Notas de "BLOG DO ÊNIO PADILHA"

16/02/2019

30 ANOS DOS LOCH PADILHA



(Publicado em 16/02/2019)



Completei 60 anos no final do ano passado. E posso dizer que a minha vida foi dividida em duas metades bem distintas: os primeiros trinta anos e os trinta anos seguintes.

Os primeiros 30 anos eu passei trabalhando, estudando e me praparando para o que viria depois. Depois de Salete, uma pequena cidade no interior de Santa Catarina, onde morei por pouco mais de um ano e meio e encontrei o norte da minha vida.

Tive um novo começo de vida em 1989, quando me casei com a querida Áurea Loch e iniciamos a jornada de construção de uma família absurdamente linda. E esta família completa 30 anos neste 18 de fevereiro.

Se haverá festa? Claro que sim. Uma festa igual à que temos todas às vezes que nos reunimos para um café da manhã, um almoço ou jantar. Cada vez que estamos juntos, os 4 (o que agora não é todo dia, já que a Maria Helena mora à 180 km de distância) temos essas pequenas e revigorantes alegrias.

Eu já disse isso muitas vezes e voltarei a repetir outras tantas: se me fosse dado o poder de voltar no tempo, teria de ser, no máximo, no dia 2 de maio de 1993, um dia depois do nascimento da nossa segunda filha. Tudo o que veio depois poderia mudar, mas o risco de não ocorrer o que veio antes eu não poderia correr.

Nesses 30 anos com a Áurea, 29 anos com a Ana Clara e 25 com a Maria Helena... vou dizer uma coisa (e alguém pode até achar que estou exagerando, mas não estou): nenhuma das três me causou UM ÚNICO DIA de tristeza. Nenhum.

Se tive tristezas, tropeços, dificuldades nesses anos, vieram por outros caminhos. Elas, ao contrário, apenas foram minhas cordas, escadas e andaimes sobre os quais eu me sustentei para subir e avançar. Elas, as três, sempre foram minhas fontes de alegria, inspiração, conforto e segurança.

Agradeço a Deus todos os dias por isso, e, se me resta créditos com Ele, peço que me conceda mais um ciclo de 30 anos, para que eu possa seguir comemorando a vida ao lado desses três lindos presentes que Ele me deu. Amém.






PS. A imagem que ilustra o topo do nosso site neste fim de semana (16, 17 e 18/02/2019) mostra o local, em Salete, onde aconteceu o casamento, em 1989.



PADILHA, Ênio. 2019

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11/02/2019

QUE GRANDE FALTA FARÁ RICARDO BOECHAT



(Publicado em 11/02/2019)



Que ano terrível, meu Deus. Que perda horrorosa!

Esta foi a minha primeira reação quando soube, na conexão de São Paulo, vindo para Fortaleza, da trágica morte do jornalista Ricardo Boechat

Nos últimos dois ou três anos, para me manter atualizado e ouvir muitos lados de todas as questões, estou ouvindo muito rádio e acompanhado alguns canais de informação no Youtube. Gente de motivações e abordagens diferentes. Augusto Nunes, Eduardo Bueno, Reinaldo Azevedo, Marco Antônio Villa, Vera Magalhães, Wilian Waak, Carlos Andreazza, Fernando Mitre, Luiz Megali, Mirian Leitão, Alexandre Garcia... e assim, ouvindo todos os lados de cada situação, vou construíndo minha própria opinião.

Ricardo Boechat era um passagem diária no meu dia. Raramente deixava de ouvir o seu editorial no Jornal da Band News, às 7h30 de todas as manhãs. Era uma inteligência brilhante! Fazia análises precisas, provocações importantes e defesas monumentais (muitas vezes de coisas que ninguém mais defende no jornalismo).

Ricardo Boechat vai fazer muita falta. Pra mim e para milhões de brasileiros. Com certeza.






PS.: Por mim a gente já poderia virar o relógio e terminar 2019. Já deu.
Que venha 2020, porque este ano tá osso!



PADILHA, Ênio. 2019


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09/02/2019

A ENGENHARIA BRASILEIRA NO BANCO DOS RÉUS



(Publicado em 11/02/2019)



No excelente artigo ENGENHARIA, A ESPINHA DORSAL PARA O DESENVOLVIMENTO HUMANO, publicado no website do Confea, o presidente, Engenheiro Joel Krüger faz uma observação muito importante. Diz ele:



"Para reverter todo esse quadro é preciso que a Engenharia Nacional volte a ser pensada sobre os quatro pilares fundamentais: planejamento, projeto, execução e manutenção. Não existe Engenharia sem essas fases, que estão diretamente interligadas. Não se faz Engenharia sem planejamento prévio, sem os diversos projetos, do básico ao executivo, sem uma execução minuciosa e, claro, sem a devida manutenção preventiva."



O "quadro" ao qual o presidente se refere, e que precisa ser revertido, é a situação de descrédito à qual a Engenharia Brasileira está sendo submetida, à cada novo episódio que desgraça a vida nacional nas últimas décadas. Alguns exemplos:
• A queda do Edifício Palace, no Rio de Janeiro (fev/1998);
• As explosões na Plataforma P36 da Petrobras (mar/2001);
• A explosão do VLS-1 em Alcantara-MA (ago/2003);
• A explosão do avião da TAM (voo JJ3054) (jul/2007);
• O desmoronamento das obras do Metrô de São Paulo (jan/2008);
• O desabamento do teto de uma igreja em São Paulo (jan/2009)
• A queda de vigas de 85t de um viaduto em obras em São Paulo (nov/2009)
• A queda do edifício Real Palace, em Belém-PA (jan/2011);
• A queda de três prédios no Rio de Janeiro (jan/2012);
• O incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria-RS (jan/2013);
• A explosão seguida de incêndio num armazém em São Francisco do Sul-SC (set/2013)
• A queda do viaduto em Belo Horizonte-MG (jun/2014);
• A queda de parte da ciclovia Tim Maia, no Rio de Janeiro (abr/2015);
• O Incêndio no Porto de Santos (abr/2015);
• O rompimento da barragem em Mariana, em Minas Gerais (nov/2015);
• O incêndio do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo (dez/2015);
• O incêndio e dasabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, em SP (mai/2018);
• A queda do viaduto da marginal Pinheiros em São Paulo (nov/2018);
• O incêndio do Museu Nacional (set/2018);
• O rompimento da barragem em Brumadinho, em Minas Gerais (jan/2019);
• O incêndio que vitimou 10 jogadores sub15 do Flamengo (fev/2019)

