Notas de "BLOG DO ÊNIO PADILHA"

23/02/2019

O EINSTEIN DE ISAACSON



(Publicado em 23/02/2019)



Você sabe que acabou de ler um bom livro quando chega na última página e volta à primeira, como se estivesse procurando por alguma coisa nova ou esperando que uma segunda leitura possa revelar algo inesperado.

Essa sensação eu experimento de vez em quando, e foi o caso com a maravilhosa biografia de Albert Einstein escrita pelo extraordinário Walter Isaacson.

Isaacson é um grande autor de biografias sobre personagens do mundo da ciência.
Wise Men: Six Friends and the World They Made (1986) (não chegou ao Brasil)
Kissinger: A Biography (1992) (não li ainda. Mas está na lista.)
Benjamin Franklin: An American Life (2003) (Já li. Sensacional)
Einstein, Sua Vida, Seu Universo (2007) (Já vou falar dele)
Steve Jobs (2011) (Já li. Duvido que exista uma biografia mais completa)
Os Inovadores - Uma Biografia da Revolução Digital (2014) (Escrevi uma resenha: AQUI)
Leonardo da Vinci (2017) (Excelente. Escrevi uma resenha: AQUI)



Dezenas (talvez centenas) de livros foram escritos sobre Albert Einstein. Porque este livro seria diferente? Eu, por exemplo, já tinha lido uma biografia de Einstein (lá na década de 1980, nos tempos da faculdade), além de alguns livros escritos pelo próprio Einstein, do qual sempre fui fã.

O que este livro tem de especial é o fato de que ele utiliza como importante referência (e pela primeira vez) um dos mais importantes tesouros do século XXI: a correspondência de Einstein com seus amigos e parentes ao longo de décadas e que ficaram disponíveis somente em 2006.

Imagine que um biografo, no futuro, pudesse retratar um personagem do nosso tempo tendo acesso às suas conversas no Whatsapp. Pois foi isso que Walter Isaacson teve nas suas mãos, uma vez que a correspondência (por cartas) no início do século XX era intensa e praticamente diária. Em outras palavras, as cartas que Einstein escreveu e recebeu deixam sua história muito mais clara e preenche lacunas que nenhum outro livro sobre ele havia conseguido preencher.



Einstein foi contemporâneo e interlocutor de praticamente todas as pessoas importantes da sua época. Existem histórias interessantíssimas e Isaacson nos dá um panorama geral do desenvolvimento da ciência num dos períodos mais fascinantes da história da humanidade.

Ao mesmo tempo, desfaz muitos mitos sobre Einstein. O principal deles (que sempre me incomodou muito, por sinal) é o mito de que Einstein foi um aluno fraco e que tinha notas baixas na escola. Isso nunca foi verdade (sorry, bobalhões que divulgam com entusiasmo essas bobagens nas redes sociais). Só serve para garantir que certas pessoas se sintam confortáveis na sua mediocridade.

Einstein foi, talvez, o único cientista que era reconhecido como celebridade mundial. Um homem cuja opinião era levada à sério por muitos governos. Uma pessoa que era assediada na rua para dar autógrafos e posar para fotografias. Por isto é normal que várias coisas que "se sabe" sobre a vida dele sejam apenas fofocas ou mentiras criadas por múltiplos interesses.

Uma biografia sobre ele, escrita por um "Pelé" como o Walter Isaacson era tudo o que a gente precisava. Não deixe de ler. O Einstein de Isaacson não é um livro qualquer. É o livro. A biografia.






ISAACSON, Walter. Einstein: sua vida, seu universo. Tradução: Celso Nogueira... et. al. — São Paulo: Companhia das Letras, 2007



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PADILHA, Ênio. 2019

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22/02/2019

MEMÓRIAS DO ENCONTRO DE LÍDERES REPRESENTANTES



(Publicado em 22/02/2019)



Ontem estive em Brasília, participando do segundo dia do ENCONTRO DE LÍDERES REPRESENTANTES DO SISTEMA CONFEA/CREA/MÚTUA. É sempre um grande prazer reencontrar bons amigos e colocar algumas conversas em dia. E já comecei muito bem, encontrando, no aeroporto, o grande parceiro, Engenheiro Líder, Luis Henrique Salatiel




Juntou-se a nós no almoço o brilhante Wilson Dias, que vocês já conhecem dos textos publicados no nosso site. A conversa foi animadíssima (e muito instrutiva)



Tive um rápido, porém muito importante encontro com o presidente Joel Krüger, que está reconduzindo o Confea à condição de interlocutor de alto nível na esfera federal. Essa é uma grande conquista, especialmente quando analizamos os últimos anos.



Sérgio Becke, um grande amigo, de Santa Catarina.



Tive o prazer de participar do Seminário sobre Chamamentos Públicos do Confea, muito bem organizado pela engenheira Fabyola



Márcio Pernambuco, um pensador indispensável do nosso sistema profissional



O querido amigo Edison Macedo, patrimônio intelectual da nossa Engenharia.



Os jovens de Goias, capitaneados pelo engenheiro Áquila.




Engenheira Lenita Brandão, de Americana, São Paulo (nossa madrinha querida) e sua colega Lígia, presidente da Associação de Rio Claro



Outro querido amigo, Luisão, presidente do Crea-BA. Sempre um prazer reencontrá-lo.




Encontrei e conversei com muitos outros colegas e amigos. Infelizmente, não temos os registros fotográficos, mas o coração volta aquecido e a cabeça realimentada.





PADILHA, Ênio. 2019

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21/02/2019

OS LÍDERES, SEGUNDO O OLHAR DO SISTEMA CONFEA/CREA



(Publicado em 22/01/2019)



Antes que você ou alguém possa dizer que eu estou reclamando por mim ou advogando em causa própria, que fique claro: não é por mim. Eu sou um dos poucos profissionais de fora do sistema com amplo acesso e muitos amigos nos Creas de todo o Brasil, nas Entidades de Classe, nos sindicatos e na Mútua. O meu trabalho, até onde eu sei, praticamente não tem rejeição dentro do Sistema Profissional e, não raro, recebe apoios e, eventualmente, patrocínios. Portanto, não estou reclamando por mim, que fique claro.





