar para a Europa com minha esposa, de trocar a mobília da minha casa. O sonho para mim não tinha preço e felizmente consegui recuperar o investimento feito na gráfica, depois de um ano e meio do livro lançado.

Por isso me senti valorizado quando a Editora 893 me convidou para escrever o manual do arquiteto recém-formado em parceria com o professor Ênio Padilha. Desta vez meu trabalho seria escrever, tão somente. A editora cuidaria de tudo. Minha justa remuneração seria receber uma parte dos exemplares da primeira edição.

Tais exemplares de "Arquiteto 1.0 - Um manual do profissional recém-formado" estão disponíveis AQUI.

E aqui chego num ponto importante: tenho amigos que me pedem exemplares de presente! Fico constrangido em falar que aqueles exemplares me custaram caro demais. Não estou falando de dinheiro, mas de horas e horas trabalhadas.

Quando alguém pede um exemplar de graça, para o autor de um livro, está quebrando um simbolismo. É como se pedisse para ele se sacrificar em dobro.

Por isso faço questão de pagar pelos livros de autores que conheço pessoalmente. Por exemplo, cito o livro de Mano Fromberg sobre a história de Cosmópolis.

Se as vezes recebo um livro de presente, de modo espontâneo, procuro retribuir de algum modo, escrevendo uma resenha para o meu site, como fiz com este lindo projeto da Adriana Lafer Rosset.

E sim, já contribui com vaquinhas para livros e documentários na Internet. Nada contra tal procedimento. Fico emocionado com as pessoas que tem coragem de expor seus sonhos e projetos para os demais.

No fim das contas, estamos aqui para nos ajudar mutuamente.





JEAN TOSETTO é arquiteto e urbanista formado pela PUC de Campinas. Desde 1999 realiza projetos residenciais, comerciais, industriais e institucionais. Em 2006 foi professor da efêmera Faculdade de Administração Pública de Paulínia. Publicou o livro MP Lafer: a recriação de um ícone em 2012 e é o autor do livro ARQUITETO 1.0 - um manual para o profissional recém-formado, lançado pela OitoNoveTrês Editora em 2015.

Visite o website: www.JeanTosetto.com
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02/10/2015

CRITÉRIOS PARA AQUISIÇÃO DE UM TERRENO
Jean Tosetto



A compra de um lote está longe de ser uma tarefa essencialmente científica, mas também não pode ser considerada como um ato trivial, como escolher a cor de uma camisa. A percepção de alguns fatores é decisiva para que se faça a opção correta.




JEAN TOSETTO
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Quando uma família resolve comprar um carro novo, inicia a pesquisa pelos modelos e preços que possuem em mente. As melhores concessionárias oferecem a possibilidade do chamado "test drive" - que em português significa "teste de direção" - onde o interessado no veículo experimenta as suas características mais significativas, como o conforto na posição de dirigir, a visibilidade exterior, a aceleração nas marchas lentas, entre outros aspectos. Mesmo que o comprador não seja um piloto de provas ou mesmo um mecânico, é sentindo o carro que se define pelo fechamento do negócio.

Na compra de um terreno deve ocorrer algo semelhante. Adquirir um lote apenas na planta pode ser como dar um tiro no escuro: mesmo que o alvo seja grande e esteja a pouca distância, existe a chance de errar. Quando o loteamento em questão já está definido, é imprescindível caminhar por suas ruas e conhecer de perto cada alternativa. Muitas coisas podem ser observadas: as construções vizinhas; a presença de árvores tanto na calçada como no interior do lote; assim como a presença de postes de iluminação e outros equipamentos urbanos, que podem ser bocas de lobo, placas de sinalização, entre outros.

Num lote estreito, muitas vezes um poste ou uma árvore na calçada pode direcionar a disposição interna da casa, restringindo a escolha do lado da garagem, por exemplo. O mesmo ocorre com bocas de lobo que captam as águas das chuvas que escorrem pelas guias e sarjetas do arruamento. Se o desejo é ter a maior tranquilidade possível, a presença de um orelhão em loteamento aberto certamente se tornará um transtorno, pois este tipo de telefone público é mais indicado para áreas comerciais. O mesmo se aplica aos pontos de ônibus - embora em loteamentos fechados e condomínios essa preocupação não exista.