Isso sem citar aqui os desastres naturais cujas consequências poderiam perfeitamente ser evitadas (ou reduzidas) com boa engenharia.

Em cada um dos desastres listados acima a Engenharia, em algum momento ou de alguma forma foi posta no banco dos réus e algumas vezes acabou sendo o destino das únicas punições conhecidas.

Quem me lê a mais tempo já sabe o que eu penso. Já escrevi diversas vezes sobre isso, sempre dizendo a mesma coisa: uma tragédia envolvendo Engenharia nunca ocorre por conta de UM erro de Engenharia, por mais grosseiro que seja. Sempre será uma soma de muitos erros e/ou omissões.

No entanto, por mais que eu me solidarize emocionalmente com o engenheiro, em qualquer uma dessas situações, não podemos tentar enganar ninguém: nesse tipo de ocasião (quando um prédio cai, por exemplo) a culpa é, sim, do engenheiro (de algum engenheiro).

A construção de edifícios com estrutura de Aço, Concreto Armado ou Alvenaria Estrutural é tecnologia dominada. Em muitos lugares se projeta e constrói edifícios de 50, 80, 100 andares em regiões sujeitas a terremotos... e os prédios resistem. Portanto, quando um prédio cai é porque alguma coisa (básica) não foi feita como deveria ter sido.

O problema pode ter sido na sondagem do solo. O estudo e análise do terreno pode ter sido negligenciado. Erro do Engenheiro ou do Geólogo responsável;

Se a sondagem do terreno foi bem feita e a análise do entorno foi correta, pode ter havido erro no projeto das fundações ou da estrutura do edifício. Erro do Engenheiro responsável!

Se o projeto das fundações foi bem feito e os cálculos estão corretos, pode ter havido erro de execução. As fundações ou as estruturas podem ter sido construídas de forma diferente do que estava no projeto. Erro do Engenheiro responsável pela execução da obra!

A execução da obra pode ter sido feita de acordo com o projeto, porém, utilizando-se materiais diferentes dos que foram especificados. Ou materiais de fornecedores duvidosos, que não estejam certificados por instituições confiáveis. Erro do Engenheiro Responsável!

A obra foi finalizada e tudo foi exetutado corretamente. Mas, obras de Engenharia não são feitas para durar eternamente. É necessário que sejam feitas manutenções, inspeções, avaliações de riscos. Isso é responsabilidade (intransferível) de Engenheiros. Sempre tem um engenheiro responsável pelo funcionamento de um elevador, de uma caldeira, de um edifício, de uma usina, de uma barragem, ponte, viaduto...

Pedreiros, carpinteiros, armadores, encanadores, eletricistas, carregadores, ninguém, absolutamente ninguém, além do engenheiro, tem responsabilidade sobre o que acontece numa obra (antes, durante e depois da sua conclusão). É tudo responsabilidade do Engenheiro. É tudo Culpa do Engenheiro!

Os médicos raramente são responsabilizados pela morte de seus pacientes que não receberam o melhor tratamento possível. Os advogados não vão presos com seus clientes que não receberam uma boa defesa. Um arquiteto não é condenado porque o prédio que ele projetou ficou feio, ou pega sol de mais ou vento de menos... Mas os engenheiros têm de viver com essa responsabilidade pela consequência. Seus erros são avaliados e medidos de forma OBJETIVA.

O prédio ficou de pé, firme, forte? Ótimo! Polegar pra cima!

O Prédio teve rachaduras? inclinou para o lado? A umidade tomou conta? teve vazamento na caixa d'água? Caiu?!? Perdeu!!! Polegar para baixo, como Cesar, no coliseu.

Daí a necessidade de a Engenharia Brasileira (aí representada pelos conselhos profissionais, as entidades de classe, os sindicatos e as universidades) tomar para si a reflexão sobre como ensinar isso aos jovens engenheiros: nossa responsabilidade é total. Não existe terceirização. Não existe justificativa aceitável para Engenharia mal feita.

Os políticos têm seus objetivos, os patrões têm suas motivações e suas metas econômicas... mas o engenheiro não pode perder de vista que a responsabilidade não será deles (dos políticos, dos empresários ou dos proprietários das obras). Será dos engenheiros. Sempre.

Neste ano de 2019, em que o Sistema Confea/Crea decidiu que o tema central do 10º Congresso Nacional de Profissionais (CNP) será ESTRATÉGIAS DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL temos uma janela de oportunidade para colocar essa questão sobre a mesa e discutir qual será a estratégia dos conselhos profissionais, das entidades de classe, dos sindicatos e das universidades para (1) fazer com que os engenheiros não descuidem dessas responsabilidades ao longo de todo o tempo que durar o seu exercício profissional e (2) fazer com que os titulares do poder (políticos, empresários e proprietários de obras) entendam que essa responsabilidade requer autoridade e remuneração adequadas.