Minha única reclamação é não fazer parte de um grupo definido e reconhecido pelo Sistema Confea/Crea. Ano passado já escrevi sobre isto. Você pode ler AQUI.

Mas vou repetir: participei do Encontro de Lideranças (em 2018) e me incomodou o fato de o evento do Confea ter mudado de número. Deveria ser o evento número 13 e foi divulgado como número 7.

Por que? Eu explico: o evento foi criado no primeiro ano da gestão do ex-presidente Marcos Túlio de Mello (em 2006, portanto). Em 2008, ano em que eu estive no Confea, gerenciando a área de eventos, fui o responsável pela coordenação da 3ª edição do encontro.

O que aconteceu, então? Aconteceu o seguinte: na gestão que sucedeu a de Marcos Túlio (iniciada em 2012) o evento foi rebatizado (deixou de ser "Encontro de Lideranças" e passou a ser “1º Encontro de Líderes Representantes"). Não mudou absolutamente nada na sua essência, mas ganhou nova encarnação, como se fosse uma criação do então novo presidente, numa manobra bem típica dos chefetes da política nacional. Uma vergonha, se apropriar assim da criação alheia!

A atual gestão provavelmente não se deu conta disso. Mas pedi (no ano passado) que se atentassem e que fizessem justiça em 2019. Que o evento receba o número correto: 14º Encontro de Líderes Representantes.

Na verdade, me desculpem, mas eu gostaria de implicar também com esse "representantes". Pra que isso? Quer dizer então que o Sistema Confea Crea não reconhece como Líder alguém que não seja representante? que não esteja em algum cargo de presidente de Crea, presidente de entidade de classe, conselheiro etc? É o cargo que a pessoa ocupa que dá a ela o status de liderança?

Nesse mesmo evento e também na SOEA sempre me encontro com muitos ex-presidentes de Creas, ex-conselheiros, professores, autores, pessoas que hoje estão fora do sistema, tocando seus negócios... Quer dizer que essas pessoas deixaram de ser líderes?

Por mim essa palavra "representantes" deveria ser eliminada do nome do evento. Só está ali para estabelecer uma flagrante discriminação.

O QUE É UM LÍDER
Lígia Fascioni, engenheira brasileira, com mestrado e doutorado em engenharia (e que vive na Alemanha) no livro Atitude Pro Liderança (em parceria com Alberto Costa) apresenta diversas definições de líder, a partir de diversos autores:
“A única definição de líder é alguém que possui seguidores” Peter Drucker
“A essência da liderança é a visão” William Van Dusen Wishard
“A moral da história é clara: para ser líder é necessário saber para onde se vai” Lin Bothwell
“O trabalho do líder é levar as pessoas a bordo de sua visão” John Maeda

E Lígia fascioni conclui: "É claro que você conhece outras, inclusive muitas que apresentam o líder como um chefe, comandante, dirigente, autoridade, alguém que existe para ser respeitado, admirado, até obedecido ou idolatrado. Selecionamos essas aí de cima porque traduzem com ais exatidão a ideia que temos de líder: alguém com uma visão, capaz de compartilhá-la e de inspirar outros a construi-la".


E NO SISTEMA CONFEA/CREA? COMO O LÍDER É VISTO?
O Sistema Confea/Crea/Mútua tem, na minha opinião, uma visão limitada do conceito de lider. O sistema não tem (e deveria ter) um olhar para profissionais que não sejam militantes nas entidades de classe, sindicatos, na Mútua ou nos Creas. O Sistema não consegue enxergar relevância em empreendedores, proprietários de grandes escritórios, professores, autores de livros, coordenadores de cursos de graduação ou de pós-graduação. Gente como Manuel Henrique Campos Botelho (autor de muitos livros, entre eles a consagrada série “Concreto Armado, Eu te Amo”, Osires Silva (o criador da Embraer), o já falecido Eliezer Batista (o criador da Vale), o também já falecido Antônio Ermírio de Morais (do Grupo Votorantim), Nelson Covas (fundador da TQS Informática), Sérgio Santos (professor, coordenador de cursos, autor de livros), Luiz Henrique Salatiel (autor de livros e palestrante), Lígia Fascioni (autora de livros e palestrante)… pra ficar em meia dúzia de nomes… há dezenas, centenas deles. Nenhum deles é reconhecido ou tratado como liderança em eventos do Sistema Confea/Crea.

Esses profissionais não têm interesse e serem influenciadores. Não têm interesse em serem formadores de opinião. Destacam-se por um trabalho incessante pelo engrandecimento e pela valorização da Engenharia. Por que são tão invisíveis e esquecidos pelo sistema?

A minha situação, repito, é um pouco diferente: eu tenho 32 anos de exercício profissional. Nos primeiros 12 anos eu tive um Escritório de Engenharia e atuei no mercado de projetos e instalações elétricas em Santa Catarina e em outros oito estados do Brasil. Naquele período eu tive uma fortíssima atuação no sistema profissional. Fui integrante da diretoria das entidades de classe às quais estava ligado. Fui presidente de duas Associações de Engenheiros e Arquitetos (em Rio do Sul, 1992 e em Jaraguá do Sul, 1994). Naquele período fui também, por muitos anos, inspetor de Engenharia Elétrica do Crea-SC nas duas cidades.

E foi nessa condição de “líder representante” que o meu primeiro livro foi acolhido pelo Crea-SC (que patrocinou o lançamento da primeira edição, em 1998) e depois pelo Confea (que lançou a 2ª, 3ª e 4ª edições, entre 2000 e 2002).

Depois desse período (portanto, nos últimos 20 anos) eu não estive mais diretamente ligado às instituições do Sistema Profissional. Não ocupei cargos políticos nas diretorias de entidades de classe ou no Crea. Mas mantive os amigos que eu tinha e fiz centenas de outros dentro do Sistema.

