Notas de "NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS"

26/01/2018

ENIO PADILHA, PAI

(Este artigo foi publicado originalmente em 26/01/2011



Quem me conhece apenas como escritor talvez não tenha o registro de que o meu nome completo inclui um Filho depois do Ênio Padilha.
Isto mesmo: Ênio Padilha Filho.

Em 1998, no dia que foi decidida a capa para o meu primeiro livro (Marketing para Engenharia e Arquitetura), resolvi suprimir esse complemento do meu nome, por conta de uma recomendação do marketing pessoal (as pessoas guardam mais facilmente nomes com duas palavras). Mas essas recomendações do marketing pessoal são outro assunto (aliás, tratados no capítulo 6 do livro Manual do Engenheiro Recém-Formado).

O assunto aqui é, justamente, o outro Ênio Padilha. O original. O verdadeiro dono do nome: meu pai, que, se ainda estivesse entre nós, completaria 96 anos neste dia 26 de janeiro de 2018.


Meu pai nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1922. Era o 2º filho do vô Argemiro (— Correia Padilha) e da vó Maria Luiza (— Pires Padilha). Viveu seus primeiros anos no Bairro Bonfim, na capital gaúcha, onde trabalhou como ajudante de padeiro, fazendo entregas com uma carroça. Nesse trabalho sofreu um grave acidente que lhe quebrou as duas pernas. Esse infortúnio o deixou, por toda a vida, com um defeito em uma das pernas, responsável por uma característica que o identificava, mesmo visto de longe, caminhando: era manco.

Na juventude morou por algum tempo em Caxias do Sul, trabalhando com o vô Argemiro, que era calceteiro (trabalhador que calça ruas e outros caminhos com pedras ou paralelepípedos). Lá conheceu Natalina Rodrigues (seis anos mais velha) com quem se casou, em 1941. Tinha, então, 19 anos. O casamento durou 11 anos e resultou, entre outras coisas, em dois filhos: Adão e José Carlos. A essas alturas Ênio Padilha já era, ele próprio, um calceteiro reconhecido e trabalhava por conta própria, prestando serviços para prefeituras de várias cidades.

Com a morte da mãe dele, (a vó Maria Luiza), acompanhou o pai (vô Argemiro) na mudança para Santa Catarina, em 1953. Estabeleceram-se em Rio do Sul, onde Ênio conheceu Mathildes Souza (quatorze anos mais nova) e com ela se casou, em 1954.

Com Mathildes (que virou Dona Ana, por sugestão do sogro, que considerava Mathildes um nome muito complicado), Ênio viveu por 26 anos e teve 7 filhos: Carlos Alberto, Ênio, Edson, Enoína, Eronilde, Eliane e Élcio.

A profissão de calceteiro, na qual iniciou-se aos 18 anos, foi sua ocupação durante toda a vida. Com ela criou seus filhos e tornou-se conhecido, principalmente em Rio do Sul, onde viveu por mais de 30 anos. Em Rio do Sul, foi o responsável pela pavimentação (com paralelepípedos ou lajotas de concreto) das principais ruas e avenidas da cidade. Muitas dessas ruas, como a Rua XV e a Aristiliano Ramos, hoje estão cobertas pelo bem-vindo asfalto.

Tornou-se tão conhecido e querido por tanta gente em Rio do Sul que existe, na cidade, uma rua com o seu nome. Homenagem feita pelos próprios moradores da rua, poucos meses após o seu falecimento, em março de 1989.

Mas os paralelepípedos não foram suas únicas ocupações. Ele também era músico, tocava bateria e pandeiro em bares e casas noturnas de Rio do Sul. Adorava dançar tangos, cantarolar boleros e torcer pelo Internacional de Porto alegre (com o rádio de pilha colado ao ouvido)

Sô Padilha, que hoje anima as festas do céu, ao lado do irmão Paulinho, outro músico e que também já partiu, certamente olha para cá e abençoa os 9 filhos (e muitas noras, genros, netos e bisnetos) que ainda sentem saudades e que se esforçam para cumprir seus sábios conselhos e construir vidas úteis, honestas e felizes.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br