A sociedade precisa confiar na Engenharia. Precisa se sentir segura de que a ponte não vai cair, o prédio não vai pegar fogo, a barragem não vai romper... desastre nenhum vai acontecer, porque tem algum engenheiro cuidando de tudo. O progresso do país depende disso.

Basta de desmandos. Basta de puxadinhos. Basta de improvisações. E que se comece pelas grandes obras e grandes interesses.








Leia AQUI os artigos que já foram publicados
nesta série sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.





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PADILHA, Ênio. 2019

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08/02/2019

É PRA VALER OU SÓ PRA CONSTAR?



(Publicado em 11/02/2019)



No fim, resta a dúvida: o TEMA CENTRAL escolhido pelo Confea para o 10º CNP será mesmo levado à sério? Ou é apenas um rótulo bonito para dar ao evento um lustro de erudição e comprometimento?
O tema será mesmo discutido? Será, efetivamente, objeto dos debates? Será a base das propostas apresentadas? O Congresso Nacional dos Profissionais apresentará uma proposta de Estratégia da Engenharia e da Agronomia para o Brasil?






A cada 3 anos os engenheiros, os agrônomos e demais profissionais ligados ao sistema Confea/Crea se reúnem no CNP - Congresso Nacional de Profissionais.

Os eventos do CNP, de acordo com o Confea (leia AQUI) são realizados ao longo de meses, na seguinte sequência:

1. na consciência individual de cada profissional;

2. nas reuniões preliminares, muitas vezes informais, realizadas nas entidades de classe e nas instituições de ensino, ou até mesmo nas empresas;

3. nas inspetorias, em cujas subjurisdições se localizam essas entidades, instituições e empresas;

4. nas regiões administrativas em que as inspetorias se agrupam;

5. nos Congressos Estaduais, cujas propostas sistematizadas são representativas do pensamento e do posicionamento consensual dos profissionais de cada jurisdição;

6. finalmente, no Congresso Nacional de Profissionais (CNP), onde são discutidas as propostas nacionais sistematizadas, representativas do pensamento e do posicionamento nacionais unificado.

O QUE SIGNIFICA ISTO?
Basicamente, significa que, num ano de CNP, o Tema Central deve ser objeto de reflexão e discussão em cada escritório, cada entidade de classe, inspetoria e sede regional de Crea no Brasil inteiro. Significa que o tema tem de chegar VIVO ao CNP.

Será que isto está realmente acontecendo? Será que isto está sendo estimulado da maneira correta?

Sinceramente, eu não vejo isto acontecer. Eu acompanho o CNP desde sua primeira edição (na verdade, muito antes disso, já que o Crea-SC realizou Congressos Estaduais de Profissionais muito antes de o Confea instituir o CNP). No final, o que eu observo é que as discussões realizadas e as propostas apresentadas não se relacionam absolutamente em nada com o Tema Central do CNP. Repetem-se os mesmos temas de sempre, sem o menor cuidado de associar a discussão ao tema proposto.


E foi por isto que, neste ano de 2019, assim que o Confea anunciou o tema central do 10º CNP (no dia (25/01/2019) eu decidi fazer a minha parte e apresentar a minha contribuição para que o debate possa se realizar de forma mais efetiva.

Resolvi escrever uma série de artigos sobre o tema (Estratégia) e disponibilizar uma palestra especialmente dedicada a essa finalidade, ou seja: discutir o conceito de estratégia e como ele se aplica à realidade da Engenharia Brasileira nesses tempos "estranhos".

Não. Não tenho a ilusão de que os artigos serão lidos por muita gente ou que serão utilizados como base para discussão em reuniões de colegas profissionais pelo país a fora. Como diria o meu pai, "eu conheço o meu eleitorado". Sei como as coisas funcionam.

Mas eu sei que, em alguns lugares, numa ou noutra entidade de classe, num ou noutro Crea essa sementinha poderá germinar. Se a minha série de artigos servir para dar início e produzir resultados efetivos em meia dúzia de grupos de profissionais, me sentirei realizado e terei cumprido o meu dever como Engenheiro neste país.

Meu desejo é que mais gente faça, como eu, a sua parte.







PS.: Para cada edição do Congresso são definidos um Tema Central e os respectivos Eixos Temáticos.

No 10º Congresso Nacional de Profissionais (CNP-2019) que será realizado neste ano em Palmas, Tocantins, o Tema Central será ESTRATÉGIAS DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL e os Eixos Temáticos serão:

• INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS — Inovações tecnológicas no processo de desenvolvimento econômico sob a ótica da Engenharia e da Agronomia;

• RECURSOS NATURAIS — O papel da Engenharia e da Agronomia na utilização e aproveitamento de recursos naturais com sustentabilidade;

• INFRAESTRUTURA — A governança da política de infraestrutura brasileira sob a ótica da Engenharia;

• ATUAÇÃO PROFISSIONAL — Os rumos da formação profissional da Engenharia e Agronomia brasileiras;

• ATUAÇÃO DAS EMPRESAS DE ENGENHARIA — Governança das empresas de Engenharia e obras públicas.


Let the games begin!






Leia AQUI os artigos que já foram publicados
nesta série sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.





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PADILHA, Ênio. 2019

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08/02/2019

07/02/2019

OS CAMINHOS DE UMA ESTRATÉGIA PARA A ENGENHARIA BRASILEIRA



(Publicado em 07/02/2019)



O Sistema Confea/Crea decidiu que o tema central do 10º Congresso Nacional de Profissionais (CNP) que será realizado neste ano em Palmas, Tocantins será ESTRATÉGIAS DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL. Por isso esse tema será muito discutido aqui no BLOG DO ÊNIO PADILHA.