O meu trabalho seguiu sua trajetória. Hoje a maior parte dos meus cursos, palestras e consultorias têm como clientes as universidades e empresas de Engenharia e Arquitetura. Mais de 80% dos meus leitores no site e dos seguidores nas redes sociais são profissionais que não fazem parte do Sistema Confea/Crea (nem do CAU). Na verdade, eles nem veem com bons olhos essa minha insistência e escrever sobre esse tema (como pode ser visto no artigo A CRUZADA).

Ainda assim, tenho sido, no mais das vezes, reconhecido, apoiado e eventualmente patrocinado em eventos das entidades de classe, dos Creas e mesmo do Confea. Portanto, pra mim está tudo bem. A única coisa que me incomoda, nos eventos do sistema é que todas as lideranças reconhecidas estão em categorias definidas (presidentes de Crea, Conselheiros Federais, Conselheiros Regionais, Presidentes de Entidades de Classe, Líderes de Sindicatos, Membros da Mútua…) eu estou lá apenas como… amigo deles. Um peixe fora d’água, sem função nem utilidade.

Gostaria que o Sistema fizesse uma revisão nessa política. Que abrisse um espaço regular nos seus eventos nacionais para os profissionais que desempenham um papel fundamental para a Valorização Profissional, embora façam isso dirigindo empresas, fazendo projetos, coordenando cursos, dando aulas, escrevendo livros, desenvolvendo softwares, apresentando palestra, desenvolvendo pesquisas… ainda que não sejam representantes oficiais de nenhuma instituição do Sistema.






(*) FASCIONI, Lígia e COSTA, ALBERTO. Atitude Pró Liderança. Belo Horizonte: Editora Letramento, 2016.



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PADILHA, Ênio. 2019

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16/02/2019

30 ANOS DOS LOCH PADILHA



(Publicado em 16/02/2019)



Completei 60 anos no final do ano passado. E posso dizer que a minha vida foi dividida em duas metades bem distintas: os primeiros trinta anos e os trinta anos seguintes.

Os primeiros 30 anos eu passei trabalhando, estudando e me praparando para o que viria depois. Depois de Salete, uma pequena cidade no interior de Santa Catarina, onde morei por pouco mais de um ano e meio e encontrei o norte da minha vida.

Tive um novo começo de vida em 1989, quando me casei com a querida Áurea Loch e iniciamos a jornada de construção de uma família absurdamente linda. E esta família completa 30 anos neste 18 de fevereiro.

Se haverá festa? Claro que sim. Uma festa igual à que temos todas às vezes que nos reunimos para um café da manhã, um almoço ou jantar. Cada vez que estamos juntos, os 4 (o que agora não é todo dia, já que a Maria Helena mora à 180 km de distância) temos essas pequenas e revigorantes alegrias.

Eu já disse isso muitas vezes e voltarei a repetir outras tantas: se me fosse dado o poder de voltar no tempo, teria de ser, no máximo, no dia 2 de maio de 1993, um dia depois do nascimento da nossa segunda filha. Tudo o que veio depois poderia mudar, mas o risco de não ocorrer o que veio antes eu não poderia correr.

Nesses 30 anos com a Áurea, 29 anos com a Ana Clara e 25 com a Maria Helena... vou dizer uma coisa (e alguém pode até achar que estou exagerando, mas não estou): nenhuma das três me causou UM ÚNICO DIA de tristeza. Nenhum.

Se tive tristezas, tropeços, dificuldades nesses anos, vieram por outros caminhos. Elas, ao contrário, apenas foram minhas cordas, escadas e andaimes sobre os quais eu me sustentei para subir e avançar. Elas, as três, sempre foram minhas fontes de alegria, inspiração, conforto e segurança.

Agradeço a Deus todos os dias por isso, e, se me resta créditos com Ele, peço que me conceda mais um ciclo de 30 anos, para que eu possa seguir comemorando a vida ao lado desses três lindos presentes que Ele me deu. Amém.






PS. A imagem que ilustra o topo do nosso site neste fim de semana (16, 17 e 18/02/2019) mostra o local, em Salete, onde aconteceu o casamento, em 1989.



PADILHA, Ênio. 2019

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11/02/2019

QUE GRANDE FALTA FARÁ RICARDO BOECHAT



(Publicado em 11/02/2019)



Que ano terrível, meu Deus. Que perda horrorosa!

Esta foi a minha primeira reação quando soube, na conexão de São Paulo, vindo para Fortaleza, da trágica morte do jornalista Ricardo Boechat

Nos últimos dois ou três anos, para me manter atualizado e ouvir muitos lados de todas as questões, estou ouvindo muito rádio e acompanhado alguns canais de informação no Youtube. Gente de motivações e abordagens diferentes. Augusto Nunes, Eduardo Bueno, Reinaldo Azevedo, Marco Antônio Villa, Vera Magalhães, Wilian Waak, Carlos Andreazza, Fernando Mitre, Luiz Megali, Mirian Leitão, Alexandre Garcia... e assim, ouvindo todos os lados de cada situação, vou construíndo minha própria opinião.

Ricardo Boechat era um passagem diária no meu dia. Raramente deixava de ouvir o seu editorial no Jornal da Band News, às 7h30 de todas as manhãs. Era uma inteligência brilhante! Fazia análises precisas, provocações importantes e defesas monumentais (muitas vezes de coisas que ninguém mais defende no jornalismo).

Ricardo Boechat vai fazer muita falta. Pra mim e para milhões de brasileiros. Com certeza.






PS.: Por mim a gente já poderia virar o relógio e terminar 2019. Já deu.
Que venha 2020, porque este ano tá osso!



PADILHA, Ênio. 2019


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09/02/2019

A ENGENHARIA BRASILEIRA NO BANCO DOS RÉUS



(Publicado em 11/02/2019)



No excelente artigo ENGENHARIA, A ESPINHA DORSAL PARA O DESENVOLVIMENTO HUMANO, publicado no website do Confea, o presidente, Engenheiro Joel Krüger faz uma observação muito importante. Diz ele:



"Para reverter todo esse quadro é preciso que a Engenharia Nacional volte a ser pensada sobre os quatro pilares fundamentais: planejamento, projeto, execução e manutenção. Não existe Engenharia sem essas fases, que estão diretamente interligadas. Não se faz Engenharia sem planejamento prévio, sem os diversos projetos, do básico ao executivo, sem uma execução minuciosa e, claro, sem a devida manutenção preventiva."