Imagens:
• Na primeira foto (preto e branco), feita pelo fotógrafo Carlos Marzall, de Rio do Sul, provavelmente na década de 1960, meu pai aparece em primeiro plano, na sua inseparável bicicleta Monark;
• Na segunda foto (feita pela minha amiga Sônia Tomazoni, em 2007) o detalhe da placa da rua Ênio Padilha, no Bairro Taboão - Rio do Sul-SC;
• Na terceira foto (feita por mim) a entrada do nosso escritório, em Balneário Camboriú. Mandei fazer uma ruazinha em paralelepípedos, para homenagear o velho;
• As duas fotos maiores, depois do texto, foram feitas em janeiro de 2013 pelo meu irmão, Carlos Alberto Padilha e mostram algumas das casas da Rua Ênio Padilha.
• As últimas fotos, onde a rua aparece já pavimentada, foram feitas pelo amigo Antônio Celso Silveira, em setembro de 2016.






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12/05/2017

DIDI

(Publicado em 12/05/2001)



Eu estava todo animado para contar a novidade ao meu irmão mais velho, Calinho, 8 anos (um ano mais velho do que eu).  Corria o ano de 1966. Era hora do recreio, no meu primeiro dia de aula, e a novidade era mesmo fantástica: "Calinho", fui dizendo, "você sabia que o meu verdadeiro nome é Ênio?"

"Que besteira é essa, Didi? Ênio é o nome do nosso pai. O seu nome é Didi. Tá ficando bobo, só porque entrou na escola?"

(...)

É isso mesmo, o meu nome, para todos os efeitos, era Didi.  E eu só estava descobrindo que o nome "oficial" era "Ênio" ali, naquele dia, na escola.   Em casa, desde pequenininho, todos me chamavam de Didi.

Quando eu nasci recebi o nome do meu pai (Ênio Padilha).  Logo meus tios (tio Nilo e tio Nestor, que moravam com meus pais) perceberam que dois "Ênios" dentro de casa causariam uma certa confusão.  Assim, resolveram que eu, que tinha chegado depois, deveria ter um apelido.

"Didi" era o nome "da hora".  Craque da seleção campeã do mundo, mestre de gênios como Garrincha, Vavá e Pelé, ele era um atleta que despertava paixões e conquistava fãs pelo Brasil a fora.  Meu pai e meus tios eram alguns desses fãs.  Por isso herdei o apelido que me acompanhou por muitos anos.  Ninguém me chamava de Ênio.  Ninguém sequer lembrava que meu nome era Ênio.  Naquela época, crianças de famílias pobres, como a minha, não tinham caderneta de vacina, certidão de nascimento ou coisa parecida.  O único documento que eu tinha era o Certificado de Batismo.

Assim o apelido, Didi, virou nome.  E não havia discussão sobre isso. 

Até hoje minha mãe, meus tios e primos, ainda me chamam de Didi.  Meus irmãos, nem sempre, mas algumas vezes também deixam escapar.  Eu gosto muito, pois tenho muito carinho por este apelido, pelo que ele representa e pelo ídolo que foi "homenageado" com essa escolha.

Por isso fiquei tão triste hoje, quando vi a notícia, na internet: o velho Mestre se foi.

Didi marcou o primeiro gol do Maracanã, em 1950.  Participou de três Copas do Mundo. Foi campeão em duas. Em uma delas foi eleito o melhor jogador.

Inventou, em 1956, a "folha seca", uma forma de chutar a bola de tal maneira que ela muda a trajetória, em pleno ar, enganando o goleiro. Defendeu, como jogador ou treinador, mais de vinte equipes pelo mundo inteiro.  Foi, enfim, um grande atleta e um grande homem.

Eu sempre me orgulhei muito de ter recebido do meu pai e dos meus tios esse apelido que me ligava, de alguma forma, a esse grande ídolo.

Por isso, faço agora essa justa e humilde homenagem a esse brasileiro, que morreu aos 71 anos, depois de viver uma vida heróica e digna.

Vai com Deus, Mestre Didi.   E que a sua gloria continue a enfeitar as nossas memórias.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br



---Artigo2001

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24/04/2017

ANIBAL DE BARBA

(Publicado em 24/04/2002)





A Aníbal de Barba era linda!

Escolas Reunidas Aníbal de Barba, no bairro Canta-Galo em Rio do Sul, Santa Catarina, idos de 1966. Uma construção de madeira, enorme, pintada em um laranja escuro, janelas grandes, portas imensas...(É claro que os superlativos são por conta do que eu achava naquela época. Já adulto, em 1991, fui um dia rever a escola, à época já um prédio abandonado. Nossa, que pequenininha! Parecia tão grande!)