Leia AQUI os artigos que já foram publicados na série
sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.



Neste artigo o objetivo é mostrar os caminhos e ferramentas necessárias para a concepção de uma estratégia para uma organização, apresentando a moderna abordagem da Visão Baseada em Recurso - RBV (Resource-Based View) e como ela se aplicaria para a Engenharia Brasileira.






Durante muitas décadas a concepção das estratégias nas organizações foi sustentada pelo paradigma SCP — Structure-Conduct-Performance (Estrutura-Conduta-Desempenho) proveniente da Teoria da Organização Industrial, desenvolvida inicialmente pelo economista norte-americano Edward Sagendorph Mason, que realizou trabalhos importantes na década de 1930 e foi sucedido por Joe Staten Bain, também economista e também norte americano, cujos principais trabalhos são das décadas de 1950 e 60.

Se você já participou de algum trabalho de PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO provavelmente já teve contato com a perspectiva SCP e com a obra de outro autor importante: Michael Porter, um pesquisador/professor/autor norte americano que é o principal divulgador do Paradigma SCP, cujo pressuposto central é a tese de que a estrutura da indústria detém as razões das diferenças observáveis no desempenho das firmas



IMPORTANTE: Indústria, na economia Industrial de Mason e Bain, é definida como o conjunto de empresas que produzem e disponibilizam ao mercado produtos que são substitutos e bastante próximos entre si. Não tem, portanto o sentido normalmente utilizado no Brasil que entende indústria como uma fábrica de bens de consumo ou de produção.



Com base no paradigma SCP, a concepção das estratégias eram precedidas da análise da Indústria.

As duas mais importantes e conhecidas ferramentas da análise da indústria (e da organização nela inserida) são a análise das forças competitivas do mercado e a análise SWOT

A análise das forças competitivas do mercado consiste em avaliar
(a) Acompetição entre as empresas
(b) A influência dos entrantes potenciais
(c) A ameaça dos produtos substitutos
(d) O poder de barganha dos compradores
(e) O poder de barganha dos fornecedores

Já a análise SWOT – Strengths, Weaknesses, Opportunities e Threats (Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças) avalia, basicamente
(a) Os pontos fortes da organização
(b) Os pontos fracos da organização
(c) As oportunidades do ambiente industrial para a empresa
(d) As ameaças do ambiente industrial para a empresa

As duas análises acima, quando bem detalhadas, são elementos importantes para a definição das estratégias da organização.






Uma alternativa ao paradigma SCP foi desenvolvido a partir dos trabalhos de Penrose (1959), Nelson e Winter (1982), Wernerfelt (1984), Dierickx e Cool (1989) e Barney (1991). Os trabalhos desses autores começaram a pôr em dúvida a idéia de que a vantagem competitiva é uma coisa externa à empresa. De que dependem mais do ambiente e das circunstâncias.

Para esses autores, a base da vantagem competitiva da empresa residia no acesso e/ou controle de recursos que tivessem por características ser raros, valiosos, imperfeitamente imitáveis e/ou insubstituíveis, cuja mobilidade e/ou negociação fosse imperfeita. Isto significava ter acesso e/ou controle de recursos marcadamente competitivos.

Esta nova perspectiva teórica recebeu o nome de RBV (Resource-Based View) - Visão Baseada em Recursos.

A RBV sustenta que as diferenças de desempenho entre as empresas é explicada pela diferença entre os recursos organizacionais e pela maneira como as empresas combinam e utilizam os próprios recursos. Ou seja: as empresas são heterogêneas no que tange aos seus recursos e esta heterogeneidade na posse ou controle de recursos pode explicar a vantagem competitiva.

Trocando em miúdos: a empresa pode combinar recursos normais de maneira única e eficaz de tal maneira que o resultado dessa combinação é um recurso valioso, que poderá levar a empresa à Vantagem Competitiva.


COMO ISTO SE APLICA À ENGENHARIA BRASILEIRA?

A RBV está inserida no campo da Estratégia das Organizações. É claro que o foco da teoria são as empresas industriais, comerciais ou de serviços (públicas ou privadas). Mas certamente é possível ampliar os significados para algo mais geral, como a Engenharia Brasileira, e depois, para o Brasil, como nação.

Nas empresas as estratégias são concebidas e implementadas com o objetivo de obter VANTAGEM COMPETITIVA sobre os concorrentes. A pergunta é: quais são os concorrentes da Engenharia Brasileira?

Iniciamos esta série de artigos com algumas afirmações desagradáveis mas que precisam ser enfrentadas? Dissemos que



a sociedade brasileira não valoriza a sua Engenharia. Não é o governo, não são os políticos, não são os empresários, nem os intelectuais... não. É a sociedade, como um todo, a maioria do povo brasileiro, que não valoriza a sua Engenharia.

Nenhuma pesquisa na sociedade brasileira iria apontar os investimentos em ensino de ciência e tecnologia como uma prioridade do povo, como uma coisa de importância estratégica o bastante para mobilizar pessoas e construir discursos que elegem prefeitos, vereadores, deputados ou senadores.

Nenhum candidato se elegeria Presidente do Brasil se estabelecesse (de verdade) como meta PRINCIPAL do seu governo, o Ensino de Engenharia.



Isto significa que os concorrentes da Engenharia Brasileira são todos os temas que dividem a atenção e interesse da sociedade estabelecendo a escala de valores capaz de definir onde e quanto o Brasil deve investir, em termos de atenção, interesse e recursos.