O "quadro" ao qual o presidente se refere, e que precisa ser revertido, é a situação de descrédito à qual a Engenharia Brasileira está sendo submetida, à cada novo episódio que desgraça a vida nacional nas últimas décadas. Alguns exemplos:
• A queda do Edifício Palace, no Rio de Janeiro (fev/1998);
• As explosões na Plataforma P36 da Petrobras (mar/2001);
• A explosão do VLS-1 em Alcantara-MA (ago/2003);
• A explosão do avião da TAM (voo JJ3054) (jul/2007);
• O desmoronamento das obras do Metrô de São Paulo (jan/2008);
• O desabamento do teto de uma igreja em São Paulo (jan/2009)
• A queda de vigas de 85t de um viaduto em obras em São Paulo (nov/2009)
• A queda do edifício Real Palace, em Belém-PA (jan/2011);
• A queda de três prédios no Rio de Janeiro (jan/2012);
• O incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria-RS (jan/2013);
• A explosão seguida de incêndio num armazém em São Francisco do Sul-SC (set/2013)
• A queda do viaduto em Belo Horizonte-MG (jun/2014);
• A queda de parte da ciclovia Tim Maia, no Rio de Janeiro (abr/2015);
• O Incêndio no Porto de Santos (abr/2015);
• O rompimento da barragem em Mariana, em Minas Gerais (nov/2015);
• O incêndio do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo (dez/2015);
• O incêndio e dasabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, em SP (mai/2018);
• A queda do viaduto da marginal Pinheiros em São Paulo (nov/2018);
• O incêndio do Museu Nacional (set/2018);
• O rompimento da barragem em Brumadinho, em Minas Gerais (jan/2019);
• O incêndio que vitimou 10 jogadores sub15 do Flamengo (fev/2019)

Isso sem citar aqui os desastres naturais cujas consequências poderiam perfeitamente ser evitadas (ou reduzidas) com boa engenharia.

Em cada um dos desastres listados acima a Engenharia, em algum momento ou de alguma forma foi posta no banco dos réus e algumas vezes acabou sendo o destino das únicas punições conhecidas.

Quem me lê a mais tempo já sabe o que eu penso. Já escrevi diversas vezes sobre isso, sempre dizendo a mesma coisa: uma tragédia envolvendo Engenharia nunca ocorre por conta de UM erro de Engenharia, por mais grosseiro que seja. Sempre será uma soma de muitos erros e/ou omissões.

No entanto, por mais que eu me solidarize emocionalmente com o engenheiro, em qualquer uma dessas situações, não podemos tentar enganar ninguém: nesse tipo de ocasião (quando um prédio cai, por exemplo) a culpa é, sim, do engenheiro (de algum engenheiro).

A construção de edifícios com estrutura de Aço, Concreto Armado ou Alvenaria Estrutural é tecnologia dominada. Em muitos lugares se projeta e constrói edifícios de 50, 80, 100 andares em regiões sujeitas a terremotos... e os prédios resistem. Portanto, quando um prédio cai é porque alguma coisa (básica) não foi feita como deveria ter sido.

O problema pode ter sido na sondagem do solo. O estudo e análise do terreno pode ter sido negligenciado. Erro do Engenheiro ou do Geólogo responsável;

Se a sondagem do terreno foi bem feita e a análise do entorno foi correta, pode ter havido erro no projeto das fundações ou da estrutura do edifício. Erro do Engenheiro responsável!

Se o projeto das fundações foi bem feito e os cálculos estão corretos, pode ter havido erro de execução. As fundações ou as estruturas podem ter sido construídas de forma diferente do que estava no projeto. Erro do Engenheiro responsável pela execução da obra!

A execução da obra pode ter sido feita de acordo com o projeto, porém, utilizando-se materiais diferentes dos que foram especificados. Ou materiais de fornecedores duvidosos, que não estejam certificados por instituições confiáveis. Erro do Engenheiro Responsável!

A obra foi finalizada e tudo foi exetutado corretamente. Mas, obras de Engenharia não são feitas para durar eternamente. É necessário que sejam feitas manutenções, inspeções, avaliações de riscos. Isso é responsabilidade (intransferível) de Engenheiros. Sempre tem um engenheiro responsável pelo funcionamento de um elevador, de uma caldeira, de um edifício, de uma usina, de uma barragem, ponte, viaduto...

Pedreiros, carpinteiros, armadores, encanadores, eletricistas, carregadores, ninguém, absolutamente ninguém, além do engenheiro, tem responsabilidade sobre o que acontece numa obra (antes, durante e depois da sua conclusão). É tudo responsabilidade do Engenheiro. É tudo Culpa do Engenheiro!

Os médicos raramente são responsabilizados pela morte de seus pacientes que não receberam o melhor tratamento possível. Os advogados não vão presos com seus clientes que não receberam uma boa defesa. Um arquiteto não é condenado porque o prédio que ele projetou ficou feio, ou pega sol de mais ou vento de menos... Mas os engenheiros têm de viver com essa responsabilidade pela consequência. Seus erros são avaliados e medidos de forma OBJETIVA.

O prédio ficou de pé, firme, forte? Ótimo! Polegar pra cima!

O Prédio teve rachaduras? inclinou para o lado? A umidade tomou conta? teve vazamento na caixa d'água? Caiu?!? Perdeu!!! Polegar para baixo, como Cesar, no coliseu.

Daí a necessidade de a Engenharia Brasileira (aí representada pelos conselhos profissionais, as entidades de classe, os sindicatos e as universidades) tomar para si a reflexão sobre como ensinar isso aos jovens engenheiros: nossa responsabilidade é total. Não existe terceirização. Não existe justificativa aceitável para Engenharia mal feita.

Os políticos têm seus objetivos, os patrões têm suas motivações e suas metas econômicas... mas o engenheiro não pode perder de vista que a responsabilidade não será deles (dos políticos, dos empresários ou dos proprietários das obras). Será dos engenheiros. Sempre.