As árvores também merecem atenção, pois suas raízes podem comprometer a estabilidade dos ramais de esgoto, caso sejam de uma espécie com previsão de muito crescimento. O ideal é que esta vegetação seja classificada como exótica, cuja origem não faça parte do ecossistema natural da região. Este dado facilita os eventuais pedidos para podas e retiradas junto às prefeituras, que costumam proteger as árvores que sejam nativas do local. Caso não existam árvores no lote em análise, é bom levar em consideração a escolha certa no plantio futuro, sempre consultando um engenheiro agrônomo ou uma paisagista.

A declividade do terreno não pode passar em branco. Lotes com perfil topográfico acidentado pedem projetos mais apurados na questão dos níveis dos pavimentos, para não encarecer a obra, evitando grandes movimentações de terra, seja com aterros ou desaterros. Dependendo desta movimentação, será necessária a construção de muros de arrimo, que por definição costumam ser onerosos. A caída do terreno não precisa ser necessariamente para frente, mas se ela for para os fundos, talvez seja melhor que a quadra tenha uma viela sanitária, que irá colher o esgoto e as águas pluviais, justamente para evitar a importação de um grande volume de terra.

Cabe observar as leis municipais quanto ao uso do solo, que determinam a porcentagem permitida para construção de cada pavimento, assim como os recuos e afastamentos obrigatórios de frente, fundos e divisas laterais. Nem sempre um lote considerado grande permite a construção de um imóvel com área elevada. No caso de loteamentos fechados e condomínios, as empresas ou associações de moradores que os administram podem arbitrar restrições complementares. Por vezes o recuo obrigatório frontal no município é de quatro metros, mas no loteamento fechado ele pode atingir cinco ou até seis metros.

Um pouco mais difícil para o leigo avaliar seria a posição do terreno em relação ao Sol. No período da tarde as construções tendem a ficarem mais quentes, devido ao acúmulo de exposição aos raios solares. Portanto, se um terreno for retangular, o ideal é que esteja orientado no eixo leste - oeste, o que reduziria as superfícies da obra banhadas pela luz e calor do Sol poente. Mas isto é muito relativo, pois construções vizinhas geralmente interferem nesta relação, através do sombreamento em função de suas partes mais altas. Pela mesma lógica se recomenda que dormitórios fiquem posicionados para o Sol nascente, ao menos nas cidades brasileiras abaixo da linha do Equador.

Um dado ainda mais difícil de obter - mas que pode auxiliar na escolha do lote - seria uma carta com a predominância de ventos na região. Mais uma vez as construções vizinhas interferem neste quesito. No entanto, quando se busca evitar a dependência de ar condicionado, é interessante observar se ocorrem ao menos brisas suaves no entorno, o que irá favorecer a ventilação natural da futura casa. Ainda sobre as construções vizinhas, vale a pena avaliar o seu padrão de acabamento e mesmo a qualidade dos serviços executados. Ninguém deseja ser vizinho de uma obra com problemas de diversas origens.

Por fim, existem os fatores subjetivos, difíceis de ponderar, mesmo que de modo empírico. São as visuais que o lote oferece, e o ambiente local, que pode gerar empatia, ou não, com as pessoas. Se não houver empatia, nenhum argumento positivo será válido o suficiente. Muitas vezes o loteamento ainda está em fase de lançamento, o que dificulta a análise do terreno que ainda está no capim. Nesse momento, não custa nada pedir para ver o projeto ou a maquete no plantão de vendas.

Vale lembrar: o auxílio de um arquiteto ou engenheiro será de grande valia, especialmente se este profissional estiver atuando na cidade em questão.

- Texto publicado originalmente em abril de 2009 no extinto site Conheça Paulínia.





JEAN TOSETTO é arquiteto e urbanista formado pela PUC de Campinas. Desde 1999 realiza projetos residenciais, comerciais, industriais e institucionais. Em 2006 foi professor da efêmera Faculdade de Administração Pública de Paulínia. Publicou o livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” em 2012.

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imagem, fonte: plantasdecasa.com

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