Hoje a decisão de investir no ensino de ciência e tecnologia (aí incluído a Engenharia) está no final de uma longa fila na qual estão, nas primeiras posições, a decisão de investir (tempo, dinheiro, atenção) em
• Saúde
• Segurança
• Combate à corrupção
• Redução do desemprego
• Educação Fundamental
• Combate a Fome/Miséria
• Redução da Desigualdade Social
• ... se fosse só isto, seria pouco. O problema é que esta lista vai muito longe até que o investimento em ciência e tecnologia, na formação de bons engenheiros e na valorização da Engenharia apareça. Até que alguém comece a dizer que a solução para os problemas do Brasil está na formação de bons engenheiros e na valorização dos seus serviços.

Mas a verdade, como já vimos no artigo A ENGENHARIA E O PROGRESSO DOS PAÍSES é que todos os países que deram um salto perceptível de qualidade e progresso (num curto espaço de tempo) fizeram exatamente isto. Investiram intensamente no ensino de Engenharia.

Portanto, esse é o desafio estratégico que a Engenharia Brasileira precisa enfrentar, primeiro dentro das suas próprias fileiras e depois na relação com a sociedade.

Precisamos alterar a percepção estabelecida de que o investimento em ciência e tecnologia é algo que pode ser deixado para ser resolvido depois que estivermos livres dos problemas com saúde, segurança, corrupção, desemprego, fome e outras misérias.

Precisamos estabelecer a verdade de que a Engenharia é a solução para o Brasil, assim como foi a solução para muitos outros países ao longo da história da humanidade.

Que recursos valiosos temos para isso? O que podemos utilizar como base para a construção da nossa estratégia?

Este será o tema para o último artigo desta série. Aguardemos.








Leia AQUI os artigos que já foram publicados
nesta série sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.





REFERÊNCIAS:
BARNEY, J. Firm resources and sustained competitive advantage Journal of Manegement
v.7, n.1, p.99-120, 1991

DIERICKX, I.; COOL, K. Asset stock accumulation and sustainability of competitive
advantage. Management Science. v.33, n.12, dez.1989

PENROSE, Edith The Theory of the Growth of the Firm. 3 ed. Oxford, UK: Oxford
University Press, 1959.

PETERAF, Margareth. The cornestone of competitive advantage: a resource=based view.
Strategic Management Journal. v.14, p.179-191, 1993

PORTER, Michael. Industrial Organization and the evolution of concepts for strategic
planning. In: Manegerial and Decision Economics. v.4, n.3. ABI/INFORM Global, p.172
PORTER, M Estratégia Competitiva: Técnicas para análise de indústrias e da concorrência.
Rio de Janeiro: Campus, 1986, caps. 1, 2 e 7

PRAHALAD, C.K.; HAMEL, G. A competência Essencial da Corporação. In:
MONTGOMERY, C.A.; PORTER, M. Estratégia: a busca da vantagem competitivo. Rio de
Janeiro: Campus, 1998

NELSON, Richard.: WINTER. S. An evolutionary theory of economic change.
Cambridge: Harvard University Press. 1982, cap. 4

WERNEFELT, B. A. A resource-based view of de firm. Strategic Management Journal.
v.5, p.171-180, 1984

WERNERFELT, Birger The resource-based view ten years after. In: Stratégic Manegement
Journal v.16, 1995, p.171-174




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05/02/2019

A ENGENHARIA E O PROGRESSO DOS PAÍSES



(Publicado em 05/02/2019)



O Sistema Confea/Crea decidiu que o tema central do 10º Congresso Nacional de Profissionais (CNP) que será realizado neste ano em Palmas, Tocantins será ESTRATÉGIAS DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL. Por isso esse tema será muito discutido aqui no BLOG DO ÊNIO PADILHA.



Leia os artigos que já foram publicados:



O QUE É ESTRATÉGIA E POR QUE ISSO É IMPORTANTE PARA A ENGENHARIA E AGRONOMIA DO BRASIL?



ESTRATÉGIA (2) — IDENTIDADE



Neste artigo o objetivo é demonstrar que a Engenharia é um valor estratégico para qualquer país e que reconhecer isso é o primeiro e mais importante passo no caminho do desenvolvimento e progresso.






O imperio Mongol, construído sob a liderança de Gengis Khan talvez seja um dos únicos exemplos de desenvolvimento e domínio de uma nação sobre outras e que não esteja diretamente ligado à Engenharia.

A estratégia do Gengis Khan não era baseada em ciência nem em tecnologia. Ele aterrorizava seus inimigos. Sua principal estratégia era vencer as batalhas sem ter de lutá-las. Os inimigos se entregavam quando se convenciam (pelo terror e medo) de que a derrota era certa e iminente. Ele usava o tempo, a escuridão e tropas montadas em animais grandes... Naquele idos de 1200 tudo isso era uma grande novidade. Imagine-se o horror. Ninguém queria estar na pele dos inimigos do povo mongol.

Mas é importante dizer que o progresso do Império Mongol não chegou a durar um século (de 1206 quando Gengis Khan assumiu o poder até 1260, quando os mongóis sofreram a primeira derrota em batalha, iniciando o declínio do império).

No ocidente, foram os romanos que se distinguiram de outros impérios. E fizeram isso porque tinham uma Engenharia poderosa. Construiam estradas, aquedutos, arenas, sistemas de esgotos, além da construção de barcos e navios. Nenhuma outra nação ocidental, antes de Roma estabeleceu um domínio tão intenso e duradouro.

É claro que quando falamos em Engenharia, nesse caso, estamos falando não da Engenharia propriamente dita, como a conhecemos hoje, mas de Ciência e Tecnologia. Somente nos últimos 200 ou 300 anos que a ciência e a tecnologia passaram a ser os objetos da Engenharia, de tal maneira que hoje são praticamente sinônimos.