Neste ano de 2019, em que o Sistema Confea/Crea decidiu que o tema central do 10º Congresso Nacional de Profissionais (CNP) será ESTRATÉGIAS DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL temos uma janela de oportunidade para colocar essa questão sobre a mesa e discutir qual será a estratégia dos conselhos profissionais, das entidades de classe, dos sindicatos e das universidades para (1) fazer com que os engenheiros não descuidem dessas responsabilidades ao longo de todo o tempo que durar o seu exercício profissional e (2) fazer com que os titulares do poder (políticos, empresários e proprietários de obras) entendam que essa responsabilidade requer autoridade e remuneração adequadas.

A sociedade precisa confiar na Engenharia. Precisa se sentir segura de que a ponte não vai cair, o prédio não vai pegar fogo, a barragem não vai romper... desastre nenhum vai acontecer, porque tem algum engenheiro cuidando de tudo. O progresso do país depende disso.

Basta de desmandos. Basta de puxadinhos. Basta de improvisações. E que se comece pelas grandes obras e grandes interesses.








Leia AQUI os artigos que já foram publicados
nesta série sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.





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PADILHA, Ênio. 2019

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08/02/2019

É PRA VALER OU SÓ PRA CONSTAR?



(Publicado em 11/02/2019)



No fim, resta a dúvida: o TEMA CENTRAL escolhido pelo Confea para o 10º CNP será mesmo levado à sério? Ou é apenas um rótulo bonito para dar ao evento um lustro de erudição e comprometimento?
O tema será mesmo discutido? Será, efetivamente, objeto dos debates? Será a base das propostas apresentadas? O Congresso Nacional dos Profissionais apresentará uma proposta de Estratégia da Engenharia e da Agronomia para o Brasil?






A cada 3 anos os engenheiros, os agrônomos e demais profissionais ligados ao sistema Confea/Crea se reúnem no CNP - Congresso Nacional de Profissionais.

Os eventos do CNP, de acordo com o Confea (leia AQUI) são realizados ao longo de meses, na seguinte sequência:

1. na consciência individual de cada profissional;

2. nas reuniões preliminares, muitas vezes informais, realizadas nas entidades de classe e nas instituições de ensino, ou até mesmo nas empresas;

3. nas inspetorias, em cujas subjurisdições se localizam essas entidades, instituições e empresas;

4. nas regiões administrativas em que as inspetorias se agrupam;

5. nos Congressos Estaduais, cujas propostas sistematizadas são representativas do pensamento e do posicionamento consensual dos profissionais de cada jurisdição;

6. finalmente, no Congresso Nacional de Profissionais (CNP), onde são discutidas as propostas nacionais sistematizadas, representativas do pensamento e do posicionamento nacionais unificado.

O QUE SIGNIFICA ISTO?
Basicamente, significa que, num ano de CNP, o Tema Central deve ser objeto de reflexão e discussão em cada escritório, cada entidade de classe, inspetoria e sede regional de Crea no Brasil inteiro. Significa que o tema tem de chegar VIVO ao CNP.

Será que isto está realmente acontecendo? Será que isto está sendo estimulado da maneira correta?

Sinceramente, eu não vejo isto acontecer. Eu acompanho o CNP desde sua primeira edição (na verdade, muito antes disso, já que o Crea-SC realizou Congressos Estaduais de Profissionais muito antes de o Confea instituir o CNP). No final, o que eu observo é que as discussões realizadas e as propostas apresentadas não se relacionam absolutamente em nada com o Tema Central do CNP. Repetem-se os mesmos temas de sempre, sem o menor cuidado de associar a discussão ao tema proposto.


E foi por isto que, neste ano de 2019, assim que o Confea anunciou o tema central do 10º CNP (no dia (25/01/2019) eu decidi fazer a minha parte e apresentar a minha contribuição para que o debate possa se realizar de forma mais efetiva.

Resolvi escrever uma série de artigos sobre o tema (Estratégia) e disponibilizar uma palestra especialmente dedicada a essa finalidade, ou seja: discutir o conceito de estratégia e como ele se aplica à realidade da Engenharia Brasileira nesses tempos "estranhos".

Não. Não tenho a ilusão de que os artigos serão lidos por muita gente ou que serão utilizados como base para discussão em reuniões de colegas profissionais pelo país a fora. Como diria o meu pai, "eu conheço o meu eleitorado". Sei como as coisas funcionam.

Mas eu sei que, em alguns lugares, numa ou noutra entidade de classe, num ou noutro Crea essa sementinha poderá germinar. Se a minha série de artigos servir para dar início e produzir resultados efetivos em meia dúzia de grupos de profissionais, me sentirei realizado e terei cumprido o meu dever como Engenheiro neste país.

Meu desejo é que mais gente faça, como eu, a sua parte.







PS.: Para cada edição do Congresso são definidos um Tema Central e os respectivos Eixos Temáticos.

No 10º Congresso Nacional de Profissionais (CNP-2019) que será realizado neste ano em Palmas, Tocantins, o Tema Central será ESTRATÉGIAS DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL e os Eixos Temáticos serão:

• INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS — Inovações tecnológicas no processo de desenvolvimento econômico sob a ótica da Engenharia e da Agronomia;

• RECURSOS NATURAIS — O papel da Engenharia e da Agronomia na utilização e aproveitamento de recursos naturais com sustentabilidade;

• INFRAESTRUTURA — A governança da política de infraestrutura brasileira sob a ótica da Engenharia;

• ATUAÇÃO PROFISSIONAL — Os rumos da formação profissional da Engenharia e Agronomia brasileiras;

• ATUAÇÃO DAS EMPRESAS DE ENGENHARIA — Governança das empresas de Engenharia e obras públicas.


Let the games begin!






Leia AQUI os artigos que já foram publicados
nesta série sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.





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08/02/2019

07/02/2019

OS CAMINHOS DE UMA ESTRATÉGIA PARA A ENGENHARIA BRASILEIRA



(Publicado em 07/02/2019)



O Sistema Confea/Crea decidiu que o tema central do 10º Congresso Nacional de Profissionais (CNP) que será realizado neste ano em Palmas, Tocantins será ESTRATÉGIAS DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL. Por isso esse tema será muito discutido aqui no BLOG DO ÊNIO PADILHA.