Eram duas salas e, no meio delas, quase um apêndice, “o gabinete”: um escritório “grande” onde ficava a diretora.

A diretora, em 1966, ano em que eu entrei na escola era, se eu não me engano, a dona Irene. A minha professora, essa eu não esqueço, é claro: a dona Alda (no segundo ano foi a dona Rose, no terceiro ano a inesquecível dona Méri e no quarto ano a dona Irene, ainda diretora da escola. A todas eu devo muito e não tenho a menor idéia de como saldar a dívida).

Um ano antes meu irmão mais velho, o Carlos, e todo um grupo de meninos mais ou menos na minha idade haviam entrado na escola. Naquela época e naquelas circunstâncias (bairro pobre, afastado do centro) não havia jardim de infância nem pré-escola. Então entrava-se na escola já com sete ou oito anos. Na primeira série.

Eu passei um ano inteiro (1965) escutando as histórias do Calinho, do Dico (Valdir Mendes) e do Fuminho (Reinaldo Simão) sobre a escola, sobre a professora deles (dona Isaltina, uma espécie de Deusa que eles adoravam mais do que às próprias mães) e sobre as novas brincadeiras que haviam aprendido. Sem contar que eles todos aprenderam a ler.

Meu Deus! Aquilo era o máximo! Eu precisava crescer logo para ir para a Aníbal de Barba também.
Dezembro de 65 e janeiro e fevereiro de 66 foram meses que duraram quase um ano, de tanto que não passavam nunca.

Finalmente o grande e inesquecível dia chegou. O ano de 1966 finalmente começava.
(Escrevi, ano passado, uma historinha sobre esse primeiro dia e de como eu descobri que o meu nome era Ênio e não Didi, que era meu apelido em casa – veja AQUI).

Na Aníbal de Barba eu me sentia em casa. Eu adorava a escola. Tirava notas boas, era paparicado pelas professoras, recitava versos nas homenagens à bandeira, todos os sábados, cantava, contava histórias, carregava bandeira no desfile de sete de setembro, brincava de pegar, de polícia e ladrão, de pular corda, de amarelinha e de quilica (eu adorava jogar quilica)

O pátio da escola era “imenso” a gente corria em volta da escola feito diabinhos, até esgotar as energias. Quando a aula começava (ou recomeçava, depois do recreio) estávamos encharcados de suor e, não raro, com algumas escoriações leves, sempre tratadas pela dona Alda, com mercúrio e merthiolate.

No recreio comíamos a sopa e o pão da dona Lola, zeladora da escola, cozinheira, mãe de todos (esposa do Aníbal de Barba, o patrono da escola) mas, principalmente, mãe do Aníbal de Barba Filho, meu colega de aula. Gordinho, divertido e muito, muito inteligente. Por conta da presença dele, nossa turma tinha um tratamento especial (coisas de mãe, sabe como é).

Tinha também o Gilson (Gilson Schlichting) o meu melhor amigo. Um intelectual, de óculos e tudo. Tirava ótimas notas e tinha respostas para tudo.

Aprendi a ler rapidinho (antes das férias de julho) e a fazer contas também. Mas o grande momento do ano foi a semana da criança, em outubro. A professora levou um toca-discos portátil (daqueles da Sonatta, lembra), à pilha, pois a Aníbal de Barba não tinha luz elétrica. E botou para tocar uma historinha maravilhosa.
E ainda teve “farta” distribuição de pipocas balas e pirulitos, que foram obtidos por doação nas vendas do seu Arnildo e do seu Hermínio.

Ah, que saudade!
Por onde andará essa gente toda?



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br




Ilustração: Imagem atual (2017) tirada do Google Maps. A porta grandona era da minha sala de aula, no primeiro ano, em 1966.



---Artigo2002

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17/02/2014

RIO DO SUL - DUAS VEZES

(Este artigo foi publicado em 17/02/2014)




ÊNIO PADILHA
professor@eniopadilha.com.br





Rio do Sul, no interior de Santa Catarina, é a cidade onde eu nasci, vivi por 18 anos (antes de ir para Florianópolis fazer o ensino médio e a faculdade de Engenharia) e por mais 5 anos, logo depois de me formar. É, portanto, a cidade que me viu dar os primeiros passos... duas vezes.