Roma era um complexo burocrático-militar fortemente ancorado em conhecimento (ciência e tecnologia). Isso resultava em administração, organização militar e produção dos artefatos de guerra.

Depois do declínio do Império Romano e durante praticamente toda a idade média nenhuma nação se estabeleceu de forma definitiva, como potência mundial. Não por acaso, naquele milênio, nenhum país desenvolveu de forma expressiva, nem a ciência nem a tecnologia.

No renascimento, Portugal, Espanha, Inglaterra e França se estabeleceram como potências no final do século XV justamente por dominar a engenharia naval e suas possibilidades.

Esse domínio acabou por ser superado pela Inglaterra, com a revolução industrial que nada mais foi do que o investimento intenso em engenharia industrial.

Nos dias atuais não parece haver dúvidas de que muitos países devem seu desenvolvimento, riqueza e poder à qualidade da sua Engenharia

Todos os países que mais cresceram nos últimos anos (e que não o fizeram graças à exploração de petróleo) realizaram (antes de alcançar o desenvolvimento) investimentos muito expressivos no desenvolvimento da sua engenharia.

Na China, por exemplo, observa-se uma clara relação entre o aumento de engenheiros graduados e o crescimento do PIB. O país tem quase 5 milhões de engenheiros, o que equivale a 36 para cada 10 mil habitantes. O governo participa intensamente do processo, define horizontes por meio dos planos quinquenais e incentiva a interação entre universidade e indústria para gerar soluções, o que aumenta a quantidade de formandos capazes de apoiar as diversas demandas industriais.

A Coreia do Sul, que no início da década de 1960 era um país pobre, agrícola e devastado por duas guerras, é hoje um dos países mais ricos e desenvolvidos do mundo. Não por acaso, sua engenharia foi fortemente incentivada e desenvolvida exatamente neste período.

Na Coreia do Sul, existe ainda uma grande preocupação com a qualidade do ensino da Engenharia e grande número das faculdades de Engenharia coreanas possuem órgãos de monitoramento para assegurar a qualidade da formação dos engenheiros. Atualmente, a Coreia do Sul conta com 140 faculdades de Engenharia e 2.300 programas que formam cerca de 68.000 engenheiros a cada ano, 13.000 com mestrado e 2.200 com doutorado. São essas instituições que estão contribuindo para a vertiginosa industrialização do país, provendo o mercado com engenheiros competentes, de acordo com a demanda e o desenvolvimento industrial do país.

Mesmo na Escócia, um país que tem uma longa tradição de excelência científica e inovação, a Engenharia teve um papel relevante e proeminente no desenvolvimento e progresso. E essa longa história de contribuição começa com o espetacular desempenho da indústria de construção de navios, logo depois da revolução industrial que elevou Glasgow à condição de capital mundial da construção naval e segunda maior cidade do Império Britânico.

Desde o iluminismo a Escócia tem servido ao mundo com célebres intelectuais como Adam Smith e David Hume, na área econômica, e Thomas Telford, James Watt e William Arrol, na Engenharia. Por seu passado, de acordo com o Scottish Technology Forum, 2007 a Escócia poderia ser considerada uma nação de engenheiros. O progresso da Engenharia reflete a história do país e de seu crescimento econômico até a constituição do governo mais autônomo, em 1999. Desde o século XVIII a Escócia e sua indústria cresceram intimamente relacionadas à formação de engenheiros e ao desenvolvimento de conhecimentos teóricos que amparassem o desenvolvimento técnico.

A Índia, é o segundo país do mundo em população. Tem 18,5% da população, em 2,4% do território. O país têm experimentado um expressivo crescimento do PIB, especialmente depois da década de 1990.

O aumento do número de engenheiros acelerou-se a partir de 2000. Naquele ano, o país formou 74.000 engenheiros, no ano seguinte foram 83.000 e, em 2007, 237.000 (números do Indian Institute of Tecnology de Bombay).

O aumento do número de engenheiros influenciou o PIB per capita indiano (ainda que esse número continue baixo). Os benefícios gerados pelos engenheiros não se refletem no conjunto da população, devido à forte concentração de renda na India, que é uma das maiores do mundo. O salário real de um engenheiro na Índia é cada vez maior que o salário real de muitas outras profissões, a despeito do acelerado crescimento do número de engenheiros.

Finalmente, na Irlanda, segundo estudos da Higher Education Authority, o crescimento do número de engenheiros favorece o crescimento da Economia, pois estimula o desenvolvimento do país no que diz respeito à inovação e à tecnologia.

Tecnologia da Informação (49%), Construção Civil (25%) e Biotecnologia (8%) absorvem grande parte dos engenheiros graduados. O aumento dos investimentos em P&D acompanhou o crescimento do PIB irlandês durante a década de 1990. Isso foi reflexo da estratégia nacional de desenvolvimento, implementada a partir dos anos 1980, e intensificada na década seguinte, focada no investimento em P&D para obtenção de maior nível de crescimento a longo prazo.

O governo irlandês investiu fortemente na Educação fundamental e superior, com suas principais universidades se especializando nas áreas de Tecnologia da Informação, Química e de Saúde, com o objetivo de fortalecer as empresas nesses setores. Paralelamente, uma política ativa de emprego foi implementada com a finalidade de absorver profissionais há mais de um ano fora do mercado. Essa política permitiu investimentos de cerca de 1,7% do PIB em treinamento para desempregados, visando a capacitá-los para competir na Economia moderna. Com a redução do desemprego e o maior número de profissionais atuando, houve um efetivo crescimento do PIB.






A conclusão natural decorrente do que foi visto acima é a de que existe uma clara e incontestável correlação entre o desenvolvimento da Engenharia e o desenvolvimento de um país. Qualquer país. Em qualquer região do mundo.