Leia AQUI os artigos que já foram publicados na série
sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.



Neste artigo o objetivo é mostrar os caminhos e ferramentas necessárias para a concepção de uma estratégia para uma organização, apresentando a moderna abordagem da Visão Baseada em Recurso - RBV (Resource-Based View) e como ela se aplicaria para a Engenharia Brasileira.






Durante muitas décadas a concepção das estratégias nas organizações foi sustentada pelo paradigma SCP — Structure-Conduct-Performance (Estrutura-Conduta-Desempenho) proveniente da Teoria da Organização Industrial, desenvolvida inicialmente pelo economista norte-americano Edward Sagendorph Mason, que realizou trabalhos importantes na década de 1930 e foi sucedido por Joe Staten Bain, também economista e também norte americano, cujos principais trabalhos são das décadas de 1950 e 60.

Se você já participou de algum trabalho de PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO provavelmente já teve contato com a perspectiva SCP e com a obra de outro autor importante: Michael Porter, um pesquisador/professor/autor norte americano que é o principal divulgador do Paradigma SCP, cujo pressuposto central é a tese de que a estrutura da indústria detém as razões das diferenças observáveis no desempenho das firmas



IMPORTANTE: Indústria, na economia Industrial de Mason e Bain, é definida como o conjunto de empresas que produzem e disponibilizam ao mercado produtos que são substitutos e bastante próximos entre si. Não tem, portanto o sentido normalmente utilizado no Brasil que entende indústria como uma fábrica de bens de consumo ou de produção.



Com base no paradigma SCP, a concepção das estratégias eram precedidas da análise da Indústria.

As duas mais importantes e conhecidas ferramentas da análise da indústria (e da organização nela inserida) são a análise das forças competitivas do mercado e a análise SWOT

A análise das forças competitivas do mercado consiste em avaliar
(a) Acompetição entre as empresas
(b) A influência dos entrantes potenciais
(c) A ameaça dos produtos substitutos
(d) O poder de barganha dos compradores
(e) O poder de barganha dos fornecedores

Já a análise SWOT – Strengths, Weaknesses, Opportunities e Threats (Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças) avalia, basicamente
(a) Os pontos fortes da organização
(b) Os pontos fracos da organização
(c) As oportunidades do ambiente industrial para a empresa
(d) As ameaças do ambiente industrial para a empresa

As duas análises acima, quando bem detalhadas, são elementos importantes para a definição das estratégias da organização.






Uma alternativa ao paradigma SCP foi desenvolvido a partir dos trabalhos de Penrose (1959), Nelson e Winter (1982), Wernerfelt (1984), Dierickx e Cool (1989) e Barney (1991). Os trabalhos desses autores começaram a pôr em dúvida a idéia de que a vantagem competitiva é uma coisa externa à empresa. De que dependem mais do ambiente e das circunstâncias.

Para esses autores, a base da vantagem competitiva da empresa residia no acesso e/ou controle de recursos que tivessem por características ser raros, valiosos, imperfeitamente imitáveis e/ou insubstituíveis, cuja mobilidade e/ou negociação fosse imperfeita. Isto significava ter acesso e/ou controle de recursos marcadamente competitivos.

Esta nova perspectiva teórica recebeu o nome de RBV (Resource-Based View) - Visão Baseada em Recursos.

A RBV sustenta que as diferenças de desempenho entre as empresas é explicada pela diferença entre os recursos organizacionais e pela maneira como as empresas combinam e utilizam os próprios recursos. Ou seja: as empresas são heterogêneas no que tange aos seus recursos e esta heterogeneidade na posse ou controle de recursos pode explicar a vantagem competitiva.

Trocando em miúdos: a empresa pode combinar recursos normais de maneira única e eficaz de tal maneira que o resultado dessa combinação é um recurso valioso, que poderá levar a empresa à Vantagem Competitiva.


COMO ISTO SE APLICA À ENGENHARIA BRASILEIRA?

A RBV está inserida no campo da Estratégia das Organizações. É claro que o foco da teoria são as empresas industriais, comerciais ou de serviços (públicas ou privadas). Mas certamente é possível ampliar os significados para algo mais geral, como a Engenharia Brasileira, e depois, para o Brasil, como nação.

Nas empresas as estratégias são concebidas e implementadas com o objetivo de obter VANTAGEM COMPETITIVA sobre os concorrentes. A pergunta é: quais são os concorrentes da Engenharia Brasileira?

Iniciamos esta série de artigos com algumas afirmações desagradáveis mas que precisam ser enfrentadas? Dissemos que



a sociedade brasileira não valoriza a sua Engenharia. Não é o governo, não são os políticos, não são os empresários, nem os intelectuais... não. É a sociedade, como um todo, a maioria do povo brasileiro, que não valoriza a sua Engenharia.

Nenhuma pesquisa na sociedade brasileira iria apontar os investimentos em ensino de ciência e tecnologia como uma prioridade do povo, como uma coisa de importância estratégica o bastante para mobilizar pessoas e construir discursos que elegem prefeitos, vereadores, deputados ou senadores.

Nenhum candidato se elegeria Presidente do Brasil se estabelecesse (de verdade) como meta PRINCIPAL do seu governo, o Ensino de Engenharia.



Isto significa que os concorrentes da Engenharia Brasileira são todos os temas que dividem a atenção e interesse da sociedade estabelecendo a escala de valores capaz de definir onde e quanto o Brasil deve investir, em termos de atenção, interesse e recursos.

Hoje a decisão de investir no ensino de ciência e tecnologia (aí incluído a Engenharia) está no final de uma longa fila na qual estão, nas primeiras posições, a decisão de investir (tempo, dinheiro, atenção) em
• Saúde
• Segurança
• Combate à corrupção
• Redução do desemprego
• Educação Fundamental
• Combate a Fome/Miséria
• Redução da Desigualdade Social
• ... se fosse só isto, seria pouco. O problema é que esta lista vai muito longe até que o investimento em ciência e tecnologia, na formação de bons engenheiros e na valorização da Engenharia apareça. Até que alguém comece a dizer que a solução para os problemas do Brasil está na formação de bons engenheiros e na valorização dos seus serviços.