Pois na semana passada Rio do Sul me proporcionou duas grandes alegrias: primeiro, na segunda-feira, tive a honra de ser o palestrante na aula inaugural do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unidavi, atendendo convite/convocação da minha querida amiga arquiteta Maristela Macedo Poleza, coordenadora do curso.
(platéia de estudantes de Arquitetura e de Engenharia Civil presentes ao evento)

No sábado, outro grande prazer: participei do primeiro encontro dos integrantes da equipe de Atletismo de Rio do Sul nos anos 1970. Uma equipe de ouro, comandada pelos fantásticos José dos Santos e Aroldo Schünke. Naquela equipe eu era apenas um coadjuvante entre grandes e dourados atletas. Porém, passados mais de 35 anos, a amizade resultante é tão sólida que durante praticamente todo o encontro não se falou em marcas ou conquistas individuais. Foi como se todos nós tivéssemos sido atletas de mesmo nível. Sensacional. Imperou a alegria e a satisfação de cada um pelo sucesso pessoal e profissional dos demais. Foi muito bacana!
(na década de 1970, grandes atletas. Hoje, pessoas fantásticas e grandes amigos!)

Assim, em apenas uma semana, minha cidade natal recarregou em mim a paixão pela terra e a certeza de que eu nasci no lugar certo. Ou, como a gente dizia na década de 1970, na melhor cidade de Santa Catarina!



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br



---Artigo2014 ---Educação

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04/02/2014

UM DIA NA MINHA HISTÓRIA COM O ATLETISMO

(Publicado em 04/02/2014)



No dia 15 de fevereiro acontecerá em Rio do Sul (SC) um almoço para reunir os ex-atletas e treinadores da Equipe de Atletismo da década de 1970 (comandados pelos queridos Jose Santos e Aroldo Schünke).
Eu fazia parte daquele grupo e estarei lá, com certeza.

Então... apenas pra ir "ativando as memórias dos anos 1970" segue aí, junto com a fotografia, o relato de UM DIA NA MINHA HISTÓRIA COM O ATLETISMO:





Em 1976 eu tinha 17 anos e era louco por atletismo. Pra ter uma ideia da coisa, eu trabalhava no escritório da Sulbrasil, em Rio do Sul. E eu tinha direito a férias. Mas, em vez de guardar para o verão (e ir para a praia) eu tirei férias em julho, exatamente nas semanas anteriores aos Jogos Abertos Regionais. Afinal, era a minha grande oportunidade de conseguir o índice para os JASC e eu queria aproveitar para finalizar os treinos para a competição.

Ninguém na minha família ou entre os meus amigos entenderam aquela decisão. Mas o Aroldo e o Santo gostaram da minha dedicação. Eles me tratavam com muito carinho porque entendiam o que aquilo significava para mim.

No dia dos 10 mil metros (domingo, 25/07/1976) eu estava pilhadíssimo. Sabia que iria correr pelo terceiro lugar, já que o Celsinho era um extra-terrestre e o Cabo (de Lages) corria tranquilo para 32 ou 33 minutos. Meu melhor tempo nos 10 mil tinha sido 37:40 e o índice era de 35:00,0. Mas eu estava confiante. E o Santo também. Então... bora correr até o limite.

Foram 25 voltas contando os segundos. O Celso voou na frente e distribuiu capotes à vontade. O cabo tomou uma distância confortável do pelotão que se formou para disputar o terceiro lugar. A corrida ficou interessante lá atrás.

Quando a galera de Rio do Sul sentiu que dava pra eu chegar começou uma movimentação e gritaria em volta da pista que foi me deixando muito animado. Santo e Aroldo gritavam instruções, Paulino, Miguel, Luciano, Julio, Célio Brasil, Marlene, Shyrlei, Margit, Marília... foi juntando gente... e eu, firme na disputa. Não podia decepcionar uma torcida dessa qualidade, né?

Quando entramos nos últimos 200 metros o Santo mandou eu voar. Eu cavei as últimas gotas de energia que havia. Não voei, mas cheguei na frente do grupo. Terceiro lugar. Que felicidade! Pra mim foi como se eu tivesse sido campeão.

Depois de alguns instantes, o Aroldo surge, eufórico, informando que eu tinha feito 34min59,1s (ou, seja: consegui o índice por menos de um segundo!)

Fiquei totalmente feliz por algumas semanas. Foi bom demais.



ÊNIO PADILHA
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---Artigo2014


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