Não existe razão para se pensar que no Brasil seria diferente. Aliás, é importante dizer que o período de maior crescimento do Brasil que vai dos anos 1920 até o fim da década de 1970 coincide com o período em que a Engenharia foi mais valorizada e encontrou seus melhores números na história.

Assim, me parece fundamental que os representantes da Engenharia Brasileira estabeleçam como essencial (parâmetro do qual não se pode abrir mão) que o governo, as indústrias e as empresas de construção civil estabeleçam ações EFETIVAS de valorização da Engenharia e dos engenheiros. Esse é o primeiro passo que precisa ser dado em direção ao progresso do país com a ajuda da Engenharia.

E, pelo que se viu até aqui... não existe outro caminho.






As informações sobre China, Coreia do Sul, India, Escócia e Irlanda foram retiradas do documento ENGENHADIA PARA O DESENVOLVIMENTO — INOVAÇÃO, SUSTENTABILIDADE E RESPONSABILIEDADE SOCIAL COM NOVOS PARADIGMAS trabalho organizado por Manuel Marcos Maciel Formiga e publicado pelo SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, Departamento Nacional, em 2010.






Leia AQUI os artigos que já foram publicados
nesta série sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.




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PADILHA, Ênio. 2019

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01/02/2019

ESTRATÉGIA (2) — IDENTIDADE



(Publicado em 01/02/2019)



O Sistema Confea/Crea decidiu que o tema central do 10º Congresso Nacional de Profissionais (CNP) que será realizado neste ano em Palmas, Tocantins será ESTRATÉGIAS DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL. Por isso esse tema será muito discutido aqui no Blog Enio Padilha neste ano.

Eu já disse, num artigo inicial (que você pode ler AQUI), que, para que a Engenharia possa propor uma estratégia para o país é necessário que ela (a Engenharia Brasileira) tenha uma estratégia para si própria.

E, como também já foi dito, Estratégia é o conjunto de ações que uma pessoa ou organização REALIZA para atingir seus objetivos. Estratégia é, portanto descrita pelas ações. A estratégia é o conjunto de práticas intencionais. E é influenciada pela missão, pela visão, pelas crenças, valores e circunstâncias da pessoa ou da organização.



Aí já esbarramos no primeiro problema: não existe uma clareza suficiente sobre a missão, visão, crenças, valores e circunstâncias da Engenharia do Brasil.

A Engenharia Brasileira não tem uma voz única. Não tem uma identidade claramente reconhecida, como os advogados ou os médicos.

Isso se deve a múltiplos fatores. Um deles, sem dúvida, é a multiplicidade absurda de títulos profissionais abrigados pelo nosso sistema de regulamentação. Enquanto o CRM dos médicos, o CRO dos dentistas e até mesmo o CAU dos arquitetos lidam com um único título profissional (de um único nível) nosso sistema precisa transitar entre mais de 300 títulos de níveis diversos.

Isso já foi bem pior, claro. E esse passado (quando nosso sistema abrigava mais de 1000 títulos e três níveis de formação) foi determinante para a (de)formação da nossa identidade.



Um exemplo: as entidades de classe pelo Brasil têm nomes diferentes (associação, sociedade, clube, instituto...) enquanto os arquitetos têm o IAB, os advogados têm a OAB, os médicos têm as Associações Médicas, os comerciantes têm os CDLs, os empresários têm as Associações Comerciais e Industriais e os industriais têm as Federações das Indústrias. Isso pode não ser a explicação completa, mas não é apenas um detalhe e não pode ser ignorado.

Essa fragmentação identificada não tem solução fácil nem de curto prazo. Eu diria que se trata de um problema com o qual teremos de conviver ainda por muitas décadas. Especialmente se não houver, por parte das lideranças, a consciência de que isto é um problema.

A base para a definição de uma estratégia para a Engenharia Brasileira e a identificação de missão, visão, crenças, valores e circunstâncias. Daí a necessidade urgente de que algumas coisas sejam reconhecidas e declaradas à respeito da Engenharia Brasileira, ou de como os engenheiros a veem e sentem.

São questões cujas respostas devem ser muito claras para qualquer engenheiro:
• Como a engenharia contribuiu para o progresso do Brasil?
• O que os engenheiros podem fazer para contribuir para que a Engenharia seja mais valorizada?
• Quais são os principais obstáculos enfrentados pelos engenheiros brasileiros na busca pela valorização da profissão?
• Qual é o maior desafio da Engenharia Brasileira para os próximos 20 anos?

Podemos acrescentar aqui muitas outras perguntas. O importante é que, no final, o conjunto das respostas apontem uma identidade coletiva capaz de servir de base para a definição de uma estratégia eficaz para a valorização da Engenharia no Brasil.

Depois disso (ou em razão disso) seremos capazes de propor uma estratégia para o Brasil.






(*) xxx



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PADILHA, Ênio. 2019

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25/01/2019

TÁ TUDO CERTO, MAS TEM ALGUMA COISA ERRADA.



(Publicado em 25/01/2019)



Eu estava ouvindo o Jornal da Band News FM e num dos intervalos entrou o programa de um minuto produzido pelo Sistema Confea/Crea, uma iniciativa que, por sinal, acho muito positiva.