Mas a verdade, como já vimos no artigo A ENGENHARIA E O PROGRESSO DOS PAÍSES é que todos os países que deram um salto perceptível de qualidade e progresso (num curto espaço de tempo) fizeram exatamente isto. Investiram intensamente no ensino de Engenharia.

Portanto, esse é o desafio estratégico que a Engenharia Brasileira precisa enfrentar, primeiro dentro das suas próprias fileiras e depois na relação com a sociedade.

Precisamos alterar a percepção estabelecida de que o investimento em ciência e tecnologia é algo que pode ser deixado para ser resolvido depois que estivermos livres dos problemas com saúde, segurança, corrupção, desemprego, fome e outras misérias.

Precisamos estabelecer a verdade de que a Engenharia é a solução para o Brasil, assim como foi a solução para muitos outros países ao longo da história da humanidade.

Que recursos valiosos temos para isso? O que podemos utilizar como base para a construção da nossa estratégia?

Este será o tema para o último artigo desta série. Aguardemos.








Leia AQUI os artigos que já foram publicados
nesta série sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.





REFERÊNCIAS:
BARNEY, J. Firm resources and sustained competitive advantage Journal of Manegement
v.7, n.1, p.99-120, 1991

DIERICKX, I.; COOL, K. Asset stock accumulation and sustainability of competitive
advantage. Management Science. v.33, n.12, dez.1989

PENROSE, Edith The Theory of the Growth of the Firm. 3 ed. Oxford, UK: Oxford
University Press, 1959.

PETERAF, Margareth. The cornestone of competitive advantage: a resource=based view.
Strategic Management Journal. v.14, p.179-191, 1993

PORTER, Michael. Industrial Organization and the evolution of concepts for strategic
planning. In: Manegerial and Decision Economics. v.4, n.3. ABI/INFORM Global, p.172
PORTER, M Estratégia Competitiva: Técnicas para análise de indústrias e da concorrência.
Rio de Janeiro: Campus, 1986, caps. 1, 2 e 7

PRAHALAD, C.K.; HAMEL, G. A competência Essencial da Corporação. In:
MONTGOMERY, C.A.; PORTER, M. Estratégia: a busca da vantagem competitivo. Rio de
Janeiro: Campus, 1998

NELSON, Richard.: WINTER. S. An evolutionary theory of economic change.
Cambridge: Harvard University Press. 1982, cap. 4

WERNEFELT, B. A. A resource-based view of de firm. Strategic Management Journal.
v.5, p.171-180, 1984

WERNERFELT, Birger The resource-based view ten years after. In: Stratégic Manegement
Journal v.16, 1995, p.171-174




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PADILHA, Ênio. 2019

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05/02/2019

A ENGENHARIA E O PROGRESSO DOS PAÍSES



(Publicado em 05/02/2019)



O Sistema Confea/Crea decidiu que o tema central do 10º Congresso Nacional de Profissionais (CNP) que será realizado neste ano em Palmas, Tocantins será ESTRATÉGIAS DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL. Por isso esse tema será muito discutido aqui no BLOG DO ÊNIO PADILHA.



Leia os artigos que já foram publicados:



O QUE É ESTRATÉGIA E POR QUE ISSO É IMPORTANTE PARA A ENGENHARIA E AGRONOMIA DO BRASIL?



ESTRATÉGIA (2) — IDENTIDADE



Neste artigo o objetivo é demonstrar que a Engenharia é um valor estratégico para qualquer país e que reconhecer isso é o primeiro e mais importante passo no caminho do desenvolvimento e progresso.






O imperio Mongol, construído sob a liderança de Gengis Khan talvez seja um dos únicos exemplos de desenvolvimento e domínio de uma nação sobre outras e que não esteja diretamente ligado à Engenharia.

A estratégia do Gengis Khan não era baseada em ciência nem em tecnologia. Ele aterrorizava seus inimigos. Sua principal estratégia era vencer as batalhas sem ter de lutá-las. Os inimigos se entregavam quando se convenciam (pelo terror e medo) de que a derrota era certa e iminente. Ele usava o tempo, a escuridão e tropas montadas em animais grandes... Naquele idos de 1200 tudo isso era uma grande novidade. Imagine-se o horror. Ninguém queria estar na pele dos inimigos do povo mongol.

Mas é importante dizer que o progresso do Império Mongol não chegou a durar um século (de 1206 quando Gengis Khan assumiu o poder até 1260, quando os mongóis sofreram a primeira derrota em batalha, iniciando o declínio do império).

No ocidente, foram os romanos que se distinguiram de outros impérios. E fizeram isso porque tinham uma Engenharia poderosa. Construiam estradas, aquedutos, arenas, sistemas de esgotos, além da construção de barcos e navios. Nenhuma outra nação ocidental, antes de Roma estabeleceu um domínio tão intenso e duradouro.

É claro que quando falamos em Engenharia, nesse caso, estamos falando não da Engenharia propriamente dita, como a conhecemos hoje, mas de Ciência e Tecnologia. Somente nos últimos 200 ou 300 anos que a ciência e a tecnologia passaram a ser os objetos da Engenharia, de tal maneira que hoje são praticamente sinônimos.

Roma era um complexo burocrático-militar fortemente ancorado em conhecimento (ciência e tecnologia). Isso resultava em administração, organização militar e produção dos artefatos de guerra.

Depois do declínio do Império Romano e durante praticamente toda a idade média nenhuma nação se estabeleceu de forma definitiva, como potência mundial. Não por acaso, naquele milênio, nenhum país desenvolveu de forma expressiva, nem a ciência nem a tecnologia.

No renascimento, Portugal, Espanha, Inglaterra e França se estabeleceram como potências no final do século XV justamente por dominar a engenharia naval e suas possibilidades.

Esse domínio acabou por ser superado pela Inglaterra, com a revolução industrial que nada mais foi do que o investimento intenso em engenharia industrial.