O texto integral do programa, feito à duas vozes (um homem e uma mulher) é o seguinte:



"Está no ar a Rádio Confea/Crea. É a Engenharia e a Agronomia em sintonia com o crescimento do Brasil.
— Eu sou o Beto
— E eu sou a Lu. Ô Beto, hoje vamos falar sobre o que o Sistema Confea/Crea faz pelos profissionais e pela sociedade.
— O importante trabalho de zelar pela profissão e o compromisso com o desenvolvimento sustentável.
— São mais de 300 profissões regulamentadas, garantindo que somente profissionais habilitados exerçam a profissão.
— É, além disso o Sistema Confea/Crea possui mais de 500 inspetorias por todo o país...
— ... fiscalizando obras e serviços de Engenharia, Agronomia e Geociências, fornecendo documentos e coletando informações.
— E é justamente essa fiscalização que valoriza os bons profissionais e garante muito mais segurança e economia para a sociedade.
— Porque, com fiscalização não tem jeitinho, não é?
— E esta edição da Rádio Confea/Crea vai ficando por aqui. Tchau!
(Rádio Confea/Crea — Conselho Federal e Regionais de Engenharia e Agronomia)"


Sabe aquela sensação de que está tudo certo mas tem alguma coisa errada?





Fiquei refletindo alguns minutos sobre o que eu acabei de ouvir e pensando sobre o fato de que a maior reclamação da maioria dos profissionais é justamente o fato de que o Crea não fiscaliza direito o exercício profissional da Engenharia, especialmente quando o assunto é o famigerado Acobertamento.

Muitos estudantes de Engenharia não fazem ideia do que seja o acobertamento. Mas quem está no mercado há mais de dois ou três mêses já foi apresentado a essa praga do exercício profissional. Já falei disso em diversos artigos, especialmente neste aqui: TOLERÂNCIA

Basicamente o ACOBERTAMENTO ocorre quando um profissional é pago apenas para emprestar o seu nome, seu registro profissional e, portanto, sua habilitação, para legalizar um trabalho que tenha sido realizado por uma pessoa não qualificada, não habilitada ou simplesmente, não existente.

Isso mesmo! O acobertamento muitas vezes serve para legalizar burocraticamente um serviço de Engenharia (geralmente um projeto exigido pela legislação) e que simplesmente não tenha sido realizado por ninguém.

Esta é uma forma de acobertamento muito mais comum do que se imagina. Acontece, por exemplo, quando um engenheiro é contratado para fazer os projetos de uma determinada edificação. Ele elabora, efetivamente, o projeto arquitetônico, o hidráulico e o sanitário. E emite uma ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) anotando os códigos de projeto arquitetônico, de projeto hidráulico, de projeto sanitário e... de projeto elétrico e de acompanhamento e fiscalização da obra.

Em muitos casos, esse profissional não elaborou, efetivamente, o projeto elétrico. Em outros, não fez o efetivo acompanhamento e fiscalização da obra. Porém, ao anotar os códigos na ART esse profissional regularizou a obra e resolveu a questão da fiscalização do Crea.

É claro que tem alguma coisa muito errada nisso tudo. O profissional acobertador, nesse caso, não apenas presta um serviço ruim ao seu cliente, deixando de entregar parte do que deveria. Ele também lesa seus colegas engenheiros que vivem de fazer projetos elétricos, por exemplo, ou que trabalham com acompanhamento, execução e fiscalização de obras. Pois, uma vez que ele emite uma ART com o código de um serviço (que ele não está efetivamente entregando) ele elimina uma demanda de mercado, deixando um saldo negativo para a Engenharia como um todo.

Esse tipo de delito o sistema de fiscalização do Crea não consegue detectar (às vezes consegue, mediante denúncia, mas é difícil). Sabe por que? Em primeiro lugar porque, como eu já disse, é difícil detectar o acobertamento; em segundo lugar porque a fiscalização do Crea é meramente burocrática. Investiga apenas se existe uma ART e quais os códigos que estão anotados. E o nosso anti-heroi (o acobertador) é especialista em burocracia. Ele sabe muito bem quais documentos devem ser apresentados, onde vai o carimbo, onde vai a assinatura, e para quem deve ser encaminhada a guia rosa e a guia amarela.

A fiscalização do Crea favorece os especialistas em burocracia. E não ajuda os profissionais que, no campo, se esforçam para se atualizar e melhorar continuamente a qualidade do serviço e do atendimento.

Na última frase do programa do Sistema Confea/Crea a moça diz "com fiscalização não tem jeitinho, não é?" Mas, evidentemente, como vimos aqui, não só tem jeitinhos como é até bastante fácil contorná-la.

Se o Sistema quer realmente que a fiscalização contribua para valorizar a profissão e contribuir para atender a maior demanda dos profissionais, que é abrir mercado profissional para engenheiros, é preciso rever as leis, portarias e práticas internas para garantir que a fiscalização vá um pouco além dos papéis. Tem de garantir que a fiscalização garanta o efetivo exercício da profissão, sem jeitinhos, sem atalhos e sem malandragem.








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PADILHA, Ênio. 2019

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18/01/2019

16 ANOS DEPOIS



(Publicado em 18/01/2016)



Ontem (17/01/2019) na Live que Joel Kruger, presidente do Confea, fez nas redes sociais, ele citou um artigo de minha autoria que teria, nas palavras dele, sido usado como referência para algumas mudanças na comunicação do Confea e de alguns Creas.

Logo em seguida recebi alguns contatos de colegas profissionais e até de alguns jornalistas do sistema, perguntando sobre o tal artigo.

Bem, trata-se do primeiro de uma série de artigos que eu escrevi em 2003 e 2004 sob o título POR QUE ODIAMOS TANTO O CREA?
Esses artigos foram, posteriormente publicados no Livro VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL, publicado pela OitoNoveTrês Editora, em 2014

Você pode ler AQUI.

Fico feliz que (mesmo 16 anos depois) o meu texto ainda esteja produzindo efeitos. Obrigado presidente Joel Krüger, pela referência





Trecho da Live do Confea no qual o Presidente, Joel Kruger responde à minha pergunta.

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