Nos dias atuais não parece haver dúvidas de que muitos países devem seu desenvolvimento, riqueza e poder à qualidade da sua Engenharia

Todos os países que mais cresceram nos últimos anos (e que não o fizeram graças à exploração de petróleo) realizaram (antes de alcançar o desenvolvimento) investimentos muito expressivos no desenvolvimento da sua engenharia.

Na China, por exemplo, observa-se uma clara relação entre o aumento de engenheiros graduados e o crescimento do PIB. O país tem quase 5 milhões de engenheiros, o que equivale a 36 para cada 10 mil habitantes. O governo participa intensamente do processo, define horizontes por meio dos planos quinquenais e incentiva a interação entre universidade e indústria para gerar soluções, o que aumenta a quantidade de formandos capazes de apoiar as diversas demandas industriais.

A Coreia do Sul, que no início da década de 1960 era um país pobre, agrícola e devastado por duas guerras, é hoje um dos países mais ricos e desenvolvidos do mundo. Não por acaso, sua engenharia foi fortemente incentivada e desenvolvida exatamente neste período.

Na Coreia do Sul, existe ainda uma grande preocupação com a qualidade do ensino da Engenharia e grande número das faculdades de Engenharia coreanas possuem órgãos de monitoramento para assegurar a qualidade da formação dos engenheiros. Atualmente, a Coreia do Sul conta com 140 faculdades de Engenharia e 2.300 programas que formam cerca de 68.000 engenheiros a cada ano, 13.000 com mestrado e 2.200 com doutorado. São essas instituições que estão contribuindo para a vertiginosa industrialização do país, provendo o mercado com engenheiros competentes, de acordo com a demanda e o desenvolvimento industrial do país.

Mesmo na Escócia, um país que tem uma longa tradição de excelência científica e inovação, a Engenharia teve um papel relevante e proeminente no desenvolvimento e progresso. E essa longa história de contribuição começa com o espetacular desempenho da indústria de construção de navios, logo depois da revolução industrial que elevou Glasgow à condição de capital mundial da construção naval e segunda maior cidade do Império Britânico.

Desde o iluminismo a Escócia tem servido ao mundo com célebres intelectuais como Adam Smith e David Hume, na área econômica, e Thomas Telford, James Watt e William Arrol, na Engenharia. Por seu passado, de acordo com o Scottish Technology Forum, 2007 a Escócia poderia ser considerada uma nação de engenheiros. O progresso da Engenharia reflete a história do país e de seu crescimento econômico até a constituição do governo mais autônomo, em 1999. Desde o século XVIII a Escócia e sua indústria cresceram intimamente relacionadas à formação de engenheiros e ao desenvolvimento de conhecimentos teóricos que amparassem o desenvolvimento técnico.

A Índia, é o segundo país do mundo em população. Tem 18,5% da população, em 2,4% do território. O país têm experimentado um expressivo crescimento do PIB, especialmente depois da década de 1990.

O aumento do número de engenheiros acelerou-se a partir de 2000. Naquele ano, o país formou 74.000 engenheiros, no ano seguinte foram 83.000 e, em 2007, 237.000 (números do Indian Institute of Tecnology de Bombay).

O aumento do número de engenheiros influenciou o PIB per capita indiano (ainda que esse número continue baixo). Os benefícios gerados pelos engenheiros não se refletem no conjunto da população, devido à forte concentração de renda na India, que é uma das maiores do mundo. O salário real de um engenheiro na Índia é cada vez maior que o salário real de muitas outras profissões, a despeito do acelerado crescimento do número de engenheiros.

Finalmente, na Irlanda, segundo estudos da Higher Education Authority, o crescimento do número de engenheiros favorece o crescimento da Economia, pois estimula o desenvolvimento do país no que diz respeito à inovação e à tecnologia.

Tecnologia da Informação (49%), Construção Civil (25%) e Biotecnologia (8%) absorvem grande parte dos engenheiros graduados. O aumento dos investimentos em P&D acompanhou o crescimento do PIB irlandês durante a década de 1990. Isso foi reflexo da estratégia nacional de desenvolvimento, implementada a partir dos anos 1980, e intensificada na década seguinte, focada no investimento em P&D para obtenção de maior nível de crescimento a longo prazo.

O governo irlandês investiu fortemente na Educação fundamental e superior, com suas principais universidades se especializando nas áreas de Tecnologia da Informação, Química e de Saúde, com o objetivo de fortalecer as empresas nesses setores. Paralelamente, uma política ativa de emprego foi implementada com a finalidade de absorver profissionais há mais de um ano fora do mercado. Essa política permitiu investimentos de cerca de 1,7% do PIB em treinamento para desempregados, visando a capacitá-los para competir na Economia moderna. Com a redução do desemprego e o maior número de profissionais atuando, houve um efetivo crescimento do PIB.






A conclusão natural decorrente do que foi visto acima é a de que existe uma clara e incontestável correlação entre o desenvolvimento da Engenharia e o desenvolvimento de um país. Qualquer país. Em qualquer região do mundo.

Não existe razão para se pensar que no Brasil seria diferente. Aliás, é importante dizer que o período de maior crescimento do Brasil que vai dos anos 1920 até o fim da década de 1970 coincide com o período em que a Engenharia foi mais valorizada e encontrou seus melhores números na história.

Assim, me parece fundamental que os representantes da Engenharia Brasileira estabeleçam como essencial (parâmetro do qual não se pode abrir mão) que o governo, as indústrias e as empresas de construção civil estabeleçam ações EFETIVAS de valorização da Engenharia e dos engenheiros. Esse é o primeiro passo que precisa ser dado em direção ao progresso do país com a ajuda da Engenharia.

E, pelo que se viu até aqui... não existe outro caminho.






As informações sobre China, Coreia do Sul, India, Escócia e Irlanda foram retiradas do documento ENGENHADIA PARA O DESENVOLVIMENTO — INOVAÇÃO, SUSTENTABILIDADE E RESPONSABILIEDADE SOCIAL COM NOVOS PARADIGMAS trabalho organizado por Manuel Marcos Maciel Formiga e publicado pelo SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, Departamento Nacional, em 2010.






Leia AQUI os artigos que já foram publicados
nesta série sobre Estratégias para a Engenharia do Brasil